{"id":13393,"date":"2024-02-05T10:54:00","date_gmt":"2024-02-05T13:54:00","guid":{"rendered":"https:\/\/www.ufrgs.br\/sextante\/?p=13393"},"modified":"2024-02-06T08:13:24","modified_gmt":"2024-02-06T11:13:24","slug":"no-brasil-se-fala-brasileiro","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ufrgs.br\/sextante\/no-brasil-se-fala-brasileiro\/","title":{"rendered":"No Brasil se fala brasileiro"},"content":{"rendered":"\n<figure class=\"wp-block-audio\"><audio controls src=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/sextante\/wp-content\/uploads\/2024\/02\/audio-reportagem-sextante-no-brasil-se-fala-brasileiro-bolivar.mp3\"><\/audio><figcaption>Ou\u00e7a a reportagem<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p>N\u00e3o \u00e9 novidade que a l\u00edngua portuguesa falada no Brasil se difere da europeia e da dos demais pa\u00edses colonizados por Portugal. \u00c9 comum, inclusive, que n\u00f3s brasileiros fa\u00e7amos piadas das formas diversas com que alguns termos s\u00e3o utilizados aqui e na na\u00e7\u00e3o que nos colonizou. Um exemplo \u00e9 a palavra \u201crapariga\u201d, que para os portugueses significa \u201cmo\u00e7a\u201d e para n\u00f3s \u00e9 uma express\u00e3o pejorativa. Mesmo com as diferen\u00e7as marcantes de como se emprega o portugu\u00eas do Brasil em rela\u00e7\u00e3o ao de outros pa\u00edses lus\u00f3fonos, n\u00e3o nos desprendemos completamente da obra de Cam\u00f5es; n\u00f3s apenas adaptamos a l\u00edngua conforme as nossas necessidades e caracter\u00edsticas.&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>A cultura brasileira mescla elementos dos pr\u00f3prios colonizadores com tra\u00e7os de povos ind\u00edgenas, africanos e de outros pa\u00edses da Europa al\u00e9m de Portugal.&nbsp;Dessa forma, ela tem na diversidade a sua natureza mais marcante, e com a l\u00edngua n\u00e3o \u00e9 diferente. Podemos nem perceber, mas h\u00e1 uma s\u00e9rie de palavras e express\u00f5es que, por mais que pare\u00e7am, n\u00e3o s\u00e3o oriundas do portugu\u00eas. Quem imaginaria, por exemplo, que o termo \u201cl\u00edder\u201d j\u00e1 foi grifado em it\u00e1lico em publica\u00e7\u00f5es brasileiras por ter sua origem no ingl\u00eas (<em>leader<\/em>)? Essa \u00e9 uma palavra que se tornou t\u00e3o comum no nosso dia a dia que surgiram at\u00e9 varia\u00e7\u00f5es dela \u2013 lideran\u00e7a, liderar.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Quando pensamos na inclus\u00e3o de palavras estrangeiras no cotidiano brasileiro, \u00e9 comum que os primeiros termos que venham \u00e0 mente sejam de origem inglesa ou francesa. O senso comum e o preconceito costumam desconsiderar a importa\u00e7\u00e3o de express\u00f5es africanas e ind\u00edgenas. Nesse segundo caso, \u00e9 ir\u00f4nico, inclusive, dizer que termos dos nativos desta terra s\u00e3o importados. Peguemos tr\u00eas palavras bastante utilizadas no cotidiano brasileiro: moleque, cafun\u00e9 e bunda. Poucos devem saber, mas essas tr\u00eas express\u00f5es foram trazidas e adaptadas ao portugu\u00eas brasileiro a partir do quimbundo, l\u00edngua falada em Angola. Acontece que esses termos j\u00e1 est\u00e3o t\u00e3o intr\u00ednsecos no vocabul\u00e1rio da popula\u00e7\u00e3o que o fato de n\u00e3o serem origin\u00e1rios do idioma dos nossos colonizadores passa despercebido.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-full is-resized\"><img loading=\"lazy\" src=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/sextante\/wp-content\/uploads\/2024\/01\/Estrangeirismos_Meio_DittoCavalcante-1.png\" alt=\"\" class=\"wp-image-13407\" width=\"781\" height=\"407\" srcset=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/sextante\/wp-content\/uploads\/2024\/01\/Estrangeirismos_Meio_DittoCavalcante-1.png 576w, https:\/\/www.ufrgs.br\/sextante\/wp-content\/uploads\/2024\/01\/Estrangeirismos_Meio_DittoCavalcante-1-300x156.png 300w\" sizes=\"(max-width: 781px) 100vw, 781px\" \/><figcaption>Arte: Ditto Cavalcante<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p>O professor do Departamento de Lingu\u00edstica da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) Pedro Garcez explica como ocorre a inser\u00e7\u00e3o desses voc\u00e1bulos na l\u00edngua portuguesa falada no Brasil: \u201cAs palavras se acomodam rapidamente ou simplesmente desaparecem. O termo entra tanto no funcionamento corriqueiro das coisas que ele come\u00e7a a ser produtivo\u201d.&nbsp; Essas express\u00f5es s\u00e3o o que chamamos de estrangeirismos.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<h2><strong>Estrangeirismo vem de estrangeiro<\/strong><\/h2>\n\n\n\n<p>A no\u00e7\u00e3o de pa\u00edses independentes e de cultura nacional pr\u00f3pria pode ser considerada natural pelo senso comum no momento em que se observa que n\u00e3o h\u00e1 um brasileiro vivo que tenha experimentado o per\u00edodo colonial, j\u00e1 que a Independ\u00eancia do Brasil ocorreu em 1822 e a Proclama\u00e7\u00e3o da Rep\u00fablica, em 1889. Apesar de todos convivermos com a exist\u00eancia de estados nacionais e a no\u00e7\u00e3o de \u201cestrangeiros\u201d desde o nascimento, essa \u00e9 uma constru\u00e7\u00e3o artificial e relativamente recente na hist\u00f3ria humana. Assim, a no\u00e7\u00e3o de estrangeirismos tamb\u00e9m \u00e9 nova.<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cIdeologias de linguagem v\u00eam principalmente do capitalismo europeu industrial do s\u00e9culo 19, que criou esta ideia de que o estado nacional moderno tem uma jurisdi\u00e7\u00e3o sobre um territ\u00f3rio onde est\u00e1 uma popula\u00e7\u00e3o que constitui uma na\u00e7\u00e3o\u201d, explica o professor Garcez. \u201cPara se ter um pertencimento leg\u00edtimo, esta popula\u00e7\u00e3o precisa se conformar a uma ideia de na\u00e7\u00e3o, que l\u00e1 pelas tantas passa a incluir crucialmente uma ades\u00e3o a uma ideia de que este estado tem uma l\u00edngua leg\u00edtima com uma delimita\u00e7\u00e3o relativamente expl\u00edcita e, portanto, separada das outras.\u201d<\/p>\n\n\n\n<p>Os pa\u00edses colonizados por europeus tiveram os seus processos de independ\u00eancia e de delimita\u00e7\u00e3o territorial mais tardios se comparados com os dos colonizadores. A ideia de Estado portugu\u00eas, portanto, \u00e9 mais antiga que a de Estado brasileiro. O resultado disso \u00e9 que a forma\u00e7\u00e3o da identidade nacional brasileira \u00e9 muito mais recente do que a das na\u00e7\u00f5es europeias e, com isso, a no\u00e7\u00e3o de pertencimento a uma certa personalidade do pa\u00eds ocorreu de forma mais r\u00e1pida.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-large\"><img loading=\"lazy\" width=\"1024\" height=\"683\" src=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/sextante\/wp-content\/uploads\/2024\/02\/foto-1-Tabata_Kolling-1024x683.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-14182\" srcset=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/sextante\/wp-content\/uploads\/2024\/02\/foto-1-Tabata_Kolling-1024x683.jpg 1024w, https:\/\/www.ufrgs.br\/sextante\/wp-content\/uploads\/2024\/02\/foto-1-Tabata_Kolling-300x200.jpg 300w, https:\/\/www.ufrgs.br\/sextante\/wp-content\/uploads\/2024\/02\/foto-1-Tabata_Kolling-768x512.jpg 768w, https:\/\/www.ufrgs.br\/sextante\/wp-content\/uploads\/2024\/02\/foto-1-Tabata_Kolling-1536x1024.jpg 1536w, https:\/\/www.ufrgs.br\/sextante\/wp-content\/uploads\/2024\/02\/foto-1-Tabata_Kolling-2048x1365.jpg 2048w, https:\/\/www.ufrgs.br\/sextante\/wp-content\/uploads\/2024\/02\/foto-1-Tabata_Kolling-1200x800.jpg 1200w, https:\/\/www.ufrgs.br\/sextante\/wp-content\/uploads\/2024\/02\/foto-1-Tabata_Kolling-1568x1045.jpg 1568w\" sizes=\"(max-width: 1024px) 100vw, 1024px\" \/><figcaption>No dia a dia, palavras de origem estrangeira se misturam com termos lus\u00f3fonos | Foto: T\u00e1bata Kolling<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<h2><strong>Debate de purifica\u00e7\u00e3o da l\u00edngua<\/strong><\/h2>\n\n\n\n<p>No in\u00edcio dos anos 2000, um projeto de lei que previa puni\u00e7\u00f5es a quem abusasse do uso de express\u00f5es estrangeiras dominou parte do debate p\u00fablico brasileiro \u00e0 \u00e9poca. As penas previam inclusive multas em dinheiro para quem desrespeitasse essa legisla\u00e7\u00e3o. A partir da premissa de que esse projeto buscava valorizar a l\u00edngua portuguesa, o proponente da lei, o ent\u00e3o deputado federal Aldo Rebelo (no per\u00edodo, no PCdoB-SP), capitalizou apoio pol\u00edtico de setores tanto da esquerda, quanto da direita. Afinal, qual pol\u00edtico eleito se posicionaria contr\u00e1rio \u00e0 l\u00edngua portuguesa? O debate inquietou os linguistas, que se mobilizaram para combater a aprova\u00e7\u00e3o do projeto de Rebelo.<\/p>\n\n\n\n<p>O professor Garcez participou da discuss\u00e3o e explica que essas tentativas de barrar a importa\u00e7\u00e3o de termos n\u00e3o s\u00e3o exclusivamente do nosso tempo. \u201cIsso ocorre em v\u00e1rios momentos, e tipicamente o que acontece \u00e9 que as elites se unem num movimento. \u00c9 o sinal de que se tem a identifica\u00e7\u00e3o de alguma amea\u00e7a \u00e0 defini\u00e7\u00e3o do que \u00e9 a l\u00edngua leg\u00edtima das classes dominantes. Vem um movimento, t\u00edpico da modernidade, de purifica\u00e7\u00e3o\u201d, afirma o linguista. \u00c9 t\u00e3o recorrente esse debate que o pr\u00f3prio<a href=\"http:\/\/www.dominiopublico.gov.br\/download\/texto\/bv000167.pdf\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\"> Machado de Assis escreveu uma cr\u00f4nica<\/a> em 1889 em que satirizou as tentativas da \u00e9poca de \u201climpar\u201d a l\u00edngua.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Evidentemente a l\u00edngua culta embasa o padr\u00e3o lingu\u00edstico e unifica de Norte a Sul o portugu\u00eas falado pelos brasileiros. Sem essa padroniza\u00e7\u00e3o, talvez a comunica\u00e7\u00e3o de pessoas de diferentes localidades do pa\u00eds fosse dificultada. Isso n\u00e3o significa, no entanto, que a l\u00edngua est\u00e1 im\u00f3vel, estagnada. Muito pelo contr\u00e1rio: ela est\u00e1 viva e, mesmo que n\u00e3o seja percept\u00edvel, sofre modifica\u00e7\u00f5es todos os dias. Assim, a l\u00edngua culta deve acompanhar as adapta\u00e7\u00f5es do que se \u00e9 falado \u2013 e n\u00e3o o contr\u00e1rio.<\/p>\n\n\n\n<h2><strong>A cultura bacharelesca de uma elite<\/strong><\/h2>\n\n\n\n<p>As l\u00ednguas est\u00e3o em constante muta\u00e7\u00e3o e esse processo \u00e9 natural, ainda mais em um mundo globalizado e altamente conectado pela internet. Isso n\u00e3o significa, todavia, que n\u00e3o haja exageros no uso de express\u00f5es estrangeiras \u2013 principalmente inglesas \u2013 por parte de setores da sociedade. A fim de destacar a overdose de termos anglicanos utilizados pela classe m\u00e9dia alta brasileira, o escritor, jornalista e colunista do jornal Folha de S. Paulo S\u00e9rgio Rodrigues publicou, em 2005, o livro <em>What l\u00edngua is esta?<\/em>.<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote\"><p>\u201cEssa l\u00edngua \u00e9 nossa h\u00e1 s\u00e9culos, e a gente fala ela do jeito que a gente bem entender\u201d&nbsp;&nbsp;<\/p><cite><strong>S\u00c9RGIO RODRIGUES<\/strong>, jornalista e escritor<\/cite><\/blockquote>\n\n\n\n<p>Rodrigues explica o que motivou a publica\u00e7\u00e3o dessa obra: \u201cTanto para apontar o que havia de excesso, de rid\u00edculo nesta paix\u00e3o da classe m\u00e9dia brasileira pelo ingl\u00eas quanto para entender o processo lingu\u00edstico, que faz com que todas as l\u00ednguas peguem empr\u00e9stimos umas das outras, e que isto s\u00f3 as enriquece\u201d. O autor avalia que essa paix\u00e3o de setores da elite do pa\u00eds pelos anglicanismos se deve muito a uma cultura \u201cbacharelesca\u201d, que se estende desde o per\u00edodo colonial. Naquela \u00e9poca, os brasileiros mais afortunados iam \u00e0 Europa para estudar e, ao retornarem, se destacavam linguisticamente da popula\u00e7\u00e3o por falarem de forma mais sofisticada e europeia. \u201cA coisa toda \u00e9 uma afirma\u00e7\u00e3o de uma linguagem de classe. N\u00e3o \u00e9 s\u00f3 de regi\u00e3o, \u00e9 de classe\u201d, afirma Rodrigues.<\/p>\n\n\n\n<p>O abuso de termos estrangeiros \u00e9 facilmente observ\u00e1vel no meio corporativo, algo que o escritor chama de \u201ccorporativ\u00eas\u201d. Rodrigues relaciona esses excessos com uma certa baixa autoestima lingu\u00edstica e cultural dos brasileiros \u2013 o que Nelson Rodrigues chamava de complexo de vira-lata. \u201cOs brasileiros de classe m\u00e9dia gostariam de ser uma outra coisa que eles n\u00e3o s\u00e3o, e a l\u00edngua tem este papel de espelho da cultura muito forte\u201d, pontua o escritor. \u201cEssa l\u00edngua \u00e9 nossa h\u00e1 s\u00e9culos, e a gente fala ela do jeito que a gente bem entender\u201d, conclui Rodrigues.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<div class=\"wp-container-3 wp-block-columns\">\n<div class=\"wp-container-1 wp-block-column\">\n<h2>LEIA MAIS<\/h2>\n<\/div>\n\n\n\n<div class=\"wp-container-2 wp-block-column\">\n<ul><li><a href=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/sextante\/o-despertar-para-uma-ancestral-forma-de-ser-brasileiro\/\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">O despertar para uma ancestral forma de ser brasileiro:<\/a> Cultura Mbya Guarani, preservada na aldeia ind\u00edgena Teko\u00e1 Anhetengu\u00e1, \u00e9 compartilhada com a cidade que cresce ao seu redor<\/li><\/ul>\n<\/div>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>N\u00e3o \u00e9 novidade que a l\u00edngua portuguesa falada no Brasil se difere da europeia e da dos demais pa\u00edses colonizados por Portugal. \u00c9 comum, inclusive, que n\u00f3s brasileiros fa\u00e7amos piadas das formas diversas com que alguns termos s\u00e3o utilizados aqui e na na\u00e7\u00e3o que nos colonizou. 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