{"id":3638,"date":"2021-11-11T19:28:02","date_gmt":"2021-11-11T22:28:02","guid":{"rendered":"https:\/\/www.ufrgs.br\/sextante\/?p=3638"},"modified":"2021-11-16T18:53:14","modified_gmt":"2021-11-16T21:53:14","slug":"a-construcao-da-identidade-cultural-pelas-fronteiras","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ufrgs.br\/sextante\/a-construcao-da-identidade-cultural-pelas-fronteiras\/","title":{"rendered":"Na borda do mapa"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"has-drop-cap\">\u00c9 comum as pessoas considerarem limites territoriais e fronteiras como sin\u00f4nimos. No entanto, para as Ci\u00eancias Humanas, como a Antropologia e a Geografia, s\u00e3o conceitos que n\u00e3o devem ser confundidos. O primeiro se refere a uma divis\u00e3o f\u00edsica que marca dom\u00ednios territoriais, geralmente definida por marcos naturais (como rios, lagos e lagoas) ou criada pelo homem (pontes, placas). J\u00e1 o segundo \u00e9 uma \u00e1rea de separa\u00e7\u00e3o territorial, definida pela Constitui\u00e7\u00e3o, em que ocorrem pr\u00e1ticas sociais, econ\u00f4micas, pol\u00edticas e culturais, tamb\u00e9m chamadas de rela\u00e7\u00f5es fronteiri\u00e7as.<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cA fronteira s\u00f3 existe a partir de um limite estabelecido. Se o limite deixar de existir, consequentemente, a fronteira desaparece\u201d, explica Aline Lima Rodrigues, doutora em Geografia pela Universidade Estadual Paulista (Unesp) e professora do campus litoral norte da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). Para Aline, que estuda as \u00e1reas fronteiri\u00e7as, a vida pulsante nessas \u00e1reas  e as rela\u00e7\u00f5es transfronteiri\u00e7as ampliaram a no\u00e7\u00e3o do conceito de fronteira para al\u00e9m de uma divis\u00e3o. Ela \u00e9 considerada tamb\u00e9m como uma zona ou \u00e1rea de interlocu\u00e7\u00e3o entre um lado e o outro.<\/p>\n\n\n\n<p>De acordo com o <a href=\"https:\/\/www.ibge.gov.br\/\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">Instituto Brasileiro de Geografia e Estat\u00edstica<\/a><a href=\"https:\/\/www.ibge.gov.br\/\"> <\/a>(IBGE), o Brasil \u00e9 o quinto maior pa\u00eds em extens\u00e3o territorial, com uma \u00e1rea superior a 8,5 milh\u00f5es de quil\u00f4metros quadrados. Ele faz fronteira com 10 dos 12 pa\u00edses que constituem a Am\u00e9rica do Sul. Outro aspecto que se destaca no Brasil \u00e9 sua riqueza cultural que influencia outros pa\u00edses. Mas como ser\u00e1 que ele absorve a cultura vinda de outras regi\u00f5es, sobretudo daquelas localizadas em zonas de fronteira?&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>De acordo com Karla Maria M\u00fcller, doutora em Comunica\u00e7\u00e3o pela Unisinos e professora titular da Faculdade de Biblioteconomia e Comunica\u00e7\u00e3o da UFRGS, nas regi\u00f5es de fronteira h\u00e1, ao mesmo tempo, a conserva\u00e7\u00e3o das culturas locais e regionais e um processo de cria\u00e7\u00e3o de uma nova cultura: a cultura fronteiri\u00e7a. \u201cVerificamos que um uruguaio pode falar em espanhol e um brasileiro responde em portugu\u00eas, sem nenhum problema de comunica\u00e7\u00e3o, mas tamb\u00e9m criam novos elementos como o \u2018portunhol\u2019 ou o linguajar fronteiri\u00e7o\u201d, exemplifica Karla, que estuda a comunica\u00e7\u00e3o fronteiri\u00e7a.<\/p>\n\n\n\n<p>J\u00e1 para Aline, nas regi\u00f5es fronteiri\u00e7as ocorre uma troca cultural entre os pa\u00edses envolvidos, mas n\u00e3o o surgimento de uma nova cultura. \u201cO que existe nas fronteiras \u00e9 um interc\u00e2mbio cotidiano, um vai e vem pac\u00edfico, em que se vive as culturas de cada pa\u00eds, se reconhecem muitos aspectos interculturais, mas n\u00e3o a ponto de termos, sob o meu ponto de vista, a inclina\u00e7\u00e3o para uma cultura da fronteira\u201d. S\u00e3o perspectivas diferentes, mas que n\u00e3o negam que exista um ambiente diferenciado que se forma nas regi\u00f5es de fronteira.<\/p>\n\n\n\n<h3><strong>Dan\u00e7a, M\u00fasica e muitas Empanadas<\/strong><\/h3>\n\n\n\n<div class=\"wp-block-image\"><figure class=\"alignright size-full is-resized\"><img loading=\"lazy\" src=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/sextante\/wp-content\/uploads\/2021\/10\/9d872a98-6f0f-4998-994e-f610fdb7c794-2.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-3762\" width=\"313\" height=\"345\" srcset=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/sextante\/wp-content\/uploads\/2021\/10\/9d872a98-6f0f-4998-994e-f610fdb7c794-2.jpg 652w, https:\/\/www.ufrgs.br\/sextante\/wp-content\/uploads\/2021\/10\/9d872a98-6f0f-4998-994e-f610fdb7c794-2-272x300.jpg 272w\" sizes=\"(max-width: 313px) 100vw, 313px\" \/><figcaption>O Marco das Tr\u00eas Fronteiras fica localizado entre as cidades de Foz do Igua\u00e7u (Brasil), onde mora Nath\u00e1lia, Puerto Iguaz\u00fa (Argentina) e Presidente Franco (Paraguai)  | Foto: Arquivo pessoal<\/figcaption><\/figure><\/div>\n\n\n\n<p>Nath\u00e1lia Viana Benites, de 22 anos, nasceu em Foz do Igua\u00e7u, cidade do Paran\u00e1 que fica em uma regi\u00e3o urbana trinacional. Desde crian\u00e7a, a jovem consumia elementos das culturas argentina e paraguaia. \u201cAs influ\u00eancias que mais senti na minha vida com certeza foram da culin\u00e1ria e da m\u00fasica.\u201d&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>A fam\u00edlia de Nath\u00e1lia tem o h\u00e1bito de comer comidas t\u00edpicas paraguaias, como a mandioca. A m\u00fasica do Paraguai, que \u00e9 ouvida junto com os cl\u00e1ssicos da arte brasileira, \u00e9 outro elemento presente durante os momentos de confraterniza\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>As lembran\u00e7as mais presentes para Nath\u00e1lia sobre as idas a Ciudad del Este, no Paraguai, quando ainda era crian\u00e7a, s\u00e3o dos vendedores ambulantes, do fluxo intenso de autom\u00f3veis, das buzinas e dos barulhos vindos da movimenta\u00e7\u00e3o das galerias que pareciam intermin\u00e1veis.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Puerto Iguaz\u00fa, cidade argentina, foi outro local que marcou a inf\u00e2ncia de Nath\u00e1lia. A jovem se recorda principalmente dos lugares que ia com seus primos e o av\u00f4, como a feirinha onde comiam azeitonas recheadas. \u201cAs empanadas [<em>argentinas<\/em>] de queijo com doce de leite s\u00e3o as melhores que j\u00e1 comi na minha vida. Lembro que meu av\u00f4 comprava duas para cada um e depois, se nos comport\u00e1ssemos, ganhar\u00edamos alfajor para levar para casa, quanta saudade.\u201d Foi tamb\u00e9m nas barracas da feirinha que Nath\u00e1lia conheceu a m\u00fasica argentina. Os m\u00fasicos locais faziam apresenta\u00e7\u00f5es com seus viol\u00f5es esperando o dinheiro do p\u00fablico.<\/p>\n\n\n\n<p>O conv\u00edvio com paraguaios e argentinos foi algo comum no decorrer da vida estudantil de Nath\u00e1lia. Durante a fase escolar, estudou com colegas que tinham descend\u00eancia de algum dos dois pa\u00edses vizinhos. Atualmente, no Centro de Ensino Superior de Foz do Igua\u00e7u (CesuFoz), onde cursa Direito, tem um colega argentino.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>A estudante de Direito lamenta o pouco incentivo dado \u00e0 l\u00edngua espanhola em algumas institui\u00e7\u00f5es de ensino de Foz do Igua\u00e7u. Nas escolas em que estudou, a predomin\u00e2ncia era da l\u00edngua inglesa, que se estendia at\u00e9 o 9\u00ba ano. Somente no Ensino M\u00e9dio havia o acr\u00e9scimo da l\u00edngua espanhola. No seu atual curso superior n\u00e3o h\u00e1 incentivo para a pr\u00e1tica do espanhol.<\/p>\n\n\n\n<p>Os dois locais favoritos de Nath\u00e1lia em Foz do Igua\u00e7u s\u00e3o Itaipu Binacional e o Marco das Tr\u00eas Fronteiras. Em Itaipu, na qual funciona a usina hidrel\u00e9trica que fica entre o Brasil e o Paraguai, a jovem j\u00e1 apreciou muitas apresenta\u00e7\u00f5es musicais de grupos brasileiros e paraguaios. No Marco das Tr\u00eas Fronteiras, onde fica o obelisco que indica a divisa dos tr\u00eas pa\u00edses, assistiu a apresenta\u00e7\u00f5es de dan\u00e7as argentinas, como o tango, al\u00e9m de uruguaias e brasileiras. Nessas ocasi\u00f5es, havia tamb\u00e9m uma culin\u00e1ria variada, com pratos t\u00edpicos de cada um dos pa\u00edses vizinhos.<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cPara alguns, fronteiras representam limites, finaliza\u00e7\u00e3o, encerramento, fechamento; para outros, significa pontos de contato, entrela\u00e7amento, intersec\u00e7\u00e3o, articula\u00e7\u00e3o\u201d, diz a pesquisadora Karla Maria M\u00fcller. Para Nath\u00e1lia, a fronteira sempre representou uni\u00e3o.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<div class=\"wp-block-nextend-smartslider3\"><\/div>\n\n\n\n<h3><strong>A Senhora da Pra\u00e7a<\/strong><\/h3>\n\n\n\n<p>Maria de F\u00e1tima Oliveira Ara\u00fajo, filha de m\u00e3e uruguaia e pai brasileiro, nasceu h\u00e1 62 anos em Santana do Livramento, que faz divisa com Rivera, cidade do Uruguai. Formada no magist\u00e9rio, deu aulas no Ensino Municipal da cidade e, atualmente, \u00e9 agente administrativa da Universidade Estadual do Rio Grande do Sul (Uergs).<\/p>\n\n\n\n<p>A av\u00f3 materna de Maria e os irm\u00e3os de sua m\u00e3e tamb\u00e9m eram uruguaios. Devido a essa rela\u00e7\u00e3o pr\u00f3xima com o pa\u00eds, desenvolveu o gosto pela l\u00edngua espanhola. \u201cEm casa a m\u00e3e sempre nos influenciou [<em>a falar espanhol<\/em>], o idioma que foi ficando um pouco diferente com a conviv\u00eancia com meu pai, a\u00ed j\u00e1 era mais um \u2018portunhol\u2019, e eu e meu irm\u00e3o crescemos ouvindo espanhol e portugu\u00eas\u201d, conta Maria.<\/p>\n\n\n\n<p>A l\u00edngua espanhola ficava restrita ao ambiente familiar, pois no Col\u00e9gio Santa Tereza de Jesus, onde Maria estudou, havia somente o ensino das l\u00ednguas inglesa e francesa, apesar de haver estudantes do Uruguai na institui\u00e7\u00e3o. \u201cLembro que eu tinha v\u00e1rios colegas uruguaios, e minha rela\u00e7\u00e3o com eles era muito boa\u201d, lembra a santanense.<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote has-text-align-right\"><p>\u201cO brasileiro e o uruguaio s\u00e3o povos diferentes, mas por conviverem dia a dia, lado a lado, quase s\u00e3o uma coisa s\u00f3, uma cultura s\u00f3\u201d&nbsp;<\/p><cite><strong>MARIA DE F\u00c1TIMA ARA\u00daJO<\/strong>, moradora de Santana do Livramento<br><\/cite><\/blockquote>\n\n\n\n<div class=\"wp-block-image\"><figure class=\"alignright size-large is-resized\"><img loading=\"lazy\" src=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/sextante\/wp-content\/uploads\/2021\/10\/1-Foto-de-Perfil-de-Maria-de-Fatima-634x1024.jpeg\" alt=\"\" class=\"wp-image-3721\" width=\"235\" height=\"380\" srcset=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/sextante\/wp-content\/uploads\/2021\/10\/1-Foto-de-Perfil-de-Maria-de-Fatima-634x1024.jpeg 634w, https:\/\/www.ufrgs.br\/sextante\/wp-content\/uploads\/2021\/10\/1-Foto-de-Perfil-de-Maria-de-Fatima-186x300.jpeg 186w, https:\/\/www.ufrgs.br\/sextante\/wp-content\/uploads\/2021\/10\/1-Foto-de-Perfil-de-Maria-de-Fatima-768x1240.jpeg 768w, https:\/\/www.ufrgs.br\/sextante\/wp-content\/uploads\/2021\/10\/1-Foto-de-Perfil-de-Maria-de-Fatima.jpeg 793w\" sizes=\"(max-width: 235px) 100vw, 235px\" \/><figcaption>Maria de F\u00e1tima \u00e9 agente administrativa da Uergs em Santana do Livramento| Foto: Arquivo pessoal<\/figcaption><\/figure><\/div>\n\n\n\n<p>A cultura uruguaia tamb\u00e9m estava presente nas brincadeiras de Maria. Ela lembra que brincava com sua prima de \u201czapata\u201d, conhecida no Brasil como \u201camarelinha\u201d. Durante suas f\u00e9rias escolares, a divers\u00e3o era outra: ia para a casa de sua av\u00f3, no Uruguai. Para chegar l\u00e1, passava pela Pra\u00e7a General Abreu, localizada na divisa entre os dois pa\u00edses. Na pra\u00e7a, montava em est\u00e1tuas que tinham o formato de cachorro, o que justificava o nome popular do local: Pra\u00e7a dos Cachorros. Apenas uma avenida separa os dois pa\u00edses: de um lado fica o Brasil, do outro, o Uruguai.<\/p>\n\n\n\n<p>A culin\u00e1ria uruguaia estava presente na vida de Maria. Em sua casa, consumiam produtos que algumas pessoas pensam, de forma equivocada, que s\u00e3o t\u00edpicos somente do Rio Grande do Sul: churrasco e chimarr\u00e3o. Outra comida muito comum era a massa com molho tuco, iguaria tamb\u00e9m consumida na Argentina e Paraguai. \u201cNa minha casa, todas as tardes minha m\u00e3e sentava, colocava um prato de biscoito e fazia o mate doce, que era parecido com um ch\u00e1. Eu ficava s\u00f3 nos biscoitinhos. Eu provei uma vez e n\u00e3o gostei, o mate pra mim tem que ser amargo mesmo\u201d, conta Maria.<\/p>\n\n\n\n<p>O que Maria mais gosta na sua cidade \u00e9 a proximidade f\u00edsica e cultural com o Uruguai. \u201cO brasileiro e o uruguaio s\u00e3o povos diferentes, mas, por conviverem dia a dia, lado a lado, quase s\u00e3o uma coisa s\u00f3, uma cultura s\u00f3.\u201d<\/p>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator\"\/>\n\n\n\n<div class=\"wp-container-3 wp-block-columns\">\n<div class=\"wp-container-1 wp-block-column\" style=\"flex-basis:33.33%\">\n<h3 class=\"has-text-align-left\">LEIA MAIS<\/h3>\n<\/div>\n\n\n\n<div class=\"wp-container-2 wp-block-column\" style=\"flex-basis:66.66%\">\n<ul><li><strong><a href=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/sextante\/o-lado-de-la\/\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">O lado de l\u00e1<\/a>:<\/strong> como a pandemia dificultou a vida de quem precisava cruzar a fronteira<\/li><li><strong><a href=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/sextante\/brasis-da-irlanda\/\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">Brasis da Irlanda<\/a><\/strong>: como brasileiros de estados diferentes acabam cruzando caminhos no pa\u00eds europeu<\/li><\/ul>\n<\/div>\n<\/div>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator\"\/>\n\n\n\n<h3><strong>Portunhol na Constru\u00e7\u00e3o Civil<\/strong><\/h3>\n\n\n\n<p>No dia 26 de agosto de 1981, no Hospital Santa Casa de Jaguar\u00e3o, nasceu a arquiteta e urbanista Lorena Fonseca Vieira. Sua cidade natal faz fronteira com Rio Branco, no Uruguai, e fica a cerca de 416 quil\u00f4metros de Montevid\u00e9u. Jaguar\u00e3o e Rio Branco s\u00e3o interligadas pela Ponte Internacional Bar\u00e3o de Mau\u00e1, constru\u00edda entre 1927 e 1930. A obra \u00e9 considerada como o primeiro bem binacional tombado e reconhecido como patrim\u00f4nio cultural do Mercosul.<\/p>\n\n\n\n<p>As primeiras lembran\u00e7as que Lorena tem do Uruguai s\u00e3o de quando tinha quatro anos, \u00e9poca que sua fam\u00edlia foi morar em S\u00e3o Fernando, um povoado do interior da cidade de Rio Branco. Lorena e seus familiares foram para o povoado por conta do trabalho de seu pai, que, na \u00e9poca, era produtor de arroz. \u201cL\u00e1, participei de algumas atividades escolares, como a creche, onde eu mantive os primeiros contatos com outra l\u00edngua.\u201d&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Mesmo morando no povoado de S\u00e3o Fernando, Lorena e sua fam\u00edlia ficavam um per\u00edodo de tempo l\u00e1 e depois iam para Jaguar\u00e3o, onde mantiveram a casa. Esse processo durou cerca de dois anos, at\u00e9 voltarem definitivamente para a sua cidade natal.<\/p>\n\n\n\n<p>Durante a inf\u00e2ncia e adolesc\u00eancia, Lorena j\u00e1 percebia uma forte influ\u00eancia uruguaia na culin\u00e1ria. \u201cPancho, pizza, torta frita, assado, pascualina est\u00e3o no cotidiano de qualquer casa fronteiri\u00e7a, e na minha n\u00e3o poderia ser diferente\u201d, explica a arquiteta e urbanista.<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote has-text-align-right\"><p>\u201cTenho muito prazer em ser fronteiri\u00e7a, pois nossa compreens\u00e3o, enquanto brasileira, de ser fronteiri\u00e7a nos coloca \u00e0 margem da identidade popular nacional, porque estamos diariamente, desde o nascimento, imersos em dois mundos, duas culturas, duas l\u00ednguas, dois pa\u00edses\u201d<\/p><cite><strong>LORENA FONSECA VIEIRA<\/strong>, moradora de Jaguar\u00e3o<\/cite><\/blockquote>\n\n\n\n<p>Nas escolas municipais e estaduais de Jaguar\u00e3o que Lorena estudou, havia, na grade curricular, l\u00edngua inglesa e espanhola, o que a motivou a praticar o espanhol. A realidade mudou quando precisou ir para Pelotas para cursar Arquitetura e Urbanismo na Universidade Cat\u00f3lica de Pelotas (UcPel). \u201cDurante meu curso superior n\u00e3o tinha incentivo ao espanhol nas atividades de ensino, havia somente um professor uruguaio que fomentou um pouco da cultura latina em algumas atividades de pesquisas de campo.\u201d<\/p>\n\n\n\n<p>Depois de formada, Lorena come\u00e7ou a atuar no ramo da constru\u00e7\u00e3o civil, onde passou a trabalhar com colaboradores uruguaios com nacionalidade brasileira e vice-versa. \u201cTrabalhei em uma empresa nacional de restauro chamada Marsou Engenharia, e l\u00e1 o uso da l\u00edngua espanhola era popularmente substitu\u00eddo por um \u2018portunhol\u2019 t\u00edpico da fronteira.\u201d<\/p>\n\n\n\n<p>Segundo Lorena, h\u00e1 uma troca cultural muito interessante entre Jaguar\u00e3o e as cidades uruguaias, o que \u00e9 percept\u00edvel nas festas e celebra\u00e7\u00f5es. \u201cO Carnaval est\u00e1 presente nos dois lados e h\u00e1 uma uni\u00e3o dos munic\u00edpios na execu\u00e7\u00e3o do evento.\u201d A arquiteta tamb\u00e9m percebe um grande consumo de telenovelas brasileiras em Montevid\u00e9u e de m\u00fasicas tipicamente uruguaias em Jaguar\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cTenho muito prazer em ser fronteiri\u00e7a, pois nossa compreens\u00e3o, enquanto brasileira, de ser fronteiri\u00e7a nos coloca \u00e0 margem da identidade popular nacional, porque estamos diariamente, desde o nascimento, imersos em dois mundos, duas culturas, duas l\u00ednguas, dois pa\u00edses.\u201d<\/p>\n\n\n\n<div class=\"wp-block-nextend-smartslider3\"><\/div>\n\n\n\n<h3><strong>L\u00edngua como elemento de integra\u00e7\u00e3o<\/strong><\/h3>\n\n\n\n<p>Um dos elementos capazes de unir pessoas de diferentes culturas \u00e9 o compartilhamento e o aprendizado de uma mesma l\u00edngua. O Brasil, por ser o \u00fanico pa\u00eds da Am\u00e9rica Latina que n\u00e3o tem o espanhol como idioma oficial, j\u00e1 causa um afastamento, nesse aspecto, com os pa\u00edses vizinhos. Apesar disso, devido \u00e0 semelhan\u00e7a entre o portugu\u00eas e o espanhol, \u00e9 poss\u00edvel acontecer uma comunica\u00e7\u00e3o fluida.<\/p>\n\n\n\n<p>Nas zonas de limite territorial do Brasil com os outros pa\u00edses, h\u00e1 uma mistura das l\u00ednguas portuguesa e espanhola e at\u00e9 o surgimento de uma \u201cnova l\u00edngua\u201d, o chamado \u2018portunhol\u2019, como atestam Maria de F\u00e1tima e Lorena. Nesses lugares, o ensino do espanhol nas escolas brasileiras, quando existe, pode auxiliar no processo de aproxima\u00e7\u00e3o com outras culturas.<\/p>\n\n\n\n<p>De acordo com dados do <a href=\"http:\/\/ipol.org.br\/\">Instituto de Investiga\u00e7\u00e3o e Desenvolvimento em Pol\u00edtica Lingu\u00edstica <\/a>(Ipol), o espanhol \u00e9 a quarta l\u00edngua mais falada do mundo, com 534 milh\u00f5es de falantes. Ao todo, s\u00e3o 21 pa\u00edses que t\u00eam a l\u00edngua espanhola como idioma oficial. Apesar disso, a implementa\u00e7\u00e3o obrigat\u00f3ria do espanhol no curr\u00edculo escolar brasileiro \u00e9 algo recente e sofreu diversas modifica\u00e7\u00f5es ao longo do tempo.<\/p>\n\n\n\n<p>O primeiro projeto de Lei (PL) que tratava sobre a inclus\u00e3o do espanhol no componente curricular foi proposto pelo deputado federal \u00c1tila Lira (PSB), em 15 de dezembro de 2000. O PL tornava a oferta da l\u00edngua espanhola obrigat\u00f3ria para as escolas e optativa para os estudantes e ficou cerca de cinco anos em tramita\u00e7\u00e3o. Foi somente em 5 de agosto de 2005 que a Lei 11.161\/05 foi sancionada.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>O Minist\u00e9rio da Educa\u00e7\u00e3o planejava que, ap\u00f3s o sancionamento da Lei, ela fosse implementada de modo gradativo at\u00e9 2010. Durante esse per\u00edodo, as institui\u00e7\u00f5es de ensino deveriam adaptar seus curr\u00edculos para a inclus\u00e3o da l\u00edngua espanhola. No entanto, em setembro de 2016, a Lei foi revogada pela chamada \u201cLei do Novo Ensino M\u00e9dio\u201d (Lei 13.415), que entrou em vigor em 26 de fevereiro de 2017. Ela desconsiderou a obrigatoriedade do espanhol nas escolas p\u00fablicas brasileiras.<\/p>\n\n\n\n<p>A \u201cLei do Novo Ensino M\u00e9dio\u201d gerou <a href=\"https:\/\/veja.abril.com.br\/blog\/rio-grande-do-sul\/cidades-se-mobilizam-por-obrigatoriedade-do-ensino-de-espanhol\/\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">mobiliza\u00e7\u00e3o de educadores e estudantes de v\u00e1rias cidades do Brasil<\/a>, principalmente de zonas fronteiri\u00e7as. O movimento clamava pela obrigatoriedade do espanhol, como ocorre com a l\u00edngua inglesa. Como solu\u00e7\u00e3o, v\u00e1rios Estados encaminharam propostas de emenda \u00e0 Constitui\u00e7\u00e3o. O Paran\u00e1, por exemplo, est\u00e1 com a PEC 3\/2021 em tramita\u00e7\u00e3o. A proposta prev\u00ea a obrigatoriedade do ensino da l\u00edngua espanhola em todas as escolas do Estado.<\/p>\n\n\n\n<p>Segundo a doutora em Geografia Aline, o ensino brasileiro da atualidade n\u00e3o foi planejado para promover uma integra\u00e7\u00e3o com outras culturas, sobretudo as das fronteiras. \u201cN\u00e3o fazemos uma educa\u00e7\u00e3o que pense as \u00e1reas de fronteiras e n\u00e3o temos pol\u00edticas para isso\u201d, afirma.<\/p>\n\n\n\n<h3><strong>Educa\u00e7\u00e3o nas zonas de fronteiras<\/strong><\/h3>\n\n\n\n<p> Nas zonas fronteiri\u00e7as, o contato entre as culturas \u00e9 di\u00e1rio, e o n\u00e3o entendimento do outro pode levar a conflitos ou tentativas de imposi\u00e7\u00e3o e domina\u00e7\u00e3o cultural. Nesses casos, a desconstru\u00e7\u00e3o dos preconceitos pode come\u00e7ar nas institui\u00e7\u00f5es de ensino, desde que haja investimento e incentivo das entidades pol\u00edticas. A educa\u00e7\u00e3o \u00e9 um dos caminhos de aproxima\u00e7\u00e3o entre pa\u00edses.<\/p>\n\n\n\n<p>A ge\u00f3grafa Aline, nascida em Ros\u00e1rio do Sul, na Regi\u00e3o da Fronteira oeste do estado do Rio Grande do Sul, percebeu as fragilidades da educa\u00e7\u00e3o brasileira quando foi morar em Corumb\u00e1, cidade do Mato Grosso do Sul. Durante os 10 anos em que ficou l\u00e1, percebeu que as disciplinas de Ci\u00eancias Humanas n\u00e3o tratavam dos aspectos culturais da Bol\u00edvia, pa\u00eds vizinho. \u201cObservei que a Bol\u00edvia n\u00e3o era estudada de forma ampliada, o foco seguia sendo o mesmo de uma escola dos grandes centros urbanos do Brasil\u201d, conta.<\/p>\n\n\n\n<p>A educa\u00e7\u00e3o pode tamb\u00e9m combater a ideia de supremacia cultural e os estere\u00f3tipos que um pa\u00eds tem em rela\u00e7\u00e3o a outro. Para Aline, as institui\u00e7\u00f5es de ensino podem atuar, sobretudo, contra a xenofobia, por meio de um ensino formativo e n\u00e3o apenas conscientizador.<\/p>\n\n\n\n<p>Um dos obst\u00e1culos para a educa\u00e7\u00e3o integradora \u00e9 a falta de investimento dos governos federal e estadual em \u00e1reas b\u00e1sicas. Com isso, muitas tentativas de aproxima\u00e7\u00e3o com a cultura brasileira ou do Brasil com pa\u00edses vizinhos, por exemplo, partem de uma iniciativa de movimentos sociais das pr\u00f3prias pessoas que vivem nas fronteiras. \u201cPercebo que muito \u00e9 tratado pelo vi\u00e9s da economia, o que geralmente n\u00e3o \u00e9 acompanhado na \u00e1rea do ensino e da cultura, deixando mais por conta de os agentes fronteiri\u00e7os realizarem estes movimentos, na busca de solu\u00e7\u00f5es para a comunidade em geral\u201d, critica a doutora em comunica\u00e7\u00e3o Karla M\u00fcller.<\/p>\n\n\n\n<p>Para a comunicadora, se houver investimento, qualifica\u00e7\u00e3o e incentivo, a escola e demais institui\u00e7\u00f5es de ensino podem contribuir com o entendimento e a identifica\u00e7\u00e3o com culturas t\u00e3o diversas. \u201cPouco conhecemos sobre a realidade e a cultura de nossos vizinhos, qualquer movimento feito neste sentido de compartilhamento da hist\u00f3ria, da geografia, da literatura entre outras frentes, poder\u00e1 auxiliar a nos vermos como irm\u00e3os, <em>hermanos<\/em> de fato.\u201d<\/p>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator\"\/>\n\n\n\n<div class=\"wp-container-6 wp-block-columns\">\n<div class=\"wp-container-4 wp-block-column\" style=\"flex-basis:33.33%\">\n<h3 class=\"has-text-align-left\">LEIA MAIS<\/h3>\n<\/div>\n\n\n\n<div class=\"wp-container-5 wp-block-column\" style=\"flex-basis:66.66%\">\n<ul><li><strong><a href=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/sextante\/brasil-refugio\/\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">Brasil ref\u00fagio<\/a>:<\/strong> as pol\u00edticas nacionais em rela\u00e7\u00e3o aos refugiados<\/li><li><strong><a href=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/sextante\/es-mae-gentil\/\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">\u00c9s m\u00e3e gentil<\/a>:<\/strong> o que faz com que estrangeiros escolham migrar para o Brasil<\/li><\/ul>\n<\/div>\n<\/div>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator\"\/>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Brasileiros que vivem em regi\u00f5es fronteiri\u00e7as s\u00e3o influenciados culturalmente pelos pa\u00edses vizinhos<\/p>\n","protected":false},"author":35,"featured_media":3641,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"57-post-template.php","format":"standard","meta":[],"categories":[109],"tags":[],"acf":[],"yoast_head":"<!-- This site is optimized with the Yoast SEO plugin v19.6.1 - https:\/\/yoast.com\/wordpress\/plugins\/seo\/ -->\n<title>A influ\u00eancia cultural dos pa\u00edses vizinhos nas zonas de fronteiras &mdash; 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