{"id":621,"date":"2020-11-23T18:45:40","date_gmt":"2020-11-23T21:45:40","guid":{"rendered":"https:\/\/www.ufrgs.br\/sextante\/?p=621"},"modified":"2020-11-23T17:07:10","modified_gmt":"2020-11-23T20:07:10","slug":"um-pe-no-lar-e-o-outro-na-carreira","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ufrgs.br\/sextante\/um-pe-no-lar-e-o-outro-na-carreira\/","title":{"rendered":"Um p\u00e9 no lar e o outro na carreira"},"content":{"rendered":"\n<div style=\"height:20px\" aria-hidden=\"true\" class=\"wp-block-spacer\"><\/div>\n\n\n\n<div class=\"wp-container-3 wp-block-columns\">\n<div class=\"wp-container-1 wp-block-column\" style=\"flex-basis:66.66%\">\n<p><strong>O dilema das mulheres brasileiras e a (<s>in)<\/s>cans\u00e1vel busca por dar conta de tudo o que desejam para si e para os outros.<em> <\/em>E que, muitas vezes, esses outros parecem n\u00e3o ver&nbsp;<\/strong><\/p>\n<\/div>\n\n\n\n<div class=\"wp-container-2 wp-block-column\" style=\"flex-basis:33.33%\">\n<p class=\"has-text-align-right\" style=\"font-size:18px\"><sup><strong>REPORTAGEM<br><\/strong><\/sup><strong>Juliana Maciel<\/strong><br><em>juliana.crmaciel@gmail.com<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-right\" style=\"font-size:18px\"><strong><sup>ILUSTRA\u00c7\u00c3O<\/sup><\/strong><br><strong>Borga<\/strong><\/p>\n<\/div>\n<\/div>\n\n\n\n<div style=\"height:20px\" aria-hidden=\"true\" class=\"wp-block-spacer\"><\/div>\n\n\n\n<p>Silvia R\u00f6hrs tem 54 anos e mora em Porto Alegre com a filha, de 23, e o filho, de 14. Em um dia normal da semana, ela acorda \u00e0s 6h30min, organiza o seu quarto e o dos filhos, toma caf\u00e9 com eles e, se a pilha de roupa suja j\u00e1 tiver se formado, coloca tudo para lavar. Ela sente prazer ao ver a casa limpa e organizada. Ama cuidar, proteger e estar presente na vida dos filhos \u2014 que tamb\u00e9m assumem algumas das tarefas de organiza\u00e7\u00e3o da casa. Mas Silvia tem se sentido cansada, \u00e0s vezes frustrada por n\u00e3o conseguir dar conta de tudo. Porque, nesse tudo, entram ainda outras in\u00fameras responsabilidades e desejos.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image alignwide size-large\"><img loading=\"lazy\" width=\"1024\" height=\"768\" src=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/sextante\/wp-content\/uploads\/2020\/10\/Mulher-limpando_Juliana_Foto_-Wagner-Maciel-1024x768.jpg\" alt=\"Mulher limpando janela. Pauta de Juliana Maciel\" class=\"wp-image-344\" srcset=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/sextante\/wp-content\/uploads\/2020\/10\/Mulher-limpando_Juliana_Foto_-Wagner-Maciel-1024x768.jpg 1024w, https:\/\/www.ufrgs.br\/sextante\/wp-content\/uploads\/2020\/10\/Mulher-limpando_Juliana_Foto_-Wagner-Maciel-300x225.jpg 300w, https:\/\/www.ufrgs.br\/sextante\/wp-content\/uploads\/2020\/10\/Mulher-limpando_Juliana_Foto_-Wagner-Maciel-768x576.jpg 768w, https:\/\/www.ufrgs.br\/sextante\/wp-content\/uploads\/2020\/10\/Mulher-limpando_Juliana_Foto_-Wagner-Maciel-1536x1152.jpg 1536w, https:\/\/www.ufrgs.br\/sextante\/wp-content\/uploads\/2020\/10\/Mulher-limpando_Juliana_Foto_-Wagner-Maciel-2048x1536.jpg 2048w, https:\/\/www.ufrgs.br\/sextante\/wp-content\/uploads\/2020\/10\/Mulher-limpando_Juliana_Foto_-Wagner-Maciel-1568x1176.jpg 1568w\" sizes=\"(max-width: 1024px) 100vw, 1024px\" \/><figcaption>No Brasil, mulheres dedicam 18,1 horas semanais aos cuidados de pessoas ou a afazeres dom\u00e9sticos, segundo o IBGE | Foto: Wagner Maciel<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p>Silvia \u00e9 uma entre tantas mulheres que mant\u00eam uma rotina intensa, seja do lado de dentro, seja do lado de fora da janela.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Al\u00e9m dessas e de outras demandas do lar, como a limpeza e o preparo das refei\u00e7\u00f5es, ela trabalha como supervisora comercial de polo EAD em uma institui\u00e7\u00e3o de ensino. Antes da pandemia do coronav\u00edrus, ela trabalhava presencialmente \u00e0 tarde e \u00e0 noite. Chegava em casa \u00e0s 22h30min e, em alguns per\u00edodos, tamb\u00e9m precisava trabalhar os tr\u00eas turnos. Desde mar\u00e7o, ela est\u00e1 em <em>home office<\/em>, o que tem lhe proporcionado maior flexibilidade para administrar todas as suas atividades, que n\u00e3o param por aqui: ela tamb\u00e9m faz faxina na casa de uma vizinha a cada 15 dias e se arrisca na vida de empreendedora, produzindo e vendendo sua marca de geleia de pimenta, a Dedo de M\u00e3e, para amigos, colegas e hamburguerias.<\/p>\n\n\n\n<p>Com tudo isso, sobra tempo para cuidar de si? Silvia afirma que tem caminhado quatro vezes na semana, al\u00e9m de ler, de ver filmes e de falar com amigos e com familiares. Talvez n\u00e3o na frequ\u00eancia com que gostaria. Volta e meia&nbsp; se sente frustrada, perdida no malabarismo. Mas, hoje, a conviv\u00eancia mais pr\u00f3xima com os filhos tamb\u00e9m tem lhe nutrido a alma. Ainda assim, ela imagina como seria poder contar com o apoio do ex-marido, tanto financeiramente, quanto no cuidado dos filhos. \u201cTem mais de nove meses que ele n\u00e3o passa um fim de semana cuidando deles\u201d, conta. E, assim, a imagem de uma semana sozinha, s\u00f3 para si, acaba limitada \u00e0 esfera da fantasia.<\/p>\n\n\n\n<p>Quando Silvia se separou, sentiu-se mais feliz. At\u00e9 ent\u00e3o, seu esfor\u00e7o parecia nunca ser suficiente: \u201cQuando casada, me sentia explorada em todos os sentidos, era literalmente a empregada da casa. Trabalhava, cuidava de tudo e de todos, sem ser reconhecida. Culpa minha, claro, eu permitia que isso acontecesse\u201d. Ser\u00e1? Ser\u00e1 que a culpa por n\u00e3o ter seus esfor\u00e7os valorizados era realmente dela?<\/p>\n\n\n\n<p>Sua personalidade de gostar de cuidar e de organizar pode at\u00e9 ter contribu\u00eddo. No entanto, o<strong> <a rel=\"noreferrer noopener\" href=\"https:\/\/www.ipea.gov.br\/portal\/index.php?option=com_acymailing&amp;ctrl=archive&amp;task=view&amp;listid=10-\" target=\"_blank\">Retrato das Desigualdades de G\u00eanero e Ra\u00e7a no Brasil<\/a><\/strong>, realizado pelo Instituto de Pesquisa Econ\u00f4mica Aplicada (Ipea), revela que o cansa\u00e7o de Silvia \u00e9 o de tantas outras mulheres.<\/p>\n\n\n\n<h5><strong>Do lado de dentro, o mundo ainda n\u00e3o mudou<\/strong><\/h5>\n\n\n\n<p>A taxa de participa\u00e7\u00e3o das mulheres no mercado de trabalho no Brasil deu um grande salto nas d\u00e9cadas de 1960, 70 e 80. Por\u00e9m, nos \u00faltimos 20 anos, esse n\u00famero pouco se alterou.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cParece que as mulheres alcan\u00e7aram um teto de entrada no mercado de trabalho. Elas n\u00e3o conseguiram superar os 60%, que a gente considera um patamar baixo em compara\u00e7\u00e3o a outros muitos pa\u00edses\u201d, afirma a t\u00e9cnica de planejamento e pesquisa do Ipea Nat\u00e1lia Fontoura, <strong><a href=\"https:\/\/www.ipea.gov.br\/portal\/index.php?option=com_content&amp;view=article&amp;id=29523&amp;catid=30&amp;Itemid=9\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">em v\u00eddeo no site do instituto<\/a><\/strong>. Nat\u00e1lia \u00e9 uma das autoras do Retrato das Desigualdades de G\u00eanero e Ra\u00e7a, estudo desenvolvido com base em s\u00e9ries hist\u00f3ricas de 1995 a 2015.<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote has-text-align-right\"><p>\u201cEnt\u00e3o, a responsabilidade feminina pelo trabalho de cuidado ainda continua impedindo que muitas mulheres entrem no mercado de trabalho e, ao mesmo tempo, aquelas que entram  continuam respondendo pelas tarefas de cuidado e pelas tarefas dom\u00e9sticas. Isso faz com que a gente tenha a dupla jornada e a sobrecarga de trabalho\u201d<\/p><cite><strong>NAT\u00c1LIA FONTOURA<\/strong>, t\u00e9cnica de planejamento e pesquisa do Ipea<br><\/cite><\/blockquote>\n\n\n\n<p>Conforme o Retrato, em 20 anos, a taxa de participa\u00e7\u00e3o das mulheres no mercado de trabalho avan\u00e7ou menos de dois pontos percentuais, indo de 53,8% para 55,3%. \u201cEnt\u00e3o, a responsabilidade feminina pelo trabalho de cuidado ainda continua impedindo que muitas mulheres entrem no mercado de trabalho e, ao mesmo tempo, aquelas que entram  continuam respondendo pelas tarefas de cuidado e pelas tarefas dom\u00e9sticas. Isso faz com que a gente tenha a dupla jornada e a sobrecarga de trabalho\u201d, avalia Nat\u00e1lia no mesmo v\u00eddeo.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>O resultado desse estudo ainda mostrou que as mulheres trabalham 7,5 horas a mais do que os homens por semana, considerando a jornada total de trabalho, ou seja, a soma do trabalho dom\u00e9stico n\u00e3o remunerado e do trabalho principal. \u00c9 um pouco mais de uma hora&nbsp; por dia que poderia ser dedicada a fazer um exerc\u00edcio, a ler um livro, a aprender algo novo, ou a simplesmente descansar, desacelerar e aproveitar o \u00f3cio.<\/p>\n\n\n\n<p>As <a href=\"https:\/\/agenciadenoticias.ibge.gov.br\/agencia-sala-de-imprensa\/2013-agencia-de-noticias\/releases\/20232-estatisticas-de-genero-responsabilidade-por-afazeres-afeta-insercao-das-mulheres-no-mercado-de-trabalho\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\"><strong>Estat\u00edsticas de G\u00eanero<\/strong><\/a>, pesquisa conduzida pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estat\u00edstica (IBGE), tamb\u00e9m mapeia esse cen\u00e1rio. Dados de 2016 mostram que as mulheres dedicam 18,1 horas semanais aos cuidados de pessoas ou a afazeres dom\u00e9sticos, quase o dobro dos homens, que \u00e9 de 10,5 horas semanais. Dentro desse contexto, as mulheres pretas ou pardas s\u00e3o as que mais investem tempo nessas atividades, com 18,6 horas semanais. J\u00e1 entre os homens, o indicador pouco oscila quando se considera a cor, a ra\u00e7a, ou a regi\u00e3o do Brasil.<\/p>\n\n\n\n<p>O que isso nos diz? As mulheres t\u00eam menos tempo para si, e esse \u00e9 um problema estrutural. Mas o que os dados n\u00e3o mostram \u00e9 talvez o que mais d\u00f3i: a falta de reconhecimento e a sensa\u00e7\u00e3o de se estar s\u00f3.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-large\"><img loading=\"lazy\" width=\"1024\" height=\"1024\" src=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/sextante\/wp-content\/uploads\/2020\/10\/Jornada-dupla_Juliana_Ilustracao_-Juliana-Maciel-mas-e-tao-feia-que-prefiro-nao-colocar-que-e-minha-kkkk-1024x1024.png\" alt=\"Ilustra\u00e7\u00e3o com dados sobre tarefas dom\u00e9sticas. Pauta de Juliana Maciel\" class=\"wp-image-342\" srcset=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/sextante\/wp-content\/uploads\/2020\/10\/Jornada-dupla_Juliana_Ilustracao_-Juliana-Maciel-mas-e-tao-feia-que-prefiro-nao-colocar-que-e-minha-kkkk-1024x1024.png 1024w, https:\/\/www.ufrgs.br\/sextante\/wp-content\/uploads\/2020\/10\/Jornada-dupla_Juliana_Ilustracao_-Juliana-Maciel-mas-e-tao-feia-que-prefiro-nao-colocar-que-e-minha-kkkk-300x300.png 300w, https:\/\/www.ufrgs.br\/sextante\/wp-content\/uploads\/2020\/10\/Jornada-dupla_Juliana_Ilustracao_-Juliana-Maciel-mas-e-tao-feia-que-prefiro-nao-colocar-que-e-minha-kkkk-150x150.png 150w, https:\/\/www.ufrgs.br\/sextante\/wp-content\/uploads\/2020\/10\/Jornada-dupla_Juliana_Ilustracao_-Juliana-Maciel-mas-e-tao-feia-que-prefiro-nao-colocar-que-e-minha-kkkk-768x768.png 768w, https:\/\/www.ufrgs.br\/sextante\/wp-content\/uploads\/2020\/10\/Jornada-dupla_Juliana_Ilustracao_-Juliana-Maciel-mas-e-tao-feia-que-prefiro-nao-colocar-que-e-minha-kkkk.png 1080w\" sizes=\"(max-width: 1024px) 100vw, 1024px\" \/><\/figure>\n\n\n\n<h5><strong>O Trabalho Invis\u00edvel das Mulheres<\/strong><\/h5>\n\n\n\n<p>Marina Rodrigues \u00e9 arquiteta e tem 45 anos. Ela mora em Porto Alegre junto com seu esposo e com os dois filhos g\u00eameos, que est\u00e3o quase completando 10 anos. Ela conta que, quando os meninos nasceram, acabou deixando o trabalho num segundo plano e assumindo o cuidado dos filhos como sua prioridade. N\u00e3o foi uma decis\u00e3o conversada e acordada. \u201cFicou meio que impl\u00edcita essa combina\u00e7\u00e3o de que eu tinha que assumir mais isso e ele ia trabalhar que nem louco. Ent\u00e3o, eu comecei a trabalhar menos, sempre levando os guris, buscando, fazendo essa administra\u00e7\u00e3o do lar.\u201d<\/p>\n\n\n\n<p>Por outro lado, o seu companheiro tamb\u00e9m acelerou o p\u00e9 no trabalho. De segunda \u00e0 sexta, ele sai de casa por volta das 7h e s\u00f3 retorna \u00e0s 20h. \u201cEnt\u00e3o, toda a quest\u00e3o de leva e traz das crian\u00e7as, de aux\u00edlio nas atividades da escola, de comida, de super, de tudo \u00e9 realmente comigo, porque ele n\u00e3o consegue me ajudar nisso.\u201d&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<div class=\"wp-block-image\"><figure class=\"alignleft size-large is-resized\"><img loading=\"lazy\" src=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/sextante\/wp-content\/uploads\/2020\/10\/Minha-mae-e-as-maes-do-meu-bairro_Juliana_Foto_-Reproducao_Edex-Live-710x1024.jpg\" alt=\"Minha m\u00e3e e as m\u00e3es do meu bairro. Obra de Anujath Sindhu Vinaylal. Pauta de Juliana Maciel.\" class=\"wp-image-343\" width=\"437\" height=\"630\" srcset=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/sextante\/wp-content\/uploads\/2020\/10\/Minha-mae-e-as-maes-do-meu-bairro_Juliana_Foto_-Reproducao_Edex-Live-710x1024.jpg 710w, https:\/\/www.ufrgs.br\/sextante\/wp-content\/uploads\/2020\/10\/Minha-mae-e-as-maes-do-meu-bairro_Juliana_Foto_-Reproducao_Edex-Live-208x300.jpg 208w, https:\/\/www.ufrgs.br\/sextante\/wp-content\/uploads\/2020\/10\/Minha-mae-e-as-maes-do-meu-bairro_Juliana_Foto_-Reproducao_Edex-Live-768x1108.jpg 768w, https:\/\/www.ufrgs.br\/sextante\/wp-content\/uploads\/2020\/10\/Minha-mae-e-as-maes-do-meu-bairro_Juliana_Foto_-Reproducao_Edex-Live-1065x1536.jpg 1065w, https:\/\/www.ufrgs.br\/sextante\/wp-content\/uploads\/2020\/10\/Minha-mae-e-as-maes-do-meu-bairro_Juliana_Foto_-Reproducao_Edex-Live-1419x2048.jpg 1419w, https:\/\/www.ufrgs.br\/sextante\/wp-content\/uploads\/2020\/10\/Minha-mae-e-as-maes-do-meu-bairro_Juliana_Foto_-Reproducao_Edex-Live-1568x2262.jpg 1568w, https:\/\/www.ufrgs.br\/sextante\/wp-content\/uploads\/2020\/10\/Minha-mae-e-as-maes-do-meu-bairro_Juliana_Foto_-Reproducao_Edex-Live-scaled.jpg 1774w\" sizes=\"(max-width: 437px) 100vw, 437px\" \/><figcaption>O trabalho n\u00e3o remunerado n\u00e3o \u00e9 um desafio apenas das mulheres brasileiras. Aos 10 anos, o menino indiano Anujath Sindhu Vinaylal pintou a obra \u201cMinha m\u00e3e e as m\u00e3es do meu bairro\u201d, que hoje, quatro anos depois, se tornou a capa do Or\u00e7amento Infantil e de G\u00eanero 2020 &#8211; 2021, do estado de Kerala. A obra retrata como o menino enxergava as mulheres de sua vizinhan\u00e7a: sempre trabalhando | Foto: Reprodu\u00e7\u00e3o<\/figcaption><\/figure><\/div>\n\n\n\n<p>S\u00f3 que a organiza\u00e7\u00e3o da casa n\u00e3o \u00e9 uma atividade que Marina gosta de fazer. \u201cEu acabo que fico bem estressada quando eu t\u00f4 com o trabalho dom\u00e9stico dependendo de mim&#8230; a parte de comida, de lavar roupa, de arrumar a casa.\u201d Por muito tempo, ela teve de conciliar isso com o cuidado dos filhos g\u00eameos ainda pequenos e o seu trabalho, que nunca parou totalmente. S\u00f3 que o estresse que ela sentia era ruim tanto pra ela, quanto para sua fam\u00edlia. Sua paci\u00eancia diminu\u00eda e os conflitos em casa aumentavam. Nesse caldeir\u00e3o, havia um catalisador: a sensa\u00e7\u00e3o de que o companheiro n\u00e3o compreendia tudo que ela fazia, e, assim, tamb\u00e9m n\u00e3o poderia compreender as raz\u00f5es da sua irrita\u00e7\u00e3o. Afinal, ele passava o dia fora. E essa era uma lacuna na comunica\u00e7\u00e3o entre os dois.<\/p>\n\n\n\n<p>Com o tempo, Marina compreendeu que, para ela, era imprescind\u00edvel contar com o apoio de algu\u00e9m e decidiu contratar uma pessoa para trabalhar meio turno em sua casa. Com o suporte dessa profissional, ela vem buscando equilibrar o cuidado com as crian\u00e7as e a progressiva retomada de sua carreira, agora que os meninos est\u00e3o ficando maiores. Ela tamb\u00e9m lembra de uma situa\u00e7\u00e3o recente em que precisou viajar dois dias a trabalho e o esposo ficou com as crian\u00e7as em casa. Na sua chegada, ele s\u00f3 comentou: \u201cEu n\u00e3o ia aguentar uma semana\u201d.<\/p>\n\n\n\n<h5><strong>A import\u00e2ncia do di\u00e1logo<\/strong><\/h5>\n\n\n\n<p>Rosa Felizardo, que \u00e9 psic\u00f3loga, analista junguiana e tamb\u00e9m pedagoga, explica que varrer a casa todos os dias pode ser uma tarefa t\u00e3o exaustiva quanto planejar quando lavar a roupa, ver se vai chover, se todo mundo tem roupa limpa, se tem que comprar produto de limpeza, se n\u00e3o falta detergente na lista do super, se n\u00e3o tem que descongelar o feij\u00e3o de amanh\u00e3, se j\u00e1 n\u00e3o est\u00e1 na hora de trocar os len\u00e7\u00f3is e as toalhas dos banheiros. Gerenciar o funcionamento de tudo isso tamb\u00e9m envolve gasto de energia. Assim, as cargas f\u00edsicas e mentais se somam no final do dia. Quando o parceiro est\u00e1 absolutamente alheio a essa situa\u00e7\u00e3o e n\u00e3o pega junto nas responsabilidades da casa, cria-se um problema: \u201cA mulher tende a se sentir apartada, como se n\u00e3o estivessem os dois batalhando pela mesma causa\u201d, diz a psic\u00f3loga.<\/p>\n\n\n\n<p>Nessas situa\u00e7\u00f5es, Rosa ressalta a import\u00e2ncia do di\u00e1logo, porque quanto mais se foge e se evita encarar um temor, mais nos direcionamos a ele. \u201c\u00c9 importante sentar e botar as cartas na mesa e n\u00e3o cair no sil\u00eancio\u201d, afirma. Como se faz no trabalho quando algo n\u00e3o vai bem, em casa tamb\u00e9m \u00e9 preciso fazer uma reuni\u00e3o e falar o que se sente, inclusive, mais de uma vez. Ela explica que muitas vezes o ouvido masculino n\u00e3o tem a sensibilidade de captar nuances, muito pela falta de treino. Ele pode n\u00e3o perceber que uma mulher est\u00e1 estressada, ou se sentindo sobrecarregada quando ela comenta que est\u00e1 cansada. Por isso, ela destaca a import\u00e2ncia de tanto os homens estarem mais abertos e mais sens\u00edveis a compreender essa linguagem, quanto as mulheres experimentarem comunicar como se sentem e o que desejam de uma maneira mais direta.<\/p>\n\n\n\n<h5><strong>Rede de apoio em falta<\/strong><\/h5>\n\n\n\n<p>Al\u00e9m de Marina e Silvia, s\u00e3o muitas outras mulheres passando por situa\u00e7\u00f5es parecidas e, ao mesmo tempo, diferentes. No caso das duas, a situa\u00e7\u00e3o de flexibilidade no trabalho permite com que possam ficar com os filhos em casa \u2014 ainda que \u00e0s vezes se sintam esgotadas. Mas muitas mulheres ficaram desempregadas por conta da pandemia e h\u00e1 ainda as que precisam sair de casa para trabalhar e n\u00e3o t\u00eam com quem deixar os filhos.<\/p>\n\n\n\n<div class=\"wp-block-cover alignleft has-custom-content-position is-position-bottom-center\" style=\"background-image:url(https:\/\/www.ufrgs.br\/sextante\/wp-content\/uploads\/2020\/11\/lorenabendati_janela.gif);background-position:0% 79%;min-height:342px\"><div class=\"wp-block-cover__inner-container\">\n<p style=\"font-size:14px\"><strong>Ilustra\u00e7\u00e3o: Lorena Bendati<\/strong><\/p>\n<\/div><\/div>\n\n\n\n<p>Esse \u00e9 o caso de Larissa Mule, 32 anos, t\u00e9cnica de enfermagem. Ela mora em S\u00e3o Paulo, tem uma filha de oito anos e um filho de seis de seu \u00faltimo casamento, e acabou de ter mais uma menina, que ainda n\u00e3o completou um ano, com seu atual companheiro. O parceiro trabalha fora e ela rec\u00e9m acabou o per\u00edodo da licen\u00e7a maternidade. Depois de tantos meses em casa, muitas vezes sozinha mais de 12 horas com os filhos pequenos, ela ficou feliz em retomar o emprego presencialmente. Sair, conversar com outras pessoas, mesmo com o risco que a pandemia representa, a faz se sentir mais viva. Por\u00e9m, ela sente falta de uma rede de pessoas que pudesse lhe dar suporte. Sua m\u00e3e lhe ajuda como pode, mas mora em outra cidade. \u201cEnt\u00e3o, eu tenho que procurar uma pessoa de fora, me virar nos 30 para pagar\u2026 eu acho que a rede de apoio \u00e9 muito pequena para as mulheres\u201d, diz Larissa.<\/p>\n\n\n\n<h5>Caminhos poss\u00edveis<\/h5>\n\n\n\n<p>Para a psic\u00f3loga Rosa Felizardo, a situa\u00e7\u00e3o de pandemia do Covid-19 escancarou a necessidade de se encontrar solu\u00e7\u00f5es enquanto sociedade. \u201cA gente n\u00e3o \u00e9 ningu\u00e9m sozinho.\u201d As pessoas v\u00e3o vendo at\u00e9 onde conseguem ir e, quando chegam no limite, essa viv\u00eancia de comunidade aparece como necess\u00e1ria. Ela defende a import\u00e2ncia de se votar em pessoas que defendam creches comunit\u00e1rias e que apoiem escolas de tempo integral.<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote has-text-align-right\"><p><strong>\u201c<\/strong>Se o cuidado \u00e9 algo que te move, [<em>\u00e9 preciso<\/em>] entender que se pode incluir pessoas nesse movimento para diminuir a sobrecarga\u201d<\/p><cite><strong>ROSA FELIZARDO<\/strong>, psic\u00f3loga<\/cite><\/blockquote>\n\n\n\n<p>J\u00e1 na esfera privada, Rosa destaca a import\u00e2ncia do autoconhecimento e de uma constante reflex\u00e3o sobre como estamos vivendo e se estamos satisfeitos. \u00c9 fazer, se poss\u00edvel,&nbsp; como a Marina que, reconhecendo o quanto algumas atividades faziam mal para ela e para a sua fam\u00edlia, assumiu que ter uma ajuda externa era prioridade em sua vida. Ou ent\u00e3o, \u201cse o cuidado \u00e9 algo que te move, entender que se pode incluir pessoas nesse movimento para diminuir a sobrecarga\u201d, diz a psic\u00f3loga. E n\u00e3o, simplesmente, excluir isso do seu cotidiano.<\/p>\n\n\n\n<p>Al\u00e9m disso, para que as futuras gera\u00e7\u00f5es n\u00e3o repitam os mesmos erros e para que a dupla jornada deixe de sobrecarregar as mulheres, Rosa fala sobre educar os filhos, meninos e meninas, para a sensibilidade e para a autorreflex\u00e3o, para al\u00e9m do cognitivo. \u201cIsso \u00e9 dar ferramentas para que eles possam questionar o papel que est\u00e3o ocupando.\u201d Ou seja, uma educa\u00e7\u00e3o para a vida.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O dilema das mulheres brasileiras e a (in)cans\u00e1vel busca por dar conta de tudo o que desejam para si e para os outros. 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