{"id":2909,"date":"2021-11-11T19:28:00","date_gmt":"2021-11-11T22:28:00","guid":{"rendered":"https:\/\/www.ufrgs.br\/sextante\/?p=2909"},"modified":"2021-11-25T09:11:24","modified_gmt":"2021-11-25T12:11:24","slug":"de-que-forma-a-desigualdade-se-reflete-na-mesa-dos-brasileiros","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ufrgs.br\/sextante\/de-que-forma-a-desigualdade-se-reflete-na-mesa-dos-brasileiros\/","title":{"rendered":"Nunca vi, nem comi, eu s\u00f3 ou\u00e7o falar"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"has-drop-cap\">Foi-se o tempo em que apenas caviar era \u201ccomida de rico\u201d, como canta Zeca Pagodinho. J\u00e1 antes da covid-19, estava cada vez mais dif\u00edcil para o brasileiro colocar o b\u00e1sico na mesa. Com a pandemia, a situa\u00e7\u00e3o \u00e9 ainda mais preocupante. De acordo com o estudo <a href=\"https:\/\/refubium.fu-berlin.de\/bitstream\/handle\/fub188\/29813\/WP_%234_final_version.pdf?sequence=2\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\"><strong>Efeitos da pandemia na alimenta\u00e7\u00e3o e na situa\u00e7\u00e3o da seguran\u00e7a alimentar no Brasil<\/strong>,<\/a> de 2020, 59,4% da popula\u00e7\u00e3o brasileira encontra-se em situa\u00e7\u00e3o de inseguran\u00e7a alimentar, sendo que 15% passa fome.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Os dados t\u00eam g\u00eanero, cor e endere\u00e7o historicamente conhecidos. \u00c9 a desigualdade brasileira refletida nas mesas: mulheres chefes de fam\u00edlia, negras, do Norte e Nordeste e de regi\u00f5es rurais t\u00eam maior risco de inseguran\u00e7a alimentar, assim como ind\u00edgenas, quilombolas e a popula\u00e7\u00e3o LGBTQIA+.<\/p>\n\n\n\n<p>O problema vai al\u00e9m de n\u00e3o ter o que comer. No sexto pa\u00eds mais desigual do mundo, 117 milh\u00f5es de pessoas n\u00e3o t\u00eam acesso regular e suficiente a alimentos de qualidade sem comprometer outras necessidades essenciais \u2013 e o desespero aumenta com o <a href=\"https:\/\/agora.folha.uol.com.br\/grana\/2021\/10\/fim-do-auxilio-emergencial-deve-deixar-mais-de-22-milhoes-sem-beneficio-algum.shtml\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">fim do aux\u00edlio emergencial<\/a> de R$150 a R$600 oferecido ao longo da pandemia e as incertezas do <a href=\"https:\/\/economia.uol.com.br\/noticias\/redacao\/2021\/11\/13\/nao-e-so-o-valor-veja-o-que-muda-do-bolsa-familia-para-o-auxilio-brasil.htm\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">Aux\u00edlio Brasil<\/a>, programa do Governo Federal que substituiu o Bolsa Fam\u00edlia. Os impactos s\u00e3o sentidos no popular \u201cprato feito\u201d \u2013 n\u00e3o estamos falando de caviar. Segundo o estudo, 44% das pessoas reduziram o consumo de carnes e 41%, o de frutas. Montar um prato colorido, como aconselham os nutricionistas, \u00e9 desafiador.<\/p>\n\n\n\n<div class=\"wp-block-image\"><figure class=\"aligncenter size-large is-resized\"><img loading=\"lazy\" src=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/sextante\/wp-content\/uploads\/2021\/10\/Fonte-IBGE-1-3-724x1024.png\" alt=\"\" class=\"wp-image-3278\" width=\"633\" height=\"896\" srcset=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/sextante\/wp-content\/uploads\/2021\/10\/Fonte-IBGE-1-3-724x1024.png 724w, https:\/\/www.ufrgs.br\/sextante\/wp-content\/uploads\/2021\/10\/Fonte-IBGE-1-3-212x300.png 212w, https:\/\/www.ufrgs.br\/sextante\/wp-content\/uploads\/2021\/10\/Fonte-IBGE-1-3-768x1086.png 768w, https:\/\/www.ufrgs.br\/sextante\/wp-content\/uploads\/2021\/10\/Fonte-IBGE-1-3-1086x1536.png 1086w, https:\/\/www.ufrgs.br\/sextante\/wp-content\/uploads\/2021\/10\/Fonte-IBGE-1-3-1448x2048.png 1448w, https:\/\/www.ufrgs.br\/sextante\/wp-content\/uploads\/2021\/10\/Fonte-IBGE-1-3-1568x2218.png 1568w, https:\/\/www.ufrgs.br\/sextante\/wp-content\/uploads\/2021\/10\/Fonte-IBGE-1-3.png 1587w\" sizes=\"(max-width: 633px) 100vw, 633px\" \/><\/figure><\/div>\n\n\n\n<p>Para Milene Cristine Pessoa, professora do Departamento de Nutri\u00e7\u00e3o da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) e l\u00edder do Grupo de Estudos, Pesquisas e Pr\u00e1ticas em Ambiente Alimentar e Sa\u00fade da universidade, uma alimenta\u00e7\u00e3o de qualidade deve priorizar a diversidade e ter como base alimentos frescos, como cereais, leguminosas, frutas, e verduras, latic\u00ednios e carnes. Melissa Luciana de Ara\u00fajo, doutoranda em Sa\u00fade e Nutri\u00e7\u00e3o pela Universidade Federal de Ouro Preto (Ufop), pesquisadora do mesmo grupo e coordenadora da comiss\u00e3o permanente do Direito Humano \u00e0 Alimenta\u00e7\u00e3o Adequada do Conselho de Seguran\u00e7a Alimentar e Nutricional Sustent\u00e1vel de Minas Gerais, concorda e acrescenta que tais alimentos devem ser isentos de agrot\u00f3xicos e advindos de uma produ\u00e7\u00e3o sustent\u00e1vel para o meio ambiente.<\/p>\n\n\n\n<p>Entretanto, o acesso a eles \u00e9 escasso por diversos fatores. Primeiro, pelo crescimento da pobreza e da infla\u00e7\u00e3o no pa\u00eds, intensificados pela pandemia \u2013 que provavelmente produzir\u00e1 dados ainda mais alarmantes em 2021. Outro fator \u00e9 a populariza\u00e7\u00e3o dos produtos ultraprocessados, mais acess\u00edveis, mas pouco nutritivos. Al\u00e9m disso, h\u00e1 um grande aumento na libera\u00e7\u00e3o de uso de diversos agrot\u00f3xicos no Brasil.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>As pesquisadoras lembram ainda que o <a href=\"https:\/\/bvsms.saude.gov.br\/bvs\/publicacoes\/guia_alimentar_populacao_brasileira_2ed.pdf\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\"><strong>Guia Alimentar para a Popula\u00e7\u00e3o Brasileira, de 2014<\/strong><\/a>, publicado pelo Minist\u00e9rio da Sa\u00fade, considera a alimenta\u00e7\u00e3o para al\u00e9m dos nutrientes. \u00c9 o caso das culturas alimentares diversas, que preservam os saberes dos ind\u00edgenas, dos quilombolas, das popula\u00e7\u00f5es ribeirinhas, urbanas, entre outras. Esses valores s\u00e3o t\u00e3o essenciais quanto os nutricionais presentes na alimenta\u00e7\u00e3o. Mas o que \u00e9 direito social vira luxo em uma realidade t\u00e3o desigual.<\/p>\n\n\n\n<h3><strong>Voc\u00ea deve lutar pela xepa da feira e dizer que est\u00e1 recompensado<\/strong><\/h3>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-audio\"><audio controls src=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/sextante\/wp-content\/uploads\/2021\/10\/Comportamento-Geral-Gonzaguinha.mp3\"><\/audio><figcaption>Comportamento Geral &#8211; Gonzaguinha<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p>Apesar da atual realidade assustadora, o cen\u00e1rio j\u00e1 foi diferente. Em 2003, foi implementada uma s\u00e9rie de pol\u00edticas econ\u00f4micas, sociais, de seguran\u00e7a alimentar e para a agricultura familiar, que ficou conhecida como estrat\u00e9gia Fome Zero. Dez anos depois, o pa\u00eds atingia os menores patamares de inseguran\u00e7a alimentar de sua hist\u00f3ria \u2013 22,6%, de acordo com dados da <a href=\"https:\/\/www.ibge.gov.br\/estatisticas\/sociais\/rendimento-despesa-e-consumo\/9127-pesquisa-nacional-por-amostra-de-domicilios.html\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\"><strong>Pesquisa Nacional por Amostra de Domic\u00edlios (PNAD)<\/strong><\/a> de 2013.<\/p>\n\n\n\n<div class=\"wp-block-image\"><figure class=\"aligncenter size-full is-resized\"><img loading=\"lazy\" src=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/sextante\/wp-content\/uploads\/2021\/10\/Pauta3_MariadeFatima_Martins.gif\" alt=\"\" class=\"wp-image-3109\" width=\"720\" height=\"540\"\/><figcaption>Arte: M. F. Martins\u00a0<\/figcaption><\/figure><\/div>\n\n\n\n<p>Em 2014, o Brasil deixou de fazer parte do <a href=\"https:\/\/hungermap.wfp.org\/\"><strong>Mapa da Fome<\/strong><\/a>, uma lista da <a href=\"http:\/\/www.fao.org\/brasil\/pt\/\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\"><strong>Organiza\u00e7\u00e3o das Na\u00e7\u00f5es Unidas para Alimenta\u00e7\u00e3o e Agricultura (FAO)<\/strong><\/a>. \u201cO Mapa era lan\u00e7ado todos os anos para acompanhar um dos Objetivos de Desenvolvimento do Mil\u00eanio da ONU: diminuir pela metade o n\u00famero de pessoas com fome no planeta at\u00e9 2015\u201d, explica Daniel Balaban, representante no Brasil do Programa Mundial de Alimentos (WFP) e diretor do Centro de Excel\u00eancia contra a Fome.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Com as crises econ\u00f4mica e pol\u00edtica, j\u00e1 houve alguns retrocessos ainda em 2017, como aponta a <a href=\"https:\/\/biblioteca.ibge.gov.br\/visualizacao\/livros\/liv101742.pdf\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\"><strong>Pesquisa de Or\u00e7amentos Familiares<\/strong><\/a>. Segundo Marco Antonio Teixeira, soci\u00f3logo, pesquisador com p\u00f3s-doutorado na Universidade Livre de Berlim e coordenador cient\u00edfico do grupo de pesquisa Alimento para Justi\u00e7a, a descontinuidade de uma pol\u00edtica de valoriza\u00e7\u00e3o real do sal\u00e1rio m\u00ednimo, bem como o desemprego, contribu\u00edram para isso. Ele tamb\u00e9m destaca os preju\u00edzos oriundos da aprova\u00e7\u00e3o do teto constitucional dos gastos p\u00fablicos, em 2016; do desmantelamento de pol\u00edticas de apoio \u00e0 agricultura familiar e camponesa, como o Programa de Aquisi\u00e7\u00e3o de Alimentos (PAA) e o Programa Nacional de Alimenta\u00e7\u00e3o Escolar (Pnae); e da extin\u00e7\u00e3o do Conselho Nacional de Seguran\u00e7a Alimentar e Nutricional (Consea), em 2019.<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cEm resumo, o que se pode observar \u00e9 um projeto pol\u00edtico deliberado que, ao destruir ou enfraquecer pol\u00edticas p\u00fablicas que garantem a seguran\u00e7a alimentar, viola o direito humano \u00e0 alimenta\u00e7\u00e3o adequada\u201d, completa.<\/p>\n\n\n\n<p>&nbsp;Sem levar em conta essas pesquisas sobre a situa\u00e7\u00e3o interna do pa\u00eds, em seu<strong> <\/strong><a href=\"https:\/\/www.gov.br\/planalto\/pt-br\/acompanhe-o-planalto\/discursos\/2020\/discurso-do-presidente-da-republica-jair-bolsonaro-na-abertura-da-75a-assembleia-geral-da-organizacao-das-nacoes-unidas-onu\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\"><strong>discurso na Assembleia Geral da ONU no final de 2020<\/strong>, <\/a>o presidente Jair Bolsonaro disse, sem apontar nenhuma refer\u00eancia, que o Brasil garantiu, em meio \u00e0 pandemia, a seguran\u00e7a alimentar de um sexto da popula\u00e7\u00e3o mundial.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator\"\/>\n\n\n\n<div class=\"wp-container-3 wp-block-columns\">\n<div class=\"wp-container-1 wp-block-column\" style=\"flex-basis:33.33%\">\n<h3 class=\"has-text-align-left\">LEIA MAIS<\/h3>\n<\/div>\n\n\n\n<div class=\"wp-container-2 wp-block-column\" style=\"flex-basis:66.66%\">\n<ul><li><a href=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/sextante\/alimentando-utopias\/\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\"><strong><strong>Alimentando Utopias<\/strong><\/strong>:<\/a> um futuro com alimenta\u00e7\u00e3o saud\u00e1vel, acess\u00edvel e sustent\u00e1vel \u00e9 poss\u00edvel?<\/li><li><strong><a href=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/sextante\/a-agricultura-urbana-como-solucao\/\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">A agricultura urbana como solu\u00e7\u00e3o<\/a>: <\/strong>como ela pode ajudar no contexto da pandemia?<\/li><li><strong><a href=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/sextante\/da-terra-ao-prato\/\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">Da terra ao prato<\/a><\/strong>: as feiras de hortifrutigranjeiros em Porto Alegre<\/li><\/ul>\n<\/div>\n<\/div>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator\"\/>\n\n\n\n<p>De fato, o Brasil \u00e9 um dos l\u00edderes mundiais em agroneg\u00f3cio e o terceiro maior exportador de alimentos do mundo, segundo a FAO. Logo, produzimos e exportamos muito. Resumindo, a comida n\u00e3o fica aqui. \u201cHoje, vale mais a pena para o grande produtor exportar, porque eles ganham em d\u00f3lar e o real est\u00e1 defasado\u201d, explica Daniel. Al\u00e9m disso, tamanha desvaloriza\u00e7\u00e3o do real faz com que os grandes produtores, ao venderem no mercado interno, queiram aumentar o valor para compensar a diferen\u00e7a em rela\u00e7\u00e3o ao mercado externo. \u201c\u00c9 a dolariza\u00e7\u00e3o da economia brasileira\u201d, completa.<\/p>\n\n\n\n<p>Daniel acrescenta que boa parte das<em> commodities<\/em> (produtos de origem prim\u00e1ria, como petr\u00f3leo, carv\u00e3o mineral, soja, cana-de-a\u00e7\u00facar e outros) produzidas pelo agroneg\u00f3cio s\u00e3o para consumo animal no exterior. \u201cPara produzir esses alimentos, \u00e9 preciso muita \u00e1gua e outros recursos naturais. Os pa\u00edses que compram do Brasil, na verdade, compram esses recursos. Utilizam os nossos recursos, enchem os bolsos apenas dos produtores, e a popula\u00e7\u00e3o n\u00e3o est\u00e1 feliz. O modelo est\u00e1 errado\u201d, defende.<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote has-text-align-right\"><p>\u201cA fome \u00e9 o efeito perverso de uma pol\u00edtica econ\u00f4mica perversa\u201d<\/p><cite><strong>DANIEL BALABAN<\/strong>, representante no WFP e diretor do Centro de Excel\u00eancia contra a Fome<\/cite><\/blockquote>\n\n\n\n<p>O pesquisador Marco Antonio acrescenta que os recursos s\u00e3o finitos e devem ser distribu\u00eddos democraticamente \u2013 o que n\u00e3o ocorre. O agroneg\u00f3cio ocupa a maior extens\u00e3o de terras destinadas \u00e0 atividade agropecu\u00e1ria (77%) de acordo com o<strong> <\/strong><a href=\"https:\/\/reporterbrasil.org.br\/2019\/11\/maior-concentracao-de-terras-revelada-pelo-censo-agropecuario-incentiva-desmatamento-e-conflitos\/\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\"><strong>Censo Agropecu\u00e1rio de 2017<\/strong><\/a><strong>.<\/strong> J\u00e1 a agricultura familiar, que ocupa uma parcela bem menor de terras, representa 77% dos estabelecimentos agr\u00edcolas e \u00e9 respons\u00e1vel pela oferta de boa parte do que consumimos internamente.<\/p>\n\n\n\n<div class=\"wp-block-image\"><figure class=\"aligncenter size-large is-resized\"><img loading=\"lazy\" src=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/sextante\/wp-content\/uploads\/2021\/10\/Pauta4_Gabriela_Borges_02-1024x1024.png\" alt=\"\" class=\"wp-image-3110\" width=\"567\" height=\"567\" srcset=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/sextante\/wp-content\/uploads\/2021\/10\/Pauta4_Gabriela_Borges_02-1024x1024.png 1024w, https:\/\/www.ufrgs.br\/sextante\/wp-content\/uploads\/2021\/10\/Pauta4_Gabriela_Borges_02-300x300.png 300w, https:\/\/www.ufrgs.br\/sextante\/wp-content\/uploads\/2021\/10\/Pauta4_Gabriela_Borges_02-150x150.png 150w, https:\/\/www.ufrgs.br\/sextante\/wp-content\/uploads\/2021\/10\/Pauta4_Gabriela_Borges_02-768x768.png 768w, https:\/\/www.ufrgs.br\/sextante\/wp-content\/uploads\/2021\/10\/Pauta4_Gabriela_Borges_02.png 1080w\" sizes=\"(max-width: 567px) 100vw, 567px\" \/><figcaption>O n\u00famero da desigualdade: &nbsp;77% do territ\u00f3rio brasileiro \u00e9 ocupado pelo agroneg\u00f3cio, mas 77% dos alimentos consumidos no Brasil v\u00eam da agricultura familiar, de acordo com dados do <a href=\"https:\/\/reporterbrasil.org.br\/2019\/11\/maior-concentracao-de-terras-revelada-pelo-censo-agropecuario-incentiva-desmatamento-e-conflitos\/\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\"><strong>Censo Agropecu\u00e1rio de 2017<\/strong><\/a> | Arte: Gabriela Barbosa Borges<br><\/figcaption><\/figure><\/div>\n\n\n\n<p>\u201cO Brasil produz alimento suficiente para alimentar o nosso pa\u00eds e muitos outros. O grande problema, hoje, \u00e9 a quest\u00e3o econ\u00f4mica: as pessoas n\u00e3o t\u00eam dinheiro para comprar uma alimenta\u00e7\u00e3o de qualidade. Isso \u00e9 fruto da crise econ\u00f4mica. A fome \u00e9 o efeito perverso de uma pol\u00edtica econ\u00f4mica perversa\u201d, explica Daniel.<\/p>\n\n\n\n<h3><strong>Tem gente com fome<\/strong><\/h3>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-audio\"><audio controls src=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/sextante\/wp-content\/uploads\/2021\/10\/Tem-gente-com-fome.mp3\"><\/audio><figcaption>Tem Gente com Fome &#8211; Ney Matogrosso<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p>Marisa Mittmann da Silva, 63 anos, moradora de Canoas, cidade da Regi\u00e3o Metropolitana de Porto Alegre, n\u00e3o vai ao mercado, mas ouviu falar sobre o aumento do pre\u00e7o dos alimentos. Ela trabalha h\u00e1 10 anos coletando lixo recicl\u00e1vel e se alimenta exclusivamente de doa\u00e7\u00f5es vindas de igrejas do bairro em que trabalha e de vizinhos.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<div class=\"wp-block-image\"><figure class=\"alignright size-large is-resized\"><img loading=\"lazy\" src=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/sextante\/wp-content\/uploads\/2021\/10\/WhatsApp-Image-2021-10-21-at-23.41.52-655x1024.jpeg\" alt=\"\" class=\"wp-image-3111\" width=\"496\" height=\"774\" srcset=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/sextante\/wp-content\/uploads\/2021\/10\/WhatsApp-Image-2021-10-21-at-23.41.52-655x1024.jpeg 655w, https:\/\/www.ufrgs.br\/sextante\/wp-content\/uploads\/2021\/10\/WhatsApp-Image-2021-10-21-at-23.41.52-192x300.jpeg 192w, https:\/\/www.ufrgs.br\/sextante\/wp-content\/uploads\/2021\/10\/WhatsApp-Image-2021-10-21-at-23.41.52-768x1200.jpeg 768w, https:\/\/www.ufrgs.br\/sextante\/wp-content\/uploads\/2021\/10\/WhatsApp-Image-2021-10-21-at-23.41.52-983x1536.jpeg 983w, https:\/\/www.ufrgs.br\/sextante\/wp-content\/uploads\/2021\/10\/WhatsApp-Image-2021-10-21-at-23.41.52.jpeg 1024w\" sizes=\"(max-width: 496px) 100vw, 496px\" \/><figcaption>Marisa recebe refei\u00e7\u00f5es, frutas, legumes, ranchos, roupas e outras doa\u00e7\u00f5es, j\u00e1 que o dinheiro que arrecada em seu trabalho n\u00e3o \u00e9 suficiente para mant\u00ea-la | Foto: Giovanna Parise<\/figcaption><\/figure><\/div>\n\n\n\n<p>A fome \u00e9 uma velha conhecida de Marisa. Seu pai era caminhoneiro e ficava muito tempo longe de casa. Durante as viagens, sua m\u00e3e, que n\u00e3o podia trabalhar devido a um problema card\u00edaco, ficava respons\u00e1vel por ela e seus seis irm\u00e3os. \u201cTu n\u00e3o tem merenda?, me perguntavam. Eu respondia que n\u00e3o e ia tomar uma aguinha para passar a fome. A m\u00e3e sempre dizia que a gente tinha que tomar \u00e1gua para passar a fome. Eu gravei e dizia isso para as minhas colegas\u201d, conta.<\/p>\n\n\n\n<p>Quando come\u00e7ou a estudar, ainda n\u00e3o havia o oferecimento de marmitas pelas escolas p\u00fablicas no Brasil. Ao longo dos anos, ela relata que algumas medidas come\u00e7aram a ser postas em pr\u00e1tica: \u201cA\u00ed eles come\u00e7aram a dar aquele &#8216;triguinho&#8217; com leite. Eu comia \u2013 tenho at\u00e9 vergonha \u2013, quatro x\u00edcaras cheias, porque eu n\u00e3o tomava caf\u00e9 da manh\u00e3, n\u00e3o tinha. Meio-dia, eu ia pro col\u00e9gio, n\u00e3o comia, n\u00e3o tinha. Eu ia varada de fome, imagina, uma crian\u00e7a\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>Por vezes, seu pai adoecia, devido a diabetes. Esses eram momentos de muita fome, j\u00e1 que boa parte das refei\u00e7\u00f5es da fam\u00edlia vinham das viagens a trabalho. Marisa e sua m\u00e3e preparavam ch\u00e1s e cuidavam do pai na medida do poss\u00edvel, j\u00e1 que tamb\u00e9m dependiam do sistema p\u00fablico de sa\u00fade ainda muito prec\u00e1rio na \u00e9poca, como lembra: \u201cTu consultava, recebia alguns remedinhos e te mandavam pra casa. Tu tinha que te curar em casa.\u201d&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote has-text-align-right\"><p>&#8220;A m\u00e3e sempre dizia que a gente tinha que tomar \u00e1gua para passar a fome&#8221;<\/p><cite><strong>MARISA TEREZINHA MITTMANN DA SILVA<\/strong>, recicladora<\/cite><\/blockquote>\n\n\n\n<p>Ainda na terceira s\u00e9rie do Ensino Fundamental, ela precisou largar os estudos para cuidar dos irm\u00e3os. Come\u00e7ou a trabalhar cedo tamb\u00e9m, para ajudar a colocar comida na mesa da fam\u00edlia. Hoje, quando recebe, al\u00e9m de alimentos, outros itens que j\u00e1 tem, Marisa doa. \u201cQuando eu doo e a pessoa pega, e eu vejo a pessoa com aquilo, meu cora\u00e7\u00e3o parece que floresce\u201d, conta. Na falta de assist\u00eancia e oportunidades do Estado, Marisa sabe a import\u00e2ncia de uma doa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<h3><strong>Gente \u00e9 pra brilhar, n\u00e3o pra morrer de fome<\/strong>&nbsp;<\/h3>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-audio\"><audio controls src=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/sextante\/wp-content\/uploads\/2021\/10\/Caetano-Veloso-Gente.mp3\"><\/audio><figcaption>Gente &#8211; Caetano Veloso<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p>Se a desigualdade alimentar \u00e9 um problema pol\u00edtico-econ\u00f4mico, s\u00f3 h\u00e1 uma forma de solucion\u00e1-lo: com pol\u00edticas p\u00fablicas. Marco Antonio exemplifica algumas: a retomada de um aux\u00edlio emergencial robusto, o fortalecimento de pol\u00edticas de seguran\u00e7a alimentar, a gera\u00e7\u00e3o de emprego e a valoriza\u00e7\u00e3o do sal\u00e1rio m\u00ednimo acima da infla\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>J\u00e1 realizadas no Brasil, tais medidas n\u00e3o s\u00e3o colocadas em pr\u00e1tica novamente, devido \u00e0 atual matriz econ\u00f4mica. Enquanto <a href=\"https:\/\/economia.ig.com.br\/2021-10-01\/gas-10-salario-minimo.html\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">o g\u00e1s de cozinha custa 10% do sal\u00e1rio m\u00ednimo<\/a>, o mercado financeiro brasileiro cresce. De acordo com a B3, bolsa de valores oficial do Brasil, o <a href=\"https:\/\/www.terra.com.br\/noticias\/numero-de-investidores-na-bolsa-cresce-43-em-2021-mas-medo-ainda-e-entrave,a04009d8fa85260daa49ab88b773dab7w1w7w8we.html\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">n\u00famero de investidores na bolsa teve um aumento de 43% em 2021<\/a>. \u201cO sistema econ\u00f4mico \u00e9 perverso para as pessoas com pouca renda e ben\u00e9fico para as que t\u00eam bastante. Quanto mais dinheiro voc\u00ea tiver no banco, mais ele rende. O Brasil virou uma esp\u00e9cie de cassino\u201d, diz Daniel.<\/p>\n\n\n\n<p>Sendo assim, vale mais a pena investir no mercado financeiro do que abrir um neg\u00f3cio que geraria empregos, movimentaria a economia do pa\u00eds, ajudaria os pequenos empreendedores e a sociedade em geral. \u201cQuanto mais financeiriza\u00e7\u00e3o, menos oportunidades para as pessoas, e a medida de combate \u00e0 fome mais eficiente n\u00e3o \u00e9 dar comida, \u00e9 dar oportunidade\u201d, defende.<\/p>\n\n\n\n<p>Para Daniel, \u00e9 preciso haver uma mudan\u00e7a de mentalidade: \u201cEm outros pa\u00edses, a popula\u00e7\u00e3o se conscientizou da import\u00e2ncia de apoiar as classes m\u00e9dia e baixa. Mas, para que tenhamos governos interessados em apoi\u00e1-las, precisamos de uma sociedade interessada em acabar com a fome e a pobreza.\u201d<\/p>\n\n\n\n<p>Tal conscientiza\u00e7\u00e3o passa pelo entendimento de que n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel viver em paz em uma sociedade desigual e faminta. \u201cOnde tem fome, tem conflito. Quer acabar com a viol\u00eancia? Acaba com a fome. E acabar com a fome \u00e9 fazer com que o papel do Estado seja cumprido\u201d, defende Daniel.<\/p>\n\n\n\n<h3><strong>E vamos botar \u00e1gua no feij\u00e3o<\/strong><\/h3>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-audio\"><audio controls src=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/sextante\/wp-content\/uploads\/2021\/10\/Feijoada-Completa-Chico-Buarque.mp3\"><\/audio><figcaption>Feijoada Completa &#8211; Chico Buarque<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p>Enquanto as oportunidades n\u00e3o chegam e as barrigas seguem roncando, quem pouco tem \u00e9 quem mais ajuda. Iniciativas populares t\u00eam salvado muitas pessoas. S\u00e3o cidad\u00e3os que, literalmente, botam mais \u00e1gua no feij\u00e3o para levar o que, muitas vezes, \u00e9 a \u00fanica refei\u00e7\u00e3o do dia para muitos.<\/p>\n\n\n\n<p>A ONG Juntos Somos Mais Fortes, de Porto Alegre, \u00e9 um exemplo disso. Criada por Paulo Cezar F\u00e9lix Barbosa, de 44 anos, em mar\u00e7o de 2020, ela atua em 28 comunidades da capital ga\u00facha. Os volunt\u00e1rios entregam marmitas, lanches, cestas b\u00e1sicas e agasalhos para moradores e pessoas em situa\u00e7\u00e3o de rua.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<div class=\"wp-block-image\"><figure class=\"aligncenter is-resized\"><img loading=\"lazy\" src=\"https:\/\/lh3.googleusercontent.com\/CPB1aCmMZHBsDuTIBHTsQ6fTsxy8oVSxGnp5_xdKXdwcMPi8MtQ5In1bHT4e2feRieitXg2KmyM0XDrGz6j2ybPLiCf3QA2VtdjeI28ViO8F8_fJNYsbP_040tA_DbEWg0Buoxk=s1600\" alt=\"\" width=\"596\" height=\"746\"\/><figcaption>Paulo Cezar, conhecido como Fub\u00e1, presidente da ONG Juntos Somos Mais Fortes, \u00e9 respons\u00e1vel pelo atendimento das 28 comunidades cadastradas | Foto: Arquivo pessoal<\/figcaption><\/figure><\/div>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote has-text-align-right\"><p>&#8220;Tem lugares em que a gente chega e as pessoas est\u00e3o de dois a tr\u00eas dias sem comer, s\u00f3 contando com o dia em que vamos levar o alimento para elas&#8221;<\/p><cite><strong>PAULO CEZAR<\/strong> <strong>BARBOSA<\/strong>, presidente da ONG Juntos Somos Mais Fortes<\/cite><\/blockquote>\n\n\n\n<p>\u201cA gente percebe que, em cada a\u00e7\u00e3o, aumenta o n\u00famero de pessoas passando necessidades. A fome s\u00f3 aumenta. Tem lugares em que a gente chega e as pessoas est\u00e3o de dois a tr\u00eas dias sem comer, s\u00f3 contando com o dia em que vamos levar o alimento para elas\u201d, conta Paulo C\u00e9zar, tamb\u00e9m conhecido como Fub\u00e1.<\/p>\n\n\n\n<p>A ONG Juntos Somos Mais Fortes n\u00e3o conta com apoio governamental, e as doa\u00e7\u00f5es v\u00eam, principalmente, de quem tamb\u00e9m n\u00e3o tem condi\u00e7\u00f5es abundantes: \u201cA parte da sociedade que tem como ajudar n\u00e3o ajuda. \u00c9 o pobre ajudando o pobre. Infelizmente, \u00e9 isso.\u201d Devido \u00e0s condi\u00e7\u00f5es financeiras, a ONG ainda n\u00e3o possui regulamenta\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Eles realizam 10 a\u00e7\u00f5es por m\u00eas. Todas as quartas-feiras, os integrantes distribuem cachorros-quentes para crian\u00e7as em vulnerabilidade social. \u00c0s sextas, h\u00e1 entrega de marmitas para pessoas em situa\u00e7\u00e3o de rua e fam\u00edlias que necessitam. As refei\u00e7\u00f5es s\u00e3o compostas por arroz, feij\u00e3o, polenta, massa e frango. Al\u00e9m disso, duas vezes no m\u00eas, s\u00e3o distribu\u00eddas cestas b\u00e1sicas. Em um ano e sete meses, a organiza\u00e7\u00e3o j\u00e1 entregou 36 mil marmitas e 25 mil lanches. Para ajudar, basta acompanhar e contribuir com os pedidos de doa\u00e7\u00f5es pela <a href=\"https:\/\/www.facebook.com\/JuntosSomosMaisFortt\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\"><strong>p\u00e1gina do Facebook<\/strong><\/a> da organiza\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>A solidariedade da \u00e1gua a mais no feij\u00e3o, presente principalmente no \u201cBrasil\u201d que passa por mais dificuldades, n\u00e3o pode ser, entretanto, o caminho de combate \u00e0 desigualdade alimentar. A l\u00f3gica atual, que faz com que a xepa da feira seja vista como recompensa e que ofusca o brilho de tanta gente com fome, precisa ser questionada. Em um pa\u00eds t\u00e3o rico em biodiversidade e capaz de produzir tantos alimentos, chega a ser vergonhoso perceber que mais da metade dos brasileiros nunca v\u00ea nem come o b\u00e1sico. Caviar? Sequer ouvimos falar.&nbsp;&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-audio\"><audio controls src=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/sextante\/wp-content\/uploads\/2021\/10\/Caviar.mp3\"><\/audio><figcaption>Caviar &#8211; Zeca Pagodinho<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator\"\/>\n\n\n\n<div class=\"wp-container-6 wp-block-columns\">\n<div class=\"wp-container-4 wp-block-column\" style=\"flex-basis:33.33%\">\n<h3 class=\"has-text-align-left\">LEIA MAIS<\/h3>\n<\/div>\n\n\n\n<div class=\"wp-container-5 wp-block-column\" style=\"flex-basis:66.66%\">\n<ul><li><a href=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/sextante\/vitimas-do-clima\/\"><strong>V\u00edtimas do clima:<\/strong> <\/a>mudan\u00e7as clim\u00e1ticas se tornam um novo fator para o aumento da desigualdade<\/li><li><strong><a href=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/sextante\/a-luta-para-menstruar-em-paz\/\">A luta para menstruar em paz:<\/a> <\/strong>a complexa realidade de quem sofre de pobreza menstrual<\/li><\/ul>\n<\/div>\n<\/div>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator\"\/>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Depois de conseguir sair do Mapa da Fome da ONU, o Brasil parece ter embarcado em um retrocesso sem fim, que faz com que a inseguran\u00e7a alimentar volte a bater recordes<\/p>\n","protected":false},"author":36,"featured_media":3131,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"57-post-template.php","format":"standard","meta":[],"categories":[109],"tags":[],"acf":[],"yoast_head":"<!-- This site is optimized with the Yoast SEO plugin v19.6.1 - https:\/\/yoast.com\/wordpress\/plugins\/seo\/ -->\n<title>Como a desigualdade se reflete na mesa dos brasileiros? 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