{"id":18629,"date":"2025-07-08T16:14:40","date_gmt":"2025-07-08T19:14:40","guid":{"rendered":"https:\/\/www.ufrgs.br\/sextante\/?p=18629"},"modified":"2025-07-08T16:14:41","modified_gmt":"2025-07-08T19:14:41","slug":"ciganos-povo-invisivel","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ufrgs.br\/sextante\/ciganos-povo-invisivel\/","title":{"rendered":"O povo invis\u00edvel"},"content":{"rendered":"\n<p>\u00c0s v\u00e9speras da 35\u00aa edi\u00e7\u00e3o do tradicional Festival Internacional de Balonismo, o munic\u00edpio de Torres, no litoral norte do Rio Grande do Sul, intensificou os preparativos para o grande evento. Entretanto, tem coisas que o munic\u00edpio n\u00e3o quer que os visitantes vejam. Antes de os bal\u00f5es abrilhantarem os c\u00e9us torrenses e milhares de pessoas voltarem suas aten\u00e7\u00f5es para o alto, o local passou por uma limpeza que ningu\u00e9m notou: a remo\u00e7\u00e3o de cinco fam\u00edlias ciganas que montaram acampamento no local onde o festival seria sediado. \u00c9 no ch\u00e3o, a 700 metros das festividades e de uma forma despercebida, que os ciganos tentam se restabelecer e fazer do novo local um lar.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-large\"><img loading=\"lazy\" width=\"1024\" height=\"683\" src=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/sextante\/wp-content\/uploads\/2025\/06\/01_Mariana-Reyes-1024x683.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-18823\" srcset=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/sextante\/wp-content\/uploads\/2025\/06\/01_Mariana-Reyes-1024x683.jpg 1024w, https:\/\/www.ufrgs.br\/sextante\/wp-content\/uploads\/2025\/06\/01_Mariana-Reyes-300x200.jpg 300w, https:\/\/www.ufrgs.br\/sextante\/wp-content\/uploads\/2025\/06\/01_Mariana-Reyes-768x512.jpg 768w, https:\/\/www.ufrgs.br\/sextante\/wp-content\/uploads\/2025\/06\/01_Mariana-Reyes-1536x1024.jpg 1536w, https:\/\/www.ufrgs.br\/sextante\/wp-content\/uploads\/2025\/06\/01_Mariana-Reyes-2048x1365.jpg 2048w, https:\/\/www.ufrgs.br\/sextante\/wp-content\/uploads\/2025\/06\/01_Mariana-Reyes-1200x800.jpg 1200w, https:\/\/www.ufrgs.br\/sextante\/wp-content\/uploads\/2025\/06\/01_Mariana-Reyes-1568x1045.jpg 1568w\" sizes=\"(max-width: 1024px) 100vw, 1024px\" \/><figcaption>A matriarca Ivonete \u00e9 respons\u00e1vel por prever os passos que a fam\u00edlia deve trilhar em busca de um novo lar | Foto: Mariana Reyes <\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p>O terreno atr\u00e1s do Centro de Tradi\u00e7\u00f5es Ga\u00fachas (CTG) Quer\u00eancia das Torres \u00e9 dividido por dois cen\u00e1rios distintos. De um lado, as barracas fixadas por aqueles que foram removidos do Parque Municipal do Balonismo. Do outro, pilhas de entulho e materiais descartados. Mesmo separados por poucos metros do lixo acumulado, a fam\u00edlia Fagundes celebra as instala\u00e7\u00f5es no local cedido temporariamente pela prefeitura.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Segundo o diretor de Manuten\u00e7\u00e3o dos Pr\u00e9dios P\u00fablicos e Servi\u00e7os P\u00fablicos de Torres, Alberto Saldanha, para a edi\u00e7\u00e3o de 2025 foi realizada uma reuni\u00e3o com os donos do CTG para que emprestassem o terreno para acomodar as fam\u00edlias no local durante o Festival de Balonismo. Pela primeira vez em 15 anos, mesmo que afastados, os ciganos n\u00e3o tiveram que deixar o munic\u00edpio por conta do evento. Apesar da conquista, ainda se sentem receosos com a possibilidade de serem varridos sob qualquer justificativa.<\/p>\n\n\n\n<h2><strong>Quando nem a vid\u00eancia prev\u00ea o \u00f3dio<\/strong><\/h2>\n\n\n\n<p>Os relatos de limpeza \u00e9tnica n\u00e3o s\u00e3o uma exclusividade de Torres. Desde o assentamento dos primeiros povos ciganos na Europa Central, na idade m\u00e9dia, at\u00e9 a Alemanha Nazista durante a Segunda Guerra Mundial, eles foram escravizados e perseguidos por motivos \u00e9tnicos, muitas vezes relacionados \u00e0 pobreza. Dezenas de anos depois, o preconceito segue entranhado na sociedade.<\/p>\n\n\n\n<p>Rose Winter, de 62 anos, natural de S\u00e3o Leopoldo, \u00e9 presidente da Associa\u00e7\u00e3o dos Ciganos Itinerantes do Rio Grande do Sul e um exemplo vivo da viol\u00eancia nos tempos atuais. No dia 1\u00ba de abril de 2019, um grupo de supremacistas brancos tentou jog\u00e1-la nos trilhos de uma esta\u00e7\u00e3o de trem, em Porto Alegre, ao notar que ela portava trajes t\u00edpicos ciganos.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-large\"><img loading=\"lazy\" width=\"1024\" height=\"683\" src=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/sextante\/wp-content\/uploads\/2025\/06\/02_Mariana-Reyes-1024x683.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-18853\" srcset=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/sextante\/wp-content\/uploads\/2025\/06\/02_Mariana-Reyes-1024x683.jpg 1024w, https:\/\/www.ufrgs.br\/sextante\/wp-content\/uploads\/2025\/06\/02_Mariana-Reyes-300x200.jpg 300w, https:\/\/www.ufrgs.br\/sextante\/wp-content\/uploads\/2025\/06\/02_Mariana-Reyes-768x512.jpg 768w, https:\/\/www.ufrgs.br\/sextante\/wp-content\/uploads\/2025\/06\/02_Mariana-Reyes-1536x1024.jpg 1536w, https:\/\/www.ufrgs.br\/sextante\/wp-content\/uploads\/2025\/06\/02_Mariana-Reyes-2048x1365.jpg 2048w, https:\/\/www.ufrgs.br\/sextante\/wp-content\/uploads\/2025\/06\/02_Mariana-Reyes-1200x800.jpg 1200w, https:\/\/www.ufrgs.br\/sextante\/wp-content\/uploads\/2025\/06\/02_Mariana-Reyes-1568x1045.jpg 1568w\" sizes=\"(max-width: 1024px) 100vw, 1024px\" \/><figcaption>Alvo de ataques racistas, Rose Winter \u00e9 um s\u00edmbolo da resist\u00eancia cigana | Foto: Mariana Reyes<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p>\u201cQuando o trem come\u00e7ou a se aproximar, eles falaram \u2018vamos jogar ela no trilho\u2019. Outras pessoas que viram a situa\u00e7\u00e3o viraram as costas\u201d, conta Rose. Ela ressalta que foi salva instantes antes de ser atropelada pelo trem por um casal que confrontou os agressores e a resgatou. Desde ent\u00e3o, ela nunca mais saiu sozinha de casa com vestimentas tradicionais ciganas.<\/p>\n\n\n\n<h2><strong>Fora das estat\u00edsticas<\/strong><\/h2>\n\n\n\n<p>Al\u00e9m do racismo enraizado no cotidiano, o descaso \u00e9 confirmado pela escassez de pol\u00edticas p\u00fablicas e at\u00e9 mesmo de informa\u00e7\u00e3o sobre os povos ciganos. A \u00faltima atualiza\u00e7\u00e3o sobre o n\u00famero de ciganos no Brasil \u00e9 de 2010, no Censo Demogr\u00e1fico daquele ano, realizado pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estat\u00edstica (IBGE). Segundo o estudo, entre 800 mil e um milh\u00e3o de ciganos residem no pa\u00eds, mas lideran\u00e7as questionam o dado.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cEm toda a minha vida, nunca vi algum pesquisador entrar em um acampamento cigano. Como vamos acreditar em uma pesquisa de 15 anos atr\u00e1s que n\u00e3o retrata nem a metade da realidade?\u201d, questiona Rose. Ela foi convocada pelo Minist\u00e9rio de Igualdade Racial para coordenar um mapeamento que preparar\u00e1 o terreno para as pesquisas do Censo 2030. O Brasil ficar\u00e1, ent\u00e3o, no m\u00ednimo, 20 anos sem dados atualizados sobre ciganos. Na edi\u00e7\u00e3o mais recente, lan\u00e7ada em 2022, eles foram inclu\u00eddos no grupo \u201cPopula\u00e7\u00e3o Geral\u201d, que n\u00e3o tem distin\u00e7\u00e3o \u00e9tnica.<\/p>\n\n\n\n<iframe loading=\"lazy\" title=\"Acampamentos ciganos pelo Brasil\" aria-label=\"Map\" id=\"datawrapper-chart-LAo2f\" src=\"https:\/\/datawrapper.dwcdn.net\/LAo2f\/3\/\" scrolling=\"no\" frameborder=\"0\" style=\"border: none;\" width=\"1000\" height=\"1005\" data-external=\"1\"><\/iframe>\n\n\n\n<p>\u201cAs tratativas iniciais, antes do in\u00edcio do levantamento, n\u00e3o foram suficientes para o desenvolvimento de estudos e testes que permitissem a inser\u00e7\u00e3o de um quesito de pertencimento \u00e9tnico para os povos ciganos no Censo 2022\u201d, afirma a pesquisadora do IBGE Marta Antunes, respons\u00e1vel pelo projeto de Povos e Comunidades Tradicionais do instituto. Sem dados atualizados ou um levantamento espec\u00edfico, \u00e9 como se os ciganos n\u00e3o existissem.<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote\"><p>\u201cCigano mora em barracas porque o nomadismo \u00e9 imposto. Ningu\u00e9m quer dar condi\u00e7\u00f5es dignas aos ciganos\u201d <\/p><cite><strong>ROSE WINTER, <\/strong>presidente da Associa\u00e7\u00e3o dos Ciganos Itinerantes do Rio Grande do Sul<\/cite><\/blockquote>\n\n\n\n<p>Segundo o Estatuto dos Povos Ciganos, criado em 2022 pelo Senado Federal, o poder p\u00fablico deve assegurar moradia adequada aos ciganos e os acampamentos, enquanto parte da tradi\u00e7\u00e3o e cultura deles devem ser inviol\u00e1veis. Para os ciganos, basta eles se fixarem em um local para ser considerado lar.<\/p>\n\n\n\n<p>Apesar disso, alguns munic\u00edpios do Rio Grande do Sul contam com legisla\u00e7\u00f5es que dificultam ou at\u00e9 mesmo restringem a presen\u00e7a de ciganos em seus territ\u00f3rios. Um exemplo \u00e9 a cidade de Taquara, no Vale do Paranhana, que estabeleceu no ano de 1976 o prazo m\u00e1ximo de dez dias para a perman\u00eancia no munic\u00edpio. A lei segue em vigor.<\/p>\n\n\n\n<p>Igor Nunes, de 30 anos, um dos integrantes da fam\u00edlia Fagundes afetados pela remo\u00e7\u00e3o em Torres, desmistifica a ideia de que os ciganos viajam por escolha e aponta que a itiner\u00e2ncia n\u00e3o \u00e9 apenas cultural, mas tamb\u00e9m uma quest\u00e3o de necessidade. \u201cA gente n\u00e3o gosta de estar montado em um local e ter que sair, n\u00e9? A gente quer ficar parado\u201d, afirma. Apesar do senso comum alimentado pela sociedade de que ciganos viajam a qualquer custo, Igor garante que as comunidades n\u00e3o se estabelecem de forma fixa em um local por falta de condi\u00e7\u00f5es. \u201cPara os pol\u00edticos isso se tornou algo autom\u00e1tico: \u2018n\u00e3o vamos nos preocupar com os ciganos porque eles viajam muito, s\u00f3 vai ser trabalho perdido\u2019. Isso n\u00e3o \u00e9 verdade. Se a gente tivesse um terreno pr\u00f3prio, a gente ia dar um jeito de colocar uma casa\u201d, salienta.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-large\"><img loading=\"lazy\" width=\"1024\" height=\"683\" src=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/sextante\/wp-content\/uploads\/2025\/06\/03_Mariana-Reyes-1024x683.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-18857\" srcset=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/sextante\/wp-content\/uploads\/2025\/06\/03_Mariana-Reyes-1024x683.jpg 1024w, https:\/\/www.ufrgs.br\/sextante\/wp-content\/uploads\/2025\/06\/03_Mariana-Reyes-300x200.jpg 300w, https:\/\/www.ufrgs.br\/sextante\/wp-content\/uploads\/2025\/06\/03_Mariana-Reyes-768x512.jpg 768w, https:\/\/www.ufrgs.br\/sextante\/wp-content\/uploads\/2025\/06\/03_Mariana-Reyes-1536x1024.jpg 1536w, https:\/\/www.ufrgs.br\/sextante\/wp-content\/uploads\/2025\/06\/03_Mariana-Reyes-2048x1365.jpg 2048w, https:\/\/www.ufrgs.br\/sextante\/wp-content\/uploads\/2025\/06\/03_Mariana-Reyes-1200x800.jpg 1200w, https:\/\/www.ufrgs.br\/sextante\/wp-content\/uploads\/2025\/06\/03_Mariana-Reyes-1568x1045.jpg 1568w\" sizes=\"(max-width: 1024px) 100vw, 1024px\" \/><figcaption>Apesar da itiner\u00e2ncia ser algo tradicional da cultura cigana, a fam\u00edlia Fagundes segue em busca de estabilidade | Foto: Mariana Reyes<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p>Rose complementa que a itiner\u00e2ncia cigana no Rio Grande do Sul \u00e9 composta, majoritariamente, por pessoas em situa\u00e7\u00e3o de pobreza ou extrema pobreza. \u201cCigano mora em barracas porque o nomadismo \u00e9 imposto. Ningu\u00e9m quer dar condi\u00e7\u00f5es dignas aos ciganos\u201d, analisa.<\/p>\n\n\n\n<h2><strong>A puni\u00e7\u00e3o por ser quem se \u00e9<\/strong><\/h2>\n\n\n\n<p>\u00c0s margens da sociedade, a fam\u00edlia Fagundes se estabelece como pode. No acampamento montado, as tendas s\u00e3o armadas de forma impec\u00e1vel. Com um chuveiro improvisado em uma \u00e1rea mais afastada e com a luz cedida temporariamente pela prefeitura, eles fazem das cabanas um novo lar. A maioria dos Fagundes n\u00e3o sabe ler ou escrever. Com isso, surgem dificuldades financeiras. A renda parte de atividades variadas, desde a venda de ch\u00e1s at\u00e9 a revenda de carros usados. Todos os dias organizam as camas e os cobertores para facilitar a log\u00edstica em caso de uma nova remo\u00e7\u00e3o. \u201cCigano levanta acampamento mais r\u00e1pido do que trocar de roupa\u201d, brinca Andr\u00e9 Fagundes, de 39 anos.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-large\"><img loading=\"lazy\" width=\"1024\" height=\"683\" src=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/sextante\/wp-content\/uploads\/2025\/06\/04_Mariana-Reyes-1024x683.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-18865\" srcset=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/sextante\/wp-content\/uploads\/2025\/06\/04_Mariana-Reyes-1024x683.jpg 1024w, https:\/\/www.ufrgs.br\/sextante\/wp-content\/uploads\/2025\/06\/04_Mariana-Reyes-300x200.jpg 300w, https:\/\/www.ufrgs.br\/sextante\/wp-content\/uploads\/2025\/06\/04_Mariana-Reyes-768x512.jpg 768w, https:\/\/www.ufrgs.br\/sextante\/wp-content\/uploads\/2025\/06\/04_Mariana-Reyes-1536x1024.jpg 1536w, https:\/\/www.ufrgs.br\/sextante\/wp-content\/uploads\/2025\/06\/04_Mariana-Reyes-2048x1365.jpg 2048w, https:\/\/www.ufrgs.br\/sextante\/wp-content\/uploads\/2025\/06\/04_Mariana-Reyes-1200x800.jpg 1200w, https:\/\/www.ufrgs.br\/sextante\/wp-content\/uploads\/2025\/06\/04_Mariana-Reyes-1568x1045.jpg 1568w\" sizes=\"(max-width: 1024px) 100vw, 1024px\" \/><figcaption>No espa\u00e7o cedido pela prefeitura de Torres, os ciganos fazem um esfor\u00e7o conjunto para transformar as cabanas em lar | Foto: Mariana Reyes<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p>Ele ressalta que quest\u00f5es log\u00edsticas sobre quando deixar um local e onde montar um novo acampamento s\u00e3o definidas em conjunto, ao lado do cunhado Igor e do irm\u00e3o Rodrigo. Em todos os processos, a matriarca Ivoneti Fagundes, de 57 anos, \u00e9 fundamental. As decis\u00f5es sempre passam pelo crivo dela. Com sua experi\u00eancia, vivenciou o peso do preconceito durante toda a vida: \u201cQuem chega aqui diz que a gente rouba coisas, at\u00e9 crian\u00e7as. \u00c9 tudo mentira. A gente n\u00e3o mexe com nada dos outros. Gra\u00e7as a Deus, somos muito educados\u201d, afirma.<\/p>\n\n\n\n<p>Andr\u00e9 aponta que a discrimina\u00e7\u00e3o \u00e9 t\u00e3o latente que a presen\u00e7a policial \u00e9 constante ao redor de acampamentos. \u201cSempre que h\u00e1 algum assalto ou crime desse tipo, os moradores fazem den\u00fancias e falam que os ciganos s\u00e3o os culpados. V\u00e1rias vezes policiais nos abordaram e nunca encontraram nada\u201d, ressalta.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<h2><strong>A tradi\u00e7\u00e3o sem endere\u00e7o<\/strong><\/h2>\n\n\n\n<p>Ivoneti \u00e9 um s\u00edmbolo de resist\u00eancia para a fam\u00edlia. Al\u00e9m de sofrer com problemas severos na coluna, enfrenta uma depress\u00e3o profunda h\u00e1 cerca de tr\u00eas anos, tratada com medica\u00e7\u00e3o. Ainda assim, ela \u00e9 a refer\u00eancia no acampamento para as duas noras, Asusena Fagundes e Elisangela Fagundes, de 24 e 27 anos, que escolheram repassar os conhecimentos da matriarca sobre a cultura cigana para os filhos. Ambas confessam que algumas tradi\u00e7\u00f5es se perderam no caminho, inclusive a mais marcante delas: a cartomancia.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-large\"><img loading=\"lazy\" width=\"1024\" height=\"683\" src=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/sextante\/wp-content\/uploads\/2025\/06\/05_Mariana-Reyes-1024x683.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-18866\" srcset=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/sextante\/wp-content\/uploads\/2025\/06\/05_Mariana-Reyes-1024x683.jpg 1024w, https:\/\/www.ufrgs.br\/sextante\/wp-content\/uploads\/2025\/06\/05_Mariana-Reyes-300x200.jpg 300w, https:\/\/www.ufrgs.br\/sextante\/wp-content\/uploads\/2025\/06\/05_Mariana-Reyes-768x512.jpg 768w, https:\/\/www.ufrgs.br\/sextante\/wp-content\/uploads\/2025\/06\/05_Mariana-Reyes-1536x1024.jpg 1536w, https:\/\/www.ufrgs.br\/sextante\/wp-content\/uploads\/2025\/06\/05_Mariana-Reyes-2048x1365.jpg 2048w, https:\/\/www.ufrgs.br\/sextante\/wp-content\/uploads\/2025\/06\/05_Mariana-Reyes-1200x800.jpg 1200w, https:\/\/www.ufrgs.br\/sextante\/wp-content\/uploads\/2025\/06\/05_Mariana-Reyes-1568x1045.jpg 1568w\" sizes=\"(max-width: 1024px) 100vw, 1024px\" \/><figcaption>Embora algumas tradi\u00e7\u00f5es tenham se perdido pelo caminho, Asusena e Elisangela escolheram a maternidade como forma de propagar a suas tradi\u00e7\u00f5es | Foto: Mariana Reyes<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p>Considerada uma contraven\u00e7\u00e3o no Brasil, entre 1941 e 1997, a atividade mundialmente associada aos ciganos poderia levar \u00e0 pris\u00e3o. Nesse per\u00edodo, muitas ciganas deixaram de exercer e difundir a pr\u00e1tica, pela repress\u00e3o e tamb\u00e9m pelo preconceito. A cartomancia s\u00f3 foi reconhecida como uma profiss\u00e3o leg\u00edtima em 2022.<\/p>\n\n\n\n<p>Com esse contexto em m\u00e3os, Rose faz quest\u00e3o de manter viva a cultura da leitura de cartas. Afinal, para ela, a maior virtude cigana \u00e9 a manuten\u00e7\u00e3o das suas origens, seja onde ou como estiver. \u201cA base da resili\u00eancia do cigano \u00e9 saber se moldar a todas situa\u00e7\u00f5es. Sempre andando e mesmo assim carregando a sua tradi\u00e7\u00e3o e a sua cultura.\u201d<br><\/p>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator has-alpha-channel-opacity\"\/>\n\n\n\n<div class=\"wp-container-3 wp-block-columns\">\n<div class=\"wp-container-1 wp-block-column\">\n<h2>LEIA MAIS<\/h2>\n<\/div>\n\n\n\n<div class=\"wp-container-2 wp-block-column\">\n<ul><li><a href=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/sextante\/os-sobreviventes-invisiveis-na-capital-alto-astral\/\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">Os sobreviventes invis\u00edveis na capital alto-astral:<\/a> Existe um grupo em Porto Alegre que, para muitas pessoas, \u00e9 praticamente invis\u00edvel &#8211; o dos moradores de rua. E eles n\u00e3o s\u00e3o poucos, ao contr\u00e1rio, h\u00e1 cada vez mais pessoas vivendo nessa situa\u00e7\u00e3o<\/li><li><a href=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/sextante\/respeita-o-meu-orixa\/\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">Respeita o meu Orix\u00e1:<\/a> Apesar de invisibilizadas, as religi\u00f5es de matriz africana apresentam uma forte presen\u00e7a no estado ga\u00facho<\/li><\/ul>\n<\/div>\n<\/div>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator has-alpha-channel-opacity\"\/>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u00c0s v\u00e9speras da 35\u00aa edi\u00e7\u00e3o do tradicional Festival Internacional de Balonismo, o munic\u00edpio de Torres, no litoral norte do Rio Grande do Sul, intensificou os preparativos para o grande evento. Entretanto, tem coisas que o munic\u00edpio n\u00e3o quer que os visitantes vejam. Antes de os bal\u00f5es abrilhantarem os c\u00e9us torrenses e milhares de pessoas voltarem<a class=\"more-link\" href=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/sextante\/ciganos-povo-invisivel\/\">Continuar lendo <span class=\"screen-reader-text\">&#8220;O povo invis\u00edvel&#8221;<\/span><\/a><\/p>\n","protected":false},"author":219,"featured_media":18761,"comment_status":"open","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[438],"tags":[472,473,233],"acf":[],"yoast_head":"<!-- This site is optimized with the Yoast SEO plugin v19.6.1 - https:\/\/yoast.com\/wordpress\/plugins\/seo\/ -->\n<title>A resist\u00eancia dos povos ciganos ap\u00f3s gera\u00e7\u00f5es de esquecimento &mdash; Sextante O povo invis\u00edvel<\/title>\n<meta name=\"description\" content=\"Mesmo fora do Censo do IBGE, os povos ciganos perpetuam a sua cultura no RS apesar de serem marginalizados e invisibilizados pela sociedade.\" \/>\n<meta name=\"robots\" content=\"index, follow, max-snippet:-1, max-image-preview:large, max-video-preview:-1\" \/>\n<link rel=\"canonical\" href=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/sextante\/ciganos-povo-invisivel\/\" \/>\n<meta property=\"og:locale\" content=\"pt_BR\" \/>\n<meta property=\"og:type\" content=\"article\" \/>\n<meta property=\"og:title\" content=\"A resist\u00eancia dos povos ciganos ap\u00f3s gera\u00e7\u00f5es de esquecimento &mdash; 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