{"id":18660,"date":"2025-07-08T16:14:27","date_gmt":"2025-07-08T19:14:27","guid":{"rendered":"https:\/\/www.ufrgs.br\/sextante\/?p=18660"},"modified":"2025-07-08T16:14:29","modified_gmt":"2025-07-08T19:14:29","slug":"entre-o-amor-e-o-luto","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ufrgs.br\/sextante\/entre-o-amor-e-o-luto\/","title":{"rendered":"Entre o amor e o luto"},"content":{"rendered":"\n<figure class=\"wp-block-audio\"><audio controls src=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/sextante\/wp-content\/uploads\/2025\/06\/WhatsApp-Audio-2025-06-23-at-10.49.16-_1_.mp3\"><\/audio><figcaption>Ou\u00e7a a reportagem<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p>Foram 48 anos dividindo a mesma cama, ouvindo as mesmas m\u00fasicas e desfrutando o mesmo caf\u00e9 da manh\u00e3. Quase meio s\u00e9culo ao lado do mesmo amor. Aos 90 anos, Noemia Acunha de Ara\u00fajo construiu uma trajet\u00f3ria com ra\u00edzes profundas \u2013&nbsp; lembran\u00e7as que permanecem no cotidiano, mesmo ap\u00f3s o falecimento do marido, Jo\u00e3o Alceb\u00edades de Ara\u00fajo. A hist\u00f3ria de Noemia \u00e9 um retrato de tantas outras vidas que precisam se reorganizar ap\u00f3s a perda de um parceiro. Mais do que uma mem\u00f3ria individual, sua jornada revela um recome\u00e7o repleto de resili\u00eancia.<\/p>\n\n\n\n<p>O primeiro relacionamento que Noemia viveu foi marcado por cicatrizes dolorosas, mas trouxe um presente valioso: o nascimento do seu \u00fanico filho. Ainda assim, a dor deixada por essa rela\u00e7\u00e3o fez com que ela carregasse o receio de se apaixonar novamente. At\u00e9 que, em 1962, durante o trajeto di\u00e1rio de sua casa, na zona sul de Porto Alegre, at\u00e9 o trabalho, na zona norte, ela conheceu, dentro do bonde, aquele que se tornaria o grande amor da sua vida. \u201cEu pegava o mesmo bonde, no mesmo hor\u00e1rio, e n\u00f3s \u00edamos para o Centro. Ele sentava de frente para mim e ficava me olhando\u201d, relembra Noemia. O casal namorou por nove anos at\u00e9 \u201cjuntar os panos\u201d. Come\u00e7aram a vida a dois morando de aluguel no bairro Praia de Belas, e, depois, compartilharam o restante da vida no primeiro \u2013 e \u00fanico \u2013 apartamento adquirido por Noemia, onde ela vive at\u00e9 hoje, no bairro Menino Deus.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-large\"><img loading=\"lazy\" width=\"1024\" height=\"754\" src=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/sextante\/wp-content\/uploads\/2025\/06\/1-Eduarda-Silva-1024x754.jpeg\" alt=\"\" class=\"wp-image-18728\" srcset=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/sextante\/wp-content\/uploads\/2025\/06\/1-Eduarda-Silva-1024x754.jpeg 1024w, https:\/\/www.ufrgs.br\/sextante\/wp-content\/uploads\/2025\/06\/1-Eduarda-Silva-300x221.jpeg 300w, https:\/\/www.ufrgs.br\/sextante\/wp-content\/uploads\/2025\/06\/1-Eduarda-Silva-768x566.jpeg 768w, https:\/\/www.ufrgs.br\/sextante\/wp-content\/uploads\/2025\/06\/1-Eduarda-Silva-1536x1131.jpeg 1536w, https:\/\/www.ufrgs.br\/sextante\/wp-content\/uploads\/2025\/06\/1-Eduarda-Silva-2048x1508.jpeg 2048w, https:\/\/www.ufrgs.br\/sextante\/wp-content\/uploads\/2025\/06\/1-Eduarda-Silva-1568x1155.jpeg 1568w\" sizes=\"(max-width: 1024px) 100vw, 1024px\" \/><figcaption>Noemia compartilhou quase meio s\u00e9culo de sua vida ao lado da mesma pessoa, enfrentou o fen\u00f4meno do efeito viuvez e hoje guarda com carinho as lembran\u00e7as do seu eterno namorado | Foto: Eduarda Silva <\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p>Com os receios adquiridos no primeiro casamento, Noemia se casou com Jo\u00e3o somente ap\u00f3s completar 24 anos de relacionamento e ter a certeza de que ele seria seu parceiro para sempre. \u201cCom o casamento, n\u00e3o mudou nada. Ao contr\u00e1rio, melhorou mais ainda, e o pessoal daqui ficava pasmo\u201d, recorda, falando da vizinhan\u00e7a. O ano de 1988 marcou o in\u00edcio de uma reviravolta na vida do casal, quando Jo\u00e3o passou por sua primeira cirurgia de pr\u00f3stata. O procedimento foi bem-sucedido, e, com os cuidados dedicados de Noemia, os dois puderam retomar a rotina e viver normalmente por mais 12 anos, at\u00e9 a chegada de 2001.<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote\"><p>\u201cEle n\u00e3o foi s\u00f3 o meu marido, ele foi meu pai, meu namorado, meu noivo. Ele foi tudo\u201d<\/p><cite><strong>NOEMIA ARA\u00daJO<\/strong>, vi\u00fava<\/cite><\/blockquote>\n\n\n\n<p>Aos 70 anos, Jo\u00e3o passou por uma nova cirurgia na pr\u00f3stata e, pouco tempo depois, enfrentou tr\u00eas acidentes vasculares cerebrais (AVCs) e dois aneurismas cerebrais. Coube \u00e0 Noemia a responsabilidade de cuidar do parceiro durante os 12 anos seguintes. Foram in\u00fameros banhos dados por ela \u2013 tanto nos ver\u00f5es abafados quanto nos invernos rigorosos de Porto Alegre. Diversas trocas de roupa, aplica\u00e7\u00f5es de creme e o constante esfor\u00e7o de mov\u00ea-lo da cadeira de rodas para a poltrona da sala, onde passava boa parte do tempo. O cafezinho, feito com carinho, era um ritual di\u00e1rio para aquecer os dois.<\/p>\n\n\n\n<p>A nova rotina seguiu at\u00e9 o dia 2 de outubro de 2010, data em que Jo\u00e3o faleceu. Para Noemia, foi um dos momentos mais dif\u00edceis de sua vida, mas ressalta que passaria por tudo de novo. \u201cEle n\u00e3o foi s\u00f3 o meu marido, ele foi meu pai, meu namorado, meu noivo. Ele foi tudo\u201d, lembra.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<h2><strong>Cora\u00e7\u00e3o partido&nbsp;<\/strong><\/h2>\n\n\n\n<p>Um <a href=\"https:\/\/www.tandfonline.com\/doi\/full\/10.1080\/07481187.2011.649941?scroll=top&amp;needAccess=true\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">estudo conduzido<\/a> nos Estados Unidos pela Faculdade de Enfermagem e Inova\u00e7\u00e3o em Sa\u00fade da Arizona State University revelou que c\u00f4njuges que perdem seus parceiros podem enfrentar uma s\u00e9rie de problemas de sa\u00fade. Um deles \u00e9 a chamada s\u00edndrome do cora\u00e7\u00e3o partido, que ocorre quando o cora\u00e7\u00e3o \u00e9 afetado por um estresse emocional intenso e repentino, resultando no enfraquecimento do ventr\u00edculo esquerdo. Em vez de se contrair normalmente \u2013 com o formato semelhante ao de uma flecha \u2013 , o ventr\u00edculo assume uma forma arredondada. O cora\u00e7\u00e3o, de fato, pode alterar sua forma em resposta a uma perturba\u00e7\u00e3o emocional profunda, como a perda de um ente querido ou o fim de um relacionamento amoroso.<\/p>\n\n\n\n<p>O<a href=\"https:\/\/pmc.ncbi.nlm.nih.gov\/articles\/PMC2636447\/\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\"> efeito viuvez<\/a> tamb\u00e9m \u00e9 outra realidade amplamente estudada. Trata-se do aumento na probabilidade de morte de uma pessoa que perdeu recentemente o c\u00f4njuge. Estudos realizados pelos pesquisadores Nicholas Christakis, diretor do Laborat\u00f3rio da Natureza Humana na Universidade de Yale, e Felix Elwert, professor de sociologia da Universidade de Wisconsin, apontam que o risco de morte de um idoso por qualquer causa aumenta entre 30% e 90% nos tr\u00eas primeiros meses ap\u00f3s a perda do parceiro, diminuindo para cerca de 15% nos meses seguintes.<\/p>\n\n\n\n<p>Apesar da dor causada pela partida de Jo\u00e3o, a hist\u00f3ria de Noemia seguiu um caminho diferente. Embora a ci\u00eancia comprove que o impacto emocional da viuvez pode afetar diretamente a sa\u00fade f\u00edsica e mental dos idosos, ela encontrou for\u00e7as para continuar.&nbsp;\u201cO que me ajudou em tudo isso foram os filhos dele, que estavam sempre comigo, e eu precisava cuidar do meu filho, que tem s\u00edndrome do p\u00e2nico e esquizofrenia. Ele depende completamente de mim. Eu tive onde me segurar para seguir em frente\u201d, conta Noemia.<\/p>\n\n\n\n<p>Segundo a psic\u00f3loga Katy Ziegler Hias, presidente da Associa\u00e7\u00e3o Ga\u00facha de Terapia Familiar (Agatef), o luto \u00e9 sempre uma experi\u00eancia singular, mas a perda de um parceiro de muitos anos costuma provocar um impacto ainda mais profundo. \u201c\u00c9 como perder uma parte de si\u201d, afirma. Ela explica que, em geral, as mulheres tendem a vivenciar o luto de forma mais intensa, pois o v\u00ednculo afetivo com o parceiro costuma ser mais emocional e simb\u00f3lico. \u201cJ\u00e1 os homens sofrem de outra maneira. Muitas vezes, perdem a pessoa que cuidava deles, que organizava a rotina, o lar, e que dava estrutura emocional ao dia a dia\u201d, completa Katy.<\/p>\n\n\n\n<h2><strong><strong>Reconstru\u00e7\u00e3o da identidade&nbsp;<\/strong><\/strong><\/h2>\n\n\n\n<p>Normalmente, quando se fala sobre o luto, pensa-se imediatamente nas consequ\u00eancias que ele pode trazer: depress\u00e3o, isolamento, ansiedade. De fato, a perda de um grande amor pode desestruturar o emocional de qualquer pessoa. Maria Julia Kov\u00e1cs, professora s\u00eanior do Instituto de Psicologia da Universidade de S\u00e3o Paulo (USP) e membro fundadora do Laborat\u00f3rio de Estudos sobre a Morte, lembra, no entanto, que o luto em si n\u00e3o \u00e9 uma doen\u00e7a. \u201cEmbora a pessoa possa parecer completamente desequilibrada ou apresentar muitos problemas, ela est\u00e1 dentro do processo de luto\u201d, explica.<\/p>\n\n\n\n<p>Noemia encarou a experi\u00eancia do luto como uma forma de reconstruir a pr\u00f3pria identidade. \u201cAntigamente eu n\u00e3o fazia pilates, nada de exerc\u00edcio. Hoje eu pratico exerc\u00edcios e fa\u00e7o fisioterapia\u201d, conta. Al\u00e9m das atividades f\u00edsicas, ela tamb\u00e9m valoriza os momentos de lazer e&nbsp;doa uma quantia mensal para projetos sociais. \u201cEu gosto muito de viajar, sempre participo das excurs\u00f5es. Gosto de comer doces, sair para almo\u00e7ar e jantar com as minhas amigas. Ajudo nove institui\u00e7\u00f5es de caridade. Procuro sempre ajudar quem precisa\u201d, afirma.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-large\"><img loading=\"lazy\" width=\"1024\" height=\"768\" src=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/sextante\/wp-content\/uploads\/2025\/06\/3-Eduarda-Silva-1024x768.jpeg\" alt=\"\" class=\"wp-image-18759\" srcset=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/sextante\/wp-content\/uploads\/2025\/06\/3-Eduarda-Silva-1024x768.jpeg 1024w, https:\/\/www.ufrgs.br\/sextante\/wp-content\/uploads\/2025\/06\/3-Eduarda-Silva-300x225.jpeg 300w, https:\/\/www.ufrgs.br\/sextante\/wp-content\/uploads\/2025\/06\/3-Eduarda-Silva-768x576.jpeg 768w, https:\/\/www.ufrgs.br\/sextante\/wp-content\/uploads\/2025\/06\/3-Eduarda-Silva-1536x1152.jpeg 1536w, https:\/\/www.ufrgs.br\/sextante\/wp-content\/uploads\/2025\/06\/3-Eduarda-Silva-2048x1536.jpeg 2048w, https:\/\/www.ufrgs.br\/sextante\/wp-content\/uploads\/2025\/06\/3-Eduarda-Silva-1568x1176.jpeg 1568w\" sizes=\"(max-width: 1024px) 100vw, 1024px\" \/><figcaption>A alian\u00e7a de casamento na m\u00e3o continua relembrando uma hist\u00f3ria de amor, carinho e dedica\u00e7\u00e3o | Foto: Eduarda Silva <\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p>Maria Julia enfatiza que os v\u00ednculos constru\u00eddos durante o relacionamento n\u00e3o s\u00e3o rompidos. \u201cAs ra\u00edzes n\u00e3o v\u00e3o embora, as ra\u00edzes est\u00e3o a\u00ed e fazem parte daquela pessoa. Ela n\u00e3o vai perder, vai continuar lembrando, enfim, vivendo\u201d, destaca. Noemia segue carregando no seu dedo anelar da m\u00e3o esquerda a alian\u00e7a do seu casamento e mant\u00e9m viva as lembran\u00e7as que sempre a acompanharam.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cGra\u00e7as a Deus, o Jo\u00e3o foi um marido interessado no meu bem-estar, na minha fam\u00edlia. At\u00e9 hoje eu lembro dele: o lado da cama em que ele dormia, a comida de que ele gostava. Em todo anivers\u00e1rio que eu fazia, ele me dava meia d\u00fazia de bot\u00f5es de rosas vermelhas e uma joia pendurada. Meu eterno namorado\u201d, conta.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-container-2 wp-block-gallery-1 wp-block-gallery has-nested-images columns-default is-cropped\">\n<figure class=\"wp-block-image size-large\"><img loading=\"lazy\" width=\"1024\" height=\"673\" data-id=\"18774\"  src=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/sextante\/wp-content\/uploads\/2025\/06\/Copia-de-Foto-5-Eduarda-Silva-1024x673.jpeg\" alt=\"\" class=\"wp-image-18774\" srcset=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/sextante\/wp-content\/uploads\/2025\/06\/Copia-de-Foto-5-Eduarda-Silva-1024x673.jpeg 1024w, https:\/\/www.ufrgs.br\/sextante\/wp-content\/uploads\/2025\/06\/Copia-de-Foto-5-Eduarda-Silva-300x197.jpeg 300w, https:\/\/www.ufrgs.br\/sextante\/wp-content\/uploads\/2025\/06\/Copia-de-Foto-5-Eduarda-Silva-768x505.jpeg 768w, https:\/\/www.ufrgs.br\/sextante\/wp-content\/uploads\/2025\/06\/Copia-de-Foto-5-Eduarda-Silva-1536x1009.jpeg 1536w, 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wp-block-column\">\n<ul><li><a href=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/sextante\/a-dor-da-perda\/\"><strong>A dor da perda:<\/strong><\/a> A morte \u00e9 inerente \u00e0 condi\u00e7\u00e3o humana, mas como as pessoas lidam com a aus\u00eancia e com o medo?<\/li><li><strong><a href=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/sextante\/o-vazio-da-sepultura\/\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">O vazio da sepultura:<\/a><\/strong> Mesmo ap\u00f3s o fim da ditadura militar milhares de pessoas vivem na busca por uma resposta sobre o paradeiro de seus entes queridos<\/li><\/ul>\n<\/div>\n<\/div>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator has-alpha-channel-opacity\"\/>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Foram 48 anos dividindo a mesma cama, ouvindo as mesmas m\u00fasicas e desfrutando o mesmo caf\u00e9 da manh\u00e3. 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