{"id":7321,"date":"2022-05-18T16:01:39","date_gmt":"2022-05-18T19:01:39","guid":{"rendered":"https:\/\/www.ufrgs.br\/sextante\/?p=7321"},"modified":"2022-05-18T18:09:13","modified_gmt":"2022-05-18T21:09:13","slug":"para-relembrar-aquelas-que-tiveram-a-sorte-de-serem-lembradas","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ufrgs.br\/sextante\/para-relembrar-aquelas-que-tiveram-a-sorte-de-serem-lembradas\/","title":{"rendered":"Para relembrar aquelas que tiveram a sorte de serem lembradas"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"has-drop-cap\">Dos 59 anos que carrega de vida, h\u00e1 22, Cleusa Regina Porto de Matos sai, diariamente, da cidade de Alvorada, na Regi\u00e3o Metropolitana, rumo ao bairro Moinhos de Vento, em Porto Alegre. O destino final \u00e9 a rua Luciana de Abreu, pr\u00f3ximo \u00e0 esquina com a Padre Chagas, onde mant\u00e9m sua banca de jornal. Embora mais de um ter\u00e7o da sua vida tenha se dado ali, Cleusa n\u00e3o sabe quem exatamente foi a mulher cujo nome estampa as placas das esquinas.<\/p>\n\n\n\n<p>At\u00e9 soube um dia, mas a mem\u00f3ria se confunde em antigas certezas. &#8220;Ela foi moradora da regi\u00e3o? N\u00e3o lembro bem.&#8221; Certa vez, um homem passou em sua banca e deixou alguns livros sobre a hist\u00f3ria de Luciana para venda. O t\u00edtulo n\u00e3o foi exatamente um sucesso de vendas, mas Cleusa lembra de ter folheado para saber mais sobre a dita cuja. Uma mem\u00f3ria, por\u00e9m, que sua mente n\u00e3o fez quest\u00e3o de gravar, e a vida de Luciana caiu em esquecimento. N\u00e3o apenas para Cleusa.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<h2><strong>Nomes eternizados no mapa, mas n\u00e3o na mem\u00f3ria<\/strong><\/h2>\n\n\n\n<p>A nomenclatura de um logradouro \u00e9, na grande maioria dos casos, uma forma de reverenciar e homenagear figuras que tiveram um papel relevante na hist\u00f3ria local. Um endere\u00e7o eterniza a mem\u00f3ria e a luta de quem hoje n\u00e3o est\u00e1 mais aqui e busca levar essa trajet\u00f3ria adiante por meio do registro hist\u00f3rico \u2013 uma miss\u00e3o que nem sempre \u00e9 cumprida com \u00eaxito.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>\u00c9 assim que alguns nomes acabam invadindo nosso cotidiano sem sequer nos darmos conta de quem foram. Osvaldo Aranha, Prot\u00e1sio Alves, Nilo Pe\u00e7anha, Edvaldo Pereira Paiva s\u00e3o apenas alguns dos que comp\u00f5em o repert\u00f3rio do vocabul\u00e1rio porto-alegrense \u2013 em sua maioria, homens. O livro <a href=\"http:\/\/lproweb.procempa.com.br\/pmpa\/prefpoa\/camarapoa\/usu_doc\/logradouros.pdf\"><em>Logradouros p\u00fablicos em Porto Alegre: presen\u00e7a feminina na denomina\u00e7\u00e3o<\/em><\/a>, lan\u00e7ado em 2007 pela C\u00e2mara Municipal, registra a exist\u00eancia de 9.453 logradouros. Desses, 379 s\u00e3o em homenagem a personalidades femininas. Ou seja, somente 4%.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Uma minoria provavelmente associada a um hist\u00f3rico de olhos fechados para os feitos femininos, e n\u00e3o propriamente a um baixo n\u00famero de mulheres que fizeram a diferen\u00e7a na hist\u00f3ria local. Entretanto, mesmo as mulheres que receberam um endere\u00e7o em seu nome tiveram seu legado escondido nos escombros do tempo. No caso de Luciana de Abreu, a educadora ainda teve a sorte de ter alguns dos seus feitos registrados historicamente em vida.<\/p>\n\n\n\n<div class=\"wp-block-image\"><figure class=\"alignleft size-large is-resized\"><img loading=\"lazy\" src=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/sextante\/wp-content\/uploads\/2022\/04\/IMG_4453-1024x683.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-7367\" width=\"393\" height=\"262\" srcset=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/sextante\/wp-content\/uploads\/2022\/04\/IMG_4453-1024x683.jpg 1024w, https:\/\/www.ufrgs.br\/sextante\/wp-content\/uploads\/2022\/04\/IMG_4453-300x200.jpg 300w, https:\/\/www.ufrgs.br\/sextante\/wp-content\/uploads\/2022\/04\/IMG_4453-768x512.jpg 768w, https:\/\/www.ufrgs.br\/sextante\/wp-content\/uploads\/2022\/04\/IMG_4453-1536x1024.jpg 1536w, https:\/\/www.ufrgs.br\/sextante\/wp-content\/uploads\/2022\/04\/IMG_4453-2048x1365.jpg 2048w, https:\/\/www.ufrgs.br\/sextante\/wp-content\/uploads\/2022\/04\/IMG_4453-1200x800.jpg 1200w, https:\/\/www.ufrgs.br\/sextante\/wp-content\/uploads\/2022\/04\/IMG_4453-1568x1045.jpg 1568w\" sizes=\"(max-width: 393px) 100vw, 393px\" \/><figcaption>Foto: Isabel Gomes<\/figcaption><\/figure><\/div>\n\n\n\n<p>Descrita como &#8220;pioneira na luta pela emancipa\u00e7\u00e3o da mulher no Rio Grande do Sul&#8221; na placa de rua que leva o seu nome, Luciana \u00e9 considerada a primeira mulher a discursar publicamente sobre assuntos sociais no Brasil. Mas foram muitos os passos que a educadora deu at\u00e9 subir \u00e0 tribuna, no dia 15 de dezembro de 1873.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Pelos registros hist\u00f3ricos, sua vida come\u00e7a a ser contada no dia 2 de julho de 1847, na roda dos expostos da Santa Casa de Miseric\u00f3rdia de Porto Alegre, onde quem n\u00e3o tinha condi\u00e7\u00f5es de criar um filho deixava o rec\u00e9m-nascido.<\/p>\n\n\n\n<p>De acordo com a historiadora Ma\u00edra Ines Vendrame, que estudou a vida de Luciana e escreveu, junto de Paulo Roberto Staudt Moreira, o artigo <em>\u201cMinha comadre, quero que minha afilhada se chame Luciana\u201d: a trajet\u00f3ria da professora Luciana de Abreu e a luta pela emancipa\u00e7\u00e3o feminina por meio da educa\u00e7\u00e3o, <\/em>Luciana teve como padrinhos o casal Gaspar Pereira Viana e a sua esposa, Clara Soares de Paiva. &#8220;A profiss\u00e3o do padrinho de Luciana era guarda-livros, ent\u00e3o ela teve acesso a livros, e ela parece ter sido incentivada por ele \u00e0 leitura. Houve, ent\u00e3o, um incentivo \u00e0 educa\u00e7\u00e3o&#8221;, comenta a historiadora. Na \u00e9poca, os guarda-livros eram o que conhecemos hoje como contadores. O nome da ocupa\u00e7\u00e3o se refere \u00e0 principal fun\u00e7\u00e3o dessa profiss\u00e3o na \u00e9poca, que era a de escriturar e manter em boa ordem os livros das empresas comerciais. Por isso o f\u00e1cil acesso de Luciana \u00e0s obras.<\/p>\n\n\n\n<p>Em 1869, dois anos depois de se casar com Jo\u00e3o Luiz Gomes de Abreu, com quem teve dois filhos, Luciana se matriculou na Escola Normal, que formava professores. Foi em 1873 que ela se tornou professora p\u00fablica na Capital e, neste mesmo ano, passou a participar das atividades da Sociedade Parthenon Litterario, uma associa\u00e7\u00e3o intelectual porto-alegrense onde aconteciam saraus, discuss\u00f5es, proclama\u00e7\u00e3o de poesias e onde Luciana come\u00e7ou a discutir sobre a educa\u00e7\u00e3o feminina e a inser\u00e7\u00e3o das mulheres na vida p\u00fablica.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Foi com um discurso no Parthenon Litterario, em dezembro de 1873, que Luciana de Abreu tornou-se um dos grandes s\u00edmbolos da luta pela educa\u00e7\u00e3o feminina, defendendo que a emancipa\u00e7\u00e3o das mulheres deveria ocorrer atrav\u00e9s do acesso \u00e0 educa\u00e7\u00e3o e da inclus\u00e3o delas na vida p\u00fablica. E ela come\u00e7ou assim: \u201cMinhas senhoras, n\u00f3s temos sido v\u00edtimas dos preju\u00edzos das preocupa\u00e7\u00f5es do s\u00e9culo, n\u00f3s temos sido olhadas como seres \u00e0 parte na grande obra de regenera\u00e7\u00e3o social, quando sem n\u00f3s imposs\u00edvel seria \u00e0 humanidade aperfei\u00e7oar-se e progredir; porque n\u00f3s somos mais\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>A sua fala ganhou repercuss\u00e3o local e at\u00e9 mesmo na imprensa nacional. &#8220;A defesa ao ensino para as mulheres n\u00e3o era uma novidade do discurso da Luciana. Outras mulheres j\u00e1 defendiam isso. Mas foi ineg\u00e1vel a import\u00e2ncia. Atrav\u00e9s da trajet\u00f3ria de Luciana \u00e9 poss\u00edvel perceber como o caminho da educa\u00e7\u00e3o feminina e da profissionaliza\u00e7\u00e3o como educadora vai se tornar uma via de acesso para garantir autonomia, liberdade, visibilidade e reconhecimento&#8221;, descreve Ma\u00edra.<\/p>\n\n\n\n<p>Segundo a historiadora, destaca-se na trajet\u00f3ria de Luciana a influ\u00eancia das obras de N\u00edsia Floresta, considerada a primeira feminista brasileira. &#8220;Luciana n\u00e3o estava \u00e0 frente do seu tempo. Ela era fruto de um contexto que permitiu a ela se tornar professora e defender a bandeira da educa\u00e7\u00e3o e da profissionaliza\u00e7\u00e3o feminina. Esse \u00e9 o diferencial da Luciana, \u00e9 o seu discurso cr\u00edtico e esse posicionamento em rela\u00e7\u00e3o ao direito \u00e0 educa\u00e7\u00e3o e \u00e0 profissionaliza\u00e7\u00e3o feminina.&#8221;<\/p>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator is-style-default\"\/>\n\n\n\n<div class=\"wp-container-3 wp-block-columns\">\n<div class=\"wp-container-1 wp-block-column\" style=\"flex-basis:33.33%\">\n<h3 class=\"has-text-align-left\">LEIA MAIS<\/h3>\n<\/div>\n\n\n\n<div class=\"wp-container-2 wp-block-column\" style=\"flex-basis:66.66%\">\n<ul><li><strong><a href=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/sextante\/uma-colonia-africana-em-porto-alegre\/\">A antiga col\u00f4nia africana de Porto Alegre:<\/a> <\/strong>o apagamento hist\u00f3rico e social de um dos territ\u00f3rios negros da Capital<\/li><li><strong><a href=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/sextante\/a-disputa-de-memoria-em-espacos-da-cidade\/\">Uma batalha pela mem\u00f3ria:<\/a><\/strong> quando o nome de uma avenida simboliza conflitos sobre narrativas hist\u00f3ricas<\/li><\/ul>\n<\/div>\n<\/div>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator is-style-default\"\/>\n\n\n\n<h2><strong>&#8220;Uma mulher de faca na bota&#8221;&nbsp;<\/strong><\/h2>\n\n\n\n<p>A cerca de nove quil\u00f4metros da rua Luciana de Abreu, no bairro Passo das Pedras, localiza-se a rua Josefa Barreto que, embora fisicamente distante do logradouro de Luciana, tem uma hist\u00f3ria bastante pr\u00f3xima \u00e0 dela. Mesmo que o termo &#8220;feminismo&#8221; talvez ainda n\u00e3o fosse publicamente usado na \u00e9poca, assim como Luciana de Abreu, a poetisa, escritora e professora Josefa Barreto foi pioneira na emancipa\u00e7\u00e3o das mulheres e colaborou para a luta feminina na sociedade ga\u00facha do s\u00e9culo 19, sendo a primeira jornalista brasileira.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>De acordo com o jornalista Roberto Jung, que escreveu o livro <em>A ga\u00facha Maria Josefa: primeira jornalista brasileira<\/em>, ela nasceu em Viam\u00e3o, no ano prov\u00e1vel de 1786, e foi deixada na casa de Teod\u00f3sio Rodrigues de Carvalho, que a adotou e resolveu dar \u00e0 filha o nome de sua mulher, Maria Josefa. Foi Roberto quem, por obra do acaso, descobriu que Josefa foi a primeira jornalista brasileira.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;Tinha conhecimento que uma baiana era considerada a primeira, que por volta de 1850 dirigia o <em>Jornal das Senhoras<\/em>, da Bahia. Como estava trabalhando em acontecimentos entre 1835 e 1845, \u00e9poca da atua\u00e7\u00e3o da jornalista Maria Josefa em dois jornais, fundados e editados por ela, ficou evidente que a informa\u00e7\u00e3o e distin\u00e7\u00e3o era dada a algu\u00e9m que iniciava-se na imprensa 19 anos depois, a primazia teria que ser reconhecida e creditada \u00e0 jornalista ga\u00facha&#8221;, conta.<\/p>\n\n\n\n<p>O artigo <em>Uma mulher avant la lettre: Maria Josefa Barreto e a imprensa ga\u00facha no s\u00e9culo XIX<\/em>, de Gild\u00eania Moura de Ara\u00fajo Almeida, Giselle Andrade Pereira e Johny Paiva Freitas, conta que Josefa casou-se nova e seu marido, carcereiro de uma delegacia, abandonou-a ap\u00f3s deixar um preso fugir e ser condenado por isso. Por conta disso, foi nas letras que ela procurou uma maneira de se sustentar.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Na d\u00e9cada de 1830, Maria Josefa fundou em Porto Alegre uma escola prim\u00e1ria mista em sua resid\u00eancia, na rua Santa Catarina, a primeira do pa\u00eds que misturava meninas e meninos no ambiente de ensino, demonstrando seu pioneirismo diante da equidade de g\u00eaneros. Foi em 1833, ent\u00e3o, que come\u00e7ou a circular o jornal <em>Belona Irada contra os Sect\u00e1rios de Momo<\/em>, mais conhecido como <em>Belona<\/em>, o primeiro fundado por uma mulher no Brasil e com teor pol\u00edtico, bem diferente do <em>Jornal das Senhoras<\/em>, que tratava sobre moda, literatura, belas-artes, teatro e cr\u00edtica<\/p>\n\n\n\n<p>Falecida em 2015, a historiadora Zahid\u00e9 Lupinacci Muzart, em seus trabalhos, descreve: &#8220;Maria Josefa n\u00e3o era lady, era uma trabalhadora e uma mulher &#8216;de faca na bota'&#8221;. Zahid\u00e9 afirma que, embora o jornal de Maria Josefa n\u00e3o tenha feito escola e nem tido a repercuss\u00e3o como o <em>Jornal das Senhoras<\/em>, era um peri\u00f3dico fundado na prov\u00edncia, com objetivos essencialmente pol\u00edticos. &#8220;Maria Josefa pode ser considerada, pioneira que foi, como feminista e fundadora do primeiro jornal dirigido por uma mulher. E um jornal que provavelmente n\u00e3o trazia nem bordados nem culin\u00e1ria, nem boas maneiras. Por isso, estava muito \u00e0 frente de seu tempo!&#8221;, escreve a historiadora.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<div class=\"wp-block-cover alignfull has-parallax has-custom-content-position is-position-bottom-left\" style=\"background-image:url(https:\/\/www.ufrgs.br\/sextante\/wp-content\/uploads\/2022\/04\/Ilustra_Mulheres-e-Ruas_Samanta-1024x576.jpg);min-height:920px\"><div class=\"wp-block-cover__inner-container\">\n<p class=\"has-foreground-background-color has-background\" style=\"line-height:0.1\">Arte: Samanta Bergman<\/p>\n<\/div><\/div>\n\n\n\n<h2>Luta invisibilizada<\/h2>\n\n\n\n<p>A defesa pela liberdade e emancipa\u00e7\u00e3o foi o que norteou a trajet\u00f3ria de Luciana de Abreu e Maria Josefa. Foi essa mesma raz\u00e3o que fez com que a abolicionista Sofia Veloso batizasse uma rua no bairro Cidade Baixa que, em formato de &#8220;L&#8221;, liga a rua da Rep\u00fablica com a General Lima e Silva. Para al\u00e9m da rua Baronesa do Gravata\u00ed, Sofia \u00e9 a \u00fanica mulher que nomeia um logradouro na Cidade Baixa.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Filha ca\u00e7ula dos imigrantes espanh\u00f3is Jaime Paradeda e Maria Paradeda, conforme relata a historiadora Tuane Dihl, Sofia Paradeda nasceu em Porto Alegre, em meados de 1857, oriunda de uma fam\u00edlia que detinha propriedades em Porto Alegre e em Jaguar\u00e3o, al\u00e9m de possu\u00edrem uma loja de fazendas, chamada Jaime Paradeda &amp; Filho. Foi aos 17 anos, quando casou-se com Francisco Jos\u00e9 Veloso, que assumiu o Veloso. Com o marido, que veio de uma fam\u00edlia com forte poder aquisitivo de Rio Pardo, teve duas filhas, Alice e Maria de Lourdes.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>N\u00e3o h\u00e1 registros hist\u00f3ricos de suas motiva\u00e7\u00f5es ou impulsos de luta, mas foi com sua participa\u00e7\u00e3o no n\u00facleo feminino do Centro Abolicionista de Porto Alegre que a sua defesa pela liberdade se concretizou. Criado em 1883, de acordo com Tuane, o Centro Abolicionista foi uma associa\u00e7\u00e3o organizada para gerenciar o movimento emancipacionista local.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;Apesar de ter passado quatro anos pesquisando sobre a trajet\u00f3ria de Sofia Veloso e de outras mulheres que se destacaram na campanha abolicionista de Porto Alegre, confesso que n\u00e3o \u00e9 f\u00e1cil, para mim, definir quem foram elas. As informa\u00e7\u00f5es que levantei sobre as abolicionistas foram, no geral, fragmentadas e escassas, o que me impediu de tra\u00e7ar uma vis\u00e3o mais complexa sobre suas personalidades&#8221;, comenta Tuane, evidenciando uma invisibilidade no registro dos feitos dessas mulheres.&nbsp;&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Ao lado de 22 companheiras, Sofia Veloso atuou no convencimento de senhores e senhoras a transmitirem alforrias \u00e0s suas escravarias, ou seja, lutou para que concedessem liberdade aos escravizados. Um dos atos guardados em registros hist\u00f3ricos foi a organiza\u00e7\u00e3o de uma quermesse, em que Sofia montou a tenda \u201cLuiz Gama\u201d, em refer\u00eancia a um advogado, jornalista e escritor brasileiro Patrono da Aboli\u00e7\u00e3o da Escravid\u00e3o do Brasil, tendo arrecadado a quantia mais expressiva do evento.<\/p>\n\n\n\n<p>Para Tuane, que estudou sobre a trajet\u00f3ria de Sofia Veloso, sua luta esteve \u00e0 frente do seu tempo, mas n\u00e3o teve visibilidade. &#8220;Pela mulher que foi, pelos caminhos que percorreu, pelas escolhas de vida que tomou e, principalmente, por ter subvertido a ordem patriarcal \u00e0 sua maneira, \u00e9 que Sofia Veloso torna-se um exemplo positivo e inspirador para outras mulheres. Vejo Sofia Veloso como uma entre in\u00fameras outras mulheres que foram n\u00e3o s\u00f3 esquecidas, mas invisibilizadas historicamente ou ainda relegadas a posi\u00e7\u00f5es secund\u00e1rias pelos homens.&#8221;&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<h2><strong>Todo 1\u00ba de maio \u00e9 dia de lembrar<\/strong><\/h2>\n\n\n\n<p>Na vida dessas mulheres, luta foi a palavra de ordem. Foi lutando, por\u00e9m, que a riograndina Angelina Gon\u00e7alves perdeu a vida. H\u00e1 poucos registros hist\u00f3ricos sobre a sua trajet\u00f3ria. Militante oper\u00e1ria, Angelina teve sua hist\u00f3ria contada a partir de sua pr\u00f3pria morte, no dia 1\u00ba de maio de 1950, quando foi assassinada por um disparo de arma de fogo desferido por policiais militares em meio a uma manifesta\u00e7\u00e3o p\u00fablica no Dia do Trabalhador.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>A doutoranda em Hist\u00f3ria pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) Caroline Matoso explica que o contexto que marcava a \u00e9poca em quest\u00e3o era de persegui\u00e7\u00e3o aos comunistas e sindicalistas brasileiros, com forte influ\u00eancia da Guerra Fria que se iniciou em 1947, incentivando uma ideologia anticomunista no Brasil. No mesmo ano do in\u00edcio do conflito, o registro eleitoral do Partido Comunista do Brasil (PCB) foi cassado e sindicatos que tinham influ\u00eancia dos comunistas foram interditados.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;Esse \u00e9 o caso que aconteceu no munic\u00edpio de Rio Grande, no qual, no ano de 1949, a Sociedade Uni\u00e3o Oper\u00e1ria \u00e9 fechada por ordens do Minist\u00e9rio P\u00fablico. Possivelmente o fechamento da Uni\u00e3o Oper\u00e1ria se d\u00e1 porque o presidente da sociedade \u00e9 um comunista militante do PCB. Significativamente,&nbsp; a manifesta\u00e7\u00e3o em que a Angelina Gon\u00e7alves foi assassinada tinha como pauta a reabertura da Sociedade Uni\u00e3o Oper\u00e1ria&#8221;, explica Caroline.<\/p>\n\n\n\n<p>Foi, ent\u00e3o, no Dia do Trabalhador de 1950 que, como de costume, homens e mulheres se reuniram em um churrasco na Linha do Parque de Rio Grande, um local onde os bondes passavam e havia intensa circula\u00e7\u00e3o de trabalhadores. Conforme relata Caroline, durante os festejos, um grupo sugeriu que os participantes sa\u00edssem em ato em dire\u00e7\u00e3o \u00e0 sociedade Uni\u00e3o Oper\u00e1ria, reivindicando sua reabertura. Foi durante essa manifesta\u00e7\u00e3o que aconteceu uma interven\u00e7\u00e3o policial, pedindo para que o ato fosse interrompido.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>A historiadora relata que o delegado da pol\u00edcia Evaldo Miranda alegou que n\u00e3o havia sido permitido que os manifestantes fizessem aquele ato. Foi a partir dessa interven\u00e7\u00e3o militar que quatro militantes acabaram sendo assassinados pela pol\u00edcia: Angelina Gon\u00e7alves, o pedreiro Euclides Pinto, o portu\u00e1rio Hon\u00f3rio Alves e o Ferrovi\u00e1rio Osvaldino Corr\u00eaa. Nesse mesmo epis\u00f3dio, tamb\u00e9m foi assassinado um policial militar chamado Francisco Areia.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;Nos processos criminais que eu estou analisando, as trabalhadoras que prestam depoimento comentam que na frente havia um grupo de mulheres que estavam segurando a bandeira nacional. Segundo esses depoimentos, Angelina havia ido conversar com o delegado Evaldo Miranda para pedir para que ele deixasse que o ato seguisse. Foi nesse momento que a Angelina Gon\u00e7alves foi baleada pelo mesmo&#8221;, descreve Caroline.<\/p>\n\n\n\n<p>Desde 1996, Angelina nomeia uma rua no bairro Sarandi, na zona norte de Porto Alegre. H\u00e1 poucos registros hist\u00f3ricos sobre sua trajet\u00f3ria antes do epis\u00f3dio de 1950. &#8220;A gente sabe que ela era tecel\u00e3, que come\u00e7ou a trabalhar na f\u00e1brica Rheingantz aos 14 anos de idade. Ela era m\u00e3e solo e militante do PCB e da Uni\u00e3o das Mulheres Riograndinas. Angelina Gon\u00e7alves foi importante na luta das mulheres, sobretudo das mulheres trabalhadoras&#8221;, diz a pesquisadora. Na uni\u00e3o das mulheres riograndinas, as principais pautas reivindicat\u00f3rias levantadas por Angelina junto de outras&nbsp; militantes eram contra a carestia de vida, em prol da paz, pela alfabetiza\u00e7\u00e3o das mulheres e pela instru\u00e7\u00e3o feminina.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>De acordo com a historiadora, em Rio Grande, at\u00e9 hoje, no dia 1\u00ba de maio, algumas pessoas realizam cortejos em homenagem \u00e0 Angelina. Uma forma de manter viva a mem\u00f3ria de quem foi lembrada a partir da pr\u00f3pria morte.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<div class=\"wp-container-5 wp-block-columns alignwide\">\n<div class=\"wp-container-4 wp-block-column\">\n<iframe loading=\"lazy\" src=\"https:\/\/www.google.com\/maps\/d\/u\/0\/embed?mid=1NICXfuErS7Fi5jB6Iqmabn644mDAhrUo&amp;ehbc=2E312F\" width=\"100%\" height=\"480\"><\/iframe>\n<\/div>\n<\/div>\n\n\n\n<div style=\"height:30px\" aria-hidden=\"true\" class=\"wp-block-spacer\"><\/div>\n\n\n\n<h2><strong>Seguimos esquecendo de lembr\u00e1-las<\/strong><\/h2>\n\n\n\n<p>De acordo com dados de 2019 do Instituto Brasileiro de Geografia e Estat\u00edstica (IBGE), existem pelo menos 791 mil logradouros p\u00fablicos com nomes de homens e 695 mil nomes neutros (objetos, plantas, entre outros), enquanto apenas 176,4 mil homenageiam mulheres.<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote has-text-align-right is-style-default\"><p>&#8220;A gente precisa lembrar do percurso dessas mulheres, a gente precisa contar como foi a participa\u00e7\u00e3o delas nos espa\u00e7os p\u00fablicos&#8221;<\/p><cite><strong>MA\u00cdRA INES VENDRAME<\/strong>, historiadora e pesquisadora da trajet\u00f3ria de Luciana de Abreu  <\/cite><\/blockquote>\n\n\n\n<p>Um levantamento feito pela <a href=\"https:\/\/piaui.folha.uol.com.br\/no-brasil-para-cada-espaco-publico-que-homenageia-uma-mulher-ha-4-homenageando-homens\/\">revista Piau\u00ed<\/a> apontou que Nossa Senhora \u00e9 o nome feminino mais presente no Brasil, com 5,1 mil endere\u00e7os. Sem levar em conta figuras vinculadas \u00e0 religi\u00e3o, com mil endere\u00e7os em sua homenagem, a Princesa Isabel \u00e9 a personalidade feminina mais frequente nos logradouros brasileiros. Ou seja, mulheres contempor\u00e2neas e que protagonizaram sua pr\u00f3pria luta ainda s\u00e3o pouco lembradas.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cA gente precisa lembrar do percurso dessas mulheres, a gente precisa contar como foi a participa\u00e7\u00e3o delas nos espa\u00e7os p\u00fablicos, a gente precisa estud\u00e1-las e inclu\u00ed-las na hist\u00f3ria. Isso \u00e9 extremamente importante, porque a maior parte das mulheres s\u00e3o invisibilizadas. Precisamos falar, narrar, estudar a vida dessas mulheres. Elas tiveram uma participa\u00e7\u00e3o em discuss\u00f5es hist\u00f3ricas importantes, por isso \u00e9 necess\u00e1rio se estudar a vida dessas mulheres, dar visibilidade e voz a elas\u201d, finaliza a historiadora Ma\u00edra.<\/p>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator is-style-default\"\/>\n\n\n\n<div class=\"wp-container-8 wp-block-columns\">\n<div class=\"wp-container-6 wp-block-column\" style=\"flex-basis:33.33%\">\n<h3 class=\"has-text-align-left\">LEIA MAIS<\/h3>\n<\/div>\n\n\n\n<div class=\"wp-container-7 wp-block-column\" style=\"flex-basis:66.66%\">\n<ul><li><strong><a href=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/sextante\/a-voz-de-quem-precisa-falar-mais-alto\/\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">A voz de quem precisa falar mais alto:<\/a><\/strong> movimento feminista avan\u00e7a em pequenas cidades<\/li><li><strong><a href=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/sextante\/corpos-e-almas-livres\/\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">Corpos e almas livres:<\/a><\/strong> uma incr\u00edvel e turbulenta jornada em busca do amor-pr\u00f3prio<\/li><\/ul>\n<\/div>\n<\/div>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator is-style-default\"\/>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Dos 9,4 mil logradouros de Porto Alegre, menos de 400 homenageiam personalidades femininas. 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