{"id":3201,"date":"2021-11-11T19:27:57","date_gmt":"2021-11-11T22:27:57","guid":{"rendered":"https:\/\/www.ufrgs.br\/sextante\/?p=3201"},"modified":"2021-11-23T14:08:53","modified_gmt":"2021-11-23T17:08:53","slug":"o-despertar-para-uma-ancestral-forma-de-ser-brasileiro","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ufrgs.br\/sextante\/o-despertar-para-uma-ancestral-forma-de-ser-brasileiro\/","title":{"rendered":"O despertar para uma ancestral forma de ser brasileiro"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"has-drop-cap\">Chegar \u00e0 Teko\u00e1 Anhetengu\u00e1 (Aldeia Verdadeira) \u00e9 desprender-se da zona urbana de Porto Alegre e adentrar na mata preservada. Na zona leste da capital ga\u00facha, a aldeia Mbya Guarani integra as 725 terras ind\u00edgenas existentes no pa\u00eds que est\u00e3o em diferentes fases do procedimento demarcat\u00f3rio, de acordo com o site <a href=\"https:\/\/terrasindigenas.org.br\/\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">Terras Ind\u00edgenas no Brasil<\/a>.<\/p>\n\n\n\n<p>Segundo o <a href=\"https:\/\/www.ibge.gov.br\/estatisticas\/sociais\/populacao\/9662-censo-demografico-2010.html?edicao=9677&amp;t=destaques\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">Censo Demogr\u00e1fico do Instituto Brasileiro de Geografia e Estat\u00edstica (IBGE) registrado em 2010<\/a>, 896.917 pessoas declaram-se ind\u00edgenas e 57,7% habitam \u00e1reas reconhecidas oficialmente. S\u00e3o nesses espa\u00e7os que cada povo encontra maneiras de valorizar e preservar a sua ancestralidade, perpetuando os saberes origin\u00e1rios.<\/p>\n\n\n\n<div class=\"wp-block-image\"><figure class=\"aligncenter\"><img src=\"https:\/\/lh3.googleusercontent.com\/gFuWMBiBH7LA5x25Yub5v_wRDJ8N-qJoVhFxD54D8gP7VSawTAlUbazyUAZ9udZDXgwdulOaq9PHb1Z5cAYb_-qBjPsncx3QcbK-JY7HftoXQMyFAG2_cZKGRzavezDDOZJWmlUE=s1600\" alt=\"\"\/><figcaption>A aldeia  Mbya Guarani Teko\u00e1 Anhetengu\u00e1 fica na zona leste de Porto Alegre  | Foto: Maiara Dallagnol<\/figcaption><\/figure><\/div>\n\n\n\n<p>Na l\u00edngua Mbya Guarani, essa forma de viver tem uma express\u00e3o espec\u00edfica: <em>Nhanderek\u00f3<\/em>. \u00c9 um modo de ser, de relacionar-se em comunidade, de educar as crian\u00e7as, de manifestar a espiritualidade, indo al\u00e9m do conceito tradicional de cultura e conectando todos os aspectos das experi\u00eancias cotidianas em busca do bem viver.<\/p>\n\n\n\n<p>Atrav\u00e9s do <em>Nhanderek\u00f3<\/em> tudo \u00e9 percebido de forma integrada. As diversas nuances que tecem as viv\u00eancias deixam de ser fragmentos e comp\u00f5em juntas a compreens\u00e3o sobre a realidade. Assim, a alimenta\u00e7\u00e3o est\u00e1 diretamente ligada \u00e0 medicina, a felicidade reflete a forma como \u00e9 mantida a espiritualidade e os encontros em comunidade s\u00e3o essenciais para o bem-estar coletivo.<\/p>\n\n\n\n<p>\u201c\u00c9 bem interessante a forma com que os Mbya Guarani lidam com as coisas. Para eles, uma pessoa pode ser arquiteta, curandeira, agricultora, construtora\u2026 ser v\u00e1rias em uma pessoa s\u00f3. N\u00e3o \u00e9 preciso se limitar \u00e0s estruturas, aos padr\u00f5es de especialidades. Na verdade, nessa cultura nem \u00e9 inteligente ser especialista. O melhor \u00e9 ser generalista e saber de tudo um pouco. \u00c9 uma consci\u00eancia hol\u00edstica, que une tudo\u201d, explica Francisco Lang, integrante da Yap\u00f3 &#8211; Arquitetura e Engenharia Consciente, \u200b\u200bum escrit\u00f3rio que desenvolve projetos com foco em bioconstru\u00e7\u00e3o e bioarquitetura e que se dedica a a\u00e7\u00f5es sociais junto a aldeias.<\/p>\n\n\n\n<p>Francisco \u00e9 arquiteto e convive com povos Mbya Guarani da regi\u00e3o de Porto Alegre desde a faculdade, quando participou da constru\u00e7\u00e3o biosustent\u00e1vel da Escola Aut\u00f4noma Tek\u00f3 Jeap\u00f3, na Teko\u00e1 Ka\u2019aguy Por\u00e3 (Aldeia Mata Sagrada), localizada em Maquin\u00e9, no Rio Grande do Sul. A partir da atividade de voluntariado \u2013 que chegava a reunir em torno de 80 pessoas por mutir\u00e3o e resultou na circula\u00e7\u00e3o de mais de mil pessoas ao longo da atividade \u2013, o estudante come\u00e7ou a trabalhar com Bruna Brilmann, Daniela Tatsch Baptista e Kleber Colombo. Remanescentes do coletivo que organizava os encontros de trabalho e viv\u00eancias na aldeia, o grupo formou o escrit\u00f3rio Yap\u00f3 &#8211; Arquitetura e Engenharia Consciente para fazer da proposta em que acreditam o seu meio de gera\u00e7\u00e3o de renda.<\/p>\n\n\n\n<p>A Escola Aut\u00f4noma Tek\u00f3 Jeap\u00f3 foi inaugurada em 2017 e, agora, a Yap\u00f3 auxilia a Teko\u00e1 Anhetengu\u00e1, na Lomba do Pinheiro, a construir banheiros para visitantes n\u00e3o-ind\u00edgenas. Em seu cotidiano, os moradores da aldeia n\u00e3o utilizam banheiros, fazendo seus dejetos em meio \u00e0 mata. No entanto, a iniciativa de instalar sanit\u00e1rios comprova a intensa hospitalidade da comunidade e a vontade de compartilhar a sua cultura. Por isso, a inten\u00e7\u00e3o \u00e9 partir em busca de recursos para a cria\u00e7\u00e3o de um centro de conviv\u00eancia para acolher n\u00e3o-ind\u00edgenas na Teko\u00e1 Anhetengu\u00e1.<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote has-text-align-right\"><p>&#8220;Estamos compartilhando os valores de conhecer o mundo e a nossa espiritualidade&#8221;<\/p><cite><strong>JOS\u00c9 CIRILO PIRES MORINICO<\/strong>, cacique da aldeia Teko\u00e1 Anhetengu\u00e1 <\/cite><\/blockquote>\n\n\n\n<p>\u201cA ideia da casa de visitantes surgiu na pr\u00f3pria comunidade pela vontade de termos um lugarzinho para receber visitantes, receber os nossos amigos e acolher bem. Tamb\u00e9m queremos criar momentos de conv\u00edvio entre os <em>juru\u00e1 keury<\/em> [<em>os n\u00e3o-ind\u00edgenas<\/em>] e os Mbya Guarani, para que quem passe por aqui entenda como a gente vive dentro da aldeia, o nosso dia a dia. Vai ser uma terapia para a sociedade\u201d, conta o cacique Jos\u00e9 Cirilo Pires Morinico, lideran\u00e7a da aldeia Teko\u00e1 Anhetengu\u00e1.<\/p>\n\n\n\n<div class=\"wp-block-image\"><figure class=\"alignleft size-full is-resized\"><img loading=\"lazy\" src=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/sextante\/wp-content\/uploads\/2021\/11\/fogueira-plantas-gif_1.gif\" alt=\"\" class=\"wp-image-4470\" width=\"402\" height=\"402\"\/><figcaption>Arte: Julia Duarte<\/figcaption><\/figure><\/div>\n\n\n\n<p>Na Aldeia liderada pelo cacique Cirilo, as rela\u00e7\u00f5es com os <em>juru\u00e1 keury <\/em>sempre foram de proximidade. Por estar localizada ao lado da zona urbana de Porto Alegre, a Teko\u00e1 Anhetengu\u00e1 costumava receber turmas de estudantes, desde as s\u00e9ries iniciais at\u00e9 alunos de faculdade, al\u00e9m de grupos voltados a a\u00e7\u00f5es sociais. Hoje, com a pandemia, a retomada desse compartilhamento de ensinamentos Mbya Guarani acontece a partir dos breves mutir\u00f5es de constru\u00e7\u00e3o do banheiro, que unem m\u00e3o de obra guarani e n\u00e3o-ind\u00edgena.<\/p>\n\n\n\n<p> \u2800<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cPor meio do mutir\u00e3o, queremos valorizar as pessoas que v\u00eam trabalhando e ajudando a nossa comunidade a terem fortalecimento espiritual, e n\u00e3o s\u00f3 trabalharem aqui. Fazemos com que ao mesmo tempo haja troca e conviv\u00eancia. A gente come junto, est\u00e1 junto, conversamos e temos liberdade para circular. \u00c9 uma alegria para n\u00f3s receber aqui e, por isso, uma casa de visitas vai ser t\u00e3o importante. Os nossos amigos v\u00e3o ser acolhidos, v\u00e3o ter o banheiro, v\u00e3o ter um lugar para dormir, j\u00e1 que dormir tamb\u00e9m \u00e9 terapia. N\u00e3o s\u00f3 dormir, mas estar aqui na aldeia j\u00e1 \u00e9 uma terapia. E quando tem lugar para fazer foguinho, mais ainda. Estamos compartilhando os valores de conhecer o mundo e a nossa espiritualidade\u201d, detalha o cacique.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-container-2 wp-block-gallery-1 wp-block-gallery alignfull columns-3 is-cropped\"><ul class=\"blocks-gallery-grid\"><li class=\"blocks-gallery-item\"><figure><img loading=\"lazy\" width=\"1024\" height=\"768\" src=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/sextante\/wp-content\/uploads\/2021\/10\/2-carrossel-foto_Maiara_Dallagnol-1024x768.jpg\" alt=\"\" data-id=\"3203\" data-full-url=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/sextante\/wp-content\/uploads\/2021\/10\/2-carrossel-foto_Maiara_Dallagnol-scaled.jpg\" data-link=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/sextante\/?attachment_id=3203\" class=\"wp-image-3203\" srcset=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/sextante\/wp-content\/uploads\/2021\/10\/2-carrossel-foto_Maiara_Dallagnol-1024x768.jpg 1024w, https:\/\/www.ufrgs.br\/sextante\/wp-content\/uploads\/2021\/10\/2-carrossel-foto_Maiara_Dallagnol-300x225.jpg 300w, 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Guarani<\/strong><\/h3>\n\n\n\n<p>Na Teko\u00e1 Anhetengu\u00e1, a espiritualidade \u00e9 o fio condutor do bem viver. A partir da <em>Opy<\/em>, um espa\u00e7o de cerim\u00f4nias de canto, dan\u00e7a, reza e cura, as lideran\u00e7as da aldeia reconhecem quais caminhos devem seguir para preservar a cultura ancestral e a integridade de seu povo.<\/p>\n\n\n\n<p>Na <em>Opy<\/em> \u00e9 aceso o <em>Petyngua<\/em>, um cachimbo sagrado essencial para praticar as cerim\u00f4nias na comunidade. Ele possibilita a conex\u00e3o com falas sagradas e retira as energias negativas atrav\u00e9s da fuma\u00e7a, purificando o esp\u00edrito. O ritual mais sagrado realizado na aldeia \u00e9 o <em>Nhemongarai<\/em>, uma cerim\u00f4nia de fim de ano para aben\u00e7oar as sementes e batizar as crian\u00e7as, dando a elas o <em>Tery<\/em>, o seu nome ind\u00edgena.<\/p>\n\n\n\n<div class=\"wp-block-image\"><figure class=\"alignright size-full is-resized\"><img loading=\"lazy\" src=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/sextante\/wp-content\/uploads\/2021\/10\/Pauta9_Julia_Duarte.png\" alt=\"\" class=\"wp-image-3216\" width=\"326\" height=\"326\" srcset=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/sextante\/wp-content\/uploads\/2021\/10\/Pauta9_Julia_Duarte.png 1000w, https:\/\/www.ufrgs.br\/sextante\/wp-content\/uploads\/2021\/10\/Pauta9_Julia_Duarte-300x300.png 300w, https:\/\/www.ufrgs.br\/sextante\/wp-content\/uploads\/2021\/10\/Pauta9_Julia_Duarte-150x150.png 150w, https:\/\/www.ufrgs.br\/sextante\/wp-content\/uploads\/2021\/10\/Pauta9_Julia_Duarte-768x768.png 768w\" sizes=\"(max-width: 326px) 100vw, 326px\" \/><figcaption>Arte: Julia Duarte<\/figcaption><\/figure><\/div>\n\n\n\n<p>Al\u00e9m dos rituais na <em>Opy<\/em>, h\u00e1 noites em que os moradores se re\u00fanem ao redor do fogo para ouvir lendas que contam as hist\u00f3rias dos deuses, da lua, do sol, das estrelas\u2026 Esse conhecimento \u00e9 repassado oralmente de gera\u00e7\u00e3o em gera\u00e7\u00e3o, sempre \u00e0 noite, e \u00e9 guardado na mem\u00f3ria.<\/p>\n\n\n\n<p>A corporeidade tamb\u00e9m \u00e9 importante para representar a espiritualidade Mbya Guarani. Na Teko\u00e1 Anhetengu\u00e1 existem tr\u00eas \u00e1rvores de urucum, fruto com um forte pigmento vermelho utilizado como tintura. Atualmente, os ind\u00edgenas da comunidade pintam seus rostos para cantar nas cerim\u00f4nias da aldeia e tamb\u00e9m para ir \u00e0 cidade para vender seus artesanatos ou participar de eventos.<\/p>\n\n\n\n<p>A m\u00fasica \u00e9 um elemento espiritual muito presente na aldeia e h\u00e1 um estilo pr\u00f3prio de afina\u00e7\u00e3o dos instrumentos. Os mais utilizados pelos ind\u00edgenas da Lomba do Pinheiro s\u00e3o o <em>Mbaraka<\/em>, um viol\u00e3o com cinco cordas, e o <em>Rav\u00e9<\/em>, um violino com tr\u00eas cordas. Para a afina\u00e7\u00e3o guarani, cada corda tem o seu pr\u00f3prio significado. Al\u00e9m disso, a m\u00fasica se aprende ao ouvir. N\u00e3o h\u00e1 ensino, pois quem nasceu para ser m\u00fasico desenvolve naturalmente essa habilidade. Esta maneira de educar atrav\u00e9s dos sentidos se aplica a todas as \u00e1reas.<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cS\u00e3o muitos os meus aprendizados nessa conviv\u00eancia, que mudaram e mudam a forma com que eu ajo no mundo. O que eu percebo \u00e9 que aprendi a impulsionar mais a minha capacidade de observa\u00e7\u00e3o e menos a de a\u00e7\u00e3o. Todo mundo na aldeia tem uma capacidade muito grande de observa\u00e7\u00e3o, e eu percebo nas viv\u00eancias como eles s\u00e3o r\u00e1pidos em fazer as coisas. Tu n\u00e3o precisa falar. Quando uma pessoa come\u00e7a a fazer o fogo para cozinhar, a outra j\u00e1 est\u00e1 buscando a panela. Se eu estou precisando de sal, quando eu vejo o sal est\u00e1 ao meu lado. Ent\u00e3o, \u00e9 m\u00e1gico. Mas, na verdade, \u00e9 simplesmente quando a gente baixa a ansiedade sobre o que queremos falar, ou at\u00e9 como a gente quer se expressar no mundo, e percebe como o grupo se manifesta em coletividade. \u00c9 incr\u00edvel\u201d, exemplifica Bruna Brilmann, integrante da Yap\u00f3 &#8211; Arquitetura e Engenharia Consciente.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-embed aligncenter is-type-video is-provider-youtube wp-block-embed-youtube wp-embed-aspect-16-9 wp-has-aspect-ratio\"><div class=\"wp-block-embed__wrapper\">\n<iframe loading=\"lazy\" title=\"O despertar para uma ancestral forma de ser brasileiro\" width=\"750\" height=\"422\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/ixx0FPUBa88?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture\" allowfullscreen><\/iframe>\n<\/div><\/figure>\n\n\n\n<p>A hist\u00f3ria da Teko\u00e1 Anhetengu\u00e1 tem mais de 25 anos e, atualmente, a aldeia ocupa 25 hectares de terras cedidas, sendo lar de 35 fam\u00edlias, um total de 110 pessoas. Em suas terras, h\u00e1 tamb\u00e9m um posto de sa\u00fade e uma escola, com funcion\u00e1rios n\u00e3o-ind\u00edgenas e ind\u00edgenas.<\/p>\n\n\n\n<p>As crian\u00e7as t\u00eam atividades curriculares do Ensino Fundamental e do Ensino M\u00e9dio na aldeia \u2013 que seguem as diretrizes tradicionais do Minist\u00e9rio da Educa\u00e7\u00e3o (MEC) \u2013 e pr\u00e1ticas da l\u00edngua guarani. As aulas acontecem todos os dias, ministradas em portugu\u00eas por seis professores <em>juru\u00e1 keury<\/em>, que s\u00e3o acompanhados por seis professores Mbya Guarani. Assim, os jovens da aldeia se tornam bil\u00edngues. No entanto, diferente das escolas na cidade, n\u00e3o existe obrigatoriedade de presen\u00e7a, porque a cultura ind\u00edgena considera a import\u00e2ncia dos aprendizados que surgem tamb\u00e9m junto da fam\u00edlia.<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cPara os povos guaranis, \u00e9 insano o que a gente faz para criar as nossas crian\u00e7as, trabalhando fora de casa para conseguir dinheiro para pagar algu\u00e9m para cuidar dos nossos pr\u00f3prios filhos. Enquanto isso, no modo de vida deles, as crian\u00e7as ficam pr\u00f3ximas dos pais, principalmente da m\u00e3e, em todo o tempo. Se a m\u00e3e est\u00e1 trabalhando, a crian\u00e7a fica junto, porque ela est\u00e1 aprendendo com as rotinas do dia. Ent\u00e3o, esse acompanhamento contribui para que a crian\u00e7a n\u00e3o se corrompa, que ela fique com ra\u00edzes fortes, para que ela n\u00e3o chegue em uma idade em que n\u00e3o entenda onde \u00e9 o passado dela\u201d, explica Daniela Tatsch Baptista, integrante da Yap\u00f3 &#8211; Arquitetura e Engenharia Consciente.<\/p>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator\"\/>\n\n\n\n<div class=\"wp-container-5 wp-block-columns\">\n<div class=\"wp-container-3 wp-block-column\" style=\"flex-basis:33.33%\">\n<h3 class=\"has-text-align-left\">LEIA MAIS<\/h3>\n<\/div>\n\n\n\n<div class=\"wp-container-4 wp-block-column\" style=\"flex-basis:66.66%\">\n<ul><li><strong><a href=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/sextante\/o-mandato-como-instrumento-na-luta-pela-pluralidade\/\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">Mandato como instrumento na luta pela pluralidade<\/a>:<\/strong> a bancada negra eleita em Porto Alegre<\/li><li><strong><a href=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/sextante\/o-brasil-deixou-de-ser-uma-colonia\/\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">O Brasil deixou de ser uma col\u00f4nia? <\/a><\/strong>At\u00e9 que ponto o passado ficou para tr\u00e1s<\/li><\/ul>\n<\/div>\n<\/div>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator\"\/>\n\n\n\n<h3><strong>Equil\u00edbrio para unir conhecimentos de dois mundos<\/strong><\/h3>\n\n\n\n<p>A tecnologia tem sido grande aliada dos povos guaranis e suas rela\u00e7\u00f5es, proporcionando momentos de trocas e utiliza\u00e7\u00e3o da l\u00edngua materna com ind\u00edgenas de fora da Teko\u00e1 Anhetengu\u00e1.<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cPor causa das tecnologias, n\u00f3s temos um grupo de WhatsApp com guaranis do Brasil, do Paraguai e da Argentina, onde falamos s\u00f3 em guarani. Assim, podemos nos comunicar e saber de not\u00edcias dos nossos amigos de longe\u201d, conta o cacique Cirilo.<\/p>\n\n\n\n<p>Para trocar informa\u00e7\u00f5es e mobilizar a\u00e7\u00f5es em prol da prote\u00e7\u00e3o de seus povos, tamb\u00e9m h\u00e1 grupos de WhatsApp com lideran\u00e7as ind\u00edgenas de outras etnias, residentes no Brasil. Mas o uso da tecnologia na aldeia ainda \u00e9 tratado com cautela, para que a falta de equil\u00edbrio n\u00e3o desestabilize as tradi\u00e7\u00f5es da comunidade.<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cComo em qualquer cultura, a gente tem cuidado principalmente com os jovens e com as crian\u00e7as. Se vamos trazer o mundo do conhecimento ocidental para c\u00e1, temos que ver de que forma fazer isso e perceber como v\u00e3o ficar as mentes delas. A gente sempre v\u00ea essas coisas com cuidado. Quando a gente sabe usar, faz bem, mas se a gente n\u00e3o sabe, acaba atrapalhando. Buscamos o equil\u00edbrio para unir os conhecimentos de dois mundos diferentes: o mundo do branco e o mundo do ind\u00edgena\u201d, reconhece o cacique.<\/p>\n\n\n\n<p>A comunica\u00e7\u00e3o facilitada tamb\u00e9m incentiva o transitar por comunidades, revelando cada aldeia em que permanecem como um ponto poss\u00edvel no seu <em>Tape Por\u00e3<\/em>, o antigo caminho sagrado.<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cOs guaranis precisam ter esse movimento e eles encontraram uma maneira de preservar essa mobilidade ancestral mesmo no mundo de hoje. \u00c9 impressionante que eles sempre est\u00e3o conseguindo passagens, v\u00e3o para a Regi\u00e3o das Miss\u00f5es, para Maquin\u00e9, para Santa Catarina\u2026 A gente traduz <em>teko\u00e1<\/em> como &#8216;aldeia&#8217;, mas <em>teko\u00e1<\/em> \u00e9 onde os guaranis podem viver e se expressar como cultura, independente de sua localiza\u00e7\u00e3o. Para eles, isso \u00e9 viver. \u00c9 importante para as rela\u00e7\u00f5es sociais entre eles, que s\u00e3o muito comunicativos entre si\u201d, explica Bruna,  integrante da Yap\u00f3. <\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-container-7 wp-block-gallery-6 wp-block-gallery alignwide columns-3 is-cropped\"><ul class=\"blocks-gallery-grid\"><li class=\"blocks-gallery-item\"><figure><img loading=\"lazy\" width=\"1024\" height=\"1024\" src=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/sextante\/wp-content\/uploads\/2021\/10\/Pauta9_Judi_Leote_04-1024x1024.png\" alt=\"\" data-id=\"3226\" data-link=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/sextante\/?attachment_id=3226\" class=\"wp-image-3226\" srcset=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/sextante\/wp-content\/uploads\/2021\/10\/Pauta9_Judi_Leote_04-1024x1024.png 1024w, https:\/\/www.ufrgs.br\/sextante\/wp-content\/uploads\/2021\/10\/Pauta9_Judi_Leote_04-300x300.png 300w, https:\/\/www.ufrgs.br\/sextante\/wp-content\/uploads\/2021\/10\/Pauta9_Judi_Leote_04-150x150.png 150w, https:\/\/www.ufrgs.br\/sextante\/wp-content\/uploads\/2021\/10\/Pauta9_Judi_Leote_04-768x768.png 768w, https:\/\/www.ufrgs.br\/sextante\/wp-content\/uploads\/2021\/10\/Pauta9_Judi_Leote_04.png 1080w\" sizes=\"(max-width: 1024px) 100vw, 1024px\" \/><\/figure><\/li><li class=\"blocks-gallery-item\"><figure><img loading=\"lazy\" width=\"1024\" height=\"1024\" src=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/sextante\/wp-content\/uploads\/2021\/10\/Pauta9_Judi_Leote_02-1024x1024.png\" alt=\"\" data-id=\"3228\" data-link=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/sextante\/?attachment_id=3228\" class=\"wp-image-3228\" srcset=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/sextante\/wp-content\/uploads\/2021\/10\/Pauta9_Judi_Leote_02-1024x1024.png 1024w, https:\/\/www.ufrgs.br\/sextante\/wp-content\/uploads\/2021\/10\/Pauta9_Judi_Leote_02-300x300.png 300w, https:\/\/www.ufrgs.br\/sextante\/wp-content\/uploads\/2021\/10\/Pauta9_Judi_Leote_02-150x150.png 150w, https:\/\/www.ufrgs.br\/sextante\/wp-content\/uploads\/2021\/10\/Pauta9_Judi_Leote_02-768x768.png 768w, https:\/\/www.ufrgs.br\/sextante\/wp-content\/uploads\/2021\/10\/Pauta9_Judi_Leote_02.png 1080w\" sizes=\"(max-width: 1024px) 100vw, 1024px\" \/><\/figure><\/li><li class=\"blocks-gallery-item\"><figure><img loading=\"lazy\" width=\"222\" height=\"222\" src=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/sextante\/wp-content\/uploads\/2021\/10\/Pauta9_Judi_Leote_01.png\" alt=\"\" data-id=\"3229\" data-link=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/sextante\/?attachment_id=3229\" class=\"wp-image-3229\" srcset=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/sextante\/wp-content\/uploads\/2021\/10\/Pauta9_Judi_Leote_01.png 222w, https:\/\/www.ufrgs.br\/sextante\/wp-content\/uploads\/2021\/10\/Pauta9_Judi_Leote_01-150x150.png 150w\" sizes=\"(max-width: 222px) 100vw, 222px\" \/><\/figure><\/li><\/ul><figcaption class=\"blocks-gallery-caption\">Artes: Judi Leote<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p>Al\u00e9m da integra\u00e7\u00e3o entre os povos, cresce tamb\u00e9m a presen\u00e7a n\u00e3o-ind\u00edgena na aldeia. Com objetivos tamb\u00e9m de pesquisa, os encontros t\u00eam auxiliado na atualiza\u00e7\u00e3o de concep\u00e7\u00f5es que se criam no senso comum e que representam erroneamente o que \u00e9 a viv\u00eancia ind\u00edgena. O professor Jos\u00e9 Ot\u00e1vio Catafesto de Souza, do Departamento de Antropologia da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), j\u00e1 realizou diversas a\u00e7\u00f5es com alunos na Teko\u00e1 Anhetengu\u00e1, entre elas etnozoneamentos, levantamentos das situa\u00e7\u00f5es das casas da aldeia para reivindicar planos habitacionais, trilhas em busca de artefatos preservados que datem a antiguidade da ocupa\u00e7\u00e3o ind\u00edgena no territ\u00f3rio e acampamentos para viv\u00eancias mais profundas junto \u00e0 cultura guarani.<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cEu convido meus alunos a virem at\u00e9 aqui n\u00e3o apenas para ter a parte pr\u00e1tica de experi\u00eancia de campo, mas para oferecer um retorno para a comunidade a partir do que estamos produzindo academicamente. Tamb\u00e9m buscamos alterar certas percep\u00e7\u00f5es que n\u00e3o s\u00e3o verdade, dentre elas a ideia de que cidade e \u00edndio n\u00e3o combinam. Na verdade, os primeiros a criarem cidades aqui no Rio Grande do Sul foram ind\u00edgenas: os Sete Povos das Miss\u00f5es. Ent\u00e3o, os ind\u00edgenas foram os primeiros a constru\u00edrem imensos pr\u00e9dios, com feitos em pedra, em telha, em metalurgia, em vida pecu\u00e1ria. Tudo isso que \u00e9 entendido como o modo de vida do ga\u00facho, o guarani missioneiro j\u00e1 tinha introduzido\u201d, contextualiza Catafesto.<\/p>\n\n\n\n<p>Para o professor, que tamb\u00e9m \u00e9 \u200b\u200betnoarque\u00f3logo e pesquisador, a proximidade das aldeias ind\u00edgenas com a cidade n\u00e3o deve ser o principal ponto de preocupa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cMuita gente tem dito que os \u00edndios est\u00e3o indo a Porto Alegre, mas foi Porto Alegre que se criou em cima de aldeias ind\u00edgenas. N\u00e3o \u00e9 \u00e0 toa que eles estejam hoje ocupando um lugar onde a arqueologia mostra que seus antepassados j\u00e1 haviam ocupado h\u00e1 s\u00e9culos. A \u00fanica diferen\u00e7a \u00e9 que hoje h\u00e1 a cidade. Mas perceba bem esse ambiente: a cidade est\u00e1 aqui, mas a natureza est\u00e1 aqui ao lado. Este morro inteiro deve ter uns seis mil hectares e \u00e9 todo rodeado por ocupa\u00e7\u00e3o urbana, mas nesse interim existe um espa\u00e7o que est\u00e1 sendo pleiteado como \u00e1rea de preserva\u00e7\u00e3o, e os ind\u00edgenas est\u00e3o no entorno e est\u00e3o ocupando essas \u00e1reas. Ent\u00e3o, \u00e9 meio dif\u00edcil chegar uma pessoa e dizer que tem \u00edndio morando em cidade, quando, na verdade, existem espa\u00e7os dentro da cidade que n\u00e3o s\u00e3o cidade, por mais voraz que ela seja\u201d, continua Catafesto.<\/p>\n\n\n\n<div class=\"wp-block-image\"><figure class=\"aligncenter\"><img src=\"https:\/\/lh5.googleusercontent.com\/NNoJWyCPt9hngLNkyRV2Obj9sHzzj5vsuFXKLOW2HiXLJWWZ5Le9WUvXAHkQDNwF2U8ByCH5KUdo1kqqU1eTsJd9QyUXNxVRqtkI4FpAqbzk2mvos2aoEEVJLS4dExhBo8pOlV8m=s1600\" alt=\"\"\/><figcaption> A aldeia ocupa 25 hectares de terras cedidas, sendo lar de 35 fam\u00edlias, em meio \u00e0 natureza | Foto: Maiara Dallagnol<\/figcaption><\/figure><\/div>\n\n\n\n<p>\u00c9 por esse reconhecimento que as viv\u00eancias na Teko\u00e1 Anhetengu\u00e1 mostram o quanto \u00e9 preciso estimular a preserva\u00e7\u00e3o da cultura ind\u00edgena, sem negar a contemporaneidade de seus integrantes. Cada vez mais, s\u00e3o necess\u00e1rias a\u00e7\u00f5es que acolham seus saberes como importantes contribui\u00e7\u00f5es para a sociedade como um todo, lembrando sempre que, de forma alguma, este \u00e9 um \u201cresgate cultural\u201d. A cultura Mbya Guarani tem sua ancestralidade cont\u00ednua, que jamais foi abandonada. Assim, o objetivo dessas experi\u00eancias coletivas n\u00e3o \u00e9 descobrir novos conhecimentos, mas sim revisitar esses antigos fazeres. \u00c9 reacender a conex\u00e3o das nossas rela\u00e7\u00f5es com as nossas origens. \u00c9 o despertar para uma ancestral forma de ser brasileiro.<\/p>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator\"\/>\n\n\n\n<div class=\"wp-container-10 wp-block-columns\">\n<div class=\"wp-container-8 wp-block-column\" style=\"flex-basis:33.33%\">\n<h3 class=\"has-text-align-left\">LEIA MAIS<\/h3>\n<\/div>\n\n\n\n<div class=\"wp-container-9 wp-block-column\" style=\"flex-basis:66.66%\">\n<ul><li><strong><a href=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/sextante\/vitimas-do-clima\/\">V\u00edtimas do clima:<\/a> <\/strong>mudan\u00e7as clim\u00e1ticas se tornam um novo fator para o aumento da desigualdade<\/li><li><strong><a href=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/sextante\/de-que-forma-a-desigualdade-se-reflete-na-mesa-dos-brasileiros\/\">Nunca vi, nem comi, eu s\u00f3 ou\u00e7o falar: <\/a><\/strong>inseguran\u00e7a alimentar volta a assombrar brasileiros<\/li><li><a href=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/sextante\/gentrificacao-4-distrito\/\"><strong>Se este corte de cabelo aparecer no seu bairro, pode crer que o aluguel ir\u00e1 subir:<\/strong> <\/a>o fen\u00f4meno da gentrifica\u00e7\u00e3o<\/li><\/ul>\n<\/div>\n<\/div>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator\"\/>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Cultura Mbya Guarani, preservada na aldeia ind\u00edgena Teko\u00e1 Anhetengu\u00e1, \u00e9 compartilhada com a cidade que cresce ao seu redor<\/p>\n","protected":false},"author":41,"featured_media":3202,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"57-post-template.php","format":"standard","meta":[],"categories":[109],"tags":[],"acf":[],"yoast_head":"<!-- This site is optimized with the Yoast SEO plugin v19.6.1 - https:\/\/yoast.com\/wordpress\/plugins\/seo\/ -->\n<title>O despertar para uma ancestral forma de ser brasileiro &mdash; 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