{"id":6948,"date":"2022-04-15T15:37:06","date_gmt":"2022-04-15T18:37:06","guid":{"rendered":"https:\/\/www.ufrgs.br\/sextante\/?p=6948"},"modified":"2022-05-18T17:31:25","modified_gmt":"2022-05-18T20:31:25","slug":"bytes-nao-esquecem","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ufrgs.br\/sextante\/bytes-nao-esquecem\/","title":{"rendered":"Bytes n\u00e3o esquecem"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"has-drop-cap\">Pesquisar o pr\u00f3prio nome no Google pode desenterrar um ba\u00fa de informa\u00e7\u00f5es que nem lembr\u00e1vamos estar na internet \u2013 e que prefer\u00edamos que fossem esquecidas. Foi o que aconteceu em 2009, quando o advogado espanhol Mario Costeja Gonz\u00e1lez se viu exposto em resultados no motor de busca mencionando que seu apartamento em Barcelona havia ido a leil\u00e3o para o pagamento de d\u00edvidas. Tratava-se de uma not\u00edcia antiga, de 1998, publicada pelo jornal <em>La Vanguardia<\/em> por ordem do Minist\u00e9rio do Trabalho e da Seguridade Social. <\/p>\n\n\n\n<p>Mas Costeja havia quitado sua d\u00edvida e n\u00e3o teve o im\u00f3vel leiloado; ent\u00e3o, em 2010, ele entrou com um pedido para que o Google Espanha desindexasse seus dados \u2013 ou seja, retirasse-os da lista de resultados de busca.&nbsp;O <a href=\"https:\/\/victorhugotmenezes.jusbrasil.com.br\/artigos\/441755309\/1-o-caso-google-spain-vs-mario-costeja-gonzalez\">caso<\/a> foi parar no Tribunal de Justi\u00e7a da Uni\u00e3o Europeia (TJUE) que, em 2014, reconheceu \u00e0 Costeja a possibilidade do direito a ser desindexado. A Corte considerou que o provedor de busca \u00e9 respons\u00e1vel pelo tratamento de dados pessoais. De acordo com a decis\u00e3o, os artigos mencionando o advogado poderiam permanecer no ar; o Google e demais ferramentas de busca \u00e9 que n\u00e3o poderiam mais retornar esses resultados em pesquisas pelo nome dele. <\/p>\n\n\n\n<p>Mais tarde, em 2016, a Uni\u00e3o Europeia aprovou o Regulamento Geral sobre a Prote\u00e7\u00e3o de Dados (GDPR, na sigla em ingl\u00eas), que, entre outras medidas, d\u00e1 aos cidad\u00e3os da Europa o \u201cdireito de serem esquecidos\u201d. J\u00e1 no Brasil, entrou em vigor, em 2020, a Lei Geral de Prote\u00e7\u00e3o de Dados (LGPD). Jo\u00e3o Victor Archegas, pesquisador s\u00eanior de direito e tecnologia no Instituto de Tecnologia e Sociedade do Rio de Janeiro (ITS Rio), explica que a LGPD foi muito inspirada na regula\u00e7\u00e3o europeia. \u201cMas uma diferen\u00e7a interessante \u00e9 que a LGPD conscientemente n\u00e3o abarcou o direito ao esquecimento, optou por deixar isso fora do escopo da lei\u201d, ressalta.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>O Brasil tem um caso ic\u00f4nico de direito ao esquecimento que remonta \u00e0 d\u00e9cada de 1950, muito antes do Google e da internet. A\u00edda Curi, na \u00e9poca com 18 anos, foi abusada sexualmente e atirada de um pr\u00e9dio em Copacabana. O crime, que gerou grande repercuss\u00e3o e teve um julgamento pol\u00eamico, foi relembrado mais de 40 anos depois pelo programa <em>Linha Direta<\/em>, da TV Globo. Foi ao ar em 2004 uma reconstitui\u00e7\u00e3o do assassinato da jovem, levando a fam\u00edlia da v\u00edtima a mover uma a\u00e7\u00e3o contra a emissora por ter trazido \u00e0 tona o crime e ter dado notoriedade ao sobrenome Curi. <\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"https:\/\/g1.globo.com\/politica\/noticia\/2021\/02\/11\/stf-julgamento-direito-ao-esquecimento.ghtml\">Somente em 2021<\/a>, contudo, que o Supremo Tribunal Federal (STF) decidiu sobre a a\u00e7\u00e3o dos familiares de A\u00edda: por 9 votos a 1, julgou que o direito ao esquecimento \u00e9 \u201cincompat\u00edvel com a Constitui\u00e7\u00e3o\u201d. A decis\u00e3o do Supremo tem repercuss\u00e3o geral, ou seja, servir\u00e1 de orienta\u00e7\u00e3o para casos parecidos em outras inst\u00e2ncias da Justi\u00e7a. \u201cA decis\u00e3o que foi tomada pelo STF tamb\u00e9m se aplica \u00e0 internet, e ela diz que o direito ao esquecimento n\u00e3o existe no Brasil, inclusive no \u00e2mbito digital\u201d, esclarece Jo\u00e3o Victor.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas isso n\u00e3o encerra a possibilidade de algu\u00e9m buscar o seu direito de ser desindexado num mecanismo de busca, por meio dos chamados direitos da personalidade, que s\u00e3o abarcados pela Constitui\u00e7\u00e3o. Fabiano Menke, advogado e professor de Direito Civil na Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), explica: \u201cTemos, por exemplo, o direito ao nome, o direito \u00e0 imagem, o direito \u00e0 honra, o direito \u00e0 integridade f\u00edsica, o direito \u00e0 privacidade e outros. Em alguns casos, existe o entendimento de que possa haver uma viola\u00e7\u00e3o desses direitos da personalidade quando n\u00f3s divulgamos ou reavivamos uma informa\u00e7\u00e3o que j\u00e1 levou um certo tempo da sua relev\u00e2ncia\u201d. O professor v\u00ea a desindexa\u00e7\u00e3o como um<em> instrumento<\/em> para atender aos direitos da personalidade, assim como direitos autorais e da propriedade intelectual.<\/p>\n\n\n\n<p>A <a href=\"https:\/\/portal.stf.jus.br\/processos\/downloadPeca.asp?id=15346473757&amp;ext=.pdf\">decis\u00e3o do STF<\/a> prev\u00ea que \u201ceventuais excessos ou abusos no exerc\u00edcio da liberdade de express\u00e3o e de informa\u00e7\u00e3o devem ser analisados caso a caso, a partir dos par\u00e2metros constitucionais\u201d. Fabiano explica que o Supremo deixou uma porta aberta para que cada processo seja analisado a fim de decidir se o conte\u00fado teve uma veicula\u00e7\u00e3o de informa\u00e7\u00e3o indevida. \u201cEnt\u00e3o os tribunais podem, em cada caso concreto, fazer esse controle. J\u00e1 podiam antes, ele s\u00f3 reafirmou isso em n\u00edvel muito emblem\u00e1tico\u201d, pontua.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-full\"><img loading=\"lazy\" width=\"861\" height=\"600\" src=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/sextante\/wp-content\/uploads\/2022\/04\/Direito_ao_Esquecimento_Marthina_Borghetti_2.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-6952\" srcset=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/sextante\/wp-content\/uploads\/2022\/04\/Direito_ao_Esquecimento_Marthina_Borghetti_2.jpg 861w, https:\/\/www.ufrgs.br\/sextante\/wp-content\/uploads\/2022\/04\/Direito_ao_Esquecimento_Marthina_Borghetti_2-300x209.jpg 300w, https:\/\/www.ufrgs.br\/sextante\/wp-content\/uploads\/2022\/04\/Direito_ao_Esquecimento_Marthina_Borghetti_2-768x535.jpg 768w\" sizes=\"(max-width: 861px) 100vw, 861px\" \/><figcaption>Arte: Marthina Borghetti<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p>Mas nem sempre \u00e9 preciso acionar a Justi\u00e7a. O Google, por exemplo, <a href=\"https:\/\/support.google.com\/legal\/answer\/3110420?visit_id=637838290093946554-4177567705&amp;rd=1&amp;hl=pt-BR\">disponibiliza formul\u00e1rios<\/a> para que os internautas solicitem a remo\u00e7\u00e3o de conte\u00fados. Para todos os produtos da empresa, existe uma equipe interna chamada <em>Trust and Safety<\/em> [<em>Confian\u00e7a e Seguran\u00e7a<\/em>], treinada para analisar os pedidos de remo\u00e7\u00e3o do conte\u00fado e as pol\u00edticas das plataformas, que s\u00e3o p\u00fablicas. Caso a equipe avalie que um conte\u00fado n\u00e3o fere a pol\u00edtica da empresa e decida por n\u00e3o remov\u00ea-lo, \u00e9 poss\u00edvel entrar com uma ordem judicial.<\/p>\n\n\n\n<p>A plataforma tamb\u00e9m publica um <a href=\"https:\/\/transparencyreport.google.com\/government-removals\/government-requests?hl=pt_BR\">relat\u00f3rio de transpar\u00eancia<\/a> com dados sobre as solicita\u00e7\u00f5es governamentais para remo\u00e7\u00e3o de conte\u00fado. S\u00e3o pedidos, feitos atrav\u00e9s de formul\u00e1rio pr\u00f3prio ou da Justi\u00e7a, por governos do mundo todo. Os dados mais atuais incluem at\u00e9 o primeiro semestre de 2021. Foram 230.448 solicita\u00e7\u00f5es recebidas desde 2011, 3,7% delas no Brasil. O conte\u00fado que os governos pedem para ser removido pode estar em qualquer plataforma do Google, como YouTube, Blogger e a pr\u00f3pria ferramenta de busca.<\/p>\n\n\n\n<p>Os dados dispon\u00edveis, utilizados nesta reportagem, t\u00eam algumas limita\u00e7\u00f5es <a href=\"https:\/\/support.google.com\/transparencyreport\/answer\/7347744?hl=pt-BR#zippy=%2Cesses-dados-s%C3%A3o-abrangentes\">esclarecidas pelo pr\u00f3prio Google<\/a>. Pode haver v\u00e1rias solicita\u00e7\u00f5es de remo\u00e7\u00e3o do mesmo conte\u00fado, por exemplo. Al\u00e9m disso, os dados calculados pela reportagem podem diferir levemente devido \u00e0 baixa precis\u00e3o da base original, que desconsidera as casas decimais em porcentagens. <\/p>\n\n\n\n<p>A reportagem da <strong>Sextante <\/strong>entrou em contato com o Google para obter dados mais fidedignos, por\u00e9m n\u00e3o obteve retorno at\u00e9 a data da publica\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator is-style-default\"\/>\n\n\n\n<div class=\"wp-container-3 wp-block-columns\">\n<div class=\"wp-container-1 wp-block-column\" style=\"flex-basis:33.33%\">\n<h3 class=\"has-text-align-left\">LEIA MAIS<\/h3>\n<\/div>\n\n\n\n<div class=\"wp-container-2 wp-block-column\" style=\"flex-basis:66.66%\">\n<ul><li><strong><a href=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/sextante\/ate-onde-vai-a-privacidade-nas-redes\/\">At\u00e9 onde vai a privacidade nas redes:&nbsp;<\/a><\/strong>Como profissionais que trabalham na internet lidam com a exposi\u00e7\u00e3o de sua intimidade<\/li><\/ul>\n<\/div>\n<\/div>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator is-style-default\"\/>\n\n\n\n<h2>Lembrar para n\u00e3o repetir<\/h2>\n\n\n\n<p>Um dos motivos para o direito ao esquecimento ser incompat\u00edvel com a Constitui\u00e7\u00e3o de 1988, criada ap\u00f3s o fim da Ditadura Militar, \u00e9 que ela preza por lembrar tudo que aconteceu nesse per\u00edodo da hist\u00f3ria do Brasil. <\/p>\n\n\n\n<p>\u201cNos pa\u00edses ocidentais, a base dos direitos fundamentais \u00e9 praticamente id\u00eantica\u201d, explica Fabiano. \u201cE no direito brasileiro, n\u00f3s temos uma for\u00e7a muito grande da liberdade de imprensa e da liberdade de express\u00e3o. Isso se explica justamente pelo per\u00edodo autorit\u00e1rio que n\u00f3s tivemos, onde havia mais censura. Ent\u00e3o, ap\u00f3s 1988, a leitura que se faz da Constitui\u00e7\u00e3o \u00e9 muito de abertura. De deixar as pessoas falarem.\u201d <\/p>\n\n\n\n<p>Por isso, um crit\u00e9rio para o suposto direito ao esquecimento seria a aus\u00eancia de relev\u00e2ncia ou historicidade da informa\u00e7\u00e3o a ser removida. \u201c\u00c0s vezes \u00e9 imposs\u00edvel conter a gera\u00e7\u00e3o de uma grande repercuss\u00e3o, que foi o que, em outras palavras, os nossos tribunais disseram no caso da A\u00edda Curi\u201d, relata o professor.<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote has-text-align-right\"><p>\u201cNosso caminho \u00e9 o da mem\u00f3ria\u201d<\/p><cite><strong>JO\u00c3O VICTOR ARCHEGAS<\/strong>, pesquisador do ITS Rio<\/cite><\/blockquote>\n\n\n\n<p>Jo\u00e3o Victor, do ITS Rio, diz que a relev\u00e2ncia p\u00fablica e a historicidade s\u00e3o valores que devem ser considerados em cada caso concreto. \u201cA \u00fanica quest\u00e3o \u00e9 que, se voc\u00ea abrir muito o leque quando voc\u00ea reconhece um direito amplo ao esquecimento, essas quest\u00f5es n\u00e3o v\u00e3o ser bem ponderadas. Ent\u00e3o \u00e9 muito melhor e muito mais eficiente que o poder judici\u00e1rio seja acionado caso a caso para fazer esse ju\u00edzo de valor\u201d, afirma. <\/p>\n\n\n\n<p>De acordo com o pesquisador, \u00e9 imposs\u00edvel reconhecer um direito ao esquecimento no Brasil e na Am\u00e9rica Latina como um todo, por causa do hist\u00f3rico de ditaduras. \u201cNosso caminho \u00e9 o da mem\u00f3ria, de comiss\u00f5es da verdade, de voc\u00ea enfrentar o passado autorit\u00e1rio para tentar n\u00e3o repetir isso no futuro. E, se voc\u00ea reconhecer um direito ao esquecimento, voc\u00ea est\u00e1 reconhecendo a todos.\u201d<\/p>\n\n\n\n<div class=\"flourish-embed flourish-chart\" data-src=\"visualisation\/9042350\" data-height=\"600px\"><script src=\"https:\/\/public.flourish.studio\/resources\/embed.js\"><\/script><\/div>\n\n\n\n<p>O relat\u00f3rio de transpar\u00eancia do Google revela que o Brasil \u00e9 o quinto pa\u00eds onde autoridades governamentais mais solicitam que a empresa retire conte\u00fado da internet \u2013 perde para R\u00fassia, Turquia, \u00cdndia e Estados Unidos. O n\u00famero de pedidos&nbsp; no Brasil aumentou 13% de 2019 para 2020, e foram registradas 418 solicita\u00e7\u00f5es no primeiro semestre de 2021. \u00c9 o equivalente a todo o ano de 2011, uma d\u00e9cada antes.&nbsp; <\/p>\n\n\n\n<p>Os pa\u00edses da Am\u00e9rica Latina concentram 4,4% das solicita\u00e7\u00f5es para remover conte\u00fados, totalizando mais de 10 mil na \u00faltima d\u00e9cada. J\u00e1 a Uni\u00e3o Europeia \u00e9 respons\u00e1vel por 6,2% dos pedidos governamentais ao Google, com 14,3 mil pedidos e um pico no ano de 2018, quando entrou em vigor a GDPR.<\/p>\n\n\n\n<p>No Brasil, assim como na Am\u00e9rica Latina como um todo e na Uni\u00e3o Europeia, o motivo que mais leva a pedidos para remover conte\u00fado \u00e9 a difama\u00e7\u00e3o (de acordo com a classifica\u00e7\u00e3o do Google, s\u00e3o solicita\u00e7\u00f5es \u201crelacionadas a danos \u00e0 reputa\u00e7\u00e3o. Isso inclui, por exemplo, alega\u00e7\u00f5es de cal\u00fania, inj\u00faria e difama\u00e7\u00e3o corporativa\u201d).&nbsp; Quando o motivo para as solicita\u00e7\u00f5es \u00e9 conte\u00fado com teor de cr\u00edtica ao governo, o Brasil \u00e9 respons\u00e1vel por 1,7% delas e ocupa o oitavo lugar no ranking, acima da China. Dos 89 pedidos efetuados na Am\u00e9rica Latina, 80 foram no Brasil, 20 deles no ano de 2015.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image alignwide size-large\"><img loading=\"lazy\" width=\"1024\" height=\"576\" src=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/sextante\/wp-content\/uploads\/2022\/04\/Solicitacoes-GC-3-1024x576.png\" alt=\"\" class=\"wp-image-6971\" srcset=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/sextante\/wp-content\/uploads\/2022\/04\/Solicitacoes-GC-3-1024x576.png 1024w, https:\/\/www.ufrgs.br\/sextante\/wp-content\/uploads\/2022\/04\/Solicitacoes-GC-3-300x169.png 300w, https:\/\/www.ufrgs.br\/sextante\/wp-content\/uploads\/2022\/04\/Solicitacoes-GC-3-768x432.png 768w, https:\/\/www.ufrgs.br\/sextante\/wp-content\/uploads\/2022\/04\/Solicitacoes-GC-3-1536x864.png 1536w, https:\/\/www.ufrgs.br\/sextante\/wp-content\/uploads\/2022\/04\/Solicitacoes-GC-3-1568x882.png 1568w, https:\/\/www.ufrgs.br\/sextante\/wp-content\/uploads\/2022\/04\/Solicitacoes-GC-3.png 1920w\" sizes=\"(max-width: 1024px) 100vw, 1024px\" \/><\/figure>\n\n\n\n<div style=\"height:30px\" aria-hidden=\"true\" class=\"wp-block-spacer\"><\/div>\n\n\n\n<h2>quem decide o que esquecer?<\/h2>\n\n\n\n<p>Para o pesquisador do ITS Rio, o grande problema com o direito ao esquecimento \u00e9 que ele motiva as empresas de tecnologia a acatarem a maioria dos pedidos de remo\u00e7\u00e3o do conte\u00fado, uma vez que elas ficam respons\u00e1veis pela desindexa\u00e7\u00e3o. <\/p>\n\n\n\n<p>\u201cA empresa tem um incentivo a remover quase todos os conte\u00fados solicitados, para que ela n\u00e3o seja responsabilizada posteriormente caso falhe em remover algo que deveria ter sido removido. Muitas pessoas criticam a decis\u00e3o do direito ao esquecimento na Uni\u00e3o Europeia justamente porque pode levar a uma censura de conte\u00fados leg\u00edtimos\u201d, pontua Jo\u00e3o Victor.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>O <a href=\"https:\/\/support.google.com\/websearch\/answer\/10622781?hl=pt-BR#zippy=%2Csolicita%C3%A7%C3%B5es-oficiais-v%C3%A1lidas\">Google esclarece<\/a> que remove \u201cconte\u00fados ou recursos dos resultados da Pesquisa por motivos legais\u201d. Como alguns pa\u00edses t\u00eam legisla\u00e7\u00f5es espec\u00edficas, tamb\u00e9m \u00e9 feita a remo\u00e7\u00e3o de conte\u00fado nas vers\u00f5es locais do Blogger, YouTube, da pr\u00f3pria ferramenta de busca e outras plataformas geridas pela empresa de tecnologia. O texto na p\u00e1gina da pol\u00edtica de privacidade ressalta: \u201cAnalisamos cuidadosamente essas solicita\u00e7\u00f5es para garantir que elas s\u00e3o bem sustentadas, e recusamos frequentemente a remo\u00e7\u00e3o de conte\u00fado quando n\u00e3o h\u00e1 uma base legal clara\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>Na <a href=\"https:\/\/support.google.com\/transparencyreport\/answer\/7347744?hl=pt-BR#zippy=%2Chow-do-you-define-reasons-for-removal-requests%2Cpor-que-a-taxa-de-atendimento-a-solicita%C3%A7%C3%B5es-de-ag%C3%AAncias-governamentais-e-policiais-%C3%A9-muito-maior-do-que-a-de-mandados-em-v%C3%A1rios-pa%C3%ADsesregi%C3%B5es\">p\u00e1gina<\/a> de perguntas frequentes sobre o relat\u00f3rio de transpar\u00eancia, consta que \u201cos indiv\u00edduos que solicitam a remo\u00e7\u00e3o de conte\u00fado muitas vezes enviam mandados junto com as solicita\u00e7\u00f5es a fim de fornecer evid\u00eancias de apoio para a reivindica\u00e7\u00e3o deles. Em muitos casos, esses mandados n\u00e3o obrigam o Google a realizar qualquer a\u00e7\u00e3o. Ao contr\u00e1rio, eles s\u00e3o o resultado de uma disputa com terceiros em que um tribunal determinou que o conte\u00fado espec\u00edfico foi considerado ilegal.\u201d<\/p>\n\n\n\n<p>Os dados do relat\u00f3rio mostram que o Brasil segue a tend\u00eancia mundial de ter a maioria das solicita\u00e7\u00f5es de remo\u00e7\u00e3o acatadas pelo Google; no pa\u00eds, por\u00e9m, essa diferen\u00e7a \u00e9 maior. A maioria das remo\u00e7\u00f5es \u00e9 feita por motivos legais.<\/p>\n\n\n\n<div class=\"flourish-embed\" data-src=\"story\/1204720\" data-height=\"650px\"><script src=\"https:\/\/public.flourish.studio\/resources\/embed.js\"><\/script><\/div>\n\n\n\n<p>A internet ajuda a perpetuar muitas informa\u00e7\u00f5es sobre quem a utiliza. Mas, segundo Jo\u00e3o Victor, os usu\u00e1rios n\u00e3o deixam de ter o controle sobre elas. \u201c\u00c9 pra isso que existe toda a disciplina de prote\u00e7\u00e3o de dados pessoais, por exemplo. Tem certas informa\u00e7\u00f5es sobre voc\u00ea \u00e0s quais voc\u00ea tem o direito de ter acesso, que voc\u00ea tem o direito de eventualmente retificar, se elas estiverem equivocadas, e voc\u00ea tamb\u00e9m pode mesmo solicitar a exclus\u00e3o daquelas informa\u00e7\u00f5es. Mas isso n\u00e3o significa que voc\u00ea pode simplesmente pedir pra que um canal de comunica\u00e7\u00e3o exclua uma not\u00edcia sobre voc\u00ea que \u00e9 de&nbsp; interesse p\u00fablico porque voc\u00ea n\u00e3o concorda com o teor dela.\u201d <\/p>\n\n\n\n<p>O pesquisador exemplifica com o caso do parque de divers\u00f5es Hopi Hari, que <a href=\"https:\/\/www.jota.info\/coberturas-especiais\/liberdade-de-expressao\/hopi-hari-direito-esquecimento-10122020\">solicitou a remo\u00e7\u00e3o de not\u00edcias<\/a> sobre a reabertura de um brinquedo, em 2020. O notici\u00e1rio citou que um acidente nesse mesmo brinquedo havia causado a morte de uma jovem oito anos antes. A senten\u00e7a julgou improcedente a a\u00e7\u00e3o movida pelo parque.<\/p>\n\n\n\n<h2>direito paradoxal<\/h2>\n\n\n\n<p>A perspectiva de ser \u201cesquecido\u201d pela internet traz consigo alguns paradoxos como o chamado <a href=\"https:\/\/www.economist.com\/international\/2008\/06\/26\/blog-standard\">efeito Streissand<\/a>, em que a tentativa de ocultar uma informa\u00e7\u00e3o faz com que mais pessoas voltem sua aten\u00e7\u00e3o para ela. Foi o que aconteceu com o advogado espanhol Costeja: \u201cEle entrou com essa a\u00e7\u00e3o pedindo a remo\u00e7\u00e3o do conte\u00fado e conseguiu o reconhecimento ao seu direito ao esquecimento no \u00e2mbito da Uni\u00e3o Europeia. Mas ningu\u00e9m saberia, fora da Europa, talvez fora da Espanha, que ele teve a sua casa leiloada porque ele contraiu uma d\u00edvida. Agora todo mundo sabe, porque todo mundo que estuda direito ao esquecimento chega nesse caso\u201d, comenta Jo\u00e3o Victor.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Outro fen\u00f4meno com o qual passamos a lidar, j\u00e1 que os brasileiros navegam na internet <a href=\"https:\/\/www.tecmundo.com.br\/mercado\/129792-tudo-comecou-historia-internet-brasil-video.htm\">h\u00e1 quase tr\u00eas d\u00e9cadas<\/a>, \u00e9 o da morte do usu\u00e1rio. O que deve ser feito com todo o conte\u00fado que as pessoas deixam na rede quando morrem? <\/p>\n\n\n\n<p>\u201cHoje existem v\u00e1rios ativos digitais que valem muito dinheiro. As pessoas v\u00e3o acumulando isso ao longo das suas intera\u00e7\u00f5es online\u201d, explica Jo\u00e3o Victor. Al\u00e9m das quest\u00f5es de honra, imagem e prote\u00e7\u00e3o \u00e0 privacidade depois da morte, tamb\u00e9m existe, dentro da internet, uma discuss\u00e3o sobre para onde v\u00e3o os bens que a pessoa acumulou. <\/p>\n\n\n\n<p>\u201c\u00c0s vezes voc\u00ea tem uma conta no Instagram com 17 milh\u00f5es de seguidores, porque voc\u00ea \u00e9 um influencer, e aquilo vale muito dinheiro. O irm\u00e3o ou o filho pode ter interesse em ter acesso \u00e0quela conta para continuar o trabalho da pessoa que faleceu\u201d, diz o pesquisador do ITS Rio. No Brasil, j\u00e1 existem alguns <a href=\"https:\/\/ibdfam.org.br\/noticias\/8765\/Heran%C3%A7a+digital+%C3%A9+tema+de+projeto+de+lei+que+trata+do+destino+de+perfis+em+redes+sociais+ap%C3%B3s+a+morte\">projetos de lei sobre heran\u00e7a digital<\/a> mas, atualmente, a falta de uma legisla\u00e7\u00e3o espec\u00edfica para isso faz com que cada plataforma possa decidir o que fazer com o que foi deixado pelo usu\u00e1rio que faleceu.<\/p>\n\n\n\n<p>Diante desse vai e vem judicial, um mundo que j\u00e1 n\u00e3o vive sem internet se v\u00ea desafiado a achar uma solu\u00e7\u00e3o para que privacidade e liberdade de express\u00e3o n\u00e3o precisem ser uma dicotomia.<\/p>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator is-style-default\"\/>\n\n\n\n<div class=\"wp-container-6 wp-block-columns\">\n<div class=\"wp-container-4 wp-block-column\" style=\"flex-basis:33.33%\">\n<h3 class=\"has-text-align-left\">LEIA MAIS<\/h3>\n<\/div>\n\n\n\n<div class=\"wp-container-5 wp-block-column\" style=\"flex-basis:66.66%\">\n<ul><li><strong><a href=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/sextante\/a-dor-da-perda\/\">Sofrendo para recordar: <\/a><\/strong>como as pessoas lidam com a aus\u00eancia gerada pela morte e com o medo de esquecer aqueles que partiram<\/li><li><a href=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/sextante\/quem-nunca-sofreu-por-amor\/\"><strong>Sofrendo para esquecer:<\/strong> <\/a>como lidar com a rejei\u00e7\u00e3o e desafios de se adaptar \u00e0 disposi\u00e7\u00e3o dos relacionamentos na contemporaneidade<\/li><\/ul>\n<\/div>\n<\/div>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator is-style-default\"\/>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por decis\u00e3o do STF, o chamado \u201cdireito ao esquecimento\u201d \u00e9 incompat\u00edvel com a Constitui\u00e7\u00e3o brasileira \u2013 inclusive na internet<\/p>\n","protected":false},"author":52,"featured_media":6949,"comment_status":"open","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[141],"tags":[],"acf":[],"yoast_head":"<!-- This site is optimized with the Yoast SEO plugin v19.6.1 - https:\/\/yoast.com\/wordpress\/plugins\/seo\/ -->\n<title>Direito ao esquecimento na internet &mdash; 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