{"id":20720,"date":"2026-06-28T13:54:45","date_gmt":"2026-06-28T16:54:45","guid":{"rendered":"https:\/\/www.ufrgs.br\/sextante\/?p=20720"},"modified":"2026-06-28T13:54:47","modified_gmt":"2026-06-28T16:54:47","slug":"sementes-de-fe","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ufrgs.br\/sextante\/sementes-de-fe\/","title":{"rendered":"Sementes de F\u00e9"},"content":{"rendered":"\n<p>De acordo com a lenda, Ik\u00fa, a morte, estava assolando uma aldeia levando pessoas antes da hora. O or\u00e1culo If\u00e1 disse que somente Ibeji, orix\u00e1-g\u00eameo que forma uma s\u00f3 divindade, poderia deter a entidade. Tocando tambores m\u00e1gicos, os irm\u00e3os encantaram Ik\u00fa que, incapaz de resistir ao ritmo, dan\u00e7ou sem parar. Exausta, a morte implorou para que o ritmo cessasse. Ibeji concordou em parar, desde que Ik\u00fa deixasse a aldeia.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cEles s\u00e3o orix\u00e1s crian\u00e7as, mas n\u00e3o s\u00e3o infantilizados. Eles s\u00e3o pensados como grandes divindades, poderos\u00edssimas\u201d, explica o pai de santo e te\u00f3logo Hendrix da Silveira, que pesquisa afroteologia. \u201cEsse poder \u00e9 o que os coloca no mesmo n\u00edvel das demais divindades, mesmo que essas sejam adultas ou mais velhas.\u201d No batuque, religi\u00e3o de matriz africana cultuada no Rio Grande do Sul, cada terreiro tem um&nbsp; orix\u00e1 \u2013 divindade africana \u2013, que \u00e9 padroeiro e santo pessoal do pai ou da m\u00e3e de santo. Ibeji \u00e9 representado por uma dupla de crian\u00e7as, que s\u00e3o filhos de Xang\u00f4 e Oxum, e se manifestam com caracter\u00edsticas de um dos pais, sendo ou Xang\u00f4 Ibeji ou Oxum Ibeji.&nbsp;&nbsp;<\/p>\n\n\n<div class=\"wp-block-image\">\n<figure class=\"alignright size-large is-resized\"><img loading=\"lazy\" src=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/sextante\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/FOTO-2-Nico-Kuara-Costamilan-1024x768.jpeg\" alt=\"\" class=\"wp-image-20645\" width=\"471\" height=\"353\" srcset=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/sextante\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/FOTO-2-Nico-Kuara-Costamilan-1024x768.jpeg 1024w, https:\/\/www.ufrgs.br\/sextante\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/FOTO-2-Nico-Kuara-Costamilan-300x225.jpeg 300w, https:\/\/www.ufrgs.br\/sextante\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/FOTO-2-Nico-Kuara-Costamilan-768x576.jpeg 768w, https:\/\/www.ufrgs.br\/sextante\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/FOTO-2-Nico-Kuara-Costamilan-1536x1152.jpeg 1536w, https:\/\/www.ufrgs.br\/sextante\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/FOTO-2-Nico-Kuara-Costamilan-2048x1536.jpeg 2048w, https:\/\/www.ufrgs.br\/sextante\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/FOTO-2-Nico-Kuara-Costamilan-1568x1176.jpeg 1568w\" sizes=\"(max-width: 471px) 100vw, 471px\" \/><figcaption>Ibeji \u00e9 o orix\u00e1 da dualidade e da alegria nas religiosidades afro-brasileiras, cujo nome na l\u00edngua Iorub\u00e1 significa &#8220;nascer dois\u201d | Foto: Nico K\u00fbara Costamilan<\/figcaption><\/figure><\/div>\n\n\n<p>Xang\u00f4 Ibeji, como o nome indica, \u00e9 o orix\u00e1 do<em> Il\u00ea Afro de Xang\u00f4 Ibeji<\/em>, casa de matriz africana localizada em Alvorada, na regi\u00e3o metropolitana de Porto Alegre. A m\u00e3e de santo, ou ialorix\u00e1, Claudia Cardinali dos Santos Fontoura conta que a decora\u00e7\u00e3o do local \u00e9 pensada a partir de elementos da inf\u00e2ncia, com representa\u00e7\u00f5es religiosas acompanhadas de brinquedos e doces. \u201c\u00c9 do nosso ax\u00e9\u201d, ela diz, enquanto arruma o altar, se referindo \u00e0 energia sagrada de Ibeji.<\/p>\n\n\n\n<p>De acordo com o Instituto Brasileiro de Geografia e Estat\u00edstica (IBGE), o Rio Grande do Sul \u00e9 o estado que possui o maior n\u00famero de praticantes de religi\u00f5es de matriz africana, totalizando 3,2% da popula\u00e7\u00e3o. O <a href=\"https:\/\/agenciadenoticias.ibge.gov.br\/media\/com_mediaibge\/arquivos\/3f1708b5d315aca50d5a7d8764469c45.pdf\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">Censo Demogr\u00e1fico de 2022<\/a> mostra que, a n\u00edvel nacional, a propor\u00e7\u00e3o \u00e9 de 1%. O batuque, tamb\u00e9m conhecido como Na\u00e7\u00e3o, \u00e9 uma religi\u00e3o que come\u00e7ou a ser cultuada no estado ga\u00facho no s\u00e9culo XIX. Assim como o candombl\u00e9 e a umbanda, surgiu de uma fraternidade entre os povos negros trazidos da \u00c1frica para o Brasil no processo de escraviza\u00e7\u00e3o.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<h2><strong>Orix\u00e1-crian\u00e7a<\/strong><\/h2>\n\n\n\n<p>Outra lenda sagrada, ou it\u00e3, diz que os g\u00eameos, um menino e uma menina, eram astutos e brincalh\u00f5es. Um dia, brincando \u00e0 beira do rio, o menino cai e se afoga. A irm\u00e3, desolada com a perda, diz que o mundo entristeceu e come\u00e7aria a definhar. Olodumar\u00e9, orix\u00e1 criador supremo, ao ver a situa\u00e7\u00e3o, toma a irm\u00e3 para o Orun, mundo espiritual, e, no lugar dela e do irm\u00e3o, coloca duas est\u00e1tuas de madeira<em>.<\/em> De acordo com o te\u00f3logo Hendrix, foi assim que o povo Iorub\u00e1 come\u00e7ou a cultuar a imagem dos g\u00eameos, para que a alegria voltasse ao mundo.<\/p>\n\n\n\n<p>A religiosidade Iorub\u00e1, um dos maiores grupos \u00e9tnicos e lingu\u00edsticos da \u00c1frica, estruturou-se em uma \u00e9poca de alta mortalidade infantil em que se acreditava que rituais sagrados ajudavam na sobreviv\u00eancia das crian\u00e7as. Segundo Hendrix, isso justifica o principal culto ao orix\u00e1 g\u00eameo ser a Mesa de Ibeji. \u201c\u00c9 um ritual de nutri\u00e7\u00e3o, de alimento, em que a crian\u00e7a senta e tem toda uma complexidade ritual\u00edstica para garantir um dos valores africanos, o Ubuntu.\u201d Esse conceito defende que o coletivo \u00e9 mais importante que o individual.<\/p>\n\n\n\n<p>No culto da Mesa, as crian\u00e7as n\u00e3o podem comer enquanto a \u00faltima n\u00e3o for servida. Todas devem comer juntas. Para homenagear a divindade, deve-se assegurar a preserva\u00e7\u00e3o da vida dos mais jovens.<\/p>\n\n\n<div class=\"wp-block-image\">\n<figure class=\"alignleft size-large is-resized\"><img loading=\"lazy\" src=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/sextante\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/FOTO-3-Nico-Kuara-Costamilan-1024x768.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-20668\" width=\"503\" height=\"377\" srcset=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/sextante\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/FOTO-3-Nico-Kuara-Costamilan-1024x768.jpg 1024w, https:\/\/www.ufrgs.br\/sextante\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/FOTO-3-Nico-Kuara-Costamilan-300x225.jpg 300w, https:\/\/www.ufrgs.br\/sextante\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/FOTO-3-Nico-Kuara-Costamilan-768x576.jpg 768w, https:\/\/www.ufrgs.br\/sextante\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/FOTO-3-Nico-Kuara-Costamilan-1536x1152.jpg 1536w, https:\/\/www.ufrgs.br\/sextante\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/FOTO-3-Nico-Kuara-Costamilan-2048x1536.jpg 2048w, https:\/\/www.ufrgs.br\/sextante\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/FOTO-3-Nico-Kuara-Costamilan-1568x1176.jpg 1568w\" sizes=\"(max-width: 503px) 100vw, 503px\" \/><figcaption>Na Mesa de Ibeji s\u00e3o oferecidos alimentos como canja, doces, salgados, frutas e bebidas doces | Foto: Nico K\u00fbara Costamilan<\/figcaption><\/figure><\/div>\n\n\n<p>Sofia Peixoto, de 14 anos, conta que foi por causa da sua sa\u00fade que fez seu primeiro ritual de compromisso com o orix\u00e1<em>, <\/em>aos tr\u00eas anos. \u201cQuando eu nasci, a minha av\u00f3 jogou b\u00fazios pra mim. E eu sou um <em>Abicu<\/em>, uma crian\u00e7a fujona, que vem do Orun e n\u00e3o fica por muito tempo aqui na terra. E a\u00ed eu tive que ir pro ch\u00e3o [<em>inicia\u00e7\u00e3o na religi\u00e3o<\/em>]\u201d, explica Sofia.<\/p>\n\n\n\n<p>M\u00e3e Claudia de Xang\u00f4 Ibeji, de 42 anos, \u00e9 a quarta gera\u00e7\u00e3o de Ialorix\u00e1s da sua Na\u00e7\u00e3o. Ap\u00f3s ser diagnosticada com leucemia aos tr\u00eas anos, Claudia foi levada por sua av\u00f3 a um terreiro, onde come\u00e7ou sua trajet\u00f3ria espiritual. Segundo a m\u00e3e de santo, a continuidade da tradi\u00e7\u00e3o \u00e9 garantida pela presen\u00e7a das crian\u00e7as no territ\u00f3rio sagrado e pelo conhecimento dos fundamentos da f\u00e9.<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cEsse ensinamento \u00e9 necess\u00e1rio para que elas sejam guardi\u00e3s da ancestralidade. \u00c9 necess\u00e1rio mant\u00ea-las com sabedoria e acolhimento, para que possam respeitar o amanh\u00e3\u201d, afirma Claudia. \u201cEssas crian\u00e7as sempre ser\u00e3o reverenciadas e agraciadas, elas sempre ser\u00e3o nossa for\u00e7a e ess\u00eancia. Se n\u00e3o tiver crian\u00e7a, n\u00e3o tem ax\u00e9.\u201d<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-container-2 wp-block-gallery-1 wp-block-gallery has-nested-images columns-default is-cropped\">\n<figure class=\"wp-block-image size-large\"><img loading=\"lazy\" width=\"2048\" height=\"1535\" data-id=\"21402\"  src=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/sextante\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/3-IMG_1394.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-21402\" srcset=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/sextante\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/3-IMG_1394.jpg 2048w, https:\/\/www.ufrgs.br\/sextante\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/3-IMG_1394-300x225.jpg 300w, https:\/\/www.ufrgs.br\/sextante\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/3-IMG_1394-1024x768.jpg 1024w, https:\/\/www.ufrgs.br\/sextante\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/3-IMG_1394-768x576.jpg 768w, https:\/\/www.ufrgs.br\/sextante\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/3-IMG_1394-1536x1151.jpg 1536w, https:\/\/www.ufrgs.br\/sextante\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/3-IMG_1394-1568x1175.jpg 1568w\" sizes=\"(max-width: 2048px) 100vw, 2048px\" \/><figcaption>Foto 1: Nico K\u00fbara Costamilan<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-large\"><img loading=\"lazy\" width=\"2048\" height=\"1535\" data-id=\"21401\"  src=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/sextante\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/2-IMG_1470.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-21401\" srcset=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/sextante\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/2-IMG_1470.jpg 2048w, https:\/\/www.ufrgs.br\/sextante\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/2-IMG_1470-300x225.jpg 300w, https:\/\/www.ufrgs.br\/sextante\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/2-IMG_1470-1024x768.jpg 1024w, https:\/\/www.ufrgs.br\/sextante\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/2-IMG_1470-768x576.jpg 768w, https:\/\/www.ufrgs.br\/sextante\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/2-IMG_1470-1536x1151.jpg 1536w, https:\/\/www.ufrgs.br\/sextante\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/2-IMG_1470-1568x1175.jpg 1568w\" sizes=\"(max-width: 2048px) 100vw, 2048px\" \/><figcaption>Foto 2: Nico K\u00fbara Costamilan<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-large\"><img loading=\"lazy\" width=\"1366\" height=\"1853\" data-id=\"21404\"  src=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/sextante\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/4-IMG_1392.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-21404\" srcset=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/sextante\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/4-IMG_1392.jpg 1366w, https:\/\/www.ufrgs.br\/sextante\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/4-IMG_1392-221x300.jpg 221w, https:\/\/www.ufrgs.br\/sextante\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/4-IMG_1392-755x1024.jpg 755w, https:\/\/www.ufrgs.br\/sextante\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/4-IMG_1392-768x1042.jpg 768w, https:\/\/www.ufrgs.br\/sextante\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/4-IMG_1392-1132x1536.jpg 1132w\" sizes=\"(max-width: 1366px) 100vw, 1366px\" \/><figcaption>Foto 3: Nico K\u00fbara Costamilan<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-large\"><img loading=\"lazy\" width=\"1343\" height=\"2048\" data-id=\"21405\"  src=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/sextante\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/5-IMG_6549.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-21405\" srcset=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/sextante\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/5-IMG_6549.jpg 1343w, https:\/\/www.ufrgs.br\/sextante\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/5-IMG_6549-197x300.jpg 197w, https:\/\/www.ufrgs.br\/sextante\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/5-IMG_6549-672x1024.jpg 672w, https:\/\/www.ufrgs.br\/sextante\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/5-IMG_6549-768x1171.jpg 768w, https:\/\/www.ufrgs.br\/sextante\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/5-IMG_6549-1007x1536.jpg 1007w\" sizes=\"(max-width: 1343px) 100vw, 1343px\" \/><figcaption>Foto 4: Maryanna Ferreira<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-large\"><img loading=\"lazy\" width=\"1365\" height=\"2048\" data-id=\"21406\"  src=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/sextante\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/6-IMG_6593.jpg\" alt=\"\" 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Para elas, crescer em meio \u00e0 religi\u00e3o foi como crescer com uma grande fam\u00edlia. \u201cQuando eu t\u00f4 fora, sinto saudade. Quando eu t\u00f4 l\u00e1, o meu cora\u00e7\u00e3o acelera, fico toda arrepiada\u201d, conta Sofia, lembrando dos momentos no terreiro.<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote\"><p><em>\u201c<\/em>Por mim, eu fazia o pai de santo ser eterno e seria filha de santo pra sempre\u201d <\/p><cite><strong>L\u00cdVIA PEIXOTO<\/strong>, de 11 anos, filha de santo&nbsp;<\/cite><\/blockquote>\n\n\n\n<p>L\u00edvia ainda \u00e9 uma crian\u00e7a, mas j\u00e1 v\u00ea diferen\u00e7as em rela\u00e7\u00e3o a como era antes de fazer o seu <em>apronte<\/em>, ou seja, sua inicia\u00e7\u00e3o na religi\u00e3o, aos oito anos. \u201cPra mim, era como uma brincadeira. Agora eu j\u00e1 levo mais a s\u00e9rio. E continua sendo incr\u00edvel. Eu tenho paix\u00e3o pela minha religi\u00e3o.\u201d A inicia\u00e7\u00e3o foi o momento mais especial de L\u00edvia no terreiro, e ela teve companhia \u2013 Sofia permaneceu com ela no quarto de santo durante a obriga\u00e7\u00e3o, momento de resguardo em que normalmente se passa sozinho. \u201cEu tinha medo de fazer alguma coisa errada. Mas a\u00ed, foi como se eu fosse abra\u00e7ada pela m\u00e3e Oxum, como se ela me acalmasse.\u201d, diz.<\/p>\n\n\n\n<p>Para Sofia, os ensinamentos da f\u00e9 s\u00e3o tratados com muita seriedade. Ela conta que pensa em seguir com a casa do av\u00f4 Hendrix e ser m\u00e3e de santo um dia. \u201cSe meu tio n\u00e3o quiser, quem continua com essa gera\u00e7\u00e3o somos n\u00f3s.\u201d J\u00e1 L\u00edvia n\u00e3o tem a mesma vontade. \u201cAcho que tem pessoas que nascem para ser m\u00e3e de santo, e eu n\u00e3o me sinto uma delas. Talvez no futuro. Por mim, eu fazia o pai de santo ser eterno e seria filha de santo pra sempre.\u201d<\/p>\n\n\n\n<h2><strong>Doce ax\u00e9<\/strong><\/h2>\n\n\n\n<p>A cozinha \u00e9 o lugar em que os la\u00e7os se estreitam e os filhos da casa se unem enquanto o terreiro, ou Il\u00ea, n\u00e3o est\u00e1 pronto para o rito. Enquanto as crian\u00e7as brincam, os adultos conversam e preparam os alimentos. Para L\u00edvia, o seu espa\u00e7o favorito no terreiro \u00e9 a cozinha, onde ela tem bons momentos com a fam\u00edlia desde a primeira inf\u00e2ncia. \u201cEu me sentava com meu chazinho branco, via minhas tias cozinhando, ficava conversando com elas e rindo\u201d, conta.&nbsp;&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Iris Mannuela Lesxist\u00e3o Rodrigues, de um ano, acompanha sempre a m\u00e3e Nicoly Franthesk Lesxist\u00e3o, de 16 anos, no Il\u00ea Afro Xang\u00f4 Ibeji. Nicoly conta que come\u00e7ou a frequentar a casa da M\u00e3e Claudia durante um per\u00edodo dif\u00edcil em sua vida. \u201cEu amo estar aqui e presenciar tudo. A Claudia me ajudou muito. Eu entrei aqui e a Iris n\u00e3o tinha nem roupa, porque fui embora de casa. Agora ela tem tudo, gra\u00e7as a Deus.\u201d&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image alignwide size-large\"><img loading=\"lazy\" width=\"1024\" height=\"682\" src=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/sextante\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/FOTO-1-Fabiola-Correa-1-1024x682.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-20999\" srcset=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/sextante\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/FOTO-1-Fabiola-Correa-1-1024x682.jpg 1024w, https:\/\/www.ufrgs.br\/sextante\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/FOTO-1-Fabiola-Correa-1-300x200.jpg 300w, https:\/\/www.ufrgs.br\/sextante\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/FOTO-1-Fabiola-Correa-1-768x511.jpg 768w, https:\/\/www.ufrgs.br\/sextante\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/FOTO-1-Fabiola-Correa-1-1200x800.jpg 1200w, https:\/\/www.ufrgs.br\/sextante\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/FOTO-1-Fabiola-Correa-1.jpg 1537w\" sizes=\"(max-width: 1024px) 100vw, 1024px\" \/><figcaption>\u00cdris, de um ano, frequenta o Il\u00ea desde o nascimento | Foto: Fabiola Correa<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p>Com um sorriso no rosto, ela diz que procura estar no Il\u00ea quase todas as semanas, mesmo morando longe. \u201cA gente sempre vem para c\u00e1. Mesmo gr\u00e1vida eu continuei participando.\u201d&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Ap\u00f3s a autoriza\u00e7\u00e3o da m\u00e3e de santo, todos entram no Il\u00ea para se organizar em volta da farta Mesa de Ibeji. O coro de vozes com o sino sa\u00fada os orix\u00e1s \u00e0 frente do altar, chamado de cong\u00e1, iniciando o ritual daquela noite. O calor humano se mistura \u00e0 forte vibra\u00e7\u00e3o dos tambores, e as crian\u00e7as, junto de seus pais, participam do momento que tamb\u00e9m \u00e9 delas.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Quando os orix\u00e1s se fazem presentes, a fartura transborda e as crian\u00e7as se tornam as protagonistas. A mesa \u00e9 viva e re\u00fane crian\u00e7as, gr\u00e1vidas e mulheres que desejam gestar, um ciclo de cuidado que envolve quem est\u00e1 vivo, quem acaba de chegar e quem habita o desejo de nascer.<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"https:\/\/youtu.be\/1n-Qmv0wlGs?is=0-kFkcaLzflTgvF-\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">Ou\u00e7a aqui a reza de Ibeji<\/a><\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-video\"><video controls src=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/sextante\/wp-content\/uploads\/2026\/06\/IMG_1011-2-5.mov\"><\/video><figcaption>As crian\u00e7as do Il\u00ea Afro Xang\u00f4 Ibeji ajudam a conduzir as rezas tocando atabaque<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<div class=\"wp-container-5 wp-block-columns\">\n<div class=\"wp-container-3 wp-block-column\">\n<h2>LEIA MAIS<\/h2>\n<\/div>\n\n\n\n<div class=\"wp-container-4 wp-block-column\">\n<ul><li><a href=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/sextante\/onde-o-axe-faz-morada\/\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">Onde o ax\u00e9 faz morada<\/a>: Conhe\u00e7a hist\u00f3rias de casas de matrizes africanas no Rio Grande do Sul, estado brasileiro com maior n\u00famero de terreiros<\/li><li><a href=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/sextante\/de-orixa-africano-a-santa-catolica\/\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">De orix\u00e1 africano \u00e0 santa cat\u00f3lica<\/a>: As celebra\u00e7\u00f5es religiosas do dia 2 de fevereiro e o sincretismo entre Iemanj\u00e1 e Nossa Senhora dos Navegantes<\/li><\/ul>\n<\/div>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>De acordo com a lenda, Ik\u00fa, a morte, estava assolando uma aldeia levando pessoas antes da hora. O or\u00e1culo If\u00e1 disse que somente Ibeji, orix\u00e1-g\u00eameo que forma uma s\u00f3 divindade, poderia deter a entidade. Tocando tambores m\u00e1gicos, os irm\u00e3os encantaram Ik\u00fa que, incapaz de resistir ao ritmo, dan\u00e7ou sem parar. Exausta, a morte implorou para<a class=\"more-link\" href=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/sextante\/sementes-de-fe\/\">Continuar lendo <span class=\"screen-reader-text\">&#8220;Sementes de F\u00e9&#8221;<\/span><\/a><\/p>\n","protected":false},"author":266,"featured_media":21477,"comment_status":"open","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[594],"tags":[626,625,320,627,68],"acf":[],"yoast_head":"<!-- This site is optimized with the Yoast SEO plugin v19.6.1 - https:\/\/yoast.com\/wordpress\/plugins\/seo\/ -->\n<title>Sementes de F\u00e9 &mdash; Sextante<\/title>\n<meta name=\"description\" content=\"A presen\u00e7a de crian\u00e7as na religiosidade afrobrasileira \u00e9 marcante, e na mesa de Ibeji, ritual do orix\u00e1 g\u00eameo, a inf\u00e2ncia simboliza pureza, alegria e prosperidade.\" \/>\n<meta name=\"robots\" content=\"index, follow, max-snippet:-1, max-image-preview:large, max-video-preview:-1\" \/>\n<link rel=\"canonical\" href=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/sextante\/sementes-de-fe\/\" \/>\n<meta property=\"og:locale\" content=\"pt_BR\" \/>\n<meta property=\"og:type\" content=\"article\" \/>\n<meta property=\"og:title\" content=\"Sementes de F\u00e9 &mdash; 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