{"id":7419,"date":"2022-05-18T16:01:39","date_gmt":"2022-05-18T19:01:39","guid":{"rendered":"https:\/\/www.ufrgs.br\/sextante\/?p=7419"},"modified":"2022-05-18T17:50:57","modified_gmt":"2022-05-18T20:50:57","slug":"para-nao-esquecer-a-lingua-kaingang","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ufrgs.br\/sextante\/para-nao-esquecer-a-lingua-kaingang\/","title":{"rendered":"Para n\u00e3o esquecer a l\u00edngua kaingang"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"has-drop-cap\">Antes da chegada dos portugueses em suas caravelas a partir do s\u00e9culo 16, o Brasil contava com at\u00e9 mil l\u00ednguas faladas por nativos ind\u00edgenas em todo o territ\u00f3rio nacional. Hoje, o pa\u00eds tem apenas 154. Dentre elas, o kaingang \u00e9 um dos idiomas que luta para se fazer presente nas pr\u00f3ximas gera\u00e7\u00f5es, seja com esfor\u00e7os do seu pr\u00f3prio povo ou tamb\u00e9m de linguistas e colaboradores.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>De acordo com o <a href=\"https:\/\/www.gov.br\/funai\/pt-br\/arquivos\/conteudo\/ascom\/2013\/img\/12-dez\/pdf-brasil-ind.pdf\">\u00faltimo censo feito<\/a> no Brasil, em 2010, os Kaingang representam a terceira maior etnia ind\u00edgena do Brasil, com aproximadamente 37 mil pessoas. Eles est\u00e3o espalhados por \u00e1reas dos tr\u00eas estados da Regi\u00e3o Sul e tamb\u00e9m em S\u00e3o Paulo. Dentre estes 37 mil, 31 mil vivem em reservas e 22 mil falam o idioma, indicando uma perda lingu\u00edstica que gira em torno de <a href=\"http:\/\/www.portalkaingang.org\/Kaingang%20Censo%20IBGE%202010.pdf\">40% em rela\u00e7\u00e3o <\/a>\u00e0 sua totalidade.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Apesar desse apagamento, o kaingang est\u00e1 entre as cinco l\u00ednguas ind\u00edgenas com mais de 10 mil falantes no pa\u00eds, o que a coloca em situa\u00e7\u00e3o levemente privilegiada em rela\u00e7\u00e3o a centenas de outros idiomas dos povos origin\u00e1rios. Mesmo assim, a l\u00edngua precisa de aten\u00e7\u00e3o e cuidados para que n\u00e3o seja esquecida.<\/p>\n\n\n\n<h2><strong>Caracter\u00edsticas do kaingang<\/strong><\/h2>\n\n\n\n<p>O Brasil \u00e9 a casa de <a href=\"https:\/\/mirim.org\/pt-br\/linguas-indigenas\/troncos-familias#:~:text=O%20tronco%20lingu%C3%ADstico%20%C3%A9%20um,muito%20dif%C3%ADceis%20de%20serem%20percebidas.\">dois troncos lingu\u00edsticos<\/a>: o tupi e o macro-j\u00ea. O idioma kaingang faz parte da fam\u00edlia j\u00ea, integrante do tronco macro-j\u00ea. Junto do xokleng, que \u00e9 uma l\u00edngua muito parecida, o kaingang faz parte do conjunto restrito chamado j\u00ea do sul.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Como qualquer outra l\u00edngua ind\u00edgena do Brasil, o kaingang \u00e9 caracterizado por ser essencialmente oral. A cultura e os saberes desse povo passam de gera\u00e7\u00e3o a gera\u00e7\u00e3o por meio de conversas e conta\u00e7\u00f5es de hist\u00f3rias. Para o uso escrito, um alfabeto foi proposto nos anos 1960 por Ursula Wiesemann, pesquisadora e mission\u00e1ria do Summer Institute of Linguistics, entidade estadunidense dedicada a compreender idiomas ind\u00edgenas para ent\u00e3o fornecer tradu\u00e7\u00f5es da B\u00edblia. Hoje, o kaingang conta com 27 letras, sendo 14 delas vogais e 13 consoantes.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-large\"><img loading=\"lazy\" width=\"1024\" height=\"1024\" src=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/sextante\/wp-content\/uploads\/2022\/04\/sextante-infografico-kaingang-1024x1024.png\" alt=\"\" class=\"wp-image-7432\" srcset=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/sextante\/wp-content\/uploads\/2022\/04\/sextante-infografico-kaingang-1024x1024.png 1024w, https:\/\/www.ufrgs.br\/sextante\/wp-content\/uploads\/2022\/04\/sextante-infografico-kaingang-300x300.png 300w, https:\/\/www.ufrgs.br\/sextante\/wp-content\/uploads\/2022\/04\/sextante-infografico-kaingang-150x150.png 150w, https:\/\/www.ufrgs.br\/sextante\/wp-content\/uploads\/2022\/04\/sextante-infografico-kaingang-768x768.png 768w, https:\/\/www.ufrgs.br\/sextante\/wp-content\/uploads\/2022\/04\/sextante-infografico-kaingang-600x600.png 600w, https:\/\/www.ufrgs.br\/sextante\/wp-content\/uploads\/2022\/04\/sextante-infografico-kaingang.png 1080w\" sizes=\"(max-width: 1024px) 100vw, 1024px\" \/><figcaption>O alfabeto kaingang conta com 14 vogais e 13 consoantes<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p>Parte da <a href=\"https:\/\/www.dicio.com.br\/toponimia\/#:~:text=Significado%20de%20Topon%C3%ADmia,das%20ruas%20de%20S%C3%A3o%20Paulo.\">topon\u00edmia<\/a> brasileira foi inspirada em palavras que v\u00eam do idioma kaingang, tendo como grandes exemplos a cidade de Erechim, no Rio Grande do Sul, e Chapec\u00f3, em Santa Catarina. A Arena Cond\u00e1, est\u00e1dio de futebol da Chapecoense, tamb\u00e9m serve como modelo, pois homenageia o l\u00edder kaingang Vitorino Cond\u00e1.<\/p>\n\n\n\n<h2><strong>Revitalizar e manter<\/strong><\/h2>\n\n\n\n<p>Para Wilmar D\u2019Angelis, linguista, professor da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) e especialista no idioma Kaingang, o fortalecimento de uma l\u00edngua reside na propaga\u00e7\u00e3o dela em \u201clocais socialmente relevantes e de prest\u00edgio\u201d. Ele e a antrop\u00f3loga Juracilda Veiga mant\u00eam desde 2005 o <a href=\"http:\/\/www.portalkaingang.org\/index.htm\">Portal Kaingang<\/a>, site que conta com informa\u00e7\u00f5es sobre a etnia e tamb\u00e9m textos e artigos acad\u00eamicos.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Em 2021, o nome de Wilmar apareceu em diversos portais de not\u00edcias por conta da parceria feita com a marca Motorola para a inser\u00e7\u00e3o de l\u00ednguas ind\u00edgenas em seus smartphones. Ap\u00f3s uma avalia\u00e7\u00e3o sociolingu\u00edstica feita pelo professor, com crit\u00e9rios como n\u00famero de tradutores e falantes do idioma, a l\u00edngua kaingang foi a \u201cvencedora\u201d e ent\u00e3o escolhida para participar da iniciativa. A Motorola aprovou a decis\u00e3o, mas, como forma de \u201ccontrapartida\u201d, solicitou que um segundo idioma fosse escolhido e que ele precisasse ser amaz\u00f4nico. Seguindo os mesmos par\u00e2metros, o nheengatu foi tamb\u00e9m selecionado para o projeto. Os dois idiomas est\u00e3o dispon\u00edveis para usu\u00e1rios da Motorola com o Android 11.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8220;Se voc\u00ea [<em>v\u00ea a sua l\u00edngua<\/em>] em locais de prest\u00edgio como um computador, um programa [<em>de computador<\/em>], v\u00eddeos e, mais ainda, se voc\u00ea tiver a sua l\u00edngua na Internet, isso tem um valor importante para o fortalecimento da l\u00edngua, da sua identidade, da representa\u00e7\u00e3o social que ela tem perante aos pr\u00f3prios falantes\u201d, relata Wilmar.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-full\"><img loading=\"lazy\" width=\"984\" height=\"714\" src=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/sextante\/wp-content\/uploads\/2022\/04\/interface-dos-dispositivos-motorola-com-idiomas-indigenas-nheengatu-e-kaingang-selecionados.webp\" alt=\"\" class=\"wp-image-7427\" srcset=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/sextante\/wp-content\/uploads\/2022\/04\/interface-dos-dispositivos-motorola-com-idiomas-indigenas-nheengatu-e-kaingang-selecionados.webp 984w, https:\/\/www.ufrgs.br\/sextante\/wp-content\/uploads\/2022\/04\/interface-dos-dispositivos-motorola-com-idiomas-indigenas-nheengatu-e-kaingang-selecionados-300x218.webp 300w, https:\/\/www.ufrgs.br\/sextante\/wp-content\/uploads\/2022\/04\/interface-dos-dispositivos-motorola-com-idiomas-indigenas-nheengatu-e-kaingang-selecionados-768x557.webp 768w\" sizes=\"(max-width: 984px) 100vw, 984px\" \/><figcaption> Foto: Motorola\/Divulga\u00e7\u00e3o <\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p>H\u00e1 quem pense, por diversas raz\u00f5es, que n\u00e3o vale a pena tanto esfor\u00e7o para manter uma l\u00edngua que \u00e9 falada por poucas pessoas ou que n\u00e3o \u00e9 a oficial do pa\u00eds. Wilmar comenta que \u00e9 do senso comum pensar nos idiomas como um mero exerc\u00edcio de encontrar formas para nomear as coisas e fazer tradu\u00e7\u00f5es, mas explica que eles s\u00e3o mais do que isso, alertando para o que acontece quando uma l\u00edngua morre: \u201cVoc\u00ea est\u00e1 perdendo uma maneira de ver o mundo, uma possibilidade da esp\u00e9cie humana, num grupo espec\u00edfico, de ver o mundo de uma maneira muito particular, \u00fanica. E a gente t\u00e1 jogando isso fora\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>Estudos tamb\u00e9m indicam que o exterm\u00ednio de l\u00ednguas ind\u00edgenas pode gerar uma incalcul\u00e1vel perda de conhecimento medicinal que poderia ser \u00fatil para a humanidade, como apontado na mat\u00e9ria <a href=\"https:\/\/revistapesquisa.fapesp.br\/ameaca-imprevista-a-etnobotanica\/\">\u201cAmea\u00e7a imprevista \u00e0 etnobot\u00e2nica\u201d<\/a>, produzida pela revista <em>Pesquisa Fapesp<\/em> em 2021.<\/p>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator is-style-default\"\/>\n\n\n\n<div class=\"wp-container-3 wp-block-columns\">\n<div class=\"wp-container-1 wp-block-column\" style=\"flex-basis:33.33%\">\n<h3 class=\"has-text-align-left\">LEIA MAIS<\/h3>\n<\/div>\n\n\n\n<div class=\"wp-container-2 wp-block-column\" style=\"flex-basis:66.66%\">\n<ul><li><strong><a href=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/sextante\/o-despertar-para-uma-ancestral-forma-de-ser-brasileiro\/\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">Despertar para uma ancestral forma de ser brasileiro: <\/a><\/strong>a<strong> <\/strong>vida na aldeia ind\u00edgena Teko\u00e1 Anhetengu\u00e1<\/li><li><a href=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/sextante\/quem-nunca-imaginou-pegar-onda-no-guaiba\/\"><strong>Quem nunca pegou onda no Gua\u00edba?<\/strong> <\/a>Como a (falta de) mem\u00f3ria coletiva sobre o meio ambiente pode prejudicar a biodiversidade<\/li><\/ul>\n<\/div>\n<\/div>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator is-style-default\"\/>\n\n\n\n<h2><strong>Desafios que v\u00e3o al\u00e9m da l\u00edngua<\/strong>&nbsp;<\/h2>\n\n\n\n<p>\u00c9 imposs\u00edvel pensar em manuten\u00e7\u00e3o e revitaliza\u00e7\u00e3o do kaingang sem lembrar que o povo, que \u00e9 quem faz e vive a l\u00edngua, enfrenta diversos problemas. Em um governo federal capitaneado pelo presidente Jair Bolsonaro, que antes de ser eleito j\u00e1 demonstrava <a href=\"https:\/\/noticias.uol.com.br\/politica\/ultimas-noticias\/2022\/03\/16\/bolsonaro-medalha-merito-indigenista-indios-pobres-coitados.htm\">n\u00e3o ter compromisso com as causas dos povos origin\u00e1rios<\/a>, a pol\u00edtica anti-ind\u00edgena segue a todo vapor.<\/p>\n\n\n\n<p>Um exemplo disso \u00e9 o atual debate acerca do Projeto de Lei 191\/20, cuja aprecia\u00e7\u00e3o recebeu car\u00e1ter de urg\u00eancia na C\u00e2mara do Deputados e que defende a regulamenta\u00e7\u00e3o da explora\u00e7\u00e3o de recursos minerais, h\u00eddricos e org\u00e2nicos em reservas ind\u00edgenas. A principal justificativa do governo para tanta pressa na an\u00e1lise do projeto seria o desabastecimento no estoque de fertilizantes causado pela Guerra na Ucr\u00e2nia.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<div class=\"wp-block-image\"><figure class=\"alignleft size-full is-resized\"><img loading=\"lazy\" src=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/sextante\/wp-content\/uploads\/2022\/04\/158543060_111906274261395_7417446170712230135_n.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-7430\" width=\"344\" height=\"344\" srcset=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/sextante\/wp-content\/uploads\/2022\/04\/158543060_111906274261395_7417446170712230135_n.jpg 640w, https:\/\/www.ufrgs.br\/sextante\/wp-content\/uploads\/2022\/04\/158543060_111906274261395_7417446170712230135_n-300x300.jpg 300w, https:\/\/www.ufrgs.br\/sextante\/wp-content\/uploads\/2022\/04\/158543060_111906274261395_7417446170712230135_n-150x150.jpg 150w, https:\/\/www.ufrgs.br\/sextante\/wp-content\/uploads\/2022\/04\/158543060_111906274261395_7417446170712230135_n-600x600.jpg 600w\" sizes=\"(max-width: 344px) 100vw, 344px\" \/><figcaption>Darci \u00e9 o primeiro ind\u00edgena a se tornar doutor na Furg | Foto: Arquivo Pessoal\/Redes Sociais<\/figcaption><\/figure><\/div>\n\n\n\n<p>Quando o assunto \u00e9 educa\u00e7\u00e3o, \u00e1rea diretamente ligada \u00e0 preserva\u00e7\u00e3o de uma l\u00edngua, \u00e9 importante lembrar dos avan\u00e7os &#8211; como os proporcionados pela Lei de Cotas &#8211; que completa 10 anos e ser\u00e1 revista &#8211;&nbsp; mas tamb\u00e9m dos desafios ainda enfrentados. O t\u00e9cnico administrativo Darci Emiliano trabalha no campus Sert\u00e3o do Instituto Federal do Rio Grande do Sul (IFRS) e entende bem o choque cultural que os estudantes sentem. De etnia Kaingang, ele \u00e9 o primeiro ind\u00edgena a se tornar doutor na Universidade Federal do Rio Grande (Furg), conquistando o t\u00edtulo em 2020 na \u00e1rea de Educa\u00e7\u00e3o Ambiental. No IFRS, ele \u00e9 respons\u00e1vel por auxiliar mais pessoas desses povos a entrar na institui\u00e7\u00e3o. Na vis\u00e3o dele, assim como ocorre com os outros grupos contemplados pela Lei das Cotas, ainda falta uma certa &#8220;empatia&#8221; com os estudantes de povos origin\u00e1rios e o entendimento de que a sua cultura e vis\u00e3o de mundo s\u00e3o muito diferentes.<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cO objetivo da educa\u00e7\u00e3o para o povo n\u00e3o-ind\u00edgena \u00e9 desindianizar, descultura\u00e7\u00e3o, vis\u00e3o de lucro, sal\u00e1rios, destrui\u00e7\u00e3o da nossa m\u00e3e-terra. A educa\u00e7\u00e3o como competi\u00e7\u00e3o, individualismo. A\u00ed o inverso j\u00e1 \u00e9 a educa\u00e7\u00e3o para mim como ind\u00edgena. O processo de eu mesmo pr\u00f3prio me conhecer e me reindianizar, como dizia at\u00e9 o pr\u00f3prio <a href=\"https:\/\/apublica.org\/2018\/04\/35-anos-depois-do-deputado-juruna-indigenas-continuam-sem-representacao-politica-no-pais\/\">Juruna<\/a> na d\u00e9cada de 80. Liberdade, autonomia, respeito \u00e0 natureza, horizontalidade. Entendemos a educa\u00e7\u00e3o como uma participa\u00e7\u00e3o na coletividade, como um instrumento de luta, como sustentabilidade, n\u00e3o esquecendo que somos povos da oralidade\u201d, afirma Darci.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Mesmo com os esfor\u00e7os, o t\u00e9cnico administrativo relata alta evas\u00e3o escolar e lembra de apenas dois estudantes ind\u00edgenas formados em cursos t\u00e9cnicos desde 2013, mais um estaria em processo de conclus\u00e3o. \u201cTr\u00eas\u2026 em oito anos. \u00c9 muito dif\u00edcil\u201d, completa.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Darci tamb\u00e9m comenta que, mesmo com os aux\u00edlios como moradia, perman\u00eancia e bolsa do Minist\u00e9rio da Educa\u00e7\u00e3o (MEC) para gradua\u00e7\u00e3o disponibilizados pelo IFRS, ele j\u00e1 teve que tirar dinheiro do pr\u00f3prio bolso para ajudar os alunos ind\u00edgenas. \u201c\u00c0s vezes eu [<em>tenho<\/em>] que botar meu nome ali para conseguir um aluguel para um ind\u00edgena de gradua\u00e7\u00e3o poder estudar aqui at\u00e9 que ele comece a ganhar aux\u00edlios\u201d, relata.<\/p>\n\n\n\n<p>A ocupa\u00e7\u00e3o <a href=\"https:\/\/sul21.com.br\/noticias\/geral\/2022\/03\/estudantes-indigenas-da-ufrgs-ocupam-predio-no-centro-de-porto-alegre\/\">realizada por estudantes ind\u00edgenas da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), desde 6 de mar\u00e7o<\/a>, no <a href=\"https:\/\/goo.gl\/maps\/WuEPzqcvVft2z4958\">pr\u00e9dio<\/a> onde funcionava a Secretaria Municipal de Ind\u00fastria e Com\u00e9rcio de Porto Alegre confirma que os estudantes ind\u00edgenas ainda n\u00e3o est\u00e3o satisfeitos com o tratamento recebido pelas institui\u00e7\u00f5es. Um grupo de aproximadamente 50 pessoas ocupou o local para pressionar a reitoria da UFRGS a criar uma Casa do Estudante Ind\u00edgena. Segundo representantes dos discentes, o espa\u00e7o \u00e9 necess\u00e1rio para que se respeitem os costumes e organiza\u00e7\u00e3o social desses alunos e, principalmente, que se possibilite a perman\u00eancia dos seus filhos no local. Abandonado, o edif\u00edcio havia sido entregue para a institui\u00e7\u00e3o em 2021, mas foi devolvido \u00e0 prefeitura neste ano.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Em 18 de abril, o pr\u00e9dio da <a href=\"https:\/\/gauchazh.clicrbs.com.br\/educacao-e-emprego\/noticia\/2022\/03\/creche-da-ufrgs-sera-transformada-em-casa-do-estudante-indigena-cl1cl84vu008f017c36s9tak8.html\">antiga Creche da UFRGS<\/a>, localizada no Campus Sa\u00fade, foi entregue e reinaugurado como a Casa do Estudante Ind\u00edgena.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-full\"><img loading=\"lazy\" width=\"1000\" height=\"700\" src=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/sextante\/wp-content\/uploads\/2022\/04\/Pauta12_O-esforco-na-manutencao-da-lingua-Kaingang_BrunaKL.png\" alt=\"\" class=\"wp-image-7431\" srcset=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/sextante\/wp-content\/uploads\/2022\/04\/Pauta12_O-esforco-na-manutencao-da-lingua-Kaingang_BrunaKL.png 1000w, https:\/\/www.ufrgs.br\/sextante\/wp-content\/uploads\/2022\/04\/Pauta12_O-esforco-na-manutencao-da-lingua-Kaingang_BrunaKL-300x210.png 300w, https:\/\/www.ufrgs.br\/sextante\/wp-content\/uploads\/2022\/04\/Pauta12_O-esforco-na-manutencao-da-lingua-Kaingang_BrunaKL-768x538.png 768w\" sizes=\"(max-width: 1000px) 100vw, 1000px\" \/><figcaption>Arte: Bruna Lummertz<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<h3><strong>A preserva\u00e7\u00e3o da l\u00edngua \u00e9 parte da luta<\/strong><\/h3>\n\n\n\n<p>Dentro desse cen\u00e1rio, a preserva\u00e7\u00e3o do idioma kaingang \u00e9 uma das formas de fortalecer o conhecimento e os saberes ancestrais desse povo. Danilo Braga Kaingang, natural de Charrua, no norte do Rio Grande do Sul, concorda com essa ideia e faz alguns apontamentos sobre o assunto.<\/p>\n\n\n\n<p>Inicialmente matriculado em Educa\u00e7\u00e3o F\u00edsica na Universidade Regional do Noroeste do Estado do Rio Grande do Sul (Uniju\u00ed) com aux\u00edlio parcial da Funda\u00e7\u00e3o Nacional do \u00cdndio (Funai), Danilo pediu transfer\u00eancia para o curso de Hist\u00f3ria. A troca aconteceu ap\u00f3s ter sido convidado para dar palestras sobre a suas viv\u00eancias como kaingang para a pr\u00f3pria universidade e em escolas do munic\u00edpio. Se tornou mestre em Hist\u00f3ria Social pela UFRGS, em 2015, e hoje faz doutorado na mesma \u00e1rea. Danilo tamb\u00e9m trabalha como professor de hist\u00f3ria, geografia e kaingang na Terra Ind\u00edgena Ventarra e j\u00e1 foi membro da Comiss\u00e3o Nacional de Educa\u00e7\u00e3o Escolar Ind\u00edgena (CNEEI) no MEC.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote has-text-align-right\"><p>&#8220;A quest\u00e3o da pol\u00edtica ind\u00edgena \u00e9 igual \u00e0 chapa quente de um fog\u00e3o de lenha. As pol\u00edticas v\u00eam [<em>de formas<\/em>] espor\u00e1dicas. Cai um pinguinho de \u00e1gua e \u2018tchum\u2019, some e n\u00e3o resolve os problemas&#8221;<\/p><cite><strong>DANILO BRAGA KAINGANG<\/strong>, professor e doutorando em Hist\u00f3ria Social pela UFRGS<\/cite><\/blockquote>\n\n\n\n<p>\u201cFalam que a gente j\u00e1 est\u00e1 de celular, pois parece que a gente n\u00e3o pode ter celular, mas de todo esse conv\u00edvio e de todo esse contato dos kaingang [<em>com a sociedade<\/em>], eu acho superimportante a quest\u00e3o da l\u00edngua, pois pra mim \u00e9 a principal identidade do kaingang hoje.  O pessoal olha a gente todo &#8216;vestidinho&#8217; e fala \u2018olha, n\u00e3o s\u00e3o mais \u00edndios, n\u00e9? N\u00e3o s\u00e3o mais kaingang!\u2019. Da\u00ed eu vejo a import\u00e2ncia\u2019, afirma Danilo.<\/p>\n\n\n\n<p>O professor cogitou se candidatar a deputado federal nas pr\u00f3ximas elei\u00e7\u00f5es pensando em emendas para o povo ind\u00edgena, mas as incertezas que a campanha pol\u00edtica gera o afastaram da possibilidade. E, se tivesse um cargo de gest\u00e3o ainda mais importante, como governar o Rio Grande do Sul ou at\u00e9 mesmo o Brasil? Danilo demonstrou surpresa com a pergunta, mas respondeu: \u201cA gente tem experi\u00eancias que a gente pode buscar em outros pa\u00edses desenvolvidos, [<em>como<\/em>] Coreia do Sul, Jap\u00e3o, Alemanha, Holanda, Dinamarca. At\u00e9 mesmo o pr\u00f3prio Estados Unidos, que a gente n\u00e3o concorda muito com as a\u00e7\u00f5es. Se falou tanto em \u2018patriotas\u2019, [<em>mas a<\/em>] gente n\u00e3o viu patriota nenhum. [<em>Pessoas<\/em>] fazendo contin\u00eancia para a outra bandeira. S\u00e3o menos patriotas que a gente\u201d. <\/p>\n\n\n\n<p>Danilo completa trazendo um ditado comum utilizado pelos seus companheiros: \u201cA quest\u00e3o da pol\u00edtica ind\u00edgena \u00e9 igual \u00e0 chapa quente de um fog\u00e3o de lenha. As pol\u00edticas v\u00eam [<em>de formas<\/em>] espor\u00e1dicas. Cai um pinguinho de \u00e1gua e \u2018tchum\u2019, some e n\u00e3o resolve os problemas. As pol\u00edticas t\u00eam que ser permanentes para que elas venham e resolvam os problemas na educa\u00e7\u00e3o, na sa\u00fade, na habita\u00e7\u00e3o, na agricultura\u201d.<\/p>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator is-style-default\"\/>\n\n\n\n<div class=\"wp-container-6 wp-block-columns\">\n<div class=\"wp-container-4 wp-block-column\" style=\"flex-basis:33.33%\">\n<h3 class=\"has-text-align-left\">LEIA MAIS<\/h3>\n<\/div>\n\n\n\n<div class=\"wp-container-5 wp-block-column\" style=\"flex-basis:66.66%\">\n<ul><li><a href=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/sextante\/os-sobreviventes-invisiveis-na-capital-alto-astral\/\"><strong>Sobreviventes na capital alto-astral<\/strong>:<\/a> a viva de quem mora nas ruas de Porto Alegre<\/li><li><strong><a href=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/sextante\/desempregados-no-brasil\/\">Um ex\u00e9rcito de invis\u00edveis\u200b: <\/a><\/strong>as pessoas que desistiram de procurar emprego no Brasil<\/li><\/ul>\n<\/div>\n<\/div>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator is-style-default\"\/>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Os esfor\u00e7os de ind\u00edgenas desta etnia e colaboradores para a manuten\u00e7\u00e3o do idioma <\/p>\n","protected":false},"author":66,"featured_media":7420,"comment_status":"open","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[141],"tags":[],"acf":[],"yoast_head":"<!-- This site is optimized with the Yoast SEO plugin v19.6.1 - https:\/\/yoast.com\/wordpress\/plugins\/seo\/ -->\n<title>Para n\u00e3o esquecer a l\u00edngua kaingang &mdash; 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