{"id":3480,"date":"2021-11-11T19:28:00","date_gmt":"2021-11-11T22:28:00","guid":{"rendered":"https:\/\/www.ufrgs.br\/sextante\/?p=3480"},"modified":"2021-11-22T12:33:19","modified_gmt":"2021-11-22T15:33:19","slug":"vitimas-do-clima","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ufrgs.br\/sextante\/vitimas-do-clima\/","title":{"rendered":"V\u00edtimas do clima"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"has-drop-cap\">J\u00e1 se passaram 20 anos desde que o l\u00edder comunit\u00e1rio Luis Isaias Pires, de 52 anos, mudou-se para a capital ga\u00facha em busca de melhores condi\u00e7\u00f5es de trabalho. Natural de Bag\u00e9, no interior do Rio Grande do Sul, ele conta que, quando chegou em Porto Alegre, escolheu a regi\u00e3o das ilhas como moradia devido \u00e0 semelhan\u00e7a que o espa\u00e7o possu\u00eda com as \u00e1reas rurais de sua cidade natal. Por\u00e9m, n\u00e3o demorou muito para perceber as dificuldades que enfrentaria no local.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Pouco tempo depois de sua chegada na Ilha das Flores, no in\u00edcio dos anos 2000, passou pela primeira enchente. As obras de sua casa, pr\u00f3xima \u00e0s margens do <a href=\"https:\/\/www.jornaldocomercio.com\/_conteudo\/2018\/05\/geral\/628089-rio-ou-lago-o-guaiba-e-o-que.html\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">Lago Gua\u00edba<\/a>, ainda n\u00e3o estavam conclu\u00eddas quando foram destru\u00eddas pela cheia. A situa\u00e7\u00e3o se repetiu nos anos seguintes e foi modificando parte da paisagem do local e da rotina de seus moradores, que precisaram aprender a conviver com uma \u00e1rea que carece de pol\u00edticas p\u00fablicas.<\/p>\n\n\n\n<p>\u201c\u00c9 uma situa\u00e7\u00e3o que cada vez se agrava mais. O pessoal das Ilhas t\u00eam a prerrogativa de ser resiliente, mas a situa\u00e7\u00e3o s\u00f3 est\u00e1 se agravando. \u00c9 inconceb\u00edvel ficar construindo casas de tempos em tempos&#8221;, comenta Luis ao falar que as cheias no local t\u00eam se tornado mais frequentes. Com o lago invadindo as casas, muitas vezes as pessoas ficam sem acesso \u00e0s suas moradias, o que impede as crian\u00e7as de irem para a escola e seus pais de trabalharem. \u201cIsso \u00e9 inaceit\u00e1vel, porque n\u00e3o d\u00e1 condi\u00e7\u00f5es de as pessoas se desenvolverem\u201d, completa.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-large\"><img loading=\"lazy\" width=\"1024\" height=\"683\" src=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/sextante\/wp-content\/uploads\/2021\/10\/Pauta1_Cerise_Gomes_02-1024x683.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-3504\" srcset=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/sextante\/wp-content\/uploads\/2021\/10\/Pauta1_Cerise_Gomes_02-1024x683.jpg 1024w, https:\/\/www.ufrgs.br\/sextante\/wp-content\/uploads\/2021\/10\/Pauta1_Cerise_Gomes_02-300x200.jpg 300w, https:\/\/www.ufrgs.br\/sextante\/wp-content\/uploads\/2021\/10\/Pauta1_Cerise_Gomes_02-768x512.jpg 768w, https:\/\/www.ufrgs.br\/sextante\/wp-content\/uploads\/2021\/10\/Pauta1_Cerise_Gomes_02-1536x1024.jpg 1536w, https:\/\/www.ufrgs.br\/sextante\/wp-content\/uploads\/2021\/10\/Pauta1_Cerise_Gomes_02-2048x1365.jpg 2048w, https:\/\/www.ufrgs.br\/sextante\/wp-content\/uploads\/2021\/10\/Pauta1_Cerise_Gomes_02-1568x1045.jpg 1568w\" sizes=\"(max-width: 1024px) 100vw, 1024px\" \/><figcaption>Arte: Cerise Gomes <\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p>Segundo o relato de outra moradora da Ilha, a dona de casa Josenete Silva, de 58 anos, que desde os 12 mora na regi\u00e3o, as enchentes se intensificaram nas \u00faltimas duas d\u00e9cadas. A cada alagamento, as \u00e1guas arrastam lixo e esgoto para os p\u00e1tios das resid\u00eancias. Em raz\u00e3o disso, uma mudan\u00e7a significativa que ocorreu no local foi o fim dos chamados cercados, grandes hortas que eram cultivadas na comunidade. Com as cheias e a polui\u00e7\u00e3o, a terra se tornou impr\u00f3pria para o plantio.<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cAntigamente, a gente podia plantar, colher, fazer v\u00e1rias coisas. Mas depois, com os impactos ambientais, muitas coisas mudaram. Como aqui n\u00f3s n\u00e3o temos esgoto [<em>encanado<\/em>], \u00e9 tudo \u00e0 c\u00e9u aberto, essas \u00e1guas que v\u00eam, elas s\u00e3o todas contaminadas\u201d, comenta Josenete.<\/p>\n\n\n\n<p>O que vivem Luis, Josenete e parte dos moradores do bairro Arquip\u00e9lago, formado pelas ilhas de Porto Alegre, ilustra uma forma de desigualdade que relaciona os sujeitos com as condi\u00e7\u00f5es do territ\u00f3rio onde vivem. \u00c9 o racismo ambiental, termo surgido nos Estados Unidos que levanta um questionamento: quem s\u00e3o as pessoas e as comunidades que mais sentem os&nbsp; impactos gerados pela degrada\u00e7\u00e3o do meio ambiente?<\/p>\n\n\n\n<h3><strong>A rela\u00e7\u00e3o entre racismo e territ\u00f3rio<\/strong><\/h3>\n\n\n\n<p>O conceito de racismo ambiental foi criado na d\u00e9cada de 1980 por Benjamin Franklin Chavis, um dos l\u00edderes do movimento pelos Direitos Civis nos Estados Unidos. O termo&nbsp; surgiu a partir de uma pesquisa que o ativista desenvolveu em que investigava a rela\u00e7\u00e3o que existia entre o descarte de res\u00edduos t\u00f3xicos e a popula\u00e7\u00e3o negra. Em oito estados do sul dos EUA, em 1983, 75% dos dep\u00f3sitos de rejeitos eram instalados em bairros negros.<\/p>\n\n\n\n<p>A partir disso, ra\u00e7a e territ\u00f3rios aparecem como recortes importantes para se identificar as popula\u00e7\u00f5es mais afetadas pelas a\u00e7\u00f5es dos seres humanos na natureza. E n\u00e3o s\u00e3o apenas os eventos extremos, como as cheias, que representam esse fen\u00f4meno. A falta de acesso \u00e0 \u00e1gua pot\u00e1vel, \u00e0 moradia, ao saneamento b\u00e1sico ou mesmo \u00e0 alimenta\u00e7\u00e3o de qualidade s\u00e3o tamb\u00e9m exemplos de problemas que s\u00e3o mais recorrentes em determinados grupos da sociedade, como os povos ind\u00edgenas, negros, quilombolas e ribeirinhos. S\u00e3o situa\u00e7\u00f5es que se conectam com o racismo justamente por inferiorizar grupos a partir da nega\u00e7\u00e3o de direitos.<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote has-text-align-right\"><p>&#8220;O racismo ambiental est\u00e1 presente nas periferias quando n\u00e3o h\u00e1 a regularidade de servi\u00e7os b\u00e1sicos para determinada popula\u00e7\u00e3o&#8221;<\/p><cite><strong>CAMILA G\u00d3ES,<\/strong> educadora agroecol\u00f3gica<\/cite><\/blockquote>\n\n\n\n<p>O <a href=\"https:\/\/agenciadenoticias.ibge.gov.br\/agencia-noticias\/2012-agencia-de-noticias\/noticias\/28326-quatro-em-cada-dez-municipios-nao-tem-servico-de-esgoto-no-pais\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">Instituto Brasileiro de Geografia e Estat\u00edstica&nbsp; (IBGE)<\/a> divulgou, em 2020, dados que mostram que cerca de 39,7% dos munic\u00edpios brasileiros n\u00e3o possuem acesso a servi\u00e7o de esgotamento sanit\u00e1rio, com 34,1 milh\u00f5es de domic\u00edlios desassistidos. Al\u00e9m disso, apenas 62,8% do volume desse esgoto recebe tratamento adequado, sendo o restante descartado em locais impr\u00f3prios. A cidade de Porto Alegre \u00e9 um exemplo desse cen\u00e1rio. <a href=\"https:\/\/prefeitura.poa.br\/smpe\/noticias\/estudo-para-qualificar-saneamento-basico-tem-primeira-etapa-concluida\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">Somente 56% do esgoto na capital ga\u00facha \u00e9 destinado para tratamento.<\/a><\/p>\n\n\n\n<p>\u201cO racismo ambiental est\u00e1 presente nas periferias quando n\u00e3o h\u00e1 a regularidade de servi\u00e7os b\u00e1sicos para determinada popula\u00e7\u00e3o, como a coleta de lixo, o tratamento de esgoto, o abastecimento de \u00e1gua pot\u00e1vel. O impacto na vida das pessoas \u00e9 imenso e limita o bem viver, atingindo em cheio a sa\u00fade das comunidades perif\u00e9ricas, que est\u00e3o mais expostas \u00e0 presen\u00e7a de doen\u00e7as como tuberculose, dengue e leptospirose\u201d, explica Camila G\u00f3es, educadora agroecol\u00f3gica de Olinda, que desenvolve projetos nas periferias de Pernambuco. A a\u00e7\u00e3o visa ensinar a popula\u00e7\u00e3o das comunidades a como se relacionar&nbsp; melhor com o meio ambiente.<\/p>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator\"\/>\n\n\n\n<div class=\"wp-container-3 wp-block-columns\">\n<div class=\"wp-container-1 wp-block-column\" style=\"flex-basis:33.33%\">\n<h3 class=\"has-text-align-left\">LEIA MAIS<\/h3>\n<\/div>\n\n\n\n<div class=\"wp-container-2 wp-block-column\" style=\"flex-basis:66.66%\">\n<ul><li><a href=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/sextante\/de-que-forma-a-desigualdade-se-reflete-na-mesa-dos-brasileiros\/\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\"><strong>Nunca vi, nem comi, eu s\u00f3 ou\u00e7o falar:<\/strong> <\/a>inseguran\u00e7a alimentar volta a assombrar brasileiros<\/li><li><strong><a href=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/sextante\/o-mandato-como-instrumento-na-luta-pela-pluralidade\/\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">Mandato como instrumento na luta pela pluralidade<\/a><\/strong>: a bancada negra eleita em Porto Alegre<\/li><\/ul>\n<\/div>\n<\/div>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator\"\/>\n\n\n\n<h3><strong>PLANETA EM CRISE<\/strong>&nbsp;<\/h3>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image alignfull size-large\"><img loading=\"lazy\" width=\"1024\" height=\"682\" src=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/sextante\/wp-content\/uploads\/2021\/10\/Cheia-historiaca-do-Rio-Negro-2-1024x682.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-3534\" srcset=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/sextante\/wp-content\/uploads\/2021\/10\/Cheia-historiaca-do-Rio-Negro-2-1024x682.jpg 1024w, https:\/\/www.ufrgs.br\/sextante\/wp-content\/uploads\/2021\/10\/Cheia-historiaca-do-Rio-Negro-2-300x200.jpg 300w, https:\/\/www.ufrgs.br\/sextante\/wp-content\/uploads\/2021\/10\/Cheia-historiaca-do-Rio-Negro-2-768x512.jpg 768w, https:\/\/www.ufrgs.br\/sextante\/wp-content\/uploads\/2021\/10\/Cheia-historiaca-do-Rio-Negro-2-1536x1024.jpg 1536w, https:\/\/www.ufrgs.br\/sextante\/wp-content\/uploads\/2021\/10\/Cheia-historiaca-do-Rio-Negro-2-1568x1045.jpg 1568w, https:\/\/www.ufrgs.br\/sextante\/wp-content\/uploads\/2021\/10\/Cheia-historiaca-do-Rio-Negro-2.jpg 2000w\" sizes=\"(max-width: 1024px) 100vw, 1024px\" \/><figcaption> Em maio deste ano, o rio Negro passou por uma cheia hist\u00f3rica, deixando diversas regi\u00f5es de Manaus alagadas | Foto: Alberto C\u00e9sar Ara\u00fajo\/Amaz\u00f4nia Real <\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p>Tema cada vez mais presente em nosso cotidiano, as mudan\u00e7as clim\u00e1ticas se tornam motivo de preocupa\u00e7\u00e3o devido \u00e0 amea\u00e7a que representam para a vida na Terra. Causadas pelas a\u00e7\u00f5es do pr\u00f3prio ser humano, <a href=\"https:\/\/www.ipcc.ch\/\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">como mostrou o mais recente relat\u00f3rio do Painel Intergovernamental sobre Mudan\u00e7as Clim\u00e1ticas (IPCC)<\/a>, essas transforma\u00e7\u00f5es t\u00eam efeitos que j\u00e1 podem ser percebidos em todo o planeta. O estudo faz um alerta para o aumento de ondas de calor, secas, alagamentos e outros eventos clim\u00e1ticos extremos nos pr\u00f3ximos 10 anos.<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cO racismo ambiental e as mudan\u00e7as clim\u00e1ticas est\u00e3o intimamente ligados, pois o racismo ambiental envolve quest\u00f5es territoriais e tem conex\u00e3o direta entre a explora\u00e7\u00e3o da terra e das pessoas. E as mudan\u00e7as no clima do mundo inteiro s\u00e3o justamente o resultado dessas explora\u00e7\u00f5es\u201d, fala Camila, que cita como exemplo a crise h\u00eddrica que amea\u00e7a o Brasil, relacionando-a com o aumento expressivo do desmatamento ocorrido nos \u00faltimos anos.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"https:\/\/imazon.org.br\/publicacoes\/boletim-do-desmatamento-da-amazonia-legal-julho-2021-sad\/\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">Segundo o boletim do Imazon<\/a>, no per\u00edodo entre agosto de 2020 e julho de 2021, houve um aumento de 57% do desmatamento na \u00e1rea que corresponde \u00e0 Amaz\u00f4nia Legal. \u201cAl\u00e9m das esp\u00e9cies de fauna e flora que habitam as \u00e1reas de mata que est\u00e3o sendo invadidas pela monocultura do agroneg\u00f3cio, comunidades tradicionais tamb\u00e9m habitam [<em>essas regi\u00f5es<\/em>], e est\u00e3o todas com suas vidas amea\u00e7adas. Preservar o meio ambiente \u00e9 tamb\u00e9m salvaguardar a vida dessas comunidades\u201d, afirma.<\/p>\n\n\n\n<h3><strong>Lutando contra as \u00e1guas<\/strong><\/h3>\n\n\n\n<p>Outro termo que faz conex\u00e3o com o racismo ambiental \u00e9&nbsp; \u201cjusti\u00e7a clim\u00e1tica\u201d, conceito que tamb\u00e9m vincula o tema com os direitos humanos, pautando a impossibilidade de se pensar o futuro sem olhar para os grupos mais afetados pelo aquecimento global e seus impactos. Pesquisadora da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), a soci\u00f3loga J\u00falia Menin defende a necessidade de se olhar para as emerg\u00eancias clim\u00e1ticas n\u00e3o apenas a partir das ci\u00eancias naturais. Para compreender e levar em conta as particularidades vivenciadas pelas popula\u00e7\u00f5es de determinados ambientes que, historicamente, possuem problemas ocasionados pela falta de servi\u00e7os p\u00fablicos essenciais, \u00e9 necess\u00e1rio, de acordo com a soci\u00f3loga, considerar suas realidades e a forma como essas pessoas se relacionam com seus territ\u00f3rios.<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cQuando os eventos extremos acontecerem, as pessoas n\u00e3o ir\u00e3o sofrer as mesmas consequ\u00eancias. \u00c9 um evento extremo, mas ele est\u00e1 ocorrendo em um local que j\u00e1 tem outras vulnerabilidades, outras quest\u00f5es atravessadas, como renda, moradias inseguras, falta de atendimento m\u00e9dico. Essas coisas s\u00e3o aumentadas em eventos extremos\u201d, comenta a pesquisadora que, em seu mestrado, acompanhou comunidades ribeirinhas do Amazonas para estudar as adapta\u00e7\u00f5es que os moradores da regi\u00e3o t\u00eam feito para lidar com as mudan\u00e7as clim\u00e1ticas. A partir dos relatos dos seus entrevistados, J\u00falia constatou que eles j\u00e1 sentem esses impactos e mostra que considerar os conhecimentos tradicionais dessas popula\u00e7\u00f5es para a elabora\u00e7\u00e3o de pol\u00edticas ambientais \u00e9 fundamental.<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote has-text-align-right\"><p>\u201cJusti\u00e7a clim\u00e1tica est\u00e1 relacionada com essa quest\u00e3o, de que as pessoas sofrem de maneiras diferentes em rela\u00e7\u00e3o \u00e0s mudan\u00e7as clim\u00e1ticas, da mesma forma que os impactos causados n\u00e3o s\u00e3o os mesmos&#8221;<\/p><cite><strong>J\u00daLIA MENIN<\/strong>, soci\u00f3loga e pesquisadora da UFRGS<\/cite><\/blockquote>\n\n\n\n<p>A soci\u00f3loga&nbsp; explica que o clima amaz\u00f4nico possui particularidades que, em seu estado natural, delimita ciclos anuais que caracterizam os rios da regi\u00e3o: s\u00e3o os per\u00edodos de enchentes, cheias, vazante e secas. Acostumados com o ambiente, seus moradores foram aprendendo a lidar com essas altera\u00e7\u00f5es do tempo, adaptando suas rotinas ao curso do rio. Por\u00e9m, isso tem mudado.<\/p>\n\n\n\n<p>A cada ano os rios t\u00eam se tornado mais imprevis\u00edveis, com cheias extremas e secas mais longas. As casas, invadidas pelas \u00e1guas, est\u00e3o tendo que se tornar cada vez mais altas. \u00c9 que, para preservarem seus lares, as fam\u00edlias precisam realizar um processo onde suas resid\u00eancias s\u00e3o erguidas por macacos hidr\u00e1ulicos e, em seguida, novos e maiores pilares de madeira s\u00e3o adicionados embaixo delas para aumentar a dist\u00e2ncia do rio.<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cE na seca, onde o rio baixa mesmo, fica estreito, \u00e9 ruim para a navega\u00e7\u00e3o e irriga\u00e7\u00e3o, porque a \u00e1gua se torna escassa. Nos anos 2005, 2010 e 2015, a gente viu que foram secas extremas. S\u00e3o per\u00edodos muito pequenos entre si, ent\u00e3o elas est\u00e3o se tornando mais frequentes&#8221;, comenta a professora e pesquisadora Ana Cristina Nascimento, moradora de uma comunidade ribeirinha de Careiro da V\u00e1rzea, cidade localizada na Regi\u00e3o Metropolitana de Manaus. No tempo de seus av\u00f3s, comenta, esses eventos extremos ocorriam de 30 em 30 anos.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-full\"><img loading=\"lazy\" width=\"960\" height=\"720\" src=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/sextante\/wp-content\/uploads\/2021\/10\/Casa-familiares-Ana-Cristina-Nascimento.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-3513\" srcset=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/sextante\/wp-content\/uploads\/2021\/10\/Casa-familiares-Ana-Cristina-Nascimento.jpg 960w, https:\/\/www.ufrgs.br\/sextante\/wp-content\/uploads\/2021\/10\/Casa-familiares-Ana-Cristina-Nascimento-300x225.jpg 300w, https:\/\/www.ufrgs.br\/sextante\/wp-content\/uploads\/2021\/10\/Casa-familiares-Ana-Cristina-Nascimento-768x576.jpg 768w\" sizes=\"(max-width: 960px) 100vw, 960px\" \/><figcaption>&nbsp;As \u00e1guas do rio que, ao subir acima de seu n\u00edvel natural, invadem as casas dos ribeirinhos, como a dos familiares de Ana Cristina, s\u00e3o um exemplo de como os eventos extremos afetam todo o cotidiano dessas comunidades | Foto:  Ana Cristina Nascimento <\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p>Os impactos de eventos extremos j\u00e1 est\u00e3o sendo sentidos pelos grupos que mais s\u00e3o afetados pela desigualdade social. <a href=\"https:\/\/brasil.un.org\/pt-br\/142679-desastres-naturais-foram-responsaveis-por-45-de-todas-mortes-nos-ultimos-50-anos-mostra-omm\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">O novo relat\u00f3rio da Organiza\u00e7\u00e3o Meteorol\u00f3gica Mundial e do Escrit\u00f3rio da ONU<\/a>, lan\u00e7ado em setembro deste ano, aponta que 91% das mortes atribu\u00eddas a eventos clim\u00e1ticos, nos \u00faltimos 50 anos, ocorreram em pa\u00edses em desenvolvimento. Foram mais de 11 mil desastres.<\/p>\n\n\n\n<p>Suas causas? A pesquisadora J\u00falia identificou em sua pesquisa que, dentre as explica\u00e7\u00f5es dos pr\u00f3prios moradores para os fen\u00f4menos, est\u00e3o o desmatamento, as queimadas, a entrada massiva de cria\u00e7\u00f5es de gados e agrot\u00f3xicos e as grandes constru\u00e7\u00f5es, como de hidrel\u00e9tricas, por exemplo. Em um trecho de seu trabalho, ela escreve que \u201cn\u00e3o s\u00e3o \u2018os respons\u00e1veis\u2019 pela trag\u00e9dia que se avizinha os que ser\u00e3o atingidos primeiro, muito pelo contr\u00e1rio&#8221;. As pessoas que mais sentir\u00e3o os impactos extremos causados pelas a\u00e7\u00f5es do homem na natureza s\u00e3o justamente aquelas que j\u00e1 convivem diariamente com a falta de condi\u00e7\u00f5es b\u00e1sicas para terem uma vida de qualidade.<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cJusti\u00e7a clim\u00e1tica est\u00e1 relacionada com essa quest\u00e3o, de que as pessoas sofrem de maneiras diferentes em rela\u00e7\u00e3o \u00e0s mudan\u00e7as clim\u00e1ticas, da mesma forma que os impactos causados n\u00e3o s\u00e3o os mesmos. \u00c9 necess\u00e1rio pensar a partir desses fatores, de que existe um abismo em rela\u00e7\u00e3o a essas quest\u00f5es\u201d, finaliza.<\/p>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator\"\/>\n\n\n\n<div class=\"wp-container-6 wp-block-columns\">\n<div class=\"wp-container-4 wp-block-column\" style=\"flex-basis:33.33%\">\n<h3 class=\"has-text-align-left\">LEIA MAIS<\/h3>\n<\/div>\n\n\n\n<div class=\"wp-container-5 wp-block-column\" style=\"flex-basis:66.66%\">\n<ul><li><strong><a href=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/sextante\/o-despertar-para-uma-ancestral-forma-de-ser-brasileiro\/\">Despertar para uma ancestral forma de ser brasileiro: <\/a><\/strong>a vida na aldeia Teko\u00e1 Anhetengu\u00e1<\/li><li><strong><a href=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/sextante\/gentrificacao-4-distrito\/\">Se este corte de cabelo aparecer no seu bairro, pode crer que o aluguel ir\u00e1 subir:<\/a><\/strong> o fen\u00f4meno da gentrifica\u00e7\u00e3o<\/li><li><strong><a href=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/sextante\/mudanca-climatica-no-rio-grande-do-sul\/\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">Rio Grande do Sul, 40 graus: <\/a><\/strong>como a mudan\u00e7a clim\u00e1tica pode afetar o futuro do estado<\/li><\/ul>\n<\/div>\n<\/div>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator\"\/>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Para as comunidades que carecem de direitos b\u00e1sicos, eventos extremos causados pelas mudan\u00e7as clim\u00e1ticas se tornam um novo fator para o aumento da desigualdade<\/p>\n","protected":false},"author":33,"featured_media":3485,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"57-post-template.php","format":"standard","meta":[],"categories":[109],"tags":[],"acf":[],"yoast_head":"<!-- This site is optimized with the Yoast SEO plugin v19.6.1 - https:\/\/yoast.com\/wordpress\/plugins\/seo\/ -->\n<title>As maiores v\u00edtimas da degrada\u00e7\u00e3o do meio ambiente &mdash; 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