{"id":2908,"date":"2021-11-11T19:27:58","date_gmt":"2021-11-11T22:27:58","guid":{"rendered":"https:\/\/www.ufrgs.br\/sextante\/?p=2908"},"modified":"2021-11-22T15:31:41","modified_gmt":"2021-11-22T18:31:41","slug":"a-forca-da-criacao-com-afeto","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ufrgs.br\/sextante\/a-forca-da-criacao-com-afeto\/","title":{"rendered":"A for\u00e7a da cria\u00e7\u00e3o com afeto"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"has-drop-cap\">Buscando uma maneira de criar crian\u00e7as mais confiantes, com autonomia e uma boa autoestima, alguns pais t\u00eam adotado a chamada disciplina positiva. O objetivo dessa pr\u00e1tica \u00e9 educar com foco no afeto, na compreens\u00e3o, no respeito e no aprendizado m\u00fatuo. Para al\u00e9m de todos os benef\u00edcios que a disciplina positiva traz para qualquer fam\u00edlia, ela tamb\u00e9m se torna uma ferramenta poderosa de antirracismo quando crian\u00e7as n\u00e3o-brancas s\u00e3o ensinadas a se sentirem lindas como s\u00e3o, inteligentes e merecedoras de estarem em qualquer lugar.<\/p>\n\n\n\n<p>De acordo com o <a href=\"https:\/\/educa.ibge.gov.br\/criancas\/brasil\/2697-ie-ibge-educa\/jovens\/materias-especiais\/20786-perfil-das-criancas-brasileiras.html\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">Censo de 2018, desenvolvido pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estat\u00edstica (IBGE)<\/a>, 17% da popula\u00e7\u00e3o brasileira s\u00e3o crian\u00e7as de at\u00e9 12 anos, e, dessas, 57,6% s\u00e3o negras e ind\u00edgenas. Esses meninos e meninas est\u00e3o mais acostumados com os debates sobre diversidade do que os jovens adultos que nasceram nas d\u00e9cadas de 1980 e 1990 e, em alguns casos, come\u00e7am a criar seus filhos. Discuss\u00f5es positivas sobre ra\u00e7a n\u00e3o eram comuns dentro de casa. As reflex\u00f5es racializadas, para a maioria desse grupo, foram acontecer mais perto da vida adulta, seja por meio da internet, seja pelo in\u00edcio da vida acad\u00eamica. Mesmo que o caminho ainda seja longo, as diferentes crian\u00e7as de hoje conseguem cada vez mais se enxergar nas telas, nas lojas de brinquedos e nos livros com personagens como Pantera Negra, Doutora Brinquedos e Moana.<\/p>\n\n\n\n<p>A professora da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) Leni Dornelles vem se dedicando a construir uma educa\u00e7\u00e3o positiva antirracista atrav\u00e9s da representatividade desde a d\u00e9cada de 1990, quando foi diretora da divis\u00e3o de escolas infantis de Porto Alegre. \u201cEu coloquei em cada sala de aula da educa\u00e7\u00e3o infantil do munic\u00edpio um boneco negro. L\u00e1 no in\u00edcio de 1990\u201d, conta. Leni, que \u00e9 doutora em Educa\u00e7\u00e3o e pesquisa a inf\u00e2ncia e a educa\u00e7\u00e3o infantil, nunca deixou de lado a proposta de inclus\u00e3o de todas as crian\u00e7as em sala de aula.<\/p>\n\n\n\n<div class=\"wp-block-image\"><figure class=\"aligncenter size-full\"><img loading=\"lazy\" width=\"592\" height=\"428\" src=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/sextante\/wp-content\/uploads\/2021\/10\/Pauta5_-Jenifer_Silva_1.png\" alt=\"\" class=\"wp-image-3471\" srcset=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/sextante\/wp-content\/uploads\/2021\/10\/Pauta5_-Jenifer_Silva_1.png 592w, https:\/\/www.ufrgs.br\/sextante\/wp-content\/uploads\/2021\/10\/Pauta5_-Jenifer_Silva_1-300x217.png 300w\" sizes=\"(max-width: 592px) 100vw, 592px\" \/><figcaption>Arte: Jeniru<\/figcaption><\/figure><\/div>\n\n\n\n<p>Em 2007, ela e outros pesquisadores da Faculdade de Educa\u00e7\u00e3o da UFRGS iniciaram uma pesquisa com v\u00e1rios grupos de crian\u00e7as em escolas p\u00fablicas e particulares de Porto Alegre e da Regi\u00e3o Metropolitana. Leni conta que, no in\u00edcio do trabalho, as crian\u00e7as n\u00e3o-brancas n\u00e3o se gostavam, se sentiam feias, achavam que seus cabelos e seus corpos n\u00e3o eram bonitos. Os grupos foram acompanhados por dois anos e foi se criando uma ambi\u00eancia multirracial a partir da disciplina positiva. Por meio de brinquedos, livros de literatura infantil e filmes que representavam negros de forma positivada, a pesquisadora e seu grupo foram mostrando o quanto todas as crian\u00e7as eram bonitas do jeito que eram. \u201cNo final da pesquisa, elas se mostraram mais felizes\u201d, lembra Leni.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>A pesquisa durou 10 anos e atingiu n\u00e3o s\u00f3 os alunos e alunas, mas tamb\u00e9m suas fam\u00edlias. De acordo com Leni, no in\u00edcio de cada etapa da pesquisa, acontecia um encontro com a dire\u00e7\u00e3o da escola e com os professores que iriam trabalhar com as crian\u00e7as. Em alguns espa\u00e7os, foi poss\u00edvel apresentar o trabalho aos pais, para que eles colaborassem com os temas que seus filhos e filhas estavam vendo na escola. \u201cOs livros de literatura infantil eram levados para casa para que eles lessem junto com as crian\u00e7as. Ent\u00e3o, quando a resposta vinha, era bastante positiva, e muitos traziam que nunca tiveram acesso a esse tipo de material, nunca tiveram acesso a esse tipo de discuss\u00e3o, e que o livro tinha proporcionado, por exemplo, uma conversa na fam\u00edlia. Ent\u00e3o, de alguma forma, o efeito desse trabalho na escola refletia tamb\u00e9m no espa\u00e7o da fam\u00edlia\u201d, lembra Leni.<\/p>\n\n\n\n<div class=\"wp-block-image\"><figure class=\"alignright size-full is-resized\"><img loading=\"lazy\" src=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/sextante\/wp-content\/uploads\/2021\/11\/DISCIPLINA-POSITIVA-1.png\" alt=\"\" class=\"wp-image-5418\" width=\"486\" height=\"273\" srcset=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/sextante\/wp-content\/uploads\/2021\/11\/DISCIPLINA-POSITIVA-1.png 1920w, https:\/\/www.ufrgs.br\/sextante\/wp-content\/uploads\/2021\/11\/DISCIPLINA-POSITIVA-1-300x169.png 300w, https:\/\/www.ufrgs.br\/sextante\/wp-content\/uploads\/2021\/11\/DISCIPLINA-POSITIVA-1-1024x576.png 1024w, https:\/\/www.ufrgs.br\/sextante\/wp-content\/uploads\/2021\/11\/DISCIPLINA-POSITIVA-1-768x432.png 768w, https:\/\/www.ufrgs.br\/sextante\/wp-content\/uploads\/2021\/11\/DISCIPLINA-POSITIVA-1-1536x864.png 1536w, https:\/\/www.ufrgs.br\/sextante\/wp-content\/uploads\/2021\/11\/DISCIPLINA-POSITIVA-1-1568x882.png 1568w\" sizes=\"(max-width: 486px) 100vw, 486px\" \/><\/figure><\/div>\n\n\n\n<p>Em 2003, <a href=\"http:\/\/www.planalto.gov.br\/ccivil_03\/leis\/2003\/l10.639.htm\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">com a Lei Federal 10.639<\/a>, foi estabelecido que todas as escolas do Brasil inclu\u00edssem em seus curr\u00edculos oficiais de ensino temas sobre a \u201cHist\u00f3ria e Cultura Afro-Brasileira\u201d, por\u00e9m nem todas cumpriram o que a lei exigia. \u201cHouve, principalmente no governo Lula, um fomento de materiais para dar conta dessa educa\u00e7\u00e3o antirracista. Muitos deles ficaram nas bibliotecas e n\u00e3o chegaram na sala de aula. Muitas escolas n\u00e3o se preocupam com isso. Atualmente, o Minist\u00e9rio P\u00fablico est\u00e1 auditando os munic\u00edpios para ver se eles est\u00e3o realmente atendendo essa prerrogativa legal\u201d, diz Leni. Mas, de acordo com a professora, mesmo que algumas escolas n\u00e3o tenham essa preocupa\u00e7\u00e3o, existem muitos profissionais que lutam por uma educa\u00e7\u00e3o mais inclusiva. <\/p>\n\n\n\n<p>Um exemplo desse esfor\u00e7o \u00e9 o <a href=\"http:\/\/www.ufrgs.br\/uniafro\/\">Uniafro<\/a>, um curso de aperfei\u00e7oamento oferecido pela Faculdade de Educa\u00e7\u00e3o da UFRGS, com o apoio da Secretaria de Educa\u00e7\u00e3o a Dist\u00e2ncia e do Centro de Forma\u00e7\u00e3o de Professores da universidade. O objetivo do Uniafro \u00e9 ajudar a qualificar professores das escolas p\u00fablicas do estado com a educa\u00e7\u00e3o antirracista. Leni conta que j\u00e1 houve casos em que a secretaria de educa\u00e7\u00e3o de algum munic\u00edpio chamava a equipe do Uniafro, mas, quando eles chegavam, os professores n\u00e3o aceitavam fazer o curso. \u201cMuitos professores se negavam a fazer, chegando inclusive a afirmar que n\u00e3o fariam um curso onde a coordena\u00e7\u00e3o era de uma professora negra. Que n\u00e3o iam ser mandados por uma negra\u201d, lembra Leni.<\/p>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator\"\/>\n\n\n\n<div class=\"wp-container-3 wp-block-columns\">\n<div class=\"wp-container-1 wp-block-column\" style=\"flex-basis:33.33%\">\n<h3 class=\"has-text-align-left\">LEIA MAIS<\/h3>\n<\/div>\n\n\n\n<div class=\"wp-container-2 wp-block-column\" style=\"flex-basis:66.66%\">\n<ul><li><strong><a href=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/sextante\/quem-tem-medo-de-crianca\/\">Quem tem medo de crian\u00e7a?<\/a> <\/strong>Pais e filhos passaram a conviver mais durante a pandemia<\/li><li><strong><a href=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/sextante\/era-uma-vez-em-um-tempo-distante\/\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">Era uma vez em um tempo distante<\/a>:&nbsp;<\/strong>como ser\u00e3o as brincadeiras e os brinquedos no futuro<\/li><\/ul>\n\n\n\n<p><\/p>\n<\/div>\n<\/div>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator\"\/>\n\n\n\n<h3><strong>ENSINANDO E APRENDENDO JUNTOS<\/strong><\/h3>\n\n\n\n<p>A escola pode ser uma grande aliada da educa\u00e7\u00e3o antirracista, mas e quando isso n\u00e3o acontece? Uma das op\u00e7\u00f5es \u00e9 os pais procurarem conte\u00fados que sejam disponibilizados na internet para que possam tratar dessa tem\u00e1tica dentro de casa. Um dos principais projetos que fala sobre o assunto hoje \u00e9 o <em>Criando Crian\u00e7as Pretas<\/em>, idealizado pela comunicadora D\u00e9bora Bastos, de 37 anos, que vive em Jundia\u00ed, no interior de S\u00e3o Paulo. O projeto nasceu junto com Jos\u00e9, o filho de D\u00e9bora, que hoje tem tr\u00eas anos. Ela sentiu que precisava ensinar para o seu o filho que ele tinha identidade racial. <\/p>\n\n\n\n<p>\u201cLevei muito tempo da minha vida para entender o que \u00e9 ser uma pessoa preta politicamente. Eu sempre soube que a minha pele \u00e9 escura, sempre soube que eu era uma mulher negra, mas eu n\u00e3o sabia o que isso significava\u201d, explica D\u00e9bora. Quando Jos\u00e9 nasceu, ela decidiu que n\u00e3o iria permitir que ele chegasse na vida adulta sem saber sua origem e o que significava ser uma pessoa preta no Brasil. A partir disso, em 2018, ela come\u00e7ou a produzir conte\u00fados de educa\u00e7\u00e3o antirracistas no Instagram, para ensinar seu filho, mas tamb\u00e9m para inspirar outras fam\u00edlias.<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote has-text-align-right\"><p>&#8220;Eu n\u00e3o posso sentar e dizer \u2018filho, vem c\u00e1 e vamos conversar sobre o que \u00e9 o racismo\u2019, mas eu posso dar um mundo plural para ele como refer\u00eancia&#8221;<\/p><cite><strong>D\u00c9BORA BASTOS<\/strong>, comunicadora<\/cite><\/blockquote>\n\n\n\n<div class=\"wp-block-image\"><figure class=\"alignleft size-large is-resized\"><img loading=\"lazy\" src=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/sextante\/wp-content\/uploads\/2021\/10\/Deh-bastos-1024x1009.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-3484\" width=\"369\" height=\"363\" srcset=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/sextante\/wp-content\/uploads\/2021\/10\/Deh-bastos-1024x1009.jpg 1024w, https:\/\/www.ufrgs.br\/sextante\/wp-content\/uploads\/2021\/10\/Deh-bastos-300x296.jpg 300w, https:\/\/www.ufrgs.br\/sextante\/wp-content\/uploads\/2021\/10\/Deh-bastos-768x757.jpg 768w, https:\/\/www.ufrgs.br\/sextante\/wp-content\/uploads\/2021\/10\/Deh-bastos-1536x1513.jpg 1536w, https:\/\/www.ufrgs.br\/sextante\/wp-content\/uploads\/2021\/10\/Deh-bastos-2048x2018.jpg 2048w, https:\/\/www.ufrgs.br\/sextante\/wp-content\/uploads\/2021\/10\/Deh-bastos-1568x1545.jpg 1568w\" sizes=\"(max-width: 369px) 100vw, 369px\" \/><figcaption>O projeto &#8220;Criando Crian\u00e7as Pretas&#8221;, de D\u00e9bora Bastos,  se tornou refer\u00eancia no tema de cria\u00e7\u00e3o antirracista | Foto: Arquivo Pessoal <\/figcaption><\/figure><\/div>\n\n\n\n<p>Um dos principais pilares da disciplina positiva \u00e9 respeitar a crian\u00e7a como o indiv\u00edduo que ela \u00e9. Entender que ela tem gostos, desgostos, vontades e que ainda est\u00e1 aprendendo, ao inv\u00e9s de impor expectativas e projetar nelas o que, como pais, esperamos que fa\u00e7am ou queiram. D\u00e9bora adotou essa pr\u00e1tica desde que seu filho ainda estava na barriga, e, conforme ele foi crescendo, ela foi mostrando refer\u00eancias que o faziam lembrar de si mesmo e de sua fam\u00edlia, fazendo com que ele enxergasse beleza naquilo que muitas gera\u00e7\u00f5es passadas viam apenas como algo que n\u00e3o era desej\u00e1vel para si. \u201cO Jos\u00e9 tem tr\u00eas anos. Eu n\u00e3o posso sentar e dizer \u2018filho, vem c\u00e1 e vamos conversar sobre o que \u00e9 o racismo\u2019, mas eu posso dar um mundo plural para ele como refer\u00eancia.\u201d Ela conta que j\u00e1 vem notando os efeitos dessa educa\u00e7\u00e3o. \u201cEsses dias a gente estava saindo do mercado e tinha uma mulher preta, retinta, em um outdoor da farm\u00e1cia. E ele falou: \u2018mam\u00e3e! olha que mulher linda!\u201d<\/p>\n\n\n\n<h3><strong>RESGATANDO A ANCESTRALIDADE<\/strong><\/h3>\n\n\n\n<p>A doula Mariana Adas viveu at\u00e9 seus oito anos em uma comunidade ind\u00edgena no extremo sul da Bahia, em territ\u00f3rio Patax\u00f3, com sua fam\u00edlia materna, onde participava das atividades da aldeia e ajudava a cuidar da planta\u00e7\u00e3o, da colheita e dos animais. Ela e os pais tiveram que se mudar para Belo Horizonte ap\u00f3s sua m\u00e3e ficar doente e precisar de um&nbsp; tratamento m\u00e9dico. Mesmo n\u00e3o vivendo mais na comunidade, Mariana era incentivada por sua m\u00e3e a ter uma rotina que lembrasse o antigo lar atrav\u00e9s de hist\u00f3rias, da culin\u00e1ria e dos cuidados com a terra. \u201cNossa casa tinha um quintal grande, ent\u00e3o a gente continuava plantando\u201d, lembra. Hoje, aos 25 anos, ela reproduz os passos de sua m\u00e3e e ensina as suas origens para sua filha, P\u00e9rola. \u201cEu tento incluir algumas palavras da l\u00edngua, hist\u00f3rias de cria\u00e7\u00e3o e divindades, fauna e flora do territ\u00f3rio, al\u00e9m da alimenta\u00e7\u00e3o t\u00edpica tamb\u00e9m estar sempre presente. Vou entrando em mais detalhes \u00e0 medida que ela puder entender.\u201d<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote has-text-align-right\"><p> \u201cComecei a integrar espa\u00e7os da milit\u00e2ncia materno-infantil e aprendi muita coisa sobre cria\u00e7\u00e3o neurocompat\u00edvel, cria\u00e7\u00e3o com apego e afins. Fez muito sentido para mim&#8221;<\/p><cite><strong>MARIANA ADAS<\/strong>, doula, nascida em territ\u00f3rio Patax\u00f3<\/cite><\/blockquote>\n\n\n\n<div class=\"wp-block-image\"><figure class=\"alignright size-large is-resized\"><img loading=\"lazy\" src=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/sextante\/wp-content\/uploads\/2021\/10\/IMG-20211013-WA0007-825x1024.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-3481\" width=\"340\" height=\"422\" srcset=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/sextante\/wp-content\/uploads\/2021\/10\/IMG-20211013-WA0007-825x1024.jpg 825w, https:\/\/www.ufrgs.br\/sextante\/wp-content\/uploads\/2021\/10\/IMG-20211013-WA0007-242x300.jpg 242w, https:\/\/www.ufrgs.br\/sextante\/wp-content\/uploads\/2021\/10\/IMG-20211013-WA0007-768x953.jpg 768w, https:\/\/www.ufrgs.br\/sextante\/wp-content\/uploads\/2021\/10\/IMG-20211013-WA0007.jpg 1080w\" sizes=\"(max-width: 340px) 100vw, 340px\" \/><figcaption>A menina P\u00e9rola n\u00e3o cresceu na comunidade ind\u00edgena de sua m\u00e3e, Mariana,  e de sua av\u00f3, mas mant\u00e9m liga\u00e7\u00e3o com a cultura de seus ancestrais | Foto: Arquivo pessoal <\/figcaption><\/figure><\/div>\n\n\n\n<p>Quando P\u00e9rola nasceu, Mariana n\u00e3o pensava muito sobre cria\u00e7\u00e3o positiva, mas, por conta de sua profiss\u00e3o, ela passou a ter mais contato com o assunto. \u201cComecei a integrar espa\u00e7os da milit\u00e2ncia materno-infantil e aprendi muita coisa sobre cria\u00e7\u00e3o neurocompat\u00edvel, cria\u00e7\u00e3o com apego e afins. Fez muito sentido para mim, e, a medida que ela foi crescendo, comecei a aplicar.\u201d P\u00e9rola tem quatro anos e \u00e9 autista. Segundo Mariana, ela \u00e9 uma crian\u00e7a muito confiante, que n\u00e3o tem medo de pedir ou usar o que quer. Ela j\u00e1 consegue demonstrar o que mais gosta da cultura da sua origem. \u201cEla tem prefer\u00eancia pela comida tradicional e gosta muito do contato com a terra. Tamb\u00e9m gosta de usar os acess\u00f3rios de penas. Prefere mais que la\u00e7os e outros acess\u00f3rios n\u00e3o-ind\u00edgenas\u201d, conta Mariana.<\/p>\n\n\n\n<p>Em setembro de 2021, a cozinheira, produtora (e agora escritora) Fabiana Sasi, de 40 anos, lan\u00e7ou o livro infantil <em>O Fio da Mem\u00f3ria<\/em>, que fala sobre a cultura oral africana que transmite os saberes e as hist\u00f3rias. O livro conta a hist\u00f3ria de Lia, uma menina bem \u201cperguntadeira\u201d, que se surpreende ao perceber que sua tia Bibi est\u00e1 come\u00e7ando a ficar grisalha. Em busca de respostas, Lia recorre \u00e0 av\u00f3 e com ela descobre o valor de cada fio branco como fonte de sabedoria e de mem\u00f3rias preciosas. \u201cEsse livro, no fundo, \u00e9 tamb\u00e9m um reflexo das minhas buscas identit\u00e1rias enquanto mulher negra. \u00c9 buscar uma reconex\u00e3o com essa ancestralidade, com esse passado, com essa mem\u00f3ria.\u201d Fabiana  contava essa hist\u00f3ria para os filhos de suas amigas, na Bahia. Morando em Porto Alegre h\u00e1 quase 20 anos, hoje ela faz quest\u00e3o de contar essas e outras hist\u00f3rias para o filho In\u00e1cio, de cinco anos.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-audio\"><audio controls src=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/sextante\/wp-content\/uploads\/2021\/10\/Fabiana-Sasi.mp3\"><\/audio><figcaption>Fabiana Sasi sobre a valoriza\u00e7\u00e3o dos ancestrais<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<h3 class=\"has-text-align-center\"><br>Livros infantis com representatividade<\/h3>\n\n\n\n<div class=\"wp-container-6 wp-block-group\"><div class=\"wp-block-group__inner-container\">\n<figure class=\"wp-container-5 wp-block-gallery-4 wp-block-gallery columns-3 is-cropped\"><ul class=\"blocks-gallery-grid\"><li class=\"blocks-gallery-item\"><figure><img loading=\"lazy\" width=\"726\" height=\"585\" src=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/sextante\/wp-content\/uploads\/2021\/10\/o-fio-da-memoria.png\" alt=\"\" data-id=\"3523\" 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Apesar de estar sendo disseminada nas redes sociais, ela ainda fica dentro de uma pequena bolha. Na percep\u00e7\u00e3o da professora Leni, esse tema no ambiente escolar ganhou mais for\u00e7a apenas em 2017, logo ap\u00f3s o fim da sua pesquisa. Para a comunicadora D\u00e9bora, o motivo dessa proposta tocar pouqu\u00edssimas pessoas, mesmo tendo um potencial t\u00e3o grande, \u00e9 que os adultos ainda reproduzem a educa\u00e7\u00e3o tradicional pela qual passaram. E a mudan\u00e7a s\u00f3 pode vir por parte deles. \u201c\u00c9 muito lugar que esse adulto tem que revisitar para come\u00e7ar a tratar as crian\u00e7as de uma maneira positiva, com uma educa\u00e7\u00e3o n\u00e3o violenta. E as pessoas n\u00e3o est\u00e3o preparadas. H\u00e1 um sopro de esperan\u00e7a, mas eu tenho os dois p\u00e9s na realidade para saber que isso ainda \u00e9 distante. A realidade \u00e9 que as pessoas ainda desrespeitam muito as crian\u00e7as. E eu vou dando um passo de cada vez\u201d, diz D\u00e9bora.<\/p>\n\n\n\n<p>Outro motivo que levou D\u00e9bora a criar Jos\u00e9 de maneira mais positiva \u00e9 a sa\u00fade mental do seu filho. \u201cTodas nossas perebas est\u00e3o na inf\u00e2ncia. Tudo o que a gente gasta hoje na terapia, se deu na inf\u00e2ncia. E sei que ele vai ter [<em>os traumas dele<\/em>], mas se eu puder diminuir o impacto de alguns, pelo menos os que ficaram em mim\u2026\u201d, reflete. \u00c9 por isso que ela decidiu criar o Jos\u00e9 assim. \u201c\u00c9 uma responsabilidade enorme criar um filho para o mundo. N\u00e3o quero criar mais um homem que crie um desservi\u00e7o na sociedade.\u201d<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image alignwide size-full\"><img loading=\"lazy\" width=\"826\" height=\"405\" src=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/sextante\/wp-content\/uploads\/2021\/10\/Pauta5_Jenifer_Silva_2.png\" alt=\"\" class=\"wp-image-3472\" srcset=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/sextante\/wp-content\/uploads\/2021\/10\/Pauta5_Jenifer_Silva_2.png 826w, https:\/\/www.ufrgs.br\/sextante\/wp-content\/uploads\/2021\/10\/Pauta5_Jenifer_Silva_2-300x147.png 300w, https:\/\/www.ufrgs.br\/sextante\/wp-content\/uploads\/2021\/10\/Pauta5_Jenifer_Silva_2-768x377.png 768w\" sizes=\"(max-width: 826px) 100vw, 826px\" \/><figcaption>Arte: Jeniru<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p>De acordo com Marcos Kisil, professor na Faculdade de Sa\u00fade da Universidade de S\u00e3o Paulo (USP), em entrevista para o Jornal da USP, a neuroci\u00eancia tem trazido evid\u00eancias de que as experi\u00eancias passadas pela crian\u00e7a na primeira inf\u00e2ncia, de zero a seis anos, v\u00e3o moldar os circuitos cerebrais, que s\u00e3o a base do desenvolvimento humano. \u201cTodos nascemos com potencial, a quest\u00e3o \u00e9 saber se vamos contribuir para o desenvolvimento ou teremos a\u00e7\u00f5es humanas para impedi-lo\u201d, declarou. <\/p>\n\n\n\n<p>Essas a\u00e7\u00f5es humanas \u00e0s quais o professor se refere s\u00e3o a pobreza extrema, abuso f\u00edsico e emocional recorrentes, neglig\u00eancia cr\u00f4nica, depress\u00e3o materna grave, viol\u00eancia familiar, entre outras situa\u00e7\u00f5es que geram o chamado estresse t\u00f3xico, comprometendo o desenvolvimento infantil. A educa\u00e7\u00e3o positiva e antirracista \u00e9 uma quest\u00e3o de sa\u00fade p\u00fablica, que deveria ser discutida desde o pr\u00e9-natal, nas entrevistas de ado\u00e7\u00f5es e na prepara\u00e7\u00e3o de profissionais da educa\u00e7\u00e3o. Ensinar o respeito pelo outro na pr\u00e1tica, come\u00e7ando pelo respeito \u00e0 crian\u00e7a como indiv\u00edduo dentro de casa \u00e9 o primeiro passo rumo a uma sociedade mais igualit\u00e1ria.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator\"\/>\n\n\n\n<div class=\"wp-container-9 wp-block-columns\">\n<div class=\"wp-container-7 wp-block-column\" style=\"flex-basis:33.33%\">\n<h3 class=\"has-text-align-left\">LEIA MAIS<\/h3>\n<\/div>\n\n\n\n<div class=\"wp-container-8 wp-block-column\" style=\"flex-basis:66.66%\">\n<ul><li><strong><strong><a href=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/sextante\/ha-futuro-para-a-leitura-no-brasil\/\">H\u00e1 futuro para a leitura no Brasil? <\/a><\/strong><\/strong>Livros perderam a atratividade entre os brasileiros<\/li><li><strong><a href=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/sextante\/corpos-e-almas-livres\/\">Corpos e almas livres: <\/a><\/strong>uma incr\u00edvel e turbulenta jornada em busca do amor-pr\u00f3prio<\/li><\/ul>\n<\/div>\n<\/div>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator\"\/>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Disciplina positiva ajuda crian\u00e7as n\u00e3o-brancas a cultivarem, ainda na inf\u00e2ncia, confian\u00e7a, autoestima e amor pr\u00f3prio<\/p>\n","protected":false},"author":37,"featured_media":3470,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"57-post-template.php","format":"standard","meta":[],"categories":[109],"tags":[],"acf":[],"yoast_head":"<!-- This site is optimized with the Yoast SEO plugin v19.6.1 - https:\/\/yoast.com\/wordpress\/plugins\/seo\/ -->\n<title>A for\u00e7a da cria\u00e7\u00e3o com afeto &mdash; 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