{"id":14684,"date":"2024-08-20T12:13:29","date_gmt":"2024-08-20T15:13:29","guid":{"rendered":"https:\/\/www.ufrgs.br\/sextante\/?p=14684"},"modified":"2024-08-29T17:46:42","modified_gmt":"2024-08-29T20:46:42","slug":"de-orixa-africano-a-santa-catolica","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ufrgs.br\/sextante\/de-orixa-africano-a-santa-catolica\/","title":{"rendered":"De orix\u00e1 africano \u00e0 santa cat\u00f3lica"},"content":{"rendered":"\n<p>\u00c9 2 de fevereiro e os jornais matinais informam fluxo constante para o litoral. Fi\u00e9is de todos os lugares viajam para as praias para celebrar, cultuar e professar a sua f\u00e9 em Iemanj\u00e1 e Nossa Senhora dos Navegantes, protetora dos marinheiros, m\u00e3e de todos os peixes. Uma santa cat\u00f3lica e um orix\u00e1 africano, celebrados na areia, na beira do mar, no mesmo dia.<\/p>\n\n\n\n<p>A aproxima\u00e7\u00e3o das duas entidades ocorreu quando africanos escravizados trazidos para o Brasil durante o per\u00edodo colonial foram proibidos de praticar suas cren\u00e7as religiosas. Para mant\u00ea-las vivas, disfar\u00e7aram seus orix\u00e1s com imagens de santos cat\u00f3licos, e Iemanj\u00e1 foi substitu\u00edda por Nossa Senhora dos Navegantes.<\/p>\n\n\n\n<p>Na Nig\u00e9ria, Iemanj\u00e1 \u00e9 o orix\u00e1 de \u00e1guas doces, mas os africanos que foram for\u00e7ados a vir para o Brasil em navios negreiros, ao atravessar as \u00e1guas do oceano, oravam por ela. Na tentativa de retornar para casa, muitos se jogavam ao mar, nos bra\u00e7os da grande m\u00e3e. &#8220;Todos somos filhos de Iemanj\u00e1, ela \u00e9 a grande m\u00e3e do mundo, a representa\u00e7\u00e3o das \u00e1guas que, pelos oceanos, unem todos os continentes.&nbsp;Iemanj\u00e1 une os antepassados e o presente, e todos os filhos em di\u00e1spora&#8221;, afirma Nina Fola, mestra e doutoranda em Sociologia pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), especializada no olhar pol\u00edtico das mulheres de terreiro no RS. A di\u00e1spora africana \u00e9 o nome dado a um fen\u00f4meno caracterizado pela imigra\u00e7\u00e3o for\u00e7ada de africanos durante o tr\u00e1fico transatl\u00e2ntico de escravizados. Ou seja, todos os negros e negras fora de \u00c1frica, nas palavras de Nina, s\u00e3o filhos em di\u00e1spora de Iemanj\u00e1.<\/p>\n\n\n\n<h6><strong>Mas por que no dia 2 de fevereiro?<\/strong><\/h6>\n\n\n\n<p>A tradi\u00e7\u00e3o come\u00e7ou em 1923, quando um grupo de pescadores que enfrentava uma escassez de peixes no Rio Vermelho, em Salvador, resolveu pedir fartura na pescaria e um mar tranquilo \u00e0 M\u00e3e d\u2019\u00c1gua.&nbsp;Assim, eles foram \u00e0 igreja da regi\u00e3o e pediram ao padre que realizasse uma missa solene em homenagem \u00e0 Nossa Senhora dos Navegantes. No entanto, ele se recusou. Os pescadores recorreram, ent\u00e3o, a uma m\u00e3e de santo local, que lhes acolheu e sugeriu que sempre no dia 2 de fevereiro eles realizassem uma celebra\u00e7\u00e3o com muitas oferendas \u00e0 Iemanj\u00e1 na beira da praia. Seguindo os fundamentos das religiosidades de matriz africana, os pescadores ofereceram \u00e0 Yab\u00e1 &#8211; termo dado aos orix\u00e1s femininos Iemanj\u00e1 e Oxum, mas no Brasil esse termo \u00e9 utilizado para definir todos os orix\u00e1s femininos &#8211; frutas como ma\u00e7\u00e3, p\u00eara, mel\u00e3o e melancia. Tamb\u00e9m entregaram flores brancas, perfume de alfazema, velas, champanhe e outros presentes que agradam a grande m\u00e3e, como j\u00f3ias e espelhos. O resultado foi a abund\u00e2ncia de peixes.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Desde ent\u00e3o, a data se consolidou. Portanto, a hist\u00f3ria do 2 de fevereiro traz consigo uma dualidade de fatos: dois elementos, o padre e a m\u00e3e de santo; o sincretismo de duas santas: Iemanj\u00e1, que tem sua origem nas matrizes africanas, e Nossa Senhora dos Navegantes, oriunda da f\u00e9 cat\u00f3lica.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-audio\"><audio controls src=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/sextante\/wp-content\/uploads\/2024\/08\/WhatsApp-Audio-2024-08-09-at-01.38.15-online-audio-converter.com_.mp3\"><\/audio><figcaption>Artistas como Emicida e a banda baiana Gilsons mencionam a data em suas obras.<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p>Para Gabriel Bresque, doutorando em Sociologia pela Universidade Federal de Pelotas (UFPel), a semelhan\u00e7a das duas entidades, no entanto, se encerra na data em comum. \u201cO fato de as duas compartilharem a mesma data de celebra\u00e7\u00e3o no pa\u00eds significa pouco quando consideramos a busca por independ\u00eancia que membros da umbanda e de outras religi\u00f5es similares vem tra\u00e7ando no Brasil. Al\u00e9m disso, a associa\u00e7\u00e3o de Iemanj\u00e1 com uma mulher branca me parece j\u00e1 ultrapassada e parte de um processo antigo de silenciamento dessas f\u00e9s\u201d, afirma Bresque.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Gilian Cidades, de 34 anos, natural de Viam\u00e3o, no Rio Grande do Sul, \u00e9 um exemplo de quem n\u00e3o esconde a sua f\u00e9. Ele traz na mem\u00f3ria as viagens em fam\u00edlia rumo \u00e0 praia de Cidreira para festejar o dia 2 de fevereiro. Inserido na religi\u00e3o de na\u00e7\u00e3o desde pequeno, Gilian relembra com afeto os encontros de in\u00fameros batuqueiros no entorno de uma est\u00e1tua de Iemanj\u00e1 na beira da praia \u201cAli ficavam todos unidos, das mais variadas vertentes da umbanda, na\u00e7\u00e3o, candombl\u00e9, todos pela mesma causa. E Iemanj\u00e1 \u00e9 isso, n\u00e9? Ela nos traz uni\u00e3o, harmonia, paz e firmeza de pensamento&#8221;, conta.<\/p>\n\n\n\n<p>Shaienne Sehen Pereira, de 32 anos, de Porto Alegre, m\u00e3e de santo h\u00e1 sete anos, conta que o dia 2 de fevereiro \u00e9 especial para ela. \u201c\u00c9 um dia que eu n\u00e3o trabalho sob hip\u00f3tese alguma\u201d, afirma. Embora tenha crescido com as tradi\u00e7\u00f5es de religi\u00e3o de matriz africana, ela lembra que o afeto pelas festividades da data vem desde a av\u00f3, que era cat\u00f3lica e sempre ia \u00e0s prociss\u00f5es e \u00e0s missas de Nossa Senhora dos Navegantes. Nas suas pr\u00e1ticas religiosas, o 2 de fevereiro sempre foi na praia.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-large\"><img loading=\"lazy\" width=\"770\" height=\"1024\" src=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/sextante\/wp-content\/uploads\/2024\/08\/WhatsApp-Image-2024-08-09-at-01.24.46-2-770x1024.jpeg\" alt=\"\" class=\"wp-image-15801\" srcset=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/sextante\/wp-content\/uploads\/2024\/08\/WhatsApp-Image-2024-08-09-at-01.24.46-2-770x1024.jpeg 770w, https:\/\/www.ufrgs.br\/sextante\/wp-content\/uploads\/2024\/08\/WhatsApp-Image-2024-08-09-at-01.24.46-2-226x300.jpeg 226w, https:\/\/www.ufrgs.br\/sextante\/wp-content\/uploads\/2024\/08\/WhatsApp-Image-2024-08-09-at-01.24.46-2-768x1021.jpeg 768w, https:\/\/www.ufrgs.br\/sextante\/wp-content\/uploads\/2024\/08\/WhatsApp-Image-2024-08-09-at-01.24.46-2.jpeg 963w\" sizes=\"(max-width: 770px) 100vw, 770px\" \/><figcaption>Shaienne celebrando o dia 2 de fevereiro | Foto: Arquivo Pessoal<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<h6><strong>Sincretismo e os dois lados da moeda<\/strong><\/h6>\n\n\n\n<p>No nordeste do pa\u00eds, dezenas de cidades celebram o dia 2 de fevereiro como feriado de Iemanj\u00e1. De acordo com os dados sobre religi\u00e3o do Censo 2022, o Rio Grande do Sul \u00e9 o estado que tem mais casas de terreiros no pa\u00eds, chegando pr\u00f3ximo a 65 mil. Entretanto, nas 23 cidades ga\u00fachas em que a data \u00e9&nbsp; feriado, o motivo oficial \u00e9 a celebra\u00e7\u00e3o de Nossa Senhora dos Navegantes e n\u00e3o de Iemanj\u00e1.<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote\"><p>\u201cNa Capital ga\u00facha n\u00e3o se dorme sem ouvir ao fundo o barulho dos tambores do batuque, da umbanda ou da quimbanda\u201d,<\/p><cite><strong>FRAN RODRIGUES<\/strong>, vereadora suplente.<\/cite><\/blockquote>\n\n\n\n<p>Foi somente em 2024 que o 2 de fevereiro tamb\u00e9m passou a ser oficialmente Dia de Iemanj\u00e1 em Porto Alegre. At\u00e9 o ano passado, o feriado constava no calend\u00e1rio do munic\u00edpio apenas como um feriado referente \u00e0 santa cat\u00f3lica. O projeto de lei 350\/21, que instituiu a data no calend\u00e1rio oficial da Capital, \u00e9 de autoria da vereadora suplente Fran Rodrigues (PSOL) e foi aprovado em sess\u00e3o plen\u00e1ria da C\u00e2mara de Vereadores no dia 26 de junho de 2023. Segundo Fran, incluir Iemanj\u00e1 de forma oficial no calend\u00e1rio \u00e9 uma maneira institucional de reconhecer o sincretismo existente em Porto Alegre, contribuindo para o combate ao racismo religioso e promovendo a diversidade e igualdade racial na cidade. \u201cPorto Alegre \u00e9 territ\u00f3rio negro! A cren\u00e7a popular dessa cidade \u00e9 em Iemanj\u00e1. Na Capital ga\u00facha n\u00e3o se dorme sem ouvir ao fundo o barulho dos tambores do batuque, da umbanda ou da quimbanda. Ent\u00e3o o feriado deve ter o nome dela!\u201d, afirma a vereadora.<\/p>\n\n\n\n<p>De acordo com dados da Secretaria da Seguran\u00e7a P\u00fablica do Estado, o n\u00famero de registros policiais por preconceito religioso teve aumento de 250% nos \u00faltimos tr\u00eas anos no Rio Grande do Sul: foram 20 casos em 2021 e 70 em 2023. Em Porto Alegre, cidade onde houve o maior volume de registros, o n\u00famero de casos passou de 11 em 2021 para 29 em 2023, um aumento de 164%. Esses dados revelam um processo hegem\u00f4nico que busca apagar a presen\u00e7a da f\u00e9 de matriz africana, sobrepondo uma divindade \u00e0 outra. Pois no mesmo ano que o dia de Iemanj\u00e1 foi reconhecido, o n\u00famero de den\u00fancias por intoler\u00e2ncia religiosa aumentou, ou seja, \u00e9 preciso reconhecer as tentativas de apagamento de uma determinada f\u00e9 dentro de Porto Alegre. Embora a data seja vista como um dia de celebra\u00e7\u00e3o do divino, h\u00e1 tamb\u00e9m um movimento de epistemic\u00eddio, que \u00e9 o termo relacionado ao processo de invisibiliza\u00e7\u00e3o e oculta\u00e7\u00e3o das contribui\u00e7\u00f5es culturais e sociais n\u00e3o assimiladas pelo &#8220;saber&#8221; ocidental.<\/p>\n\n\n<div class=\"infogram-embed\" data-id=\"a9b88b4c-b6fa-4fea-82d8-5c143589a6d7\" data-type=\"interactive\"><\/div><script>!function(e,t,s,i){var n=\"InfogramEmbeds\",o=e.getElementsByTagName(\"script\"),d=o[0],r=\/^http:\/.test(e.location)?\"http:\":\"https:\";if(\/^\\\/{2}\/.test(i)&&(i=r+i),window[n]&&window[n].initialized)window[n].process&&window[n].process();else if(!e.getElementById(s)){var a=e.createElement(\"script\");a.async=1,a.id=s,a.src=i,d.parentNode.insertBefore(a,d)}}(document,0,\"infogram-async\",\"\/\/e.infogram.com\/js\/dist\/embed-loader-min.js\");<\/script>\n\n\n\n<p>Mesmo que o sincretismo tenha sido uma ferramenta importante para a preserva\u00e7\u00e3o da f\u00e9 de origem afro, Shaienne acredita que hoje ela n\u00e3o \u00e9 mais necess\u00e1ria. \u201cNo momento que um quarto de santo est\u00e1 cheio de imagens cat\u00f3licas, \u00e9 como se a gente estivesse perpetuando algo que nos foi imposto h\u00e1 500 anos\u201d, declara a m\u00e3e de santo.&nbsp;Ela acredita que \u00e9 papel dos guias espirituais de matriz africana resgatar a verdadeira imagem e identidade das espiritualidades.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>J\u00e1 Gilian traz uma opini\u00e3o divergente. Ele acredita que o sincretismo \u00e9 uma forma de manter vivas as t\u00e1ticas e t\u00e9cnicas de sobreviv\u00eancia de seus ancestrais. \u201cFoi a forma na qual os nossos antepassados conseguiram preservar a cultura e a tradi\u00e7\u00e3o.\u201d Ele ainda afirma que, embora algumas casas de santo cultuem Iemanj\u00e1 atrav\u00e9s da imagem de Nossa Senhora dos Navegantes, todos os praticantes t\u00eam o conhecimento de que Iemanj\u00e1 \u00e9 um orix\u00e1 africano. Ele tamb\u00e9m compara o sincretismo religioso \u00e0 capoeira, em suas palavras, \u201cuma luta disfar\u00e7ada de dan\u00e7a\u201d. Na perspectiva dele, camuflagens de sobreviv\u00eancia e preserva\u00e7\u00e3o da cultura s\u00e3o parte do legado ancestral, que soube driblar a coloniza\u00e7\u00e3o para se manter presente e vivo.<\/p>\n\n\n\n<p>Embora os dois filhos de Iemanj\u00e1 tenham opini\u00f5es diferentes a respeito do sincretismo religioso que divide o dia 2 de fevereiro entre Iemanj\u00e1 e Nossa Senhora dos Navegantes, ambos trazem uma coisa em comum: o amor, a paix\u00e3o e a devo\u00e7\u00e3o \u00e0 santa e ao orix\u00e1. Para Gilian, Iemanj\u00e1 \u00e9 fruto do seu conhecimento e sua sabedoria e \u00e9 quem guia a sua cabe\u00e7a. Segundo a f\u00e9 iorub\u00e1, Iemanj\u00e1 \u00e9 orix\u00e1 das cabe\u00e7as, ela concede sa\u00fade mental e prop\u00f5e harmonia entre o sentimento e a raz\u00e3o.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Shaienne afirma que \u00e9 grata \u00e0 sua m\u00e3e por todo o seu amadurecimento e crescimento dentro da religiosidade. Ela ainda lembra que neste ano, conseguiu realizar o seu maior sonho: passar o dia 2 de fevereiro em Salvador, no Rio Vermelho, onde tudo come\u00e7ou. \u201cFoi uma das coisas mais importantes pra minha vida, eu senti uma energia e uma vibra\u00e7\u00e3o t\u00e3o forte, parecia que eu tinha sido levada a estar l\u00e1, como se fosse um presente\u201d, lembrou a m\u00e3e de santo.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>E como um ita africano, com in\u00edcio, meio e fim, Iemanj\u00e1 que acompanhou seus filhos pelo Atl\u00e2ntico durante a di\u00e1spora, todo ano os leva de volta ao mar.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u00c9 2 de fevereiro e os jornais matinais informam fluxo constante para o litoral. Fi\u00e9is de todos os lugares viajam para as praias para celebrar, cultuar e professar a sua f\u00e9 em Iemanj\u00e1 e Nossa Senhora dos Navegantes, protetora dos marinheiros, m\u00e3e de todos os peixes. 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