{"id":7294,"date":"2022-05-18T16:01:42","date_gmt":"2022-05-18T19:01:42","guid":{"rendered":"https:\/\/www.ufrgs.br\/sextante\/?p=7294"},"modified":"2022-05-18T18:12:42","modified_gmt":"2022-05-18T21:12:42","slug":"uma-colonia-africana-em-porto-alegre","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ufrgs.br\/sextante\/uma-colonia-africana-em-porto-alegre\/","title":{"rendered":"Uma Col\u00f4nia Africana em Porto Alegre"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"has-drop-cap\">Lembrar \u00e9 um exerc\u00edcio de eternidade. \u00c9 assim que come\u00e7a o pref\u00e1cio do livro de mem\u00f3rias sobre a Col\u00f4nia Africana, antigo territ\u00f3rio negro da cidade Porto Alegre. O livro, n\u00e3o publicado de forma oficial e cedido para a realiza\u00e7\u00e3o desta reportagem, foi escrito por Jayme Moreira da Silva, um antigo morador da regi\u00e3o. Ele narra o dia a dia dos moradores da Col\u00f4nia, assim como seus espa\u00e7os de trocas e socializa\u00e7\u00f5es. Os escritos de Jayme, que j\u00e1 faleceu, servem como uma lembran\u00e7a de uma parte da zona central de Porto Alegre que hoje \u00e9 conhecida como bairro Rio Branco.<\/p>\n\n\n\n<h2><strong>A Col\u00f4nia enquanto espa\u00e7o<\/strong><\/h2>\n\n\n\n<p>Os mapas de 1988, ano da aboli\u00e7\u00e3o da escravatura, mostravam que a Col\u00f4nia Africana j\u00e1 tinha cinco ruas tra\u00e7adas: tr\u00eas paralelas (ruas Castro Alves, Casemiro de Abreu e Boa Vista, atual Rua Cabral) e duas transversais (ruas Mariante e Esperan\u00e7a, hoje Miguel Tostes). O que se sabe, por relato de antigos moradores, \u00e9 que a Col\u00f4nia Africana iniciava na atual rua Ramiro Barcelos e se estendia at\u00e9 o morro onde fica localizado o Centro Universit\u00e1rio Metodista, o IPA. Os registros mostram ainda que a Col\u00f4nia existiu por pelo menos cinco d\u00e9cadas, at\u00e9 1940. Mas hoje muita gente sequer sabe que ela existiu.<\/p>\n\n\n\n<p>A professora e doutoranda em Geografia pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) Daniele Vieira, que mostrou os manuscritos de Jayme para a reportagem da Sextante, acabou descobrindo sobre a exist\u00eancia da Col\u00f4nia Africana durante uma sa\u00edda de campo no final da gradua\u00e7\u00e3o, e o que inicialmente era para ser apenas uma atividade de aula se tornou seu objeto de pesquisa.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<div class=\"wp-block-image\"><figure class=\"alignleft size-large is-resized\"><img loading=\"lazy\" src=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/sextante\/wp-content\/uploads\/2022\/04\/Copia-de-Colonia_Africana_Marthina_Borghetti-1024x576.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-7330\" width=\"408\" height=\"229\" srcset=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/sextante\/wp-content\/uploads\/2022\/04\/Copia-de-Colonia_Africana_Marthina_Borghetti-1024x576.jpg 1024w, https:\/\/www.ufrgs.br\/sextante\/wp-content\/uploads\/2022\/04\/Copia-de-Colonia_Africana_Marthina_Borghetti-300x169.jpg 300w, https:\/\/www.ufrgs.br\/sextante\/wp-content\/uploads\/2022\/04\/Copia-de-Colonia_Africana_Marthina_Borghetti-768x432.jpg 768w, https:\/\/www.ufrgs.br\/sextante\/wp-content\/uploads\/2022\/04\/Copia-de-Colonia_Africana_Marthina_Borghetti-1536x864.jpg 1536w, https:\/\/www.ufrgs.br\/sextante\/wp-content\/uploads\/2022\/04\/Copia-de-Colonia_Africana_Marthina_Borghetti-1568x882.jpg 1568w, https:\/\/www.ufrgs.br\/sextante\/wp-content\/uploads\/2022\/04\/Copia-de-Colonia_Africana_Marthina_Borghetti.jpg 1920w\" sizes=\"(max-width: 408px) 100vw, 408px\" \/><figcaption>Arte: Marthina Borghetti Silveira<\/figcaption><\/figure><\/div>\n\n\n\n<p>\u201cEm 2008, foi criado pela Prefeitura de Porto Alegre um <em>tour<\/em> feito por um \u00f4nibus que percorria os Territ\u00f3rios Negros Afro-brasileiros da cidade. Ele era destinado \u00e0s escolas p\u00fablicas, mas a demanda era t\u00e3o alta que acabou se estendendo \u00e0 universidade, e essa era uma forma tamb\u00e9m de aumentar a forma\u00e7\u00e3o de novos professores\u201d, conta Daniele. \u201cFoi nesse contexto que eu tive contato com os territ\u00f3rios, e, para mim, foi muito impactante, porque eu sou porto-alegrense e, naquela noite e naquele \u00f4nibus, eu descobri uma Porto Alegre que eu n\u00e3o conhecia.\u201d Quando o \u00f4nibus chegou ao bairro Rio Branco, Daniele ficou espantada: \u201cO meu maior choque foi quando eu descobri a Col\u00f4nia. Lembro que fiquei me perguntando: como assim existiu um lugar chamado \u2018Col\u00f4nia Africana\u2019 em Porto Alegre?\u201d. O <em>tour<\/em> foi extinto pela prefeitura em 2017, mas ele j\u00e1 havia despertado o interesse em Daniele.<\/p>\n\n\n\n<p>Em seu projeto de pesquisa no mestrado, a professora se prop\u00f4s a delimitar geograficamente a Col\u00f4nia Africana e outros territ\u00f3rios negros, como o Areal da Baronesa, a Ilhota, o Parque da Reden\u00e7\u00e3o e a Bacia do Mont\u2019Serrat. Esses lugares ficavam pr\u00f3ximos \u00e0s \u00e1reas centrais da cidade, e muitos ex-escravizados e seus descendentes ali se instalaram. Em sua pesquisa, que foi inclusive premiada, Daniele mostra que esses espa\u00e7os de forte presen\u00e7a negra foram se modificando com o passar dos anos, tanto geograficamente como socialmente. Hoje, \u00e9 comum que moradores de Porto Alegre e at\u00e9 mesmo dessas regi\u00f5es espec\u00edficas da cidade n\u00e3o saibam que esses bairros, hoje nobres, como Rio Branco, no caso da Col\u00f4nia Africana, e Cidade Baixa, como \u00e9 o caso do Areal da Baronesa, eram locais onde a moradia era mais barata.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image alignwide size-full\"><img loading=\"lazy\" width=\"785\" height=\"548\" src=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/sextante\/wp-content\/uploads\/2022\/04\/20191109-mapadaniele9-1.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-7371\" srcset=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/sextante\/wp-content\/uploads\/2022\/04\/20191109-mapadaniele9-1.jpg 785w, https:\/\/www.ufrgs.br\/sextante\/wp-content\/uploads\/2022\/04\/20191109-mapadaniele9-1-300x209.jpg 300w, https:\/\/www.ufrgs.br\/sextante\/wp-content\/uploads\/2022\/04\/20191109-mapadaniele9-1-768x536.jpg 768w\" sizes=\"(max-width: 785px) 100vw, 785px\" \/><figcaption>Elabora\u00e7\u00e3o de Daniele Machado Vieira sobre o mapa de Porto Alegre em 1916 (IHGRGS, 2005)<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p>Foi com o avan\u00e7o da urbaniza\u00e7\u00e3o e a valoriza\u00e7\u00e3o desses espa\u00e7os que a comunidade negra foi sendo afastada para locais mais distantes, como \u00e9 o caso do bairro Restinga, que nasceu como um loteamento para abrigar as pessoas que passaram a ficar desabrigadas. \u201cA gente n\u00e3o tem essa mem\u00f3ria de cidade sendo reproduzida de gera\u00e7\u00e3o em gera\u00e7\u00e3o. Esse apagamento n\u00e3o vem apenas do imagin\u00e1rio, mas tamb\u00e9m dos \u00f3rg\u00e3os da prefeitura ou at\u00e9 mesmo da universidade\u201d, afirma Daniele.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Para Daniele, a grande dificuldade da universidade \u00e9 conseguir externalizar essa tem\u00e1tica para al\u00e9m do meio acad\u00eamico. &#8220;Eu n\u00e3o posso reclamar porque a minha disserta\u00e7\u00e3o, al\u00e9m de ser estimulada pelo meu programa de p\u00f3s-gradua\u00e7\u00e3o,  foi divulgada pelos meus pares. Mas a quest\u00e3o que fica \u00e9: at\u00e9 quando isso ser\u00e1 lembrado? O que podemos fazer para al\u00e9m disso?\u201d, questiona.<\/p>\n\n\n\n<p>Uma pr\u00e1tica que foi adotada para reverter essa situa\u00e7\u00e3o foi a inclus\u00e3o da leitura da disserta\u00e7\u00e3o de Daniele em uma das mat\u00e9rias obrigat\u00f3rias da gradua\u00e7\u00e3o. \u201cAcredito que isso seja apenas o come\u00e7o, mas pelo menos nessa disciplina os alunos da Geografia v\u00e3o saber que existe essa Porto Alegre negra\u201d, diz Daniele.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<h2><strong>As sociabilidades da Col\u00f4nia<\/strong><\/h2>\n\n\n\n<p>Apesar da Col\u00f4nia ser sempre referenciada nos jornais da \u00e9poca apenas como um local marginalizado, cheio de viol\u00eancia ou crimes, antigos moradores, como Jayme, afirmavam que a realidade do local era muito diferente. \u201cA Col\u00f4nia Africana n\u00e3o era bairro de brigas, como muitos diziam, mas sim de muita amizade e uni\u00e3o\u201d, diz o autor em seu livro. De acordo com ele, ali era um espa\u00e7o de muita festa, marcado principalmente pelo futebol, por festividades religiosas de matriz africana e pelo Carnaval. Em seu livro de mem\u00f3rias, Jayme relata que as festas da Col\u00f4nia come\u00e7avam em setembro e iam at\u00e9 a quaresma, per\u00edodo que antecede a P\u00e1scoa no calend\u00e1rio crist\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Como era comum, na \u00e9poca em que existia a Col\u00f4nia Africana, que clubes e associa\u00e7\u00f5es n\u00e3o aceitassem pessoas negras, a forma\u00e7\u00e3o de agremia\u00e7\u00f5es criadas por pessoas negras era mais uma maneira de socializa\u00e7\u00e3o. E eram nesses espa\u00e7os que aconteciam os bailes e outras festividades.<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cO grande baile era abrilhantado, \u00e0s vezes, por duas orquestras e bandas do Jazz, como Cruzeiro dos Irm\u00e3os Correia, mais a banda de Paulo Coelho, grande pianista de Porto Alegre e cidades do Prata. Festas bem organizadas, com vinte a trinta pares de jovens, como diretores, todos vestidos a rigor. O baile inicia \u00e0s 23:00 e ia at\u00e9 o amanhecer. Os comest\u00edveis e bebidas eram servidos pela madrugada, ap\u00f3s a escolha da Rainha da Sociedade, para o pr\u00f3ximo ano, e de seus diretores. Bebidas e aperitivos que vinham de Santo Ant\u00f4nio da Patrulha, muita cacha\u00e7a e cerveja da cervejaria Sassem e Riter, doces da Confeitaria Rocco e empadas de camar\u00e3o. Uma del\u00edcia!\u201d, escreve Jayme em seu livro.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-large\"><img loading=\"lazy\" width=\"1024\" height=\"724\" src=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/sextante\/wp-content\/uploads\/2022\/04\/Copia-de-ColoniaAfricPauta2._AdrianeSchrage-1024x724.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-7331\" srcset=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/sextante\/wp-content\/uploads\/2022\/04\/Copia-de-ColoniaAfricPauta2._AdrianeSchrage-1024x724.jpg 1024w, https:\/\/www.ufrgs.br\/sextante\/wp-content\/uploads\/2022\/04\/Copia-de-ColoniaAfricPauta2._AdrianeSchrage-300x212.jpg 300w, https:\/\/www.ufrgs.br\/sextante\/wp-content\/uploads\/2022\/04\/Copia-de-ColoniaAfricPauta2._AdrianeSchrage-768x543.jpg 768w, https:\/\/www.ufrgs.br\/sextante\/wp-content\/uploads\/2022\/04\/Copia-de-ColoniaAfricPauta2._AdrianeSchrage-1536x1086.jpg 1536w, https:\/\/www.ufrgs.br\/sextante\/wp-content\/uploads\/2022\/04\/Copia-de-ColoniaAfricPauta2._AdrianeSchrage-2048x1448.jpg 2048w, https:\/\/www.ufrgs.br\/sextante\/wp-content\/uploads\/2022\/04\/Copia-de-ColoniaAfricPauta2._AdrianeSchrage-1568x1109.jpg 1568w\" sizes=\"(max-width: 1024px) 100vw, 1024px\" \/><figcaption>Arte: Adriane W\u00e4chter<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p>Na Col\u00f4nia, era forte a presen\u00e7a de religi\u00f5es de matriz africana, em especial as Casas de Na\u00e7\u00e3o.&nbsp; No livro <em>Colonos e Quilombolas: mem\u00f3ria fotogr\u00e1fica das col\u00f4nias africanas de Porto Alegre<\/em>,&nbsp; a autora, a fot\u00f3grafa Irene Santos, relata: \u201cAs Casas de Na\u00e7\u00e3o sempre existiram na Col\u00f4nia e nos outros lugares todos onde viviam os pretos\u201d. O antigo morador Jayme sustenta essa exist\u00eancia destacando a import\u00e2ncia da m\u00e3e de santo Chininha.<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cEste relato de meu av\u00f4 Abel, feito em uma madrugada quando chegava de seu servi\u00e7o. Lembro-me de tudo! Era uma noite com uma tempestade cheia de rel\u00e2mpagos e trov\u00f5es! Ele me disse: Meu neto olha l\u00e1 fora. Clareava a noite, at\u00e9 as sete pedras de Xang\u00f4, do Morro da Piedade. Quem conhecia bem as sete pedras do Xang\u00f4 era M\u00e3e Chininha, m\u00e3e de Santo que residia nas imedia\u00e7\u00f5es. Ela que com seus filhos de santo ali fazia suas oferendas [&#8230;]. Naquele tempo, os negros se reuniam para piqueniques junto \u00e0s sete pedras de Xang\u00f4 para agradecer pelo atendimento de seus pedidos\u201d, conta Jayme em seu livro.<\/p>\n\n\n\n<p>O futebol tamb\u00e9m estava presente na Col\u00f4nia. Assim como os clubes de dan\u00e7a, os times de futebol da elite n\u00e3o aceitavam negros. Segundo Jayme, a Col\u00f4nia Africana foi um celeiro de craques, n\u00e3o s\u00f3 negros como brancos. Mas o autor diz que os moradores tinham sua pr\u00f3pria liga para pessoas negras, intitulada \u2018<a href=\"https:\/\/www.torcedores.com\/noticias\/2018\/11\/liga-da-canela-preta-conheca-o-campeonato-organizado-por-negros\">Canela Preta\u2019<\/a>.<\/p>\n\n\n\n<h2><strong>O plano de Melhoramentos<\/strong><\/h2>\n\n\n\n<p>Com o tempo, a cidade de Porto Alegre come\u00e7ou a se modernizar, e, em 1914, a prefeitura lan\u00e7ou o Plano de Melhoramentos. Nele, estavam previstas mudan\u00e7as para  &#8220;embelezar&#8221; a Capital. Sendo assim, lugares como a Col\u00f4nia Africana foram sendo modificados e ajustados para se adequarem a essa nova cidade. A alta nos impostos fez com que muitas fam\u00edlias que ali residiam se mudassem para outros bairros e at\u00e9 mesmo para outras cidades no entorno da capital.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-full\"><img loading=\"lazy\" width=\"878\" height=\"530\" src=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/sextante\/wp-content\/uploads\/2022\/04\/mapa.png\" alt=\"\" class=\"wp-image-7364\" srcset=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/sextante\/wp-content\/uploads\/2022\/04\/mapa.png 878w, https:\/\/www.ufrgs.br\/sextante\/wp-content\/uploads\/2022\/04\/mapa-300x181.png 300w, https:\/\/www.ufrgs.br\/sextante\/wp-content\/uploads\/2022\/04\/mapa-768x464.png 768w\" sizes=\"(max-width: 878px) 100vw, 878px\" \/><figcaption>Mapa do projeto da cidade de Porto Alegre, de 1914 | Fonte: Instituto Hist\u00f3rico Geogr\u00e1fico do Rio Grande do Sul\/Cartografia Virtual Hist\u00f3rico-Urbana de Porto Alegre. Porto Alegre, 2005 &#8211; CD-ROM.<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p>\u201cN\u00e3o sei te dizer exatamente para onde cada fam\u00edlia foi\u201d, explica Daniele, \u201cmas, de acordo com outros pesquisadores antes de mim, alguns moradores foram em dire\u00e7\u00e3o ao bairro S\u00e3o Jos\u00e9, mais especificamente para a rua Bar\u00e3o do Amazonas. J\u00e1 algumas fam\u00edlias acabaram indo para cidades da Regi\u00e3o Metropolitana, como Canoas, pois l\u00e1 os terrenos eram mais baratos do que Porto Alegre\u201d. O Plano de Melhoramentos n\u00e3o afetou apenas a Col\u00f4nia Africana, mas todos os territ\u00f3rios negros j\u00e1 existentes na cidade no p\u00f3s-aboli\u00e7\u00e3o e in\u00edcio da rep\u00fablica brasileira, e a hist\u00f3ria desses espa\u00e7os foi sendo apagada das narrativas oficiais da cidade. <\/p>\n\n\n\n<p>O apagamento da Col\u00f4nia tamb\u00e9m se deu pelo nome. Com as mudan\u00e7as na regi\u00e3o, o lugar passou a se chamar Rio Branco, na d\u00e9cada de 1920, em homenagem ao Bar\u00e3o do Rio Branco, que foi Ministro das Rela\u00e7\u00f5es Exteriores do Brasil de 1902 a1912. Pelo Brasil, ele atuou na Guerra do Paraguai,\u00a0 na Miss\u00e3o do Amap\u00e1 e no Tratado de Petr\u00f3polis, tendo como maior legado a consolida\u00e7\u00e3o das fronteiras brasileiras. No entanto, a denomina\u00e7\u00e3o Col\u00f4nia Africana sobreviveu no imagin\u00e1rio popular at\u00e9 a d\u00e9cada de1960.<\/p>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator is-style-default\"\/>\n\n\n\n<div class=\"wp-container-3 wp-block-columns\">\n<div class=\"wp-container-1 wp-block-column\" style=\"flex-basis:33.33%\">\n<h3 class=\"has-text-align-left\">LEIA MAIS<\/h3>\n<\/div>\n\n\n\n<div class=\"wp-container-2 wp-block-column\" style=\"flex-basis:66.66%\">\n<ul><li><a href=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/sextante\/para-relembrar-aquelas-que-tiveram-a-sorte-de-serem-lembradas\/\"><strong>A vida invis\u00edvel das ruas de Porto Alegre:<\/strong> <\/a>a esquecida hist\u00f3ria de algumas das mulheres que d\u00e3o nome \u00e0s ruas da Capital <\/li><li><strong><a href=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/sextante\/a-disputa-de-memoria-em-espacos-da-cidade\/\">Uma batalha pela mem\u00f3ria:<\/a><\/strong>\u00a0quando o nome de uma avenida simboliza conflitos sobre narrativas hist\u00f3ricas<\/li><\/ul>\n<\/div>\n<\/div>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator is-style-default\"\/>\n\n\n\n<h2><strong>Como dar continuidade a essa hist\u00f3ria?<\/strong><\/h2>\n\n\n\n<p>O \u00f4nibus que fazia o trajeto pelos antigos territ\u00f3rios negros em Porto Alegre foi colocado sob avalia\u00e7\u00e3o em 2017, na gest\u00e3o do ex-prefeito Nelson Marchezan (PSDB), e at\u00e9 agora n\u00e3o voltou a funcionar. O projeto foi criado em 2008, inspirado no trajeto percorrido pelo poeta ga\u00facho Oliveira Silveira, um dos idealizadores do Dia da Consci\u00eancia Negra no Brasil.<\/p>\n\n\n\n<p>Em entrevista ao <a href=\"https:\/\/sul21.com.br\/cidadesz_areazero\/2017\/03\/prefeitura-coloca-em-avaliacao-projeto-territorios-negros-sobre-a-historia-afro-brasileira-na-capital\/\">Jornal Sul21<\/a> em 2017, o articulador do projeto, o professor de hist\u00f3ria Manoel \u00c1vila da Silva, explicou como funcionava o trajeto do \u00f4nibus: \u201cA gente come\u00e7ava nas regi\u00f5es mais antigas do Centro e faz\u00edamos uma transi\u00e7\u00e3o com \u00eanfase na constru\u00e7\u00e3o dos territ\u00f3rios do ponto de vista da a\u00e7\u00e3o dos escravizados na passagem dos per\u00edodos de aboli\u00e7\u00e3o e p\u00f3s-aboli\u00e7\u00e3o. Ent\u00e3o, acabava passando pela Reden\u00e7\u00e3o, pela Ilhota e ia at\u00e9 o Quilombo do Areal da Baronesa. A Col\u00f4nia Africana ficava dentro desse contexto cronol\u00f3gico \u2013 respeitando uma log\u00edstica em pontos de acesso de \u00f4nibus\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>O professor de geografia Artur Klassmann, de 31 anos, foi um dos muitos professores que utilizaram o \u00f4nibus da prefeitura para ensinar aos alunos do ensino fundamental sobre o espa\u00e7o geogr\u00e1fico da Capital. \u201cEu evito usar a palavra passeio, \u00e9 uma sa\u00edda de campo em que os alunos precisam produzir um relat\u00f3rio e existe uma prepara\u00e7\u00e3o pr\u00e9-trabalho de campo e tamb\u00e9m uma reflex\u00e3o p\u00f3s. Eles gostavam bastante, ainda mais porque era algo al\u00e9m da sala de aula. Eles se interessavam em conhecer os territ\u00f3rios afro em Porto Alegre, pois eram locais que eles n\u00e3o sabiam das hist\u00f3rias. Ent\u00e3o, fazer os alunos olharem para determinados locais e paisagens e fazer com que eles imaginassem como era aquela regi\u00e3o antigamente era algo muito ben\u00e9fico&#8221;, pontua.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote has-text-align-right is-style-default\"><p>&#8220;\u00c9 preciso pol\u00edticas p\u00fablicas vindas dos \u00f3rg\u00e3os oficiais, exposi\u00e7\u00f5es, monumentos que expliquem aos turistas e at\u00e9 mesmo aos moradores de Porto Alegre o que j\u00e1 aconteceu naqueles espa\u00e7os. \u00c9 preciso fazer essa manuten\u00e7\u00e3o da mem\u00f3ria&#8221;<\/p><cite><strong>DANIELE VIEIRA, <\/strong>professora e doutoranda em Geografia pela UFRGS<\/cite><\/blockquote>\n\n\n\n<p>Em 2021, com o apoio do Sindicato dos T\u00e9cnicos-Administrativos da UFRGS (Assurgs), em parceria com o N\u00facleo de Estudos Afro-Brasileiros, Ind\u00edgenas e Africanos da UFRGS (Neab) e com a prefeitura de Porto Alegre, o \u00f4nibus fez o percurso pelos territ\u00f3rios negros em tr\u00eas datas. As vagas eram limitadas e o ingresso era um quilo de alimento n\u00e3o perec\u00edvel, destinado ao projeto <a href=\"https:\/\/www.assufrgs.org.br\/2021\/12\/30\/ufrgs-contra-a-fome-arrecada-16-toneladas-de-alimentos-no-ano-de-2021\/\">UFRGS Contra a fome<\/a>.<\/p>\n\n\n\n<p>Al\u00e9m de ser professora da rede municipal, Daniele agora faz parte do projeto que busca a retomada permanente do \u00f4nibus pelos territ\u00f3rios negros de Porto Alegre, e, de acordo com ela, o poder p\u00fablico precisa trabalhar nesse resgate de mem\u00f3ria. \u201cAcho que precisa ter pol\u00edticas p\u00fablicas sobre a mem\u00f3ria dessa Porto Alegre negra. Sinto que estamos indo para os 250 anos da cidade e n\u00e3o sei se isso vai acontecer t\u00e3o cedo. \u00c9 preciso pol\u00edticas p\u00fablicas vindas dos \u00f3rg\u00e3os oficiais, exposi\u00e7\u00f5es, monumentos que expliquem aos turistas e at\u00e9 mesmo aos moradores de Porto Alegre o que j\u00e1 aconteceu naqueles espa\u00e7os. \u00c9 preciso fazer essa manuten\u00e7\u00e3o da mem\u00f3ria.\u201d Porto Alegre completou 250 anos no dia 26 de mar\u00e7o de 2022.<\/p>\n\n\n\n<p>A Col\u00f4nia Africana, assim como outros territ\u00f3rios negros da cidade, foi apagada e esquecida pela hist\u00f3ria e pelo poder p\u00fablico. No entanto, o livro de Jayme, pesquisas acad\u00eamicas, jornais da \u00e9poca e relatos de moradores mostram que nada pode ser completamente esquecido.\u00a0<\/p>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator is-style-default\"\/>\n\n\n\n<div class=\"wp-container-6 wp-block-columns\">\n<div class=\"wp-container-4 wp-block-column\" style=\"flex-basis:33.33%\">\n<h3 class=\"has-text-align-left\">LEIA MAIS<\/h3>\n<\/div>\n\n\n\n<div class=\"wp-container-5 wp-block-column\" style=\"flex-basis:66.66%\">\n<ul><li><strong><a href=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/sextante\/o-mandato-como-instrumento-na-luta-pela-pluralidade\/\">Mandato como instrumento na luta pela pluralidade:\u00a0<\/a><\/strong>a bancada negra eleita em Porto Alegre<\/li><li><strong><a href=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/sextante\/respeita-o-meu-orixa\/\">Respeita o meu Orix\u00e1:\u00a0<\/a><\/strong>religi\u00f5es de matriz africana apresentam uma forte presen\u00e7a no estado ga\u00facho<\/li><li><strong><a href=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/sextante\/o-despertar-para-uma-ancestral-forma-de-ser-brasileiro\/\">Despertar para uma ancestral forma de ser brasileiro:<\/a><\/strong>\u00a0a vida na aldeia ind\u00edgena Teko\u00e1 Anhetengu\u00e1<\/li><\/ul>\n<\/div>\n<\/div>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator is-style-default\"\/>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Como o apagamento hist\u00f3rico e social de um dos territ\u00f3rios negros da capital ga\u00facha muda a mem\u00f3ria de toda uma sociedade<\/p>\n","protected":false},"author":67,"featured_media":7342,"comment_status":"open","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[141],"tags":[69,49],"acf":[],"yoast_head":"<!-- This site is optimized with the Yoast SEO plugin v19.6.1 - https:\/\/yoast.com\/wordpress\/plugins\/seo\/ -->\n<title>Uma Col\u00f4nia Africana em Porto Alegre &mdash; 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