{"id":19510,"date":"2025-12-11T11:31:15","date_gmt":"2025-12-11T14:31:15","guid":{"rendered":"https:\/\/www.ufrgs.br\/sextante\/?p=19510"},"modified":"2025-12-16T14:05:22","modified_gmt":"2025-12-16T17:05:22","slug":"verdades-sob-custodia","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ufrgs.br\/sextante\/verdades-sob-custodia\/","title":{"rendered":"Verdades sob cust\u00f3dia"},"content":{"rendered":"\n<figure class=\"wp-block-audio\"><audio controls src=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/sextante\/wp-content\/uploads\/2025\/12\/Audioreportagem-Cecilia-e-Rodrigo-1.mp3\"><\/audio><figcaption>Ou\u00e7a a reportagem<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p>Logo ap\u00f3s a perda do filho Arthur, de 45 dias, o casal Tatiele Goulart Guimar\u00e3es, de 31 anos, e Luan dos Santos, de 24, teve seu processo de luto interrompido. Ambos foram indiciados pela morte de Arthur. A acusa\u00e7\u00e3o os levou ao c\u00e1rcere, onde ficaram dois anos, um m\u00eas e sete dias cumprindo pris\u00e3o preventiva. Em agosto de 2025, na cidade de Passo Fundo, no Rio Grande do Sul, veio a absolvi\u00e7\u00e3o pelo j\u00fari popular, que considerou que as <a href=\"https:\/\/www.defensoria.rs.def.br\/defensoria-publica-consegue-comprovar-erro-medico-e-casal-que-ficou-preso-dois-anos-acusados-de-homicidio-e-absolvido#:~:text=em%20Execu%C3%A7%C3%A3o%20Penal-,Defensoria%20P%C3%BAblica%20consegue%20comprovar%20erro%20m%C3%A9dico%20e%20casal%20que%20ficou,acusados%20de%20homic%C3%ADdio%20%C3%A9%20absolvido&amp;text=Ap%C3%B3s%20dois%20dias%20de%20intenso,pela%20Justi%C3%A7a%2C%20em%20Passo%20Fundo.\">provas indicavam falha m\u00e9dica<\/a> no atendimento \u00e0 crian\u00e7a. Tatiele e Luan sofreram as consequ\u00eancias de um erro judicial. \u201cNo come\u00e7o o tempo foi meu pior inimigo. Vinte dias aqui fora pareciam um dia l\u00e1 dentro\u201d, relata Tatiele.<\/p>\n\n\n<div class=\"wp-block-image\">\n<figure class=\"aligncenter size-large is-resized\"><img loading=\"lazy\" src=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/sextante\/wp-content\/uploads\/2025\/12\/02_Tatiele-Guimaraes_Arquivo-Pessoal-769x1024.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-20231\" width=\"485\" height=\"646\" srcset=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/sextante\/wp-content\/uploads\/2025\/12\/02_Tatiele-Guimaraes_Arquivo-Pessoal-769x1024.jpg 769w, https:\/\/www.ufrgs.br\/sextante\/wp-content\/uploads\/2025\/12\/02_Tatiele-Guimaraes_Arquivo-Pessoal-225x300.jpg 225w, https:\/\/www.ufrgs.br\/sextante\/wp-content\/uploads\/2025\/12\/02_Tatiele-Guimaraes_Arquivo-Pessoal-768x1023.jpg 768w, https:\/\/www.ufrgs.br\/sextante\/wp-content\/uploads\/2025\/12\/02_Tatiele-Guimaraes_Arquivo-Pessoal-1153x1536.jpg 1153w, https:\/\/www.ufrgs.br\/sextante\/wp-content\/uploads\/2025\/12\/02_Tatiele-Guimaraes_Arquivo-Pessoal.jpg 1179w\" sizes=\"(max-width: 485px) 100vw, 485px\" \/><figcaption>Tatiele e Luan buscam a reconstru\u00e7\u00e3o de suas vidas ap\u00f3s dois anos privados de liberdade<\/figcaption><\/figure><\/div>\n\n\n<p>Na Penitenci\u00e1ria Estadual Feminina de Gua\u00edba (PEFG), na regi\u00e3o metropolitana de Porto Alegre, Tatiele ficou 25 meses em uma cela chamada de \u201cseguro\u201d. \u00c9 um espa\u00e7o onde algumas presas ficam separadas das demais para minimizar retalia\u00e7\u00f5es, que acontecem em fun\u00e7\u00e3o do crime pelos quais s\u00e3o acusadas \u2013 \u00e9 o caso de crimes contra crian\u00e7as. Mesmo assim, ela n\u00e3o escapava dos ataques. \u201cJogavam urina pela janela. As pr\u00f3prias [<em>apenadas<\/em>] cozinheiras colocavam cabelo e at\u00e9 l\u00e2minas de barbear nas refei\u00e7\u00f5es\u201d, relembra. As repres\u00e1lias tamb\u00e9m atingiram Luan, que passou os mesmos 737 dias preso na Penitenci\u00e1ria Estadual de Canoas (Pecan), tamb\u00e9m na regi\u00e3o metropolitana. Ele relata que as amea\u00e7as surgiram desde os primeiros dias no c\u00e1rcere. \u201cTinham muito \u00f3dio da gente, nos chamavam de infanticidas.\u201d<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote\"><p>\u201cFoi um tempo perdido, tempo que n\u00e3o volta mais\u201d<\/p><cite><strong>TATIELE GOULART GUIMAR\u00c3ES<\/strong>, presa injustamente em 2023<\/cite><\/blockquote>\n\n\n\n<p>A defensora p\u00fablica Tatiana Kosby Boeira, que j\u00e1 trabalhou em outros processos de pessoas presas injustamente, foi uma das respons\u00e1veis pela defesa de Tatiele. Com mais de 20 anos de atua\u00e7\u00e3o, confessa ter sido o caso mais emblem\u00e1tico de que j\u00e1 participou. \u201cO casal perdeu dois anos da vida deles, emprego, v\u00ednculos com os outros filhos, por conta de um crime que n\u00e3o cometeram.\u201d Ela ressalta que cada caso tem particularidades, mas todos est\u00e3o interligados pelo sequestro do tempo das pessoas privadas de liberdade e pelo impacto emocional em seus familiares. Tatiele relembra o tempo que ficou afastada dos dois filhos mais velhos, atualmente com nove e 11 anos. &#8220;Eles eram pequenos, cresceram muito nesse per\u00edodo e n\u00e3o vi. Foi um tempo perdido, tempo que n\u00e3o volta mais.\u201d<\/p>\n\n\n<div class=\"wp-block-image\">\n<figure class=\"aligncenter size-large is-resized\"><img loading=\"lazy\" src=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/sextante\/wp-content\/uploads\/2025\/12\/03_Cecilia-Filappi-1024x768.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-20237\" width=\"612\" height=\"459\" srcset=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/sextante\/wp-content\/uploads\/2025\/12\/03_Cecilia-Filappi-1024x768.jpg 1024w, https:\/\/www.ufrgs.br\/sextante\/wp-content\/uploads\/2025\/12\/03_Cecilia-Filappi-300x225.jpg 300w, https:\/\/www.ufrgs.br\/sextante\/wp-content\/uploads\/2025\/12\/03_Cecilia-Filappi-768x576.jpg 768w, https:\/\/www.ufrgs.br\/sextante\/wp-content\/uploads\/2025\/12\/03_Cecilia-Filappi-1536x1152.jpg 1536w, https:\/\/www.ufrgs.br\/sextante\/wp-content\/uploads\/2025\/12\/03_Cecilia-Filappi-2048x1536.jpg 2048w, https:\/\/www.ufrgs.br\/sextante\/wp-content\/uploads\/2025\/12\/03_Cecilia-Filappi-1568x1176.jpg 1568w\" sizes=\"(max-width: 612px) 100vw, 612px\" \/><figcaption>Para a defensora p\u00fablica Tatiana Boeira, a pris\u00e3o de Tatiele foi um dos casos mais dif\u00edceis da sua carreira<\/figcaption><\/figure><\/div>\n\n\n<p>Para os inocentes, os efeitos do c\u00e1rcere s\u00e3o similares aos sofridos por quem \u00e9 considerado culpado. Na vis\u00e3o da psic\u00f3loga Danielle Kirsch, que durante dois anos realizou atendimento cl\u00ednico na Pecan, os impactos em uma pessoa encarcerada s\u00e3o m\u00faltiplos, mas a caracter\u00edstica principal \u00e9 a perda de identidade. \u201c\u00c0s vezes tem uniforme, ent\u00e3o tu j\u00e1 n\u00e3o usa nem a tua roupa. Tu \u00e9 reconhecido pela galeria e pela cela que tu fica, os guardas s\u00f3 se referem assim. Quem ele \u00e9 n\u00e3o interessa, interessa em que cela ele est\u00e1\u201d, declara.<\/p>\n\n\n\n<p>Al\u00e9m de romper com&nbsp; a individualidade, a pris\u00e3o de uma pessoa impacta o seu n\u00facleo familiar. Segundo Danielle, ver algu\u00e9m que \u00e9 de sua refer\u00eancia numa situa\u00e7\u00e3o degradante desencadeia dores como a aus\u00eancia e a ang\u00fastia, al\u00e9m do fato de ter que lidar com coment\u00e1rios de terceiros. \u201cAs pessoas dizem que <em>[quem cumpre pena]<\/em> santo n\u00e3o \u00e9. Que, se estivesse trabalhando, n\u00e3o tinha acontecido\u201d, acrescenta a psic\u00f3loga. Para os filhos dos que foram presos, a experi\u00eancia tamb\u00e9m pode ser traum\u00e1tica, principalmente pela exposi\u00e7\u00e3o a um contexto de <em>bullying<\/em>. \u201cNa festa de escola, nas apresenta\u00e7\u00f5es, perguntam: \u2018cad\u00ea tua fam\u00edlia? Cad\u00ea teu pai, que n\u00e3o te busca mais?\u2019 Que explica\u00e7\u00e3o essa crian\u00e7a d\u00e1 pros amiguinhos?\u201d, questiona.&nbsp;<\/p>\n\n\n<div class=\"wp-block-image\">\n<figure class=\"aligncenter size-full is-resized\"><img loading=\"lazy\" src=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/sextante\/wp-content\/uploads\/2025\/11\/95960bfd-9baa-4f8d-8bda-6fde1b244a88.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-19799\" width=\"683\" height=\"515\" srcset=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/sextante\/wp-content\/uploads\/2025\/11\/95960bfd-9baa-4f8d-8bda-6fde1b244a88.jpg 683w, https:\/\/www.ufrgs.br\/sextante\/wp-content\/uploads\/2025\/11\/95960bfd-9baa-4f8d-8bda-6fde1b244a88-300x226.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 683px) 100vw, 683px\" \/><figcaption>Ilustra\u00e7\u00e3o | Thiago Rollin<\/figcaption><\/figure><\/div>\n\n\n<h2><strong>A engrenagem do c\u00e1rcere<\/strong><\/h2>\n\n\n\n<p>N\u00e3o h\u00e1 n\u00fameros absolutos de pris\u00f5es err\u00f4neas no Brasil divulgados pelo poder judici\u00e1rio. No diagn\u00f3stico das causas desses equ\u00edvocos, a an\u00e1lise da defensora Tatiana \u00e9 que a m\u00e1 utiliza\u00e7\u00e3o da pris\u00e3o preventiva, sustentada por decis\u00f5es com insufici\u00eancia de provas, \u00e9 um dos principais instrumentos que levam pessoas inocentes ao c\u00e1rcere.<\/p>\n\n\n\n<p>O casal de Passo Fundo representa milhares de pessoas em pris\u00e3o preventiva em todo o Brasil, que ficam em unidades prisionais por anos, mesmo sem uma decis\u00e3o condenat\u00f3ria. Segundo Tatiana, o entendimento \u00e9 de que, hoje, o juiz se contenta com poucas informa\u00e7\u00f5es para decretar a deten\u00e7\u00e3o, seja pela repercuss\u00e3o midi\u00e1tica ou pela press\u00e3o social. \u201cA pris\u00e3o [<em>preventiva<\/em>] virou regra, mas o sistema diz que ela tem que ser exce\u00e7\u00e3o. Deveria ser revista a cada 90 dias, mas tem pessoas que est\u00e3o h\u00e1 cinco anos.\u201d<\/p>\n\n\n\n<p>Uma corrente punitivista do sistema judici\u00e1rio e o racismo estrutural da sociedade brasileira potencializam a determina\u00e7\u00e3o de um perfil espec\u00edfico de indiv\u00edduos indiciados e presos. A advogada criminalista Lidiane Porto Padilha descreve o atual sistema de justi\u00e7a como uma m\u00e1quina de manuten\u00e7\u00e3o dos corpos negros no encarceramento. Ela \u00e9 uma das diretoras do <a href=\"https:\/\/caminhoinstituto.org\/\">Instituto Caminho<\/a>, organiza\u00e7\u00e3o que atua no estado ga\u00facho especialmente em casos de viol\u00eancia policial, erros judiciais e discrimina\u00e7\u00e3o racial. Conforme Lidiane, o abalo \u00e0 ordem p\u00fablica \u2013 principal justificativa utilizada pelos magistrados na manuten\u00e7\u00e3o de pris\u00f5es preventivas \u2013 \u00e9 um argumento gen\u00e9rico, que materializa o racismo estrutural. \u201c\u00c9 o m\u00e9todo mais f\u00e1cil para o Estado&nbsp; manter esses corpos presos\u201d, aponta.&nbsp;<\/p>\n\n\n<div class=\"wp-block-image\">\n<figure class=\"aligncenter size-large is-resized\"><img loading=\"lazy\" src=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/sextante\/wp-content\/uploads\/2025\/12\/04_Rodrigo-Forgiarini-672x1024.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-20242\" width=\"451\" height=\"686\" srcset=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/sextante\/wp-content\/uploads\/2025\/12\/04_Rodrigo-Forgiarini-672x1024.jpg 672w, https:\/\/www.ufrgs.br\/sextante\/wp-content\/uploads\/2025\/12\/04_Rodrigo-Forgiarini-197x300.jpg 197w\" sizes=\"(max-width: 451px) 100vw, 451px\" \/><figcaption>Warley e Lidiane trabalham no Instituto Caminha pelo acesso \u00e0 justi\u00e7a social e cidadania da popula\u00e7\u00e3o negra e perif\u00e9rica<\/figcaption><\/figure><\/div>\n\n\n<p>O uso do reconhecimento fotogr\u00e1fico, por meio do qual s\u00e3o apresentadas imagens de poss\u00edveis suspeitos de um crime, favorece esse cen\u00e1rio de disparidade jur\u00eddica.<a href=\"https:\/\/www.condege.org.br\/arquivos\/1029\"> Um levantamento realizado pela Defensoria P\u00fablica do Rio de Janeiro<\/a>, em parceria com o Col\u00e9gio Nacional de Defensores P\u00fablicos Gerais (Condege), apontou que em oito anos, de 2012 a 2020, foram feitas 90 pris\u00f5es injustas baseadas no m\u00e9todo. Desses acusados, 81% s\u00e3o negros.<\/p>\n\n\n<div class=\"wp-block-image\">\n<figure class=\"aligncenter size-full is-resized\"><img loading=\"lazy\" src=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/sextante\/wp-content\/uploads\/2025\/12\/Code_Generated_Image.png\" alt=\"\" class=\"wp-image-19994\" width=\"605\" height=\"605\" srcset=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/sextante\/wp-content\/uploads\/2025\/12\/Code_Generated_Image.png 800w, https:\/\/www.ufrgs.br\/sextante\/wp-content\/uploads\/2025\/12\/Code_Generated_Image-300x300.png 300w, https:\/\/www.ufrgs.br\/sextante\/wp-content\/uploads\/2025\/12\/Code_Generated_Image-150x150.png 150w, https:\/\/www.ufrgs.br\/sextante\/wp-content\/uploads\/2025\/12\/Code_Generated_Image-768x768.png 768w, https:\/\/www.ufrgs.br\/sextante\/wp-content\/uploads\/2025\/12\/Code_Generated_Image-600x600.png 600w\" sizes=\"(max-width: 605px) 100vw, 605px\" \/><figcaption>Fonte: Col\u00e9gio Nacional de Defensores P\u00fablicos Gerais (Condege) e Defensoria P\u00fablica do Rio de Janeiro<\/figcaption><\/figure><\/div>\n\n\n<p> Warley Souza, membro do Instituto Caminho, diz que o mecanismo \u00e9 falho, especialmente por induzir a autoria dos delitos \u00e0s pessoas pretas. \u201c\u00c9 horr\u00edvel, na maioria das vezes se mostra apenas uma foto <em>[do suposto criminoso]<\/em> e a v\u00edtima associa diretamente. At\u00e9 o jeito de fazer a pergunta influencia na resposta. Isso prejudica e aumenta o encarceramento\u201d, avalia.<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote\"><p> \u201cExiste um cuidado menor com a vida das pessoas perif\u00e9ricas.\u201d<\/p><cite><strong>TATIANA BOEIRA<\/strong>, defensora p\u00fablica<\/cite><\/blockquote>\n\n\n\n<p>Na vis\u00e3o de Tatiana, h\u00e1 uma rela\u00e7\u00e3o entre a desigualdade social do pa\u00eds e um sistema penal cada vez mais sobrecarregado. \u201cExiste um cuidado menor com a vida das pessoas perif\u00e9ricas.\u201d Em sua an\u00e1lise, a conjuntura repreensiva \u00e9 fortalecida&nbsp; pelo pensamento majoritariamente conservador brasileiro. \u201cQuando falamos que a viol\u00eancia surge das disparidades, tem muita gente que discorda. Tem quem ache que a pessoa j\u00e1 nasce bandido. Tudo isso \u00e9 o coquetel perfeito para que se prenda antes do julgamento\u201d, argumenta.<\/p>\n\n\n\n<p>No caso de pessoas injustamente presas, o tempo perdido \u00e9 irrecuper\u00e1vel, e uma repara\u00e7\u00e3o financeira s\u00f3 tem chance de ocorrer se o indiv\u00edduo buscar seus direitos por meio de um novo processo jur\u00eddico, o que pode causar uma situa\u00e7\u00e3o de revitimiza\u00e7\u00e3o. \u201cHoje o Estado n\u00e3o entende que as v\u00edtimas do seu pr\u00f3prio sistema deveriam ganhar indeniza\u00e7\u00e3o automaticamente\u201d, evidencia Lidiane.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<h2><strong>Caminhos reabertos<\/strong><\/h2>\n\n\n\n<p>Iniciativas como a do Instituto Caminho apontam a necessidade de um amparo para al\u00e9m do campo jur\u00eddico. Warley conta que a organiza\u00e7\u00e3o est\u00e1 montando uma equipe para tratar da sa\u00fade mental de pessoas presas injustamente. \u201cTrabalhamos em tr\u00eas \u00e1reas: acesso \u00e0 justi\u00e7a, desencarceramento e bem-viver. Queremos que as pessoas tenham suporte e refer\u00eancias para solicitar esse atendimento psicossocial\u201d, relata.<\/p>\n\n\n\n<p>A aus\u00eancia do Estado \u00e9 percebida como vetor principal no sequestro do tempo das pessoas indevidamente privadas de liberdade. De acordo com a psic\u00f3loga Danielle, alguns traumas se perpetuam, mas verbalizar os fatos em um atendimento psicossocial pode ajudar os indiv\u00edduos a ressignificar situa\u00e7\u00f5es vividas. \u201cQuanto mais eu consigo falar, mais eu consigo destrinchar esses sentimentos, que podem tomar formas menos dolorosas\u201d, diz.<\/p>\n\n\n\n<p>Para Tatiele e Luan, o trauma ainda faz parte do cotidiano. Luan desperta todos os dias \u00e0s 6h, hor\u00e1rio em que tinha que acordar na pris\u00e3o. Tatiele tem uma nova rotina. Est\u00e1 inserida no mercado de trabalho e cuidando dos dois filhos, mas as cenas que viveu s\u00e3o constantes em sua mem\u00f3ria. \u201cQuero seguir em frente, mas \u00e0s vezes v\u00eam na cabe\u00e7a os detalhes, parece um filme. Tu lembra e tem pesadelos ainda. S\u00e3o coisas que nem o tempo cura.\u201d<\/p>\n\n\n\n<h2>Linha do tempo<\/h2>\n\n\n<div class=\"wp-block-image\">\n<figure class=\"aligncenter size-large is-resized\"><img loading=\"lazy\" src=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/sextante\/wp-content\/uploads\/2025\/12\/Linha-do-tempo-2-729x1024.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-20042\" width=\"-100\" height=\"-140\" srcset=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/sextante\/wp-content\/uploads\/2025\/12\/Linha-do-tempo-2-729x1024.jpg 729w, https:\/\/www.ufrgs.br\/sextante\/wp-content\/uploads\/2025\/12\/Linha-do-tempo-2-214x300.jpg 214w, https:\/\/www.ufrgs.br\/sextante\/wp-content\/uploads\/2025\/12\/Linha-do-tempo-2.jpg 731w\" sizes=\"(max-width: 729px) 100vw, 729px\" \/><\/figure><\/div>\n\n\n<h2>Casos similares<\/h2>\n\n\n\n<ul><li><strong><a href=\"https:\/\/www.cnnbrasil.com.br\/nacional\/sul\/rs\/justica-determina-que-rs-pague-r-16-mi-a-homem-preso-injustamente\/\">Caso Israel<\/a><\/strong>: Israel foi condenado em 2008 por estupro e roubo, mas foi absolvido em 2018 pelo Supremo Tribunal Federal (STF) ap\u00f3s um exame de DNA comprovar sua inoc\u00eancia, apontando que o material gen\u00e9tico pertencia a outro indiv\u00edduo. Ele ficou 10 anos preso. O Estado do Rio Grande do Sul foi condenado pela Justi\u00e7a a pagar uma indeniza\u00e7\u00e3o de R$ 1,6 milh\u00e3o a Israel de Oliveira Pacheco.<\/li><\/ul>\n\n\n\n<ul><li><a href=\"https:\/\/g1.globo.com\/rs\/rio-grande-do-sul\/noticia\/2025\/11\/04\/caso-damaris-processa-estado-presa-preventivamente.ghtml\"><strong>Caso Damaris<\/strong><\/a>: Damaris Vit\u00f3ria Kremer da Rosa, de 26 anos, faleceu no \u00faltimo dia 26 de outubro, v\u00edtima de um c\u00e2ncer terminal, apenas 74 dias ap\u00f3s ter sua inoc\u00eancia reconhecida pelo Tribunal do J\u00fari. Ela estava presa preventivamente desde junho de 2019, acusada de homic\u00eddio qualificado e inc\u00eandio, e s\u00f3 conseguiu a convers\u00e3o para pris\u00e3o domiciliar em mar\u00e7o de 2025, ap\u00f3s o diagn\u00f3stico de neoplasia maligna do colo do \u00fatero, que exigia tratamento urgente. A jovem, que chegou a ser apontada como integrante de fac\u00e7\u00e3o criminosa, teve diversos pedidos de liberdade negados ao longo dos anos, e obteve a absolvi\u00e7\u00e3o em agosto, mas n\u00e3o resistiu \u00e0 doen\u00e7a que avan\u00e7ou rapidamente durante o per\u00edodo de reclus\u00e3o.<\/li><\/ul>\n\n\n\n<ul><li><a href=\"https:\/\/www.mpmt.mp.br\/portalcao\/news\/722\/100181\/estado-e-condenado-a-indenizar-primos-que-passaram-205-dias-presos-por-erro\/503\"><strong>Caso Pietro e Carlos: <\/strong><\/a>Os jovens primos, Pietro de Oliveira Bueno (24) e Carlos Pietro Gomes de Souza (22), ficaram 205 dias presos em S\u00e3o Jos\u00e9 dos Campos (SP) ap\u00f3s serem confundidos com assaltantes. Detidos em uma abordagem policial em fevereiro de 2018, eles tiveram suas fotos enviadas a v\u00edtimas de um assalto que, por meio da imagem, os reconheceram erroneamente, resultando na pris\u00e3o preventiva da dupla. Os jovens foram inocentados e absolvidos das acusa\u00e7\u00f5es em novembro de 2018, ap\u00f3s um laudo pericial comprovar o erro.<\/li><\/ul>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator has-alpha-channel-opacity\"\/>\n\n\n\n<div class=\"wp-container-3 wp-block-columns\">\n<div class=\"wp-container-1 wp-block-column\">\n<h2>LEIA MAIS:<\/h2>\n<\/div>\n\n\n\n<div class=\"wp-container-2 wp-block-column\">\n<ul><li><a href=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/sextante\/encontro-e-abandono\/\"><strong>Encontro e abandono<\/strong><\/a>: Isolamento, visita\u00e7\u00e3o, lealdade e muito mais. Como a socializa\u00e7\u00e3o de pessoas encarceradas se desenvolve em meio \u00e0s aproxima\u00e7\u00f5es e despedidas<\/li><li><a href=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/sextante\/ressocializacao-de-egressos\/\"><strong>Em busca da liberdade<\/strong><\/a>: Quem cumpriu sua pena n\u00e3o deve mais nada \u00e0 justi\u00e7a. Mas ser\u00e1 que a sociedade est\u00e1 pronta para perdoar?<\/li><\/ul>\n<\/div>\n<\/div>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator has-alpha-channel-opacity\"\/>\n\n\n\n<p><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Logo ap\u00f3s a perda do filho Arthur, de 45 dias, o casal Tatiele Goulart Guimar\u00e3es, de 31 anos, e Luan dos Santos, de 24, teve seu processo de luto interrompido. Ambos foram indiciados pela morte de Arthur. 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