{"id":19516,"date":"2025-12-11T11:27:38","date_gmt":"2025-12-11T14:27:38","guid":{"rendered":"https:\/\/www.ufrgs.br\/sextante\/?p=19516"},"modified":"2025-12-11T11:27:39","modified_gmt":"2025-12-11T14:27:39","slug":"excecoes-a-regra","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ufrgs.br\/sextante\/excecoes-a-regra\/","title":{"rendered":"Exce\u00e7\u00f5es \u00e0 regra"},"content":{"rendered":"\n<figure class=\"wp-block-audio\"><audio controls src=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/sextante\/wp-content\/uploads\/2025\/12\/2-audio-reportagem-.mp3\"><\/audio><figcaption>Ou\u00e7a a reportagem<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p>Chris Allves acaba de completar 35 anos. Ela se orgulha por ser muitas coisas: assistente social, diretora administrativa do Hospital Psiqui\u00e1trico S\u00e3o Pedro, m\u00e3e de santo e estudante de Medicina Veterin\u00e1ria. Gl\u00f3ria Crystal tem 60 anos. \u201cSessenta anos e cinco meses\u201d, enfatiza, orgulhosa. Ela trabalha no Centro Administrativo Fernando Ferrari (CAFF), em Porto Alegre, como diretora adjunta do <a href=\"https:\/\/justica.rs.gov.br\/inicial\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">Departamento de Diversidade Sexual e G\u00eanero da Secretaria de Justi\u00e7a, Cidadania e Direitos Humanos do Rio Grande do Sul<\/a>. Gl\u00f3ria e Chris s\u00e3o exce\u00e7\u00f5es \u00e0 regra: mulheres trans com empregos formais, ensino superior e que ocupam cargos de chefia. Ainda mais simb\u00f3lico: ultrapassam a idade m\u00e9dia de vida de pessoas trans no Brasil, que \u00e9 de 35 anos, segundo a <a href=\"https:\/\/antrabrasil.org\/\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">Associa\u00e7\u00e3o Nacional de Travestis e Transexuais (Antra)<\/a>.<\/p>\n\n\n<div class=\"wp-block-image\">\n<figure class=\"alignright size-large is-resized\"><img loading=\"lazy\" src=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/sextante\/wp-content\/uploads\/2025\/12\/Dados-IBGE-e-ANTRA-1-1024x1024.png\" alt=\"\" class=\"wp-image-20057\" width=\"424\" height=\"424\" srcset=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/sextante\/wp-content\/uploads\/2025\/12\/Dados-IBGE-e-ANTRA-1-1024x1024.png 1024w, https:\/\/www.ufrgs.br\/sextante\/wp-content\/uploads\/2025\/12\/Dados-IBGE-e-ANTRA-1-300x300.png 300w, https:\/\/www.ufrgs.br\/sextante\/wp-content\/uploads\/2025\/12\/Dados-IBGE-e-ANTRA-1-150x150.png 150w, https:\/\/www.ufrgs.br\/sextante\/wp-content\/uploads\/2025\/12\/Dados-IBGE-e-ANTRA-1-768x768.png 768w, https:\/\/www.ufrgs.br\/sextante\/wp-content\/uploads\/2025\/12\/Dados-IBGE-e-ANTRA-1-600x600.png 600w, https:\/\/www.ufrgs.br\/sextante\/wp-content\/uploads\/2025\/12\/Dados-IBGE-e-ANTRA-1.png 1080w\" sizes=\"(max-width: 424px) 100vw, 424px\" \/><\/figure><\/div>\n\n\n<p>S\u00e3o 41 anos a menos do que a expectativa de vida m\u00e9dia brasileira, que \u00e9 de <a href=\"https:\/\/agenciadenoticias.ibge.gov.br\/agencia-noticias\/2012-agencia-de-noticias\/noticias\/41984-em-2023-expectativa-de-vida-chega-aos-76-4-anos-e-supera-patamar-pre-pandemia\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">76,4 anos<\/a>, conforme o Instituto Brasileiro de Geografia e Estat\u00edstica (IBGE). A Antra \u00e9 uma das poucas fontes de dados estat\u00edsticos sobre a popula\u00e7\u00e3o trans no pa\u00eds. De forma independente, produz <a href=\"https:\/\/antrabrasil.org\/assassinatos\/\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">dossi\u00eas anuais<\/a> que registram assassinatos e outras formas de viol\u00eancia contra a comunidade. \u201cOs levantamentos s\u00e3o um ato pol\u00edtico e vital diante da pol\u00edtica de invisibiliza\u00e7\u00e3o e n\u00e3o produ\u00e7\u00e3o de registros governamentais consistentes\u201d, relata Bruna Benevides, presidenta da associa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n<div class=\"wp-block-image\">\n<figure class=\"aligncenter size-large\"><img loading=\"lazy\" width=\"1024\" height=\"773\" src=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/sextante\/wp-content\/uploads\/2025\/11\/Capa-Materia-Bru-Burmeister-72dpi-1-1024x773.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-19818\" srcset=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/sextante\/wp-content\/uploads\/2025\/11\/Capa-Materia-Bru-Burmeister-72dpi-1-1024x773.jpg 1024w, https:\/\/www.ufrgs.br\/sextante\/wp-content\/uploads\/2025\/11\/Capa-Materia-Bru-Burmeister-72dpi-1-300x227.jpg 300w, https:\/\/www.ufrgs.br\/sextante\/wp-content\/uploads\/2025\/11\/Capa-Materia-Bru-Burmeister-72dpi-1-768x580.jpg 768w, https:\/\/www.ufrgs.br\/sextante\/wp-content\/uploads\/2025\/11\/Capa-Materia-Bru-Burmeister-72dpi-1-1536x1160.jpg 1536w, https:\/\/www.ufrgs.br\/sextante\/wp-content\/uploads\/2025\/11\/Capa-Materia-Bru-Burmeister-72dpi-1-2048x1547.jpg 2048w, https:\/\/www.ufrgs.br\/sextante\/wp-content\/uploads\/2025\/11\/Capa-Materia-Bru-Burmeister-72dpi-1-1568x1184.jpg 1568w\" sizes=\"(max-width: 1024px) 100vw, 1024px\" \/><figcaption>Arte: Bru Burmeister <\/figcaption><\/figure><\/div>\n\n\n<p><a href=\"https:\/\/buscatextual.cnpq.br\/buscatextual\/visualizacv.do;jsessionid=286FA01F37537C3A79CC79717EB23053.buscatextual_0\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">M\u00e1rio Lahorgue<\/a>, professor de Geografia Humana na Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), explica que a expectativa de vida \u00e9 calculada a partir da m\u00e9dia de idade de morte da popula\u00e7\u00e3o. No entanto, como o IBGE n\u00e3o coleta dados por identidade de g\u00eanero, n\u00e3o h\u00e1 uma expectativa de vida trans oficial no Brasil. \u201cN\u00e3o existe dificuldade t\u00e9cnica em incluir o g\u00eanero nas pesquisas. O problema \u00e9 pol\u00edtico\u201d, afirma M\u00e1rio. Ele avalia que o tema ainda \u00e9 pol\u00eamico em alguns setores da sociedade, um campo de disputa. Diversas institui\u00e7\u00f5es demandam a inser\u00e7\u00e3o da identidade de g\u00eanero no Censo Demogr\u00e1fico do pa\u00eds, inclusive a Antra, que baseia as estat\u00edsticas principalmente nas not\u00edcias de mortes de pessoas trans publicadas em jornais.<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"https:\/\/buscatextual.cnpq.br\/buscatextual\/visualizacv.do\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">Nina Acacio<\/a>, pesquisadora de transgeneridade e doutoranda em Antropologia Social na UFRGS, destaca que iniciativas de universidades e organiza\u00e7\u00f5es trans s\u00e3o importantes, mas, sem respaldo do Estado, essas informa\u00e7\u00f5es n\u00e3o podem sustentar pol\u00edticas p\u00fablicas que poderiam prolongar a vida da comunidade. Bruna, da Antra, complementa: \u201cA falta de dados p\u00fablicos atualizados e separados por identidade de g\u00eanero impede diagn\u00f3sticos precisos e pol\u00edticas eficazes, tornando as pessoas trans estatisticamente invis\u00edveis\u201d.<br><\/p>\n\n\n\n<p>A viol\u00eancia f\u00edsica \u00e9 a express\u00e3o mais extrema da opress\u00e3o enfrentada por pessoas trans, mas seu tempo de vida \u00e9 encurtado por m\u00faltiplos fatores: exclus\u00e3o familiar, abandono escolar, discrimina\u00e7\u00e3o no mercado de trabalho e problemas de sa\u00fade mental. Tamb\u00e9m n\u00e3o existem dados oficiais sobre a sa\u00fade mental de pessoas trans, mas diversas pesquisas apontam tend\u00eancias negativas: 85,7% dentre 28 homens trans entrevistados em 2015 pelo N\u00facleo de Direitos Humanos e Cidadania LGBT da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) <a href=\"https:\/\/www.nuhufmg.com.br\/homens-trans-relatorio2.pdf\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">j\u00e1 pensaram em suic\u00eddio<\/a>. Isso \u00e9 resultado de diversos preconceitos e da falta de direitos enfrentados. \u201cA pessoa trans n\u00e3o se suicida, \u00e9 suicidada\u201d, resume Nina.<\/p>\n\n\n\n<h2>Contando o que ningu\u00e9m conta<\/h2>\n\n\n\n<p>Enquanto o IBGE n\u00e3o coleta dados espec\u00edficos sobre identidade de g\u00eanero, algumas cidades fazem pesquisas locais. Em 2025, Cachoeirinha, cidade da regi\u00e3o metropolitana de Porto Alegre, lan\u00e7ou seu primeiro <a href=\"https:\/\/www.oreporter.net\/cachoeirinha-lanca-o-censo-lgbtqiapn-saiba-como-participar\/\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">Censo LGBTQIA+<\/a>, proposto pelo vereador Gustavo Almansa (PT). A partir desses dados, ser\u00e1 poss\u00edvel fundamentar a cria\u00e7\u00e3o de pol\u00edticas p\u00fablicas para essa popula\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>A poucos quil\u00f4metros dali, o ent\u00e3o secret\u00e1rio de Diversidades e dos povos e Comunidades Tradicionais de Canoas, Pai Santiago, conduziu, em 2023, um projeto semelhante: criou o primeiro <a href=\"https:\/\/www.canoas.rs.gov.br\/noticias\/canoas-realiza-1o-censo-lgbtqiapn\/\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">Censo LGBTQIA+<\/a> da cidade. Para o ex-secret\u00e1rio, n\u00e3o se faz pol\u00edtica p\u00fablica sem dados. Os resultados serviriam de base para novas a\u00e7\u00f5es. Com o fim de sua gest\u00e3o, no entanto, o censo deixou de ser atualizado, e as an\u00e1lises pararam. <\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-large\"><img loading=\"lazy\" width=\"1024\" height=\"683\" src=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/sextante\/wp-content\/uploads\/2025\/11\/02_Guilherme-Vivan-1024x683.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-19846\" srcset=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/sextante\/wp-content\/uploads\/2025\/11\/02_Guilherme-Vivan-1024x683.jpg 1024w, https:\/\/www.ufrgs.br\/sextante\/wp-content\/uploads\/2025\/11\/02_Guilherme-Vivan-300x200.jpg 300w, https:\/\/www.ufrgs.br\/sextante\/wp-content\/uploads\/2025\/11\/02_Guilherme-Vivan-768x512.jpg 768w, https:\/\/www.ufrgs.br\/sextante\/wp-content\/uploads\/2025\/11\/02_Guilherme-Vivan-1536x1024.jpg 1536w, https:\/\/www.ufrgs.br\/sextante\/wp-content\/uploads\/2025\/11\/02_Guilherme-Vivan-2048x1365.jpg 2048w, https:\/\/www.ufrgs.br\/sextante\/wp-content\/uploads\/2025\/11\/02_Guilherme-Vivan-1200x800.jpg 1200w, https:\/\/www.ufrgs.br\/sextante\/wp-content\/uploads\/2025\/11\/02_Guilherme-Vivan-1568x1045.jpg 1568w\" sizes=\"(max-width: 1024px) 100vw, 1024px\" \/><figcaption>Antigamente, era raro ver pessoas trans com empregos formais. Hoje, Gl\u00f3ria \u00e9 uma autoridade no governo | Foto: Guilherme Vivan<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p>Nos anos 1980, o estigma do HIV enfrentado pela comunidade LGBT tornava a vida de Gl\u00f3ria ainda mais \u00e1rdua. Travestis evitavam sair durante o dia, j\u00e1 que xingamentos, empurr\u00f5es e chutes eram comuns. \u201cEu sentava no  \u00f4nibus e ningu\u00e9m queria sentar do meu lado.\u201d Gl\u00f3ria costumava fazer muitos shows drag. Lembra especialmente de uma apresenta\u00e7\u00e3o, j\u00e1 nos anos 2000: dublando \u201c<em><a href=\"https:\/\/youtu.be\/4nTl4Rmf6AI?si=8JmjgyxrqMLx5Wjk\">Supermodel<\/a><\/em> \u201d da RuPaul, lotou o bar Opini\u00e3o em Porto Alegre. Depois de ser ovacionada pelo p\u00fablico, caminhava para outra boate quando sentiu uma voadora nas costas e a surra come\u00e7ou. \u201cO cara me bateu com a cabe\u00e7a num vidro de Chevette. Ningu\u00e9m fez nada. Cada um saiu correndo para um lado. Eu consegui fugir, mas apanhei muito\u201d, conta. \u201cPensa: tu t\u00e1 no palco, sendo aplaudida, e minutos depois apanha na rua. Era comum.\u201d<\/p>\n\n\n\n<p>Denunciar n\u00e3o era uma possibilidade. Gl\u00f3ria diz que a pr\u00f3pria pol\u00edcia perseguia pessoas trans. Muitas vezes foi levada para a antiga Delegacia dos Costumes, \u00f3rg\u00e3o da Pol\u00edcia Civil, que, segundo Gl\u00f3ria, perseguia travestis. Eram humilhadas, limpavam a delegacia e apanhavam. \u201cL\u00e1, sofr\u00edamos todo tipo de viol\u00eancia. Algumas foram estupradas. Depois, nos largavam em qualquer lugar.\u201d<\/p>\n\n\n\n<h2>Um outro compasso<\/h2>\n\n\n\n<p>Os anos passaram e, aos poucos, o Brasil foi mudando. Em 2018, a hoje deputada federal Erika Hilton (PSOL), mulher trans, foi a vereadora que recebeu mais votos em todo o pa\u00eds. Al\u00e9m disso, em 2020, foi inaugurada a <a href=\"https:\/\/www.pc.rs.gov.br\/delegacia-de-combate-a-intolerancia\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">Delegacia de Combate \u00e0 Intoler\u00e2ncia em Porto Alegre<\/a>. Mesmo assim, foi por pouco que Chris sobreviveu a uma tentativa de assassinato em 2022.<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote\"><p>&#8220;Hoje, se me baterem v\u00e3o ter que me matar, porque viva eu fa\u00e7o esc\u00e2ndalo&#8221;<\/p><cite>Gl\u00f3ria Crystal<br>diretora adjunta do Departamento de Diversidade Sexual e G\u00eanero do RS<\/cite><\/blockquote>\n\n\n\n<p>Concorrendo \u00e0 deputada federal, ela entregava panfletos no bairro Passo Fundo, em Gua\u00edba, cidade na regi\u00e3o metropolitana de Porto Alegre, quando um homem apontou uma arma para sua cabe\u00e7a. Disse que iria mat\u00e1-la. Talvez pela quantidade de gente em volta, ele n\u00e3o tenha puxado o gatilho e fugiu. Chris registrou um boletim de ocorr\u00eancia, mas nunca recebeu retorno. Nenhum contato, nenhuma resposta, nenhum desfecho.<\/p>\n\n\n<div class=\"wp-block-image\">\n<figure class=\"alignleft size-large\"><img loading=\"lazy\" width=\"1024\" height=\"683\" src=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/sextante\/wp-content\/uploads\/2025\/11\/03_Guilherme-Vivan-1024x683.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-19813\" srcset=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/sextante\/wp-content\/uploads\/2025\/11\/03_Guilherme-Vivan-1024x683.jpg 1024w, https:\/\/www.ufrgs.br\/sextante\/wp-content\/uploads\/2025\/11\/03_Guilherme-Vivan-300x200.jpg 300w, https:\/\/www.ufrgs.br\/sextante\/wp-content\/uploads\/2025\/11\/03_Guilherme-Vivan-768x512.jpg 768w, https:\/\/www.ufrgs.br\/sextante\/wp-content\/uploads\/2025\/11\/03_Guilherme-Vivan-1536x1024.jpg 1536w, https:\/\/www.ufrgs.br\/sextante\/wp-content\/uploads\/2025\/11\/03_Guilherme-Vivan-2048x1365.jpg 2048w, https:\/\/www.ufrgs.br\/sextante\/wp-content\/uploads\/2025\/11\/03_Guilherme-Vivan-1200x800.jpg 1200w, https:\/\/www.ufrgs.br\/sextante\/wp-content\/uploads\/2025\/11\/03_Guilherme-Vivan-1568x1045.jpg 1568w\" sizes=\"(max-width: 1024px) 100vw, 1024px\" \/><figcaption>Neste local, na rua A, do bairro Passo Fundo em Gua\u00edba, Chris sobreviveu a uma tentativa de assassinato | Foto: Guilherme Vivan<\/figcaption><\/figure><\/div>\n\n\n<p>Sobre o tempo, a antrop\u00f3loga Nina reflete: \u201cA gente tenta seguir uma certa ideia linear, mas, quando falamos de pessoas trans e travestis, essa linearidade n\u00e3o se aplica\u201d. Para ela, h\u00e1 um outro compasso, uma outra medida que escapa aos ponteiros. \u201cA gente precisa lutar para conquistar o m\u00ednimo, ter o nome reconhecido, por exemplo. Em alguns aspectos, tudo acontece r\u00e1pido demais. Em outros, tudo demora: o tempo da burocracia, o tempo da espera, o tempo do cansa\u00e7o.\u201d<\/p>\n\n\n\n<p>A experi\u00eancia de Chris tem a dualidade da qual Nina fala. Com apenas 35 anos, ela j\u00e1 fez de tudo. Como m\u00e3e de santo, teve 120 filhos. Foi a primeira a ocupar o cargo de conselheira municipal de povos de matriz africana em Gua\u00edba, cidade onde tamb\u00e9m presidiu o partido Movimento Democr\u00e1tico Brasileiro (MDB), tornando-se a primeira mulher trans a presidir o partido em qualquer n\u00edvel federativo. Em 2024, aventurou-se no concurso de Miss Universe Trans e ganhou na categoria popularidade. Hoje, lembra do come\u00e7o, da primeira profissionaliza\u00e7\u00e3o que fez: um curso de cabeleireira e maquiadora. Com 18 anos, j\u00e1 pensava: \u201cA oportunidade de uma mulher trans \u00e9 onde? Ou no sal\u00e3o, ou na prostitui\u00e7\u00e3o\u201d. Chris se preparava para enfrentar o mundo mesmo antes de transicionar. Quando se sentiu segura e finalmente tomou a decis\u00e3o, aos 28 anos, estava t\u00e3o pronta que fez a cirurgia s\u00f3 13 dias depois.<\/p>\n\n\n\n<p>Os progressos s\u00e3o d\u00fabios. Gl\u00f3ria j\u00e1 se sente segura no transporte p\u00fablico e n\u00e3o sofre mais viol\u00eancia f\u00edsica nesse espa\u00e7o. J\u00e1 \u00e9 poss\u00edvel ver travestis na rua durante o dia. Ainda assim, conta que ir ao banheiro, algo t\u00e3o simples, pode ser constrangedor. \u201cMas eu n\u00e3o preciso que me aceitem, s\u00f3 que me respeitem.\u201d Por isso, pretende seguir lutando. \u201cEu n\u00e3o fico mais calada. Durante muito tempo eu tinha medo, observava tudo. Mas hoje n\u00e3o. Hoje, se me baterem, v\u00e3o ter que me matar, porque viva eu fa\u00e7o esc\u00e2ndalo.\u201d<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-container-2 wp-block-gallery-1 wp-block-gallery has-nested-images columns-default is-cropped\">\n<figure class=\"wp-block-image size-large\"><img loading=\"lazy\" width=\"1024\" height=\"683\" data-id=\"19851\"  src=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/sextante\/wp-content\/uploads\/2025\/11\/Guilherme-Vivangloria-5-1024x683.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-19851\" srcset=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/sextante\/wp-content\/uploads\/2025\/11\/Guilherme-Vivangloria-5-1024x683.jpg 1024w, https:\/\/www.ufrgs.br\/sextante\/wp-content\/uploads\/2025\/11\/Guilherme-Vivangloria-5-300x200.jpg 300w, https:\/\/www.ufrgs.br\/sextante\/wp-content\/uploads\/2025\/11\/Guilherme-Vivangloria-5-768x512.jpg 768w, https:\/\/www.ufrgs.br\/sextante\/wp-content\/uploads\/2025\/11\/Guilherme-Vivangloria-5-1536x1024.jpg 1536w, https:\/\/www.ufrgs.br\/sextante\/wp-content\/uploads\/2025\/11\/Guilherme-Vivangloria-5-2048x1365.jpg 2048w, https:\/\/www.ufrgs.br\/sextante\/wp-content\/uploads\/2025\/11\/Guilherme-Vivangloria-5-1200x800.jpg 1200w, https:\/\/www.ufrgs.br\/sextante\/wp-content\/uploads\/2025\/11\/Guilherme-Vivangloria-5-1568x1045.jpg 1568w\" sizes=\"(max-width: 1024px) 100vw, 1024px\" \/><figcaption>Gl\u00f3ria Crystal est\u00e1 feliz. Feliz em envelhecer, feliz por poder pegar \u00f4nibus em paz, feliz e orgulhosa pelo seu trabalho | Foto: Guilherme Vivan<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-large\"><img loading=\"lazy\" width=\"683\" height=\"1024\" data-id=\"19850\"  src=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/sextante\/wp-content\/uploads\/2025\/11\/Guilherme-Vivangloria-4-683x1024.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-19850\" srcset=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/sextante\/wp-content\/uploads\/2025\/11\/Guilherme-Vivangloria-4-683x1024.jpg 683w, https:\/\/www.ufrgs.br\/sextante\/wp-content\/uploads\/2025\/11\/Guilherme-Vivangloria-4-200x300.jpg 200w, https:\/\/www.ufrgs.br\/sextante\/wp-content\/uploads\/2025\/11\/Guilherme-Vivangloria-4-768x1152.jpg 768w, https:\/\/www.ufrgs.br\/sextante\/wp-content\/uploads\/2025\/11\/Guilherme-Vivangloria-4-1024x1536.jpg 1024w, https:\/\/www.ufrgs.br\/sextante\/wp-content\/uploads\/2025\/11\/Guilherme-Vivangloria-4-1365x2048.jpg 1365w, https:\/\/www.ufrgs.br\/sextante\/wp-content\/uploads\/2025\/11\/Guilherme-Vivangloria-4-600x900.jpg 600w, https:\/\/www.ufrgs.br\/sextante\/wp-content\/uploads\/2025\/11\/Guilherme-Vivangloria-4-1568x2352.jpg 1568w, https:\/\/www.ufrgs.br\/sextante\/wp-content\/uploads\/2025\/11\/Guilherme-Vivangloria-4-scaled.jpg 1707w\" sizes=\"(max-width: 683px) 100vw, 683px\" \/><figcaption>Gl\u00f3ria nos recebeu para entrevista no seu lugar de trabalho, onde exp\u00f5e pr\u00eamios e mem\u00f3rias | Foto: Guilherme Vivan<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-large\"><img loading=\"lazy\" width=\"683\" height=\"1024\" data-id=\"19848\"  src=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/sextante\/wp-content\/uploads\/2025\/11\/01_Guilherme-Vivan-683x1024.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-19848\" srcset=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/sextante\/wp-content\/uploads\/2025\/11\/01_Guilherme-Vivan-683x1024.jpg 683w, https:\/\/www.ufrgs.br\/sextante\/wp-content\/uploads\/2025\/11\/01_Guilherme-Vivan-200x300.jpg 200w, https:\/\/www.ufrgs.br\/sextante\/wp-content\/uploads\/2025\/11\/01_Guilherme-Vivan-768x1152.jpg 768w, https:\/\/www.ufrgs.br\/sextante\/wp-content\/uploads\/2025\/11\/01_Guilherme-Vivan-1024x1536.jpg 1024w, https:\/\/www.ufrgs.br\/sextante\/wp-content\/uploads\/2025\/11\/01_Guilherme-Vivan-1365x2048.jpg 1365w, https:\/\/www.ufrgs.br\/sextante\/wp-content\/uploads\/2025\/11\/01_Guilherme-Vivan-600x900.jpg 600w, https:\/\/www.ufrgs.br\/sextante\/wp-content\/uploads\/2025\/11\/01_Guilherme-Vivan-1568x2352.jpg 1568w, https:\/\/www.ufrgs.br\/sextante\/wp-content\/uploads\/2025\/11\/01_Guilherme-Vivan-scaled.jpg 1707w\" sizes=\"(max-width: 683px) 100vw, 683px\" \/><figcaption>Dia 10 de outubro de 2025, Chris Allves completou 35 anos. Para mulheres trans no Brasil, envelhecer \u00e9 uma conquista | Foto: Guilherme Vivan<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-large\"><img loading=\"lazy\" width=\"683\" height=\"1024\" data-id=\"19852\"  src=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/sextante\/wp-content\/uploads\/2025\/11\/Guilherme-Vivan-9-chris-683x1024.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-19852\" srcset=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/sextante\/wp-content\/uploads\/2025\/11\/Guilherme-Vivan-9-chris-683x1024.jpg 683w, https:\/\/www.ufrgs.br\/sextante\/wp-content\/uploads\/2025\/11\/Guilherme-Vivan-9-chris-200x300.jpg 200w, https:\/\/www.ufrgs.br\/sextante\/wp-content\/uploads\/2025\/11\/Guilherme-Vivan-9-chris-768x1152.jpg 768w, https:\/\/www.ufrgs.br\/sextante\/wp-content\/uploads\/2025\/11\/Guilherme-Vivan-9-chris-1024x1536.jpg 1024w, https:\/\/www.ufrgs.br\/sextante\/wp-content\/uploads\/2025\/11\/Guilherme-Vivan-9-chris-1365x2048.jpg 1365w, https:\/\/www.ufrgs.br\/sextante\/wp-content\/uploads\/2025\/11\/Guilherme-Vivan-9-chris-600x900.jpg 600w, https:\/\/www.ufrgs.br\/sextante\/wp-content\/uploads\/2025\/11\/Guilherme-Vivan-9-chris-1568x2352.jpg 1568w, https:\/\/www.ufrgs.br\/sextante\/wp-content\/uploads\/2025\/11\/Guilherme-Vivan-9-chris-scaled.jpg 1707w\" sizes=\"(max-width: 683px) 100vw, 683px\" \/><figcaption>Chris foi a vencedora na categoria popularidade no concurso de Miss Universe Trans  | Foto: Guilherme Vivan<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-large\"><img loading=\"lazy\" width=\"1024\" height=\"683\" data-id=\"19847\"  src=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/sextante\/wp-content\/uploads\/2025\/11\/Guilherme-Vivan-6-chris-1024x683.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-19847\" srcset=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/sextante\/wp-content\/uploads\/2025\/11\/Guilherme-Vivan-6-chris-1024x683.jpg 1024w, https:\/\/www.ufrgs.br\/sextante\/wp-content\/uploads\/2025\/11\/Guilherme-Vivan-6-chris-300x200.jpg 300w, https:\/\/www.ufrgs.br\/sextante\/wp-content\/uploads\/2025\/11\/Guilherme-Vivan-6-chris-768x512.jpg 768w, https:\/\/www.ufrgs.br\/sextante\/wp-content\/uploads\/2025\/11\/Guilherme-Vivan-6-chris-1536x1024.jpg 1536w, https:\/\/www.ufrgs.br\/sextante\/wp-content\/uploads\/2025\/11\/Guilherme-Vivan-6-chris-2048x1365.jpg 2048w, https:\/\/www.ufrgs.br\/sextante\/wp-content\/uploads\/2025\/11\/Guilherme-Vivan-6-chris-1200x800.jpg 1200w, https:\/\/www.ufrgs.br\/sextante\/wp-content\/uploads\/2025\/11\/Guilherme-Vivan-6-chris-1568x1045.jpg 1568w\" sizes=\"(max-width: 1024px) 100vw, 1024px\" \/><figcaption>Chris ressalta a gratid\u00e3o que sente por tudo que j\u00e1 conquistou e agradece Oxal\u00e1  | Foto: Guilherme Vivan<\/figcaption><\/figure>\n<\/figure>\n\n\n\n<h2><\/h2>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator has-alpha-channel-opacity\"\/>\n\n\n\n<div class=\"wp-container-5 wp-block-columns\">\n<div class=\"wp-container-3 wp-block-column\">\n<h2>LEIA MAIS<\/h2>\n<\/div>\n\n\n\n<div class=\"wp-container-4 wp-block-column\">\n<ul><li><a href=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/sextante\/o-preto-entre-o-azul-e-o-rosa\/\"><strong>O preto entre o azul e o rosa:<\/strong><\/a> Mulheres trans e negras de diferentes idades contam hist\u00f3rias e refletem sobre passado, presente e futuro em um pa\u00eds que quer neg\u00e1-las o direito aos tr\u00eas<\/li><li><strong><a href=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/sextante\/transgredindo-a-idade\/\">Transgredindo a idade:<\/a><\/strong> Visto como algo negativo, envelhecimento \u00e9 privil\u00e9gio entre pessoas trans e travestis. Para as que ultrapassam a expectativa de vida, a perspectiva \u00e9 de um futuro gentil e afetuoso<\/li><\/ul>\n<\/div>\n<\/div>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator has-alpha-channel-opacity\"\/>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Chris Allves acaba de completar 35 anos. Ela se orgulha por ser muitas coisas: assistente social, diretora administrativa do Hospital Psiqui\u00e1trico S\u00e3o Pedro, m\u00e3e de santo e estudante de Medicina Veterin\u00e1ria. Gl\u00f3ria Crystal tem 60 anos. \u201cSessenta anos e cinco meses\u201d, enfatiza, orgulhosa. 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