{"id":14365,"date":"2024-08-29T17:46:08","date_gmt":"2024-08-29T20:46:08","guid":{"rendered":"https:\/\/www.ufrgs.br\/sextante\/?p=14365"},"modified":"2024-08-29T17:46:11","modified_gmt":"2024-08-29T20:46:11","slug":"ressocializacao-de-egressos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ufrgs.br\/sextante\/ressocializacao-de-egressos\/","title":{"rendered":"Em busca da liberdade"},"content":{"rendered":"\n<figure class=\"wp-block-audio\"><audio controls src=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/sextante\/wp-content\/uploads\/2024\/08\/Leitura-Segundas-Chances.mp3\"><\/audio><figcaption>Ou\u00e7a a reportagem<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p>Acordar cedo. Entrar em uma fila. Fazer a entrevista. Ser rejeitado. Esta \u00e9 a realidade de quem busca uma segunda chance para retornar \u00e0 sociedade. Ap\u00f3s cumprirem suas penas em pres\u00eddios superlotados e com poucos recursos, esses indiv\u00edduos, a maioria pobre e de baixa escolaridade, se deparam com uma realidade de ainda mais exclus\u00e3o.&nbsp;Nesse cen\u00e1rio, a ressocializa\u00e7\u00e3o de egressos n\u00e3o \u00e9 prioridade do sistema penal. <\/p>\n\n\n\n<p>Mesmo que as a\u00e7\u00f5es educativas e produtivas estejam previstas na Lei de Execu\u00e7\u00e3o Penal, a realidade dentro dos pres\u00eddios n\u00e3o \u00e9 essa: de acordo com a <a href=\"https:\/\/www.gov.br\/senappen\/pt-br\/servicos\/sisdepen\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\"><strong>Secretaria Nacional de Pol\u00edticas Penais<\/strong><\/a> (Senappen), em 2023, apenas 24,73% da popula\u00e7\u00e3o privada de liberdade no pa\u00eds trabalhava e 19,85% estudavam. No Rio Grande do Sul, a porcentagem de detentos que exercem algum tipo de atividade laboral \u00e9 de 38,01%. J\u00e1 a porcentagem da popula\u00e7\u00e3o prisional que estuda \u00e9 de 13,51%. <\/p>\n\n\n\n<p>Contudo, existem casos como o de Rodrigo \u201cSabiah\u201d dos Santos Ramos, que superou o estigma de ser um egresso. Ao sair da pris\u00e3o, trabalhou como reciclador de res\u00edduos e abriu o pr\u00f3prio galp\u00e3o de reciclagem junto com seu irm\u00e3o, tamb\u00e9m egresso. Os dois eram respons\u00e1veis pela administra\u00e7\u00e3o e gerenciamento do neg\u00f3cio. Aos 41 anos, hoje  Sabiah conta sua trajet\u00f3ria nas unidades prisionais, escolas e organiza\u00e7\u00f5es sociais por meio do projeto <em>Reciclando Vidas<\/em>.<\/p>\n\n\n\n<h2 id=\"Um_vencedornbsp;\">Um vencedor&nbsp;<\/h2>\n\n\n\n<p>Natural da Zona Sul de Porto Alegre, quarto de cinco filhos de uma m\u00e3e solo, Sabiah relata que conviveu com a viol\u00eancia policial desde a inf\u00e2ncia. Ver pessoas morrendo e amigos sendo presos e conviver com a romantiza\u00e7\u00e3o do crime fazia parte da sua rotina. Hoje ele faz quest\u00e3o de falar em suas palestras como \u00e9 de fato a priva\u00e7\u00e3o de liberdade. \u201cPorque eu tinha essa curiosidade de saber como \u00e9 que era o pres\u00eddio. Porque eu cresci vendo, ouvindo falar do pres\u00eddio. E vivi com os meus amigos indo visitar os pais deles e irm\u00e3os. Daqui a pouco meus amigos foram sendo presos. Daqui a pouco eu tava l\u00e1, matando essa curiosidade. N\u00e3o era nada daquilo que eles falavam.\u201d<\/p>\n\n\n<div class=\"wp-block-image\">\n<figure class=\"alignleft size-large is-resized\"><img loading=\"lazy\" src=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/sextante\/wp-content\/uploads\/2024\/08\/Rodrigo-Sabiah-1-edited.jpg\" alt=\"Imagem de Rodrigo Sabiah usando uma camisa da Sele\u00e7\u00e3o Brasileira de Futebol, ele olha para a c\u00e2mera por meio da abertura de uma porta de uma unidade prisional enquanto segura as grades dessa abertura, possui um semblante s\u00e9rio e confiante, demonstrando a sua determina\u00e7\u00e3o \u00e0 luta pela ressocializa\u00e7\u00e3o dos egressos. Fim da descri\u00e7\u00e3o.  \" class=\"wp-image-14571\" width=\"480\" height=\"611\" srcset=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/sextante\/wp-content\/uploads\/2024\/08\/Rodrigo-Sabiah-1-edited.jpg 692w, https:\/\/www.ufrgs.br\/sextante\/wp-content\/uploads\/2024\/08\/Rodrigo-Sabiah-1-edited-235x300.jpg 235w\" sizes=\"(max-width: 480px) 100vw, 480px\" \/><figcaption>Sabiah acredita que enquanto a sociedade n\u00e3o der oportunidade para a ressocializa\u00e7\u00e3o de  egressos, o crime organizado e as fac\u00e7\u00f5es continuar\u00e3o dando |  Foto: Arquivo pessoal<\/figcaption><\/figure><\/div>\n\n\n<p>Sabiah relembra que, durante sua passagem pelo Pres\u00eddio Central de Porto Alegre, hoje chamado de Cadeia P\u00fablica, conseguia assistir pela janela de sua cela a uma vida que h\u00e1 tempos n\u00e3o vivia. Crian\u00e7as jogando bola, jovens voltando de bailes funk, churrascos em fam\u00edlia ou entre amigos. Decidido a n\u00e3o ser apenas um espectador, encontrou o livro <em>Somos todos inocentes,<\/em> de Z\u00edbia Gasparetto, um romance sobre um jovem preso que precisa se reconciliar com seus erros para se libertar. Inspirado pela leitura, Sabiah tomou uma decis\u00e3o: ele faria de tudo para n\u00e3o voltar ao crime.<\/p>\n\n\n\n<p>Logo em seguida, conseguiu ser transferido para a mesma penitenci\u00e1ria na qual um de seus irm\u00e3os tamb\u00e9m cumpria pena. Percebendo o esfor\u00e7o da m\u00e3e para visit\u00e1-los nos fins de semana com otimismo, compaix\u00e3o, comida e outros itens de primeira necessidade, ambos decidiram mudar de vida. A partir daquele momento, Sabiah, dentro da unidade prisional, buscou acompanhamento psicol\u00f3gico, estudou para concluir o ensino m\u00e9dio, participou de projetos sociais e aceitou uma oportunidade de trabalhar com reciclagem.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote\"><p>\u201cN\u00e3o queremos ser exce\u00e7\u00f5es e <em>cases <\/em>de sucesso. A nossa luta di\u00e1ria \u00e9 que outros, iguais a n\u00f3s, tenham as mesmas oportunidades\u201d<\/p><cite><strong>RODRIGO SABIAH<\/strong>, egresso do sistema prisional e educador social<\/cite><\/blockquote>\n\n\n\n<p>Em uma das palestras realizadas pela Superintend\u00eancia dos Servi\u00e7os Penitenci\u00e1rios (Susepe), um cantor de hip hop perif\u00e9rico contou como foi salvo pela m\u00fasica. Enquanto seus amigos morriam nas esquinas e eram presos, ele estava dentro do est\u00fadio. Ao ouvir o relato de algu\u00e9m que saiu de uma comunidade como ele, Sabiah decidiu que queria que o mundo tamb\u00e9m ouvisse o que ele tinha a dizer. Desde 2012, quando deixou a pris\u00e3o, continuou a trabalhar como reciclador, juntamente com seu irm\u00e3o, e iniciou uma carreira como educador social, dando palestras sobre empreendedorismo em todo o Brasil.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Em 2016, foi convidado para realizar um <em><a href=\"https:\/\/youtu.be\/MwRGd5YN9oo\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\"><strong>TED talk<\/strong><\/a><\/em>, iniciativa que acontece em diversos pa\u00edses na qual ocorrem depoimentos curtos com a inten\u00e7\u00e3o de disseminar ideias e hist\u00f3rias inspiradoras. Foi nesse momento que surgiu o nome do projeto <em>Reciclando Vidas<\/em>. Sabiah se deu conta de que, al\u00e9m de trabalhar recuperando res\u00edduos que seriam descartados, ele tamb\u00e9m poderia colaborar transformando a vida de tantas outras pessoas. Atualmente, Sabiah \u00e9 assessor na Assembleia Legislativa do Rio Grande do Sul. \u201cN\u00e3o queremos ser exce\u00e7\u00f5es e cases de sucesso. A nossa luta di\u00e1ria \u00e9 que outros, iguais a n\u00f3s, tenham as mesmas oportunidades\u201d, afirma.<\/p>\n\n\n\n<h2 id=\"Reflexos_do_abandono\">Reflexos do abandono<\/h2>\n\n\n\n<p>A ressocializa\u00e7\u00e3o de egressos est\u00e1 presente na maioria das discuss\u00f5es sobre o sistema prisional brasileiro. Contudo, o termo n\u00e3o leva em conta que os detentos n\u00e3o est\u00e3o completamente isolados da sociedade, j\u00e1 que os preconceitos e a desigualdade ultrapassam as grades de ferro. Segundo dados do \u00faltimo <a href=\"https:\/\/forumseguranca.org.br\/publicacoes\/anuario-brasileiro-de-seguranca-publica\/\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\"><strong>Anu\u00e1rio Brasileiro de Seguran\u00e7a P\u00fablica<\/strong><\/a>, divulgado em julho de 2024, a popula\u00e7\u00e3o carcer\u00e1ria brasileira continua sendo majoritariamente negra, com 69,1% autodeclarados negros ou pardos, 67% com ensino fundamental incompleto e 94,49% dos presos sendo homens.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>No Rio Grande do Sul, segundo os <a href=\"https:\/\/ssps.rs.gov.br\/perfil-da-populacao-presa\">dados mais recentes<\/a> divulgados pela Secretaria de Sistemas Penal e Socioeducativo, o perfil dos encarcerados&nbsp;no estado tamb\u00e9m \u00e9 de indiv\u00edduos com baixa escolaridade, com 61,26% n\u00e3o tendo completado o ensino fundamental, bem como predominantemente masculino, j\u00e1 que 94,2% dos detentos s\u00e3o homens. Contudo, a racialidade das deten\u00e7\u00f5es ga\u00fachas \u00e9 mais complexa: 65,3% da popula\u00e7\u00e3o carcer\u00e1ria \u00e9 branca, 20% parda e somente 12,8% negra. Isso ocorre porque no Rio Grande do Sul a maioria da popula\u00e7\u00e3o \u00e9 branca, e se compararmos essas porcentagens com os dados do \u00faltimo<strong> <\/strong><a href=\"https:\/\/cidades.ibge.gov.br\/brasil\/rs\/panorama\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\"><strong>Censo do IBGE<\/strong><\/a> \u00e9 poss\u00edvel identificar que o n\u00famero de pessoas brancas encarceradas no estado \u00e9 de 0,33% da totalidade de brancos, em contraste com os 0,53% de pardos e 0,77% de negros em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 totalidade de pardos e negros que vivem no Rio Grande do Sul.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-full\"><img loading=\"lazy\" width=\"1024\" height=\"768\" src=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/sextante\/wp-content\/uploads\/2024\/08\/multimidia-sextante-1.png\" alt=\"Quatro gr\u00e1ficos informativos sobre o perfil das pessoas privadas de liberdade no Rio Grande do Sul. O primeiro, trata-se de um mapeamento da etnia dos aprisionados. 64.% s\u00e3o brancos, 20.8% s\u00e3o pardos, 13% s\u00e3o pretos e 0,7% s\u00e3o amarelos.\nO segundo gr\u00e1fico diz respeito da faixa et\u00e1ria. 30.7% dos aprisionados tem entre 30 a 45 anos. 20.4% tem entre 25 a 29 anos. 19% tem 30 a 24 anos. 13.7% tem 18 a 24 anos.. Por fim, 13% tem 46 a 50 anos.\nNo terceiro gr\u00e1fico, h\u00e1 dados a respeito do g\u00eanero dos aprisionados. 94% s\u00e3o homens e 6% s\u00e3o mulheres.\nNo \u00faltimo gr\u00e1fico, h\u00e1 um mapeamento da escolaridade. 55.2% dos aprisionados tem ensino fundamental incompleto. 14.9% tem ensino m\u00e9dio incompleto. 13.7% tem ensino fundamental completo. 9.9% tem ensino m\u00e9dio completo. Por fim, as porcentagens de ensino superior completo e incompleto s\u00e3o pequenas demais e n\u00e3o aparecem no c\u00e1lculo do gr\u00e1fico. Fim da descri\u00e7\u00e3o.\" class=\"wp-image-14558\" srcset=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/sextante\/wp-content\/uploads\/2024\/08\/multimidia-sextante-1.png 1024w, https:\/\/www.ufrgs.br\/sextante\/wp-content\/uploads\/2024\/08\/multimidia-sextante-1-300x225.png 300w, https:\/\/www.ufrgs.br\/sextante\/wp-content\/uploads\/2024\/08\/multimidia-sextante-1-768x576.png 768w\" sizes=\"(max-width: 1024px) 100vw, 1024px\" \/><figcaption>Arte: Renata Rosa<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p>Renato Dornelles, jornalista e colunista de seguran\u00e7a p\u00fablica, tamb\u00e9m \u00e9 autor de tr\u00eas livros e dois document\u00e1rios que abordam a ressocializa\u00e7\u00e3o de egressos. Para Renato, o perfil dos presos no Brasil, em conjunto com a falta de pol\u00edticas p\u00fablicas efetivas, \u00e9 a maior causa para o alto \u00edndice de egressos que retornam a cometer crimes. Se antes de passarem pelo sistema j\u00e1 possu\u00edam dificuldades de conseguir um emprego, devido \u00e0 falta de estudo, e ainda, sendo atravessados por preconceitos raciais, retomam a liberdade com um carimbo de ex-presidi\u00e1rio.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Nesse cen\u00e1rio, existe uma for\u00e7a empenhada em garantir que o sistema continue como est\u00e1: as fac\u00e7\u00f5es. \u201cComo eles n\u00e3o recebem itens necess\u00e1rios \u00e0 pr\u00f3pria sobreviv\u00eancia dentro dos pres\u00eddios, as fac\u00e7\u00f5es arcam com isso. E depois, quando ele \u00e9 libertado, esse jovem tem que fazer o pagamento \u00e0s fac\u00e7\u00f5es, e esse pagamento \u00e9 cobrado em forma de crime\u201d, explica Renato. Em algumas unidades prisionais, o apenado n\u00e3o recebe colch\u00e3o, roupa, material de higiene o suficiente. Fica praticamente imposs\u00edvel de se manter.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-large\"><img loading=\"lazy\" width=\"1024\" height=\"575\" src=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/sextante\/wp-content\/uploads\/2024\/08\/Olha-Para-Elas-1024x575.jpg\" alt=\"P\u00f4ster do document\u00e1rio &quot;Olha para Elas&quot;, de Renato Dornelles e Tatiana Sager. Na foto, uma mulher privada de liberdade olha para a c\u00e2mera por meio de uma portinhola. Fim\u00a0da\u00a0descri\u00e7\u00e3o.\" class=\"wp-image-14553\" srcset=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/sextante\/wp-content\/uploads\/2024\/08\/Olha-Para-Elas-1024x575.jpg 1024w, https:\/\/www.ufrgs.br\/sextante\/wp-content\/uploads\/2024\/08\/Olha-Para-Elas-300x169.jpg 300w, https:\/\/www.ufrgs.br\/sextante\/wp-content\/uploads\/2024\/08\/Olha-Para-Elas-768x432.jpg 768w, https:\/\/www.ufrgs.br\/sextante\/wp-content\/uploads\/2024\/08\/Olha-Para-Elas-1536x863.jpg 1536w, https:\/\/www.ufrgs.br\/sextante\/wp-content\/uploads\/2024\/08\/Olha-Para-Elas-1568x881.jpg 1568w, https:\/\/www.ufrgs.br\/sextante\/wp-content\/uploads\/2024\/08\/Olha-Para-Elas.jpg 1920w\" sizes=\"(max-width: 1024px) 100vw, 1024px\" \/><figcaption>O document\u00e1rio<em> Olha Pra Elas<\/em>, roteirizado por Renato Dornelles e dirigido por Tatiana Sager, destaca o sofrimento das mulheres aprisionadas com a falta dos filhos | Foto: Divulga\u00e7\u00e3o<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p>Como explica Renato, nas unidades prisionais femininas a realidade \u00e9 um pouco diferente, por isso o n\u00famero de detentas faccionadas ainda \u00e9 pequeno. O problema delas est\u00e1 mais ligado aos dramas familiares. As visitas \u00e0s apenadas s\u00e3o raras. Abandonadas pelos companheiros, pelos parentes e at\u00e9 pelas pr\u00f3prias m\u00e3es, convivem com a falta de informa\u00e7\u00f5es sobre seus filhos. Enquanto isso, nos dias de visita\u00e7\u00e3o nos pres\u00eddios masculinos, podem ser vistas enormes filas, normalmente formadas por mulheres.<\/p>\n\n\n\n<p>Al\u00e9m de lidar com as dificuldades de algu\u00e9m que passa pelo sistema carcer\u00e1rio, as mulheres presas precisam lidar com a disparidade de g\u00eanero. \u201cA sociedade evidentemente tem uma repulsa muito grande ao crime e ao criminoso, mas, por m\u00ednimo que seja, ainda tolera o homem criminoso. Agora, a mulher criminosa n\u00e3o \u00e9 tolerada\u201d, afirma Renato. Quando saem, possuem as mesmas dificuldades ao tentar conseguir um emprego e se reestruturar. Contudo, a principal preocupa\u00e7\u00e3o delas \u00e9 reencontrar os filhos e conquistar o perd\u00e3o daqueles que as abandonaram.&nbsp;<\/p>\n\n\n<div class=\"wp-block-image\">\n<figure class=\"aligncenter size-large\"><img loading=\"lazy\" width=\"1024\" height=\"768\" src=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/sextante\/wp-content\/uploads\/2024\/08\/IMG_2013-1024x768.png\" alt=\"Movimenta\u00e7\u00e3o em frente ao pr\u00e9dio um do Pres\u00eddio Municipal de Canoas, com filas de pessoas indo visitar pessoas privadas de liberdade. O pr\u00e9dio tem apenas um andar, paredes bege e teto cinza. Em volta da entrada, h\u00e1 placas de aviso como &quot;aten\u00e7\u00e3o&quot; e &quot;cuidado&quot;, cones e c\u00e2meras de seguran\u00e7a. Fim\u00a0da\u00a0descri\u00e7\u00e3o.\" class=\"wp-image-14534\" srcset=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/sextante\/wp-content\/uploads\/2024\/08\/IMG_2013-1024x768.png 1024w, https:\/\/www.ufrgs.br\/sextante\/wp-content\/uploads\/2024\/08\/IMG_2013-300x225.png 300w, https:\/\/www.ufrgs.br\/sextante\/wp-content\/uploads\/2024\/08\/IMG_2013-768x576.png 768w, https:\/\/www.ufrgs.br\/sextante\/wp-content\/uploads\/2024\/08\/IMG_2013-1536x1152.png 1536w, https:\/\/www.ufrgs.br\/sextante\/wp-content\/uploads\/2024\/08\/IMG_2013-2048x1536.png 2048w, https:\/\/www.ufrgs.br\/sextante\/wp-content\/uploads\/2024\/08\/IMG_2013-1568x1176.png 1568w\" sizes=\"(max-width: 1024px) 100vw, 1024px\" \/><figcaption>A Penitenci\u00e1ria Estadual de Canoas recebe visitas de familiares nas quintas-feiras e nos domingos, podendo entrar at\u00e9 duas pessoas por apenado. Conforme o jornalista Renato Dornelles, o apoio familiar \u00e9 essencial para a ressocializa\u00e7\u00e3o de egressos | Foto: Matheus Konzen <\/figcaption><\/figure><\/div>\n\n\n<h2 id=\"Segundas_chances_para_quem?\">Segunda chance para quem?<\/h2>\n\n\n<div class=\"wp-block-image\">\n<figure class=\"alignleft size-large is-resized\"><img loading=\"lazy\" src=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/sextante\/wp-content\/uploads\/2024\/08\/Segundas-Chances_Ueslei-Fagundes-PNG-732x1024.png\" alt=\"Ilustra\u00e7\u00e3o de U\u00e9slei Fagundes, mostrando da cintura para baixo uma pessoa de p\u00e9s descal\u00e7os, bermuda e moletom saindo da cadeia com seus pertences em uma sacola cinza. Na outra m\u00e3o, esta pessoa segura um papel, que n\u00e3o mostra para o p\u00fablico o que est\u00e1 escrito.  Atr\u00e1s dos p\u00e9s da pessoa, h\u00e1 uma sombra de grades, simbolizando a cadeia que est\u00e1 sendo deixada para tr\u00e1s. Em frente a ela, h\u00e1 uma flor roxa desabrochando, simbolizando uma nova chance para a ressocializa\u00e7\u00e3o de egressos. Fim\u00a0da\u00a0descri\u00e7\u00e3o.\" class=\"wp-image-14522\" width=\"417\" height=\"584\" srcset=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/sextante\/wp-content\/uploads\/2024\/08\/Segundas-Chances_Ueslei-Fagundes-PNG-732x1024.png 732w, https:\/\/www.ufrgs.br\/sextante\/wp-content\/uploads\/2024\/08\/Segundas-Chances_Ueslei-Fagundes-PNG-214x300.png 214w, https:\/\/www.ufrgs.br\/sextante\/wp-content\/uploads\/2024\/08\/Segundas-Chances_Ueslei-Fagundes-PNG-768x1075.png 768w, https:\/\/www.ufrgs.br\/sextante\/wp-content\/uploads\/2024\/08\/Segundas-Chances_Ueslei-Fagundes-PNG-1098x1536.png 1098w, https:\/\/www.ufrgs.br\/sextante\/wp-content\/uploads\/2024\/08\/Segundas-Chances_Ueslei-Fagundes-PNG.png 1162w\" sizes=\"(max-width: 417px) 100vw, 417px\" \/><figcaption>Arte: U\u00e9slei Fagundes<\/figcaption><\/figure><\/div>\n\n\n<p>O Brasil \u00e9 um dos pa\u00edses que mais encarcera pessoas no mundo. Segundo o <a href=\"https:\/\/publicacoes.forumseguranca.org.br\/items\/c69c728d-3a22-40f2-bdc8-a393ce6fc2c2\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\"><strong>Anu\u00e1rio Brasileiro de Seguran\u00e7a P\u00fablica<\/strong><\/a>, em 2015, 57% da popula\u00e7\u00e3o brasileira concordava com a frase \u201cbandido bom \u00e9 bandido morto\u201d. De acordo com a pesquisa realizada pelo <a href=\"https:\/\/www.jusbrasil.com.br\/artigos\/conheca-o-international-center-for-criminal-studies-iccs\/487348697\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\"><strong>International<\/strong> <strong>Center for Criminal Studies (ICCS)<\/strong><\/a>, a m\u00e9dia de encarceramento no mundo \u00e9 de 144 presos a cada 100 mil habitantes. No Brasil, essa m\u00e9dia sobe para 300.<\/p>\n\n\n\n<p>Com tantos tantas pessoas encarceradas e com o preconceito enraizado, fica dif\u00edcil encontrar emprego quando chega a liberdade. Escrit\u00f3rios Sociais s\u00e3o equipamentos p\u00fablicos projetados para realizar a ressocializa\u00e7\u00e3o de egressos, encaminhando o ex-apenado e seus familiares para as pol\u00edticas p\u00fablicas existentes por meio de parcerias com a sociedade civil, \u00f3rg\u00e3os p\u00fablicos, institui\u00e7\u00f5es, judici\u00e1rio, executivo e ONGs. Em Porto Alegre, a iniciativa, promovida pela Susepe em parceria com o Poder Judici\u00e1rio, existe h\u00e1 apenas um ano e \u00e9 a primeira da regi\u00e3o sul. Para as psic\u00f3logas do Escrit\u00f3rio Social, Nathana Kubi\u00e7a e Luana Boeira, a maior demanda do local \u00e9 pela inser\u00e7\u00e3o no mercado de trabalho. \u201cTem pessoas que nunca tiveram trabalho de carteira assinada ou informal e buscam atrav\u00e9s do Escrit\u00f3rio Social uma oportunidade para recome\u00e7ar as suas vidas\u201d, afirma Nathana.<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote\"><p>\u201cQuando a gente fala em uma segunda chance, talvez essa chance seja a primeira. Por diversas vezes, \u00e9 a primeira vez que essas pessoas t\u00eam acesso a pol\u00edticas p\u00fablicas\u201d<\/p><cite><strong>LUANA BOEIRA, <\/strong>psic\u00f3loga do Escrit\u00f3rio Social do RS<\/cite><\/blockquote>\n\n\n\n<p>Segundo as psic\u00f3logas, a maioria dos ex-apenados n\u00e3o possui documentos b\u00e1sicos, como carteira de identidade, certid\u00e3o de nascimento e carteira de trabalho. \u201cQueremos quebrar esse paradigma e mostrar quem s\u00e3o as pessoas egressas. Quem \u00e9 essa popula\u00e7\u00e3o, quais s\u00e3o as maiores demandas que elas apresentam, quais s\u00e3o as pol\u00edticas p\u00fablicas que elas est\u00e3o conseguindo acessar&#8221;, diz Nathana. A psic\u00f3loga diz que, sem emprego, a pessoa n\u00e3o vai conseguir se organizar. &#8220;Ela precisa da documenta\u00e7\u00e3o em dia para conseguir um emprego e conseguir se organizar, para pagar um aluguel e conseguir viver.  Para a\u00ed sim encaminhar outras demandas de sua vida\u201d, explica Nathana.<\/p>\n\n\n\n<p>Atualmente, o Sistema Nacional de Emprego (Sine) Municipal de Porto Alegre \u00e9 o maior parceiro para oportunidades de trabalho para ressocializa\u00e7\u00e3o de egressos do Escrit\u00f3rio Social. A Susepe faz uma curadoria profissional para cada pessoa, coletando dados como escolariza\u00e7\u00e3o, experi\u00eancias anteriores, cursos profissionalizantes e principais habilidades laborais. A partir dessas informa\u00e7\u00f5es, a institui\u00e7\u00e3o encaminha um e-mail para o Sine. L\u00e1, verificam se existem vagas espec\u00edficas para esse perfil, entendendo que essas pessoas t\u00eam hist\u00f3rico de pris\u00e3o.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Em troca de contratarem m\u00e3o de obra de quem j\u00e1 cumpriu sua pena, as empresas recebem benef\u00edcios, como isen\u00e7\u00e3o de contas de luz e aluguel, menos encargos tribut\u00e1rios e direito de pagar 75% de um sal\u00e1rio m\u00ednimo para o funcion\u00e1rio egresso. Mesmo com as vantagens econ\u00f4micas, h\u00e1 uma grande relut\u00e2ncia para contrata\u00e7\u00e3o, por haver muitos estigmas sociais com a popula\u00e7\u00e3o que foi privada de liberdade. \u201c\u00c9 uma luta muito grande para que essas pessoas consigam acessar trabalho formal atrav\u00e9s do Escrit\u00f3rio Social\u201d, conta Nathana.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>A institui\u00e7\u00e3o atende, acolhe e encaminha essas pessoas para as pol\u00edticas p\u00fablicas de sa\u00fade, educa\u00e7\u00e3o, trabalho, moradia, habita\u00e7\u00e3o, lazer e cultura. O p\u00fablico majorit\u00e1rio \u00e9 de homens em vulnerabilidade social, da faixa et\u00e1ria dos 35 aos 59 anos, com ensino fundamental incompleto, sem ocupa\u00e7\u00e3o, solteiros e que buscam oportunidades de reinser\u00e7\u00e3o social. A ades\u00e3o de mulheres \u00e9 baixa, assim como a da popula\u00e7\u00e3o LGBTQIA+.<\/p>\n\n\n\n<p>A participa\u00e7\u00e3o da popula\u00e7\u00e3o carcer\u00e1ria no programa \u00e9 volunt\u00e1ria. A maioria das pessoas que acessa o servi\u00e7o est\u00e1 tentando resgatar v\u00ednculos familiares e alcan\u00e7ar uma oportunidade de emprego. Atrav\u00e9s do Escrit\u00f3rio Social, emitem documenta\u00e7\u00f5es, que frequentemente foram perdidas no momento da sa\u00edda ou da transfer\u00eancia entre unidades prisionais. Quando come\u00e7a o processo de ressocializa\u00e7\u00e3o dos egressos, em muitos casos, eles n\u00e3o t\u00eam acesso a seus documentos b\u00e1sicos para conquistar sua cidadania. \u201cQuando a gente fala em uma segunda chance, talvez essa chance que a pessoa est\u00e1 tendo seja a primeira. Por diversas vezes, \u00e9 a primeira vez que essas pessoas est\u00e3o tendo acesso a pol\u00edticas p\u00fablicas\u201d, relata a psic\u00f3loga Luana Boeira.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<div class=\"wp-container-3 wp-block-columns\">\n<div class=\"wp-container-1 wp-block-column\" style=\"flex-basis:50%\">\n<h2>LEIA MAIS<\/h2>\n<\/div>\n\n\n\n<div class=\"wp-container-2 wp-block-column\" style=\"flex-basis:50%\">\n<ul><li><strong><a href=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/sextante\/encontro-e-abandono\/\">Encontro e abandono<\/a><\/strong>: Isolamento, visita\u00e7\u00e3o, lealdade e muito mais. Como a socializa\u00e7\u00e3o de pessoas encarceradas se desenvolve em meio \u00e0s aproxima\u00e7\u00f5es e despedidas<\/li><li><strong><a href=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/sextante\/a-luta-para-menstruar-em-paz\/\">A luta para menstruar em paz:<\/a> <\/strong>Perder oportunidades, contrair doen\u00e7as e sentir vergonha de algo fisiol\u00f3gico s\u00e3o caracter\u00edsticas da complexa realidade de quem sofre de pobreza menstrual<\/li><\/ul>\n<\/div>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Ap\u00f3s cumprirem suas penas em pres\u00eddios superlotados e com poucos recursos, esses indiv\u00edduos, a maioria pobre e de baixa escolaridade, se deparam com uma realidade de ainda mais exclus\u00e3o.\u00a0<\/p>\n","protected":false},"author":160,"featured_media":15785,"comment_status":"open","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[336],"tags":[368,364,367,49,362,363,366,365],"acf":[],"yoast_head":"<!-- This site is optimized with the Yoast SEO plugin v19.6.1 - https:\/\/yoast.com\/wordpress\/plugins\/seo\/ -->\n<title>Em busca da liberdade &mdash; Sextante Sextante 63<\/title>\n<meta name=\"description\" content=\"Egressos buscam chance de ressocializa\u00e7\u00e3o. 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