{"id":2899,"date":"2021-11-11T19:27:59","date_gmt":"2021-11-11T22:27:59","guid":{"rendered":"https:\/\/www.ufrgs.br\/sextante\/?p=2899"},"modified":"2022-02-03T10:40:16","modified_gmt":"2022-02-03T13:40:16","slug":"entenda-quem-sao-e-como-vivem-os-milionarios-do-brasil","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ufrgs.br\/sextante\/entenda-quem-sao-e-como-vivem-os-milionarios-do-brasil\/","title":{"rendered":"Quem quer ser um milion\u00e1rio?"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"has-drop-cap\">A resposta \u00e0 pergunta do t\u00edtulo desta reportagem provavelmente seria un\u00e2nime, retratando um desejo coletivo de integrar aquele <a href=\"https:\/\/economia.uol.com.br\/noticias\/redacao\/2021\/06\/24\/distribuicao-riqueza-nacional---brasil.htm\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">1% da popula\u00e7\u00e3o que det\u00e9m 49,6% da riqueza nacional<\/a>. A desigualdade \u00e9 uma das caracter\u00edsticas mais marcantes do Brasil, evidenciada pelo contraste entre a pobreza extrema e a riqueza avassaladora. <a href=\"https:\/\/www1.folha.uol.com.br\/mercado\/2020\/05\/10-mais-ricos-ficam-com-43-da-renda-nacional-diz-ibge.shtml\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">Uma pesquisa divulgada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estat\u00edstica (IBGE)<\/a> no in\u00edcio da pandemia mostrou que os 5% mais pobres do Brasil, cerca de 4,5 milh\u00f5es de pessoas, ganharam, em m\u00e9dia, R$ 165 por m\u00eas em 2019. Enquanto isso, na outra ponta, os 1% mais ricos, cerca de 900 mil pessoas, ganharam, em m\u00e9dia, mensalmente, R$ 28.659.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"https:\/\/www.bloomberg.com\/news\/features\/2020-02-07\/how-to-be-in-the-richest-1-around-the-world\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">J\u00e1 um levantamento feito pela Bloomberg<\/a>, tamb\u00e9m em 2020, mostrou que o rendimento desta extremidade, intang\u00edvel, seria ainda maior, com uma renda anual m\u00ednima de US$ 176 mil (cerca de R$ 975 mil, na cota\u00e7\u00e3o atual) para figurar entre os mais ricos \u2014 o equivalente a um sal\u00e1rio de aproximadamente R$ 81 mil por m\u00eas. Mas como \u00e9 a realidade dos que vivem neste exclusivo topo da pir\u00e2mide, em uma bolha que, para os brasileiros \u201ccomuns\u201d, acaba sendo um imagin\u00e1rio distante?<\/p>\n\n\n\n<p>Para entend\u00ea-la, primeiro \u00e9 preciso definir quem s\u00e3o os ricos \u2014 uma tarefa complexa. \u201c\u00c9 dif\u00edcil a gente dizer quem \u00e9 rico, porque a riqueza, ao contr\u00e1rio da pobreza, \u00e9 multidimensional\u201d, explica Michel Alcoforado, antrop\u00f3logo especialista em consumo e comportamento. Assim, enquanto \u00e9 poss\u00edvel concluir se algu\u00e9m \u00e9 pobre pela quantidade de dinheiro que essa pessoa tem para lidar com a vida cotidiana, s\u00e3o necess\u00e1rios v\u00e1rios fatores para definir se algu\u00e9m \u00e9 rico ou n\u00e3o. E \u00e9 a\u00ed que surgem as oportunidades de diferencia\u00e7\u00e3o: \u201cSe ningu\u00e9m sabe quem \u00e9 rico ou n\u00e3o, abre-se a margem para os indiv\u00edduos, n\u00e3o importa a sociedade, se debaterem para mostrar que s\u00e3o ricos, ou para mostrar que s\u00e3o mais ricos do que s\u00e3o, para poder provar aos outros, atrav\u00e9s de estrat\u00e9gias sociais, quem eles inventam que s\u00e3o.\u201d<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-pullquote\"><blockquote><p>Uma ferramenta criada pelo Nexo, em 2016, permite comparar o seu sal\u00e1rio com a realidade dos demais brasileiros. Confira <a href=\"https:\/\/www.nexojornal.com.br\/interativo\/2016\/01\/11\/O-seu-sal%C3%A1rio-diante-da-realidade-brasileira\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">aqui<\/a>.<\/p><\/blockquote><\/figure>\n\n\n\n<p>Para Michel, pode-se dizer que qualquer pessoa que integra os 5% mais ricos da sociedade brasileira pode, por \u00f3bvio, ser considerada rica <meta charset=\"utf-8\">\u2014 mas como todos que ganham mais de tr\u00eas ou quatro sal\u00e1rios m\u00ednimos de renda familiar j\u00e1 est\u00e3o nesse patamar e n\u00e3o s\u00e3o propriamente ricos, isso torna as quest\u00f5es ainda mais dif\u00edceis em termos de classifica\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>De fato, h\u00e1 diferentes concep\u00e7\u00f5es poss\u00edveis para se pensar os milion\u00e1rios, especificamente: seria milion\u00e1ria a pessoa que possui um patrim\u00f4nio bruto (bens) acima de R$ 1 milh\u00e3o, ou um patrim\u00f4nio l\u00edquido (o valor total de ativos, como um im\u00f3vel, menos os passivos, como o financiamento) acima de R$ 1 milh\u00e3o? \u201cSe voc\u00ea entra num financiamento de um apartamento de classe m\u00e9dia numa cidade como S\u00e3o Paulo ou Rio de Janeiro, qualquer apartamento vale mais de R$ 1 milh\u00e3o. Ser\u00e1 que a gente pode dizer que essa pessoa \u00e9 milion\u00e1ria? N\u00e3o, n\u00e9? Porque se eu e voc\u00ea formos na casa dela, num apartamento em Botafogo ou no Flamengo, a gente vai dizer: &#8216;meu Deus, ela vive uma vida de classe m\u00e9dia&#8217;\u201d, exemplifica Michel. Pode-se tamb\u00e9m usar a l\u00f3gica dos super-ricos, que possuem patrim\u00f4nio acima de R$ 50 milh\u00f5es; ou a l\u00f3gica da <a href=\"https:\/\/www1.folha.uol.com.br\/colunas\/fernandocanzian\/2019\/02\/voce-acha-que-ganha-pouco-olhe-para-baixo.shtml\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">pir\u00e2mide de renda<\/a>. Ou, ainda, a de patrim\u00f4nio l\u00edquido acima de R$ 10 milh\u00f5es. Portanto, n\u00e3o h\u00e1 um consenso claro estabelecido.<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cO que eu tenho dito na minha tese e nas minhas pesquisas \u00e9 que, no Brasil, os ricos s\u00e3o aqueles que t\u00eam as coisas de rico\u201d, afirma Michel. As coisas de rico, por sua vez, mais do que dinheiro, s\u00e3o objetos, servi\u00e7os, amigos ou rela\u00e7\u00f5es que catapultam os indiv\u00edduos para territ\u00f3rios que s\u00e3o restritos, permitindo um tr\u00e2nsito social <meta charset=\"utf-8\">\u201cinfinitamente mais f\u00e1cil<meta charset=\"utf-8\">\u201d. A materialidade, deste modo, desempenha um papel importante na concep\u00e7\u00e3o de riqueza no Brasil, como explica este v\u00eddeo:<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-embed is-type-video is-provider-youtube wp-block-embed-youtube wp-embed-aspect-16-9 wp-has-aspect-ratio\"><div class=\"wp-block-embed__wrapper\">\n<iframe loading=\"lazy\" title=\"Antrop\u00f3logos explicam os c\u00f3digos da riqueza no Brasil\" width=\"750\" height=\"422\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/j51KtdqMqpU?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture\" allowfullscreen><\/iframe>\n<\/div><\/figure>\n\n\n\n<p>A defini\u00e7\u00e3o de riqueza, portanto, vai muito al\u00e9m do dinheiro. De acordo com Michel e com Claudio Diniz, especialista no mercado de luxo e CEO da Maison du Luxe (uma \u201cboutique<meta charset=\"utf-8\">\u201d de consultoria e eventos que capacita profissionais para atender o consumidor dessa pequena bolha), quatro fatores definem quem s\u00e3o os \u2018afortunados\u2019 e condicionam a percep\u00e7\u00e3o de riqueza: financeiro, educacional, cultural e social (contatos) \u2014 e todos est\u00e3o interligados. \u201cSe voc\u00ea tem um [<em>fator<\/em>] social bom e voc\u00ea perde o financeiro, com o social voc\u00ea volta a ter dinheiro, porque voc\u00ea faz uma liga\u00e7\u00e3o e, a\u00ed, um amigo te arranja alguma coisa. Agora, se voc\u00ea s\u00f3 tem o financeiro, se voc\u00ea n\u00e3o tem a educa\u00e7\u00e3o, o cultural e o social, e voc\u00ea perde o financeiro, voc\u00ea perdeu tudo\u201d, ressalta.<\/p>\n\n\n\n<p>Para Leandro Gallas, de 30 anos, no entanto, o maior ativo de todos \u00e9 o tempo. Leandro \u00e9 empreendedor e dono de diversos neg\u00f3cios no ramo n\u00e1utico, como aluguel, venda, rastreamento e resgate de embarca\u00e7\u00f5es; marina de jet ski e servi\u00e7os de garantia para seminovos; e uma escola e despachante n\u00e1uticos (local em que as pessoas se tornam habilitadas a conduzir ve\u00edculos aqu\u00e1ticos e formalizam documentos). Tudo isso em Itapema, em Santa Catarina. Com essas fun\u00e7\u00f5es, Leandro convive com milion\u00e1rios e bilion\u00e1rios, al\u00e9m de seus neg\u00f3cios estarem estimados em R$ 15 milh\u00f5es. \u201cConsidero rico quem tem tempo. Vejo muita gente bilion\u00e1ria, mas que n\u00e3o \u00e9 dona do pr\u00f3prio tempo, \u00e9 escrava do neg\u00f3cio. Meu compromisso n\u00e3o \u00e9 com o dinheiro, \u00e9 mais em usar meu tempo, que est\u00e1 acabando a cada dia, para viver da melhor forma poss\u00edvel. Me considero rico por ter criado uma vida na qual posso fazer o que eu quero, quando eu quero, sem vender meu tempo por dinheiro\u201d, enfatiza.<\/p>\n\n\n\n<h3><strong>Perfil e h\u00e1bitos do rico brasileiro<\/strong><\/h3>\n\n\n\n<p>\u201cOs ricos, \u00f3bvio, s\u00e3o brancos e, em geral, s\u00e3o aquele modelo bem tradicional de novela que a gente v\u00ea mesmo\u201d, define Michel. \u201cA gente tem um cen\u00e1rio de um pa\u00eds marcado por desigualdade, e a desigualdade coloca os homens brancos, h\u00e9teros, como detentores desse poder e desse lugar.\u201d Apesar disso, o antrop\u00f3logo tamb\u00e9m chama a aten\u00e7\u00e3o para o importante papel que a mulher desempenha nesse contexto: em geral, elas n\u00e3o trabalham ou, pelo menos, n\u00e3o s\u00e3o respons\u00e1veis pela renda fundamental da fam\u00edlia <meta charset=\"utf-8\">\u2014 quest\u00f5es ligadas a um claro machismo, segundo Michel. Assim, enquanto os homens se preocupam com o dinheiro, as mulheres se preocupam em construir a imagem de uma fam\u00edlia bem-sucedida e com \u201ca cara da riqueza\u201d.<\/p>\n\n\n\n<div class=\"wp-block-image\"><figure class=\"alignright size-full is-resized\"><img loading=\"lazy\" src=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/sextante\/wp-content\/uploads\/2021\/10\/Pauta2_Lui\u0301sa_Sirangelo.gif\" alt=\"\" class=\"wp-image-3310\" width=\"495\" height=\"742\"\/><figcaption>Arte: Lu\u00edsa Guazzelli Sirangelo<\/figcaption><\/figure><\/div>\n\n\n\n<p>J\u00e1 Claudio acredita que 75% a 80% dos afortunados s\u00e3o brancos, mas que o cen\u00e1rio come\u00e7a a mudar. Al\u00e9m disso, o especialista no mercado de luxo v\u00ea as mulheres come\u00e7ando a ocupar posi\u00e7\u00f5es mais importantes no or\u00e7amento financeiro da fam\u00edlia. No entanto, ele percebe que, em rela\u00e7\u00e3o ao n\u00famero de pessoas milion\u00e1rias no Brasil, ainda h\u00e1 muito mais homens.<\/p>\n\n\n\n<p>Os afortunados podem ser divididos em duas categorias: tradicionais e novos ricos. Os ricos tradicionais j\u00e1 nasceram imersos nessa cultura, frequentaram as melhores escolas, passam as f\u00e9rias em Paris ou Nova Iorque, falam a linguagem do mercado de luxo. J\u00e1 os novos ricos s\u00e3o aqueles que ficaram milion\u00e1rios a partir dos 30 ou 40 anos, atrav\u00e9s de uma empresa ou heran\u00e7a <meta charset=\"utf-8\">\u2014 provenientes sobretudo da agropecu\u00e1ria e de startups. \u201cEsse consumidor usa um \u2018\u00f3culos para enxergar melhor\u2019, porque ele n\u00e3o nasceu assim, com todo esse requinte\u201d, explica Claudio. Eles t\u00eam muito mais objetos do que os ricos tradicionais, segundo Michel, mas n\u00e3o sabem us\u00e1-los.<\/p>\n\n\n\n<p>Os novos ricos t\u00eam necessidade de ostentar nas redes sociais. \u201cEu n\u00e3o vou saber quanto voc\u00ea tem na sua conta banc\u00e1ria, mas se voc\u00ea fala, \u2018olha, eu comprei ontem uma bolsa da Chanel\u2019 e j\u00e1 fala o valor, \u2018custou R$ 15 mil\u2019. \u2018Olha, eu almocei ontem e gastei R$ 500 no almo\u00e7o\u2019. A\u00ed voc\u00ea j\u00e1 est\u00e1 dizendo que voc\u00ea tem tanto\u201d, destaca o CEO da Maison du Luxe. \u201cVoc\u00ea n\u00e3o v\u00ea ningu\u00e9m que viaja na [<em>classe<\/em>] econ\u00f4mica postando que est\u00e1 na econ\u00f4mica, mas, se a pessoa viaja de <em>business<\/em> ou de <em>first class<\/em>, ela posta uma foto l\u00e1.\u201d&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>O rico tradicional, por outro lado, n\u00e3o faz isso. O seu repert\u00f3rio e comunica\u00e7\u00e3o s\u00e3o diferentes, e at\u00e9 mesmo sua conta no Instagram \u00e9 fechada. Ele \u00e9 mais reservado, por quest\u00f5es de seguran\u00e7a. \u201cS\u00e3o perfis de pessoas diferentes. Quem \u00e9 tradicional n\u00e3o gosta de estar com quem \u00e9 novo rico\u201d, salienta Claudio.<\/p>\n\n\n\n<p>Apesar das diferen\u00e7as, a maior parte dos ricos tradicionais est\u00e1 falida, de acordo com o especialista. \u201cEnt\u00e3o, o que h\u00e1 hoje em dia mesmo s\u00e3o os novos ricos. S\u00e3o fortunas novas, \u00e9 um comportamento totalmente diferente, novo, de quem n\u00e3o sabe o que \u00e9 o mercado de luxo, ent\u00e3o \u00e9 um comportamento de ostenta\u00e7\u00e3o. Vou comprar uma marca n\u00e3o para me vestir, mas para poder mostrar para uma outra pessoa que eu tenho tanto de dinheiro\u201d, explica.<\/p>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator\"\/>\n\n\n\n<div class=\"wp-container-3 wp-block-columns\">\n<div class=\"wp-container-1 wp-block-column\" style=\"flex-basis:33.33%\">\n<h3 class=\"has-text-align-left\">LEIA MAIS<\/h3>\n<\/div>\n\n\n\n<div class=\"wp-container-2 wp-block-column\" style=\"flex-basis:66.66%\">\n<ul><li><strong><a href=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/sextante\/o-brasil-deixou-de-ser-uma-colonia\/\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">O Brasil deixou de ser uma col\u00f4nia?<\/a> <\/strong>At\u00e9 que ponto o passado ficou para tr\u00e1s<\/li><li><strong><a href=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/sextante\/de-que-forma-a-desigualdade-se-reflete-na-mesa-dos-brasileiros\/\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">Nunca vi, nem comi, eu s\u00f3 ou\u00e7o falar:<\/a><\/strong> inseguran\u00e7a alimentar volta a assombrar brasileiros<\/li><\/ul>\n<\/div>\n<\/div>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator\"\/>\n\n\n\n<h3><strong>Mudan\u00e7as<\/strong><\/h3>\n\n\n\n<p>De acordo com a edi\u00e7\u00e3o de 2021 do <a href=\"https:\/\/www.credit-suisse.com\/about-us\/en\/reports-research\/global-wealth-report.html\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">relat\u00f3rio sobre riqueza global<\/a> do banco Credit Suisse, a desigualdade no Brasil est\u00e1 aumentando: em 2020, em plena pandemia, os ricos n\u00e3o perderam dinheiro; pelo contr\u00e1rio, a concentra\u00e7\u00e3o de renda se intensificou, seguindo um movimento mundial, e atingiu o pior n\u00edvel em duas d\u00e9cadas. E a tend\u00eancia continua: a partir de setembro de 2021 at\u00e9 2025, o Brasil ganhar\u00e1 em torno de cinco novos milion\u00e1rios por m\u00eas, de acordo com o CEO da Maison du Luxe.<\/p>\n\n\n\n<p>Al\u00e9m disso, a pandemia alterou os h\u00e1bitos de todas as pessoas do planeta \u2014 e com os ricos n\u00e3o poderia ser diferente. Quando foram proibidos de frequentar eventos e de viajar em seus avi\u00f5es particulares, os ricos se voltaram \u00e0s suas casas residenciais, de campo e de praia. \u201cQuem morava em casas de seis quartos mudou para oito quartos, quem morava em oito passou para 10, quem n\u00e3o tinha piscina queria a casa com piscina, quem tinha dois andares queria de tr\u00eas andares\u201d, comenta Claudio. As mudan\u00e7as foram impulsionadas pelo pensamento de ter um local para ficar durante boa parte do ano e na hip\u00f3tese de uma nova pandemia. Al\u00e9m disso, houve tamb\u00e9m um olhar para a troca de carro e para a sa\u00fade \u2014 com recorde de cirurgias pl\u00e1sticas, <a href=\"https:\/\/www.acidadeon.com\/campinas\/cotidiano\/NOT,0,0,1573832,procura-por-cirurgias-plasticas-tem-aumento-de-50-no-inicio-de-2021.aspx\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">de acordo com a Sociedade Internacional de Cirurgia Pl\u00e1stica Est\u00e9tica<\/a>. Outro setor que tamb\u00e9m <a href=\"https:\/\/valorinveste.globo.com\/mercados\/brasil-e-politica\/noticia\/2020\/12\/10\/vendas-do-varejo-sao-recorde-pelo-3o-mes-seguido-e-acumulam-alta-de-329percent-em-6-meses.ghtml\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">registrou recordes foi o varejo<\/a>, o que o especialista em mercado de luxo chama de \u201ccompra por vingan\u00e7a\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>A crise sanit\u00e1ria tamb\u00e9m impactou o turismo de luxo no Brasil. As pessoas que viajavam para fora do pa\u00eds passaram a viajar internamente, o que resultou em uma alta ocupa\u00e7\u00e3o dos hot\u00e9is e um excelente desempenho do mercado de luxo.\u00a0<\/p>\n\n\n\n<p>O comportamento em rela\u00e7\u00e3o a festas e eventos tamb\u00e9m foi afetado. O que antes era grande e espalhafatoso, com 1,5 mil convidados, passou a ser pequeno, com 50 a 100 pessoas \u2014 uma mudan\u00e7a motivada sobretudo pelo receio de cont\u00e1gio e pela inseguran\u00e7a. De acordo com Claudio, a tend\u00eancia veio para ficar.<\/p>\n\n\n\n<p>Leandro explica que os barcos tamb\u00e9m foram utilizados como uma v\u00e1lvula de escape para o lazer durante a pandemia. Isso aqueceu o mercado n\u00e1utico e resultou na venda de todo o estoque de barcos do pa\u00eds, tanto de novos quanto de seminovos, e na falta de produtos. Para o empreendedor, a situa\u00e7\u00e3o fez os ricos gastarem para aproveitar a vida. \u201cMexeu muito com as pessoas, fez elas perceberem que s\u00e3o mortais, que n\u00e3o adianta acumular muita riqueza. Empres\u00e1rios ricos viram seus amigos da mesma idade morrerem ap\u00f3s uma vida toda trabalhando sem aproveitar\u201d, pondera.<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote has-text-align-right\"><p>\u201cQuando cheguei aqui em Santa Catarina, sem nada, um amigo meu me disse: \u2018Leandro, se voc\u00ea andar na merda, s\u00f3 vai respingar merda. Se voc\u00ea andar perto do ouro, uma hora ou outra vai respingar em voc\u00ea\u2019\u201d<\/p><cite><strong>LEANDRO GALLAS<\/strong>, empreendedor do ramo n\u00e1utico<\/cite><\/blockquote>\n\n\n\n<h3><strong>Perspectiva interna<\/strong><\/h3>\n\n\n\n<p>Leandro foi atra\u00eddo para o ambiente dos ricos ainda jovem, sob o pretexto de poder viver ao m\u00e1ximo <meta charset=\"utf-8\">\u201ca \u00fanica chance de vida que temos\u201d. Ele \u00e9 natural de Giru\u00e1, no interior do Rio Grande do Sul. A trajet\u00f3ria do empreendedor come\u00e7ou no curso de Engenharia El\u00e9trica da Universidade Federal do Pampa (Unipampa), o qual largou para seguir o sonho de ser piloto de avi\u00e3o. Foi com esse intuito que se mudou para Santa Catarina <meta charset=\"utf-8\">\u2014 mas seus pais conseguiam pagar no m\u00e1ximo duas horas de aulas de voo por m\u00eas. L\u00e1, conheceu um amigo, dono de uma marina e que mais tarde viria a ser seu s\u00f3cio, que lhe mostrou uma foto de uma festa de barcos. Instantaneamente, Leandro percebeu aonde queria chegar: \u201cEu j\u00e1 visualizava: \u00e9 esse tipo de lugar que eu quero frequentar, esse tipo de amizade que eu quero ter, esse tipo de c\u00edrculo que eu quero estar dentro, mas eu n\u00e3o tinha um real no bolso.\u201d Para frequentar o local, era preciso um barco. Foi com o aluguel de embarca\u00e7\u00f5es, servi\u00e7o que n\u00e3o estava dispon\u00edvel na regi\u00e3o na \u00e9poca, que visualizou sua primeira oportunidade.\u00a0<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-container-5 wp-block-gallery-4 wp-block-gallery alignfull columns-1 is-cropped\"><ul class=\"blocks-gallery-grid\"><li class=\"blocks-gallery-item\"><figure><img loading=\"lazy\" width=\"2560\" height=\"1707\" src=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/sextante\/wp-content\/uploads\/2021\/10\/IMG_1858-1-scaled.jpg\" alt=\"\" data-id=\"3313\" data-full-url=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/sextante\/wp-content\/uploads\/2021\/10\/IMG_1858-1-scaled.jpg\" data-link=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/sextante\/?attachment_id=3313\" class=\"wp-image-3313\" srcset=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/sextante\/wp-content\/uploads\/2021\/10\/IMG_1858-1-scaled.jpg 2560w, https:\/\/www.ufrgs.br\/sextante\/wp-content\/uploads\/2021\/10\/IMG_1858-1-300x200.jpg 300w, https:\/\/www.ufrgs.br\/sextante\/wp-content\/uploads\/2021\/10\/IMG_1858-1-1024x683.jpg 1024w, https:\/\/www.ufrgs.br\/sextante\/wp-content\/uploads\/2021\/10\/IMG_1858-1-768x512.jpg 768w, https:\/\/www.ufrgs.br\/sextante\/wp-content\/uploads\/2021\/10\/IMG_1858-1-1536x1024.jpg 1536w, https:\/\/www.ufrgs.br\/sextante\/wp-content\/uploads\/2021\/10\/IMG_1858-1-2048x1365.jpg 2048w, https:\/\/www.ufrgs.br\/sextante\/wp-content\/uploads\/2021\/10\/IMG_1858-1-1568x1045.jpg 1568w\" sizes=\"(max-width: 2560px) 100vw, 2560px\" \/><\/figure><\/li><\/ul><figcaption class=\"blocks-gallery-caption\">Para Leandro Gallas, empreendedor do ramo n\u00e1utico, a pandemia fez os ricos gastarem para aproveitar a vida. Na foto, Leandro saltando de paraquedas em Dubai | Foto: Arquivo pessoal<br><\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p>Leandro lan\u00e7ou, ent\u00e3o, o Itapema Boat Rent, neg\u00f3cio que o ajudaria a pagar pelas aulas de voo. Por\u00e9m, quando enfim conseguiu juntar o dinheiro e se formar, era sua empresa que havia decolado. \u201cQuando eu conquistei o meu primeiro emprego na avia\u00e7\u00e3o, com sal\u00e1rio de R$ 4 mil, eu aluguei, na mesma \u00e9poca, 40 barcos num dia e faturei R$ 40 mil.\u201d Aos 26, j\u00e1 possu\u00eda mais de R$ 1 milh\u00e3o em patrim\u00f4nio com seus neg\u00f3cios. Assim, optou por abrir m\u00e3o de um sonho e investir em outro: o de empreendedor. Hoje, \u00e9 dono das empresas Brasil Yachts, Marina Jet Life, Safe Jet, Cad\u00ea Meu Barco? e Sea Patrol e define seu p\u00fablico como \u201co topo da cadeia\u201d. \u201cTenho clientes da casa do bilh\u00e3o que se tornaram meus amigos pessoais\u201d, conta.<\/p>\n\n\n\n<p>O seu segredo, no entanto, \u00e9 procurar ser sempre o \u201cmais pobre\u201d de seu c\u00edrculo social. \u201cQuando cheguei aqui em Santa Catarina, sem nada, um amigo meu me disse: \u2018Leandro, se voc\u00ea andar na merda, s\u00f3 vai respingar merda. Se voc\u00ea andar perto do ouro, uma hora ou outra vai respingar em voc\u00ea.\u2019\u201d<\/p>\n\n\n\n<p>Leandro define em uma palavra aquilo que mais lhe chama a aten\u00e7\u00e3o em rela\u00e7\u00e3o ao estilo de vida das pessoas ricas, comparado com o do brasileiro \u201ccomum\u201d: liberdade. \u201cO brasileiro \u2018comum\u2019 \u00e9 escravo do trabalho. Alguns ricos tamb\u00e9m s\u00e3o, mas por op\u00e7\u00e3o. O brasileiro trabalhador comum n\u00e3o tem essa op\u00e7\u00e3o, precisa trabalhar\u201d, lamenta. Para ele, o dinheiro fornece essa liberdade. \u201cDe viajar, comer bem, dirigir um carro legal. Dinheiro n\u00e3o traz felicidade, mas manda buscar. Acredito que ele torna a vida 90% mais f\u00e1cil, os 10% depende de saber como usar ele para isso.\u201d<\/p>\n\n\n\n<p>Em uma escala de um a 10, do melhor ao pior cen\u00e1rio, em rela\u00e7\u00e3o ao qu\u00e3o distantes s\u00e3o as realidades do brasileiro \u201ccomum\u201d e do milion\u00e1rio, Leandro avalia como 10. Por qu\u00ea? \u201cO brasileiro foi e ainda \u00e9 treinado para ser pe\u00e3o. Na escola, n\u00e3o aprendemos a investir, n\u00e3o aprendemos educa\u00e7\u00e3o financeira para gerir nosso dinheiro, n\u00e3o aprendemos empreendedorismo para criarmos nossas empresas e gerarmos empregos. Aprendemos o b\u00e1sico, mal por sinal, para sermos eternos trabalhadores e escravos do sistema\u201d, lastima. Um cen\u00e1rio que reflete o fato de que, no Brasil, o ensino e as oportunidades n\u00e3o s\u00e3o iguais para todos.<\/p>\n\n\n\n<p>Leandro mudou de lado \u2014 o que pode representar um choque, de acordo com o antrop\u00f3logo Michel Alcoforado, sobretudo em situa\u00e7\u00f5es pitorescas, com as quais n\u00e3o estamos acostumados a lidar. \u201cUma vez, eu estava em Genebra fazendo pesquisa e eu vi uma mulher gastando US$ 9 mil num perfume, porque o dela tinha sa\u00eddo de linha, e ela amava aquele e pagou para um chefe de uma casa de perfume descobrir qual era o que ela gostava, a composi\u00e7\u00e3o, e fazer um novo para ela. Eu vi mulheres, em viagens que eu fiz a Miami com novas ricas, fazendo passeios di\u00e1rios de helic\u00f3ptero para poder falar ingl\u00eas em Orlando, dado que em Miami muita gente estava falando com elas em espanhol. Eu vi tardes de compras nas quais mulheres gastaram em m\u00e9dia US$ 12 mil cada uma\u201d, conta Michel. Uma realidade impens\u00e1vel para a maioria dos brasileiros.<\/p>\n\n\n\n<p>No entanto, o antrop\u00f3logo alerta para o risco de se cair em dois lugares comuns \u2014 dos quais precisamos fugir \u2014 quando se busca entender como \u00e9 a vida dos ricos. \u201cUm deles \u00e9 o lugar da den\u00fancia, que \u00e9 o lugar onde voc\u00ea fica tipo: \u2018meu Deus, fulano gastou R$ 20 mil em roupinha para beb\u00ea numa tarde\u2019, que \u00e9 um lugar que eu acho que n\u00e3o ajuda em nada, porque ele n\u00e3o te permite o entendimento. \u00c9 quase como se voc\u00ea se sentisse no dever de ostentar uma den\u00fancia, como se o consumo do outro fosse errado\u201d, explica. \u201cE tamb\u00e9m um outro lugar f\u00e1cil de cair \u00e9 o do deslumbre: \u2018ai meu Deus, fulano gastou R$ 20 mil\u2019, n\u00e3o em tom de den\u00fancia, mas num tom de \u2018eu queria tamb\u00e9m gastar R$ 20 mil em roupinha de beb\u00ea\u2019\u201d. Michel diz que o melhor caminho \u00e9 tentar entender o que est\u00e1 acontecendo e as raz\u00f5es que as pessoas alegam para gastar dessa forma, e a\u00ed \u201ctudo deixa de ser pitoresco\u201d. \u201cMas eu entendo, as pessoas precisam disso no Brasil para inventar quem s\u00e3o, \u00e0s vezes&#8221;, conclui.<\/p>\n\n\n\n<p>Este \u00e9, afinal, o retrato do Brasil: enquanto poucos podem gastar muito na compra de uma bolsa em busca de afirma\u00e7\u00e3o, fora dessa bolha, muitos ganham t\u00e3o pouco que mal conseguem viver suas vidas. Dois extremos que caracterizam o pa\u00eds da desigualdade. E, assim, enquanto n\u00e3o conseguimos dar um adeus \u00e0 pobreza e alcan\u00e7ar coletivamente a &#8220;casa&#8221; da riqueza, seguimos jogando e voltando para o in\u00edcio, contando apenas com a sorte e com o trabalho duro \u2014 enquanto alguns j\u00e1 iniciam com muitos pontos de vantagem na busca por ser milion\u00e1rios.<\/p>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator\"\/>\n\n\n\n<div class=\"wp-container-8 wp-block-columns\">\n<div class=\"wp-container-6 wp-block-column\" style=\"flex-basis:33.33%\">\n<h3 class=\"has-text-align-left\">LEIA MAIS<\/h3>\n<\/div>\n\n\n\n<div class=\"wp-container-7 wp-block-column\" style=\"flex-basis:66.66%\">\n<ul><li><strong><a href=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/sextante\/sites-aposta-investem-forte-futebol-brasileiro\/\">Sal\u00e1rio m\u00ednimo em campo, milh\u00f5es em jogo<\/a><\/strong>: sites de aposta esportiva crescem no Brasil<\/li><li><a href=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/sextante\/gentrificacao-4-distrito\/\"><strong>Se este corte de cabelo aparecer no seu bairro, pode crer que o aluguel ir\u00e1 subir<\/strong>:<\/a> o fen\u00f4meno da gentrifica\u00e7\u00e3o<\/li><li><a href=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/sextante\/brasis-da-irlanda\/\"><strong>Brasis da Irlanda<\/strong>:<\/a> como brasileiros de estados diferentes acabam cruzando caminhos no pa\u00eds europeu<\/li><\/ul>\n<\/div>\n<\/div>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator\"\/>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Em um pa\u00eds marcado pela desigualdade, especialistas e membros furam a bolha e contam quem s\u00e3o e como vivem os afortunados do pa\u00eds que produz cinco novos milion\u00e1rios por m\u00eas<\/p>\n","protected":false},"author":34,"featured_media":2916,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"57-post-template.php","format":"standard","meta":[],"categories":[109],"tags":[],"acf":[],"yoast_head":"<!-- This site is optimized with the Yoast SEO plugin v19.6.1 - 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