{"id":7445,"date":"2022-05-18T16:01:43","date_gmt":"2022-05-18T19:01:43","guid":{"rendered":"https:\/\/www.ufrgs.br\/sextante\/?p=7445"},"modified":"2022-07-15T16:30:08","modified_gmt":"2022-07-15T19:30:08","slug":"entre-as-memorias-lembrar-pelos-sentidos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ufrgs.br\/sextante\/entre-as-memorias-lembrar-pelos-sentidos\/","title":{"rendered":"Entre as mem\u00f3rias, lembrar pelos sentidos"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"has-drop-cap\">A capacidade de armazenar e resgatar informa\u00e7\u00f5es \u00e9 a defini\u00e7\u00e3o da mem\u00f3ria humana. Guardadas em diferentes \u00e1reas do c\u00e9rebro, as experi\u00eancias contam com os cinco sentidos para serem lembradas: vis\u00e3o, audi\u00e7\u00e3o, tato, olfato e paladar. Na aus\u00eancia dos recursos visuais, as mem\u00f3rias das pessoas cegas s\u00e3o marcadas pelos sons, texturas, cheiros e gostos.<\/p>\n\n\n\n<p>Da mesma forma que os diferentes tipos de mem\u00f3rias, como as de curto e longo prazo, existem classifica\u00e7\u00f5es distintas para a perda da vis\u00e3o. Pessoas que n\u00e3o enxergam desde o nascimento t\u00eam a cegueira cong\u00eanita, como a jornalista e produtora de r\u00e1dio Camila Nunes, de 40 anos. \u201cMinha cegueira \u00e9 cong\u00eanita, ent\u00e3o eu n\u00e3o tive experi\u00eancias de imagens. Cheguei a usar \u00f3culos por pouco tempo quando era beb\u00ea, mas n\u00e3o foi suficiente para armazenar mem\u00f3ria visual. Ent\u00e3o, as minhas lembran\u00e7as s\u00e3o muito baseadas em \u00e1udio, cheiros, e minha orienta\u00e7\u00e3o espacial \u00e9 muito pela audi\u00e7\u00e3o.\u201d<\/p>\n\n\n\n<p>Camila diz que treina sua mem\u00f3ria constantemente: no trabalho, por exemplo, ela memoriza a disposi\u00e7\u00e3o dos m\u00f3veis do local. Pela aus\u00eancia da imagem, a jornalista confirma que os outros sentidos s\u00e3o muito acionados em suas lembran\u00e7as, principalmente o olfato e a audi\u00e7\u00e3o. \u201cNaturalmente, a gente exercita mais os outros sentidos. No caso da pessoa que n\u00e3o enxerga, ela n\u00e3o tem o recurso visual, por isso nossa mem\u00f3ria \u00e9 t\u00e3o importante.&nbsp;Para mim, \u00e9 muito importante as coisas estarem no mesmo lugar, dentro de casa, no ambiente de trabalho, e, quando tem um excesso de ru\u00eddo no local, atrapalha a localiza\u00e7\u00e3o espacial\u201d, explica. Na maioria das vezes, ao entrar ao vivo na r\u00e1dio, ela tamb\u00e9m lembra o texto sem ter que recorrer \u00e0 leitura.<\/p>\n\n\n\n<p>Uma das lembran\u00e7as afetivas mais marcantes para Camila ocorreu durante um anivers\u00e1rio. Aos sete anos, teve uma festa tem\u00e1tica do programa da Xuxa, personagem da qual era muito f\u00e3 na \u00e9poca. Ela lembra que usou uma roupa parecida com a da apresentadora e arrumou o cabelo da mesma forma. Apesar de nunca ter visto como a cantora se vestia, sua m\u00e3e sempre descrevia as diferentes combina\u00e7\u00f5es a cada programa.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-container-2 wp-block-gallery-1 wp-block-gallery columns-2 is-cropped\"><ul class=\"blocks-gallery-grid\"><li class=\"blocks-gallery-item\"><figure><img loading=\"lazy\" width=\"480\" height=\"640\" src=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/sextante\/wp-content\/uploads\/2022\/04\/178040197_1448983788833686_6046086435844690365_n-edited.jpg\" alt=\"\" data-id=\"7455\" data-full-url=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/sextante\/wp-content\/uploads\/2022\/04\/178040197_1448983788833686_6046086435844690365_n-edited.jpg\" data-link=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/sextante\/178040197_1448983788833686_6046086435844690365_n-2\/\" class=\"wp-image-7455\" srcset=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/sextante\/wp-content\/uploads\/2022\/04\/178040197_1448983788833686_6046086435844690365_n-edited.jpg 480w, https:\/\/www.ufrgs.br\/sextante\/wp-content\/uploads\/2022\/04\/178040197_1448983788833686_6046086435844690365_n-edited-225x300.jpg 225w\" sizes=\"(max-width: 480px) 100vw, 480px\" \/><\/figure><\/li><li class=\"blocks-gallery-item\"><figure><img loading=\"lazy\" width=\"559\" height=\"848\" src=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/sextante\/wp-content\/uploads\/2022\/04\/PautaMemoriasdePessoas-Cegas_ClaraHeineckSanti-e1652072798592.jpeg\" alt=\"\" data-id=\"7456\" data-full-url=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/sextante\/wp-content\/uploads\/2022\/04\/PautaMemoriasdePessoas-Cegas_ClaraHeineckSanti-e1652072798592.jpeg\" data-link=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/sextante\/?attachment_id=7456\" class=\"wp-image-7456\" srcset=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/sextante\/wp-content\/uploads\/2022\/04\/PautaMemoriasdePessoas-Cegas_ClaraHeineckSanti-e1652072798592.jpeg 559w, https:\/\/www.ufrgs.br\/sextante\/wp-content\/uploads\/2022\/04\/PautaMemoriasdePessoas-Cegas_ClaraHeineckSanti-e1652072798592-198x300.jpeg 198w\" sizes=\"(max-width: 559px) 100vw, 559px\" \/><\/figure><\/li><\/ul><figcaption class=\"blocks-gallery-caption\"> A jornalista Camila tem uma mem\u00f3ria marcante de sua festa de sete anos | Foto: Arquivo pessoal | Arte: Clara Heineck Santi<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-audio\"><audio controls src=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/sextante\/wp-content\/uploads\/2022\/04\/WhatsApp-Audio-2022-04-20-at-19.54.47-online-audio-converter.com_.mp3\"><\/audio><figcaption>Descri\u00e7\u00e3o da arte produzida com base na mem\u00f3ria de Camila Nunes, pela ilustradora Clara Heineck Santi<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p>O estudante de direito e paratleta de jud\u00f4 Jo\u00e3o Victor da Silva, de 19 anos, tamb\u00e9m resgata suas mem\u00f3rias por sentidos diferentes da vis\u00e3o. Para ele, lembrar da pr\u00e1tica do esporte e dos treinamentos significa recordar um conjunto de elementos, como os barulhos do est\u00e1dio e o toque dos corpos. \u201cEu lembro de quem estava l\u00e1 pelas vozes. Como o jud\u00f4 \u00e9 um esporte de curto alcance, atrav\u00e9s do tato e do contato, eu lembro da forma do corpo. Al\u00e9m disso, do tipo de quimono que a pessoa est\u00e1 usando, do clima e do aroma do local\u201d, conta. Desde que come\u00e7ou a praticar jud\u00f4, h\u00e1 quatro anos, ele participou de v\u00e1rios campeonatos nacionais e Paralimp\u00edadas.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Al\u00e9m das experi\u00eancias que guarda na mem\u00f3ria sobre as competi\u00e7\u00f5es de jud\u00f4, Jo\u00e3o Victor lembra com carinho de um presente que ganhou da sua m\u00e3e quando tinha 14 anos. A lembran\u00e7a ficou gravada pelo fato de que no dia do seu anivers\u00e1rio ele se sentiu febril, ap\u00f3s voltar de uma pra\u00e7a com os amigos. Apesar da sensa\u00e7\u00e3o de cansa\u00e7o, ao chegar em casa, encontrou uma pilha de presentes. Entre eles, estava um rel\u00f3gio que carrega at\u00e9 hoje.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-container-4 wp-block-gallery-3 wp-block-gallery columns-2 is-cropped\"><ul class=\"blocks-gallery-grid\"><li class=\"blocks-gallery-item\"><figure><img loading=\"lazy\" width=\"750\" height=\"1000\" src=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/sextante\/wp-content\/uploads\/2022\/04\/WhatsApp-Image-2022-03-25-at-16.07.59-1-1.jpeg\" alt=\"\" data-id=\"7450\" data-full-url=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/sextante\/wp-content\/uploads\/2022\/04\/WhatsApp-Image-2022-03-25-at-16.07.59-1-1.jpeg\" data-link=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/sextante\/?attachment_id=7450\" class=\"wp-image-7450\" srcset=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/sextante\/wp-content\/uploads\/2022\/04\/WhatsApp-Image-2022-03-25-at-16.07.59-1-1.jpeg 750w, https:\/\/www.ufrgs.br\/sextante\/wp-content\/uploads\/2022\/04\/WhatsApp-Image-2022-03-25-at-16.07.59-1-1-225x300.jpeg 225w\" sizes=\"(max-width: 750px) 100vw, 750px\" \/><\/figure><\/li><li class=\"blocks-gallery-item\"><figure><img loading=\"lazy\" width=\"1024\" height=\"1024\" src=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/sextante\/wp-content\/uploads\/2022\/04\/MemoriaCegos_SofiaVargasjpeg-1024x1024.jpeg\" alt=\"\" data-id=\"7451\" data-full-url=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/sextante\/wp-content\/uploads\/2022\/04\/MemoriaCegos_SofiaVargasjpeg.jpeg\" data-link=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/sextante\/?attachment_id=7451\" class=\"wp-image-7451\" srcset=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/sextante\/wp-content\/uploads\/2022\/04\/MemoriaCegos_SofiaVargasjpeg-1024x1024.jpeg 1024w, https:\/\/www.ufrgs.br\/sextante\/wp-content\/uploads\/2022\/04\/MemoriaCegos_SofiaVargasjpeg-300x300.jpeg 300w, https:\/\/www.ufrgs.br\/sextante\/wp-content\/uploads\/2022\/04\/MemoriaCegos_SofiaVargasjpeg-150x150.jpeg 150w, https:\/\/www.ufrgs.br\/sextante\/wp-content\/uploads\/2022\/04\/MemoriaCegos_SofiaVargasjpeg-768x768.jpeg 768w, https:\/\/www.ufrgs.br\/sextante\/wp-content\/uploads\/2022\/04\/MemoriaCegos_SofiaVargasjpeg-600x600.jpeg 600w, https:\/\/www.ufrgs.br\/sextante\/wp-content\/uploads\/2022\/04\/MemoriaCegos_SofiaVargasjpeg.jpeg 1080w\" sizes=\"(max-width: 1024px) 100vw, 1024px\" \/><\/figure><\/li><\/ul><figcaption class=\"blocks-gallery-caption\"> O paratleta Jo\u00e3o Victor ainda guarda o rel\u00f3gio que ganhou com 14 anos |  Foto: Arquivo pessoal | Arte: S\u00f4f Vargas<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-audio\"><audio controls src=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/sextante\/wp-content\/uploads\/2022\/04\/descricao-de-imagem-joao-victor-1-online-audio-converter.com_.mp3\"><\/audio><figcaption>Descri\u00e7\u00e3o da arte produzida com base na mem\u00f3ria de Jo\u00e3o Victor, pela ilustradora S\u00f4f Vargas<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<div style=\"height:30px\" aria-hidden=\"true\" class=\"wp-block-spacer\"><\/div>\n\n\n\n<h2>Cegueira cong\u00eanita e mem\u00f3ria de trabalho<\/h2>\n\n\n\n<p>Alguns estudos recentes indicam que pessoas com defici\u00eancia visual, especialmente com cegueira cong\u00eanita, como Jo\u00e3o Victor e Camila, t\u00eam certas mem\u00f3rias mais desenvolvidas do que pessoas que enxergam.&nbsp; \u00c9 o que afirma o neurologista Raphael Machado Castilhos, do Servi\u00e7o de Neurologia do Hospital de Cl\u00ednicas de Porto Alegre.<\/p>\n\n\n\n<p>Um experimento que comprova o fato foi publicado na <a href=\"https:\/\/www.frontiersin.org\/journals\/psychology\">Frontiers in Psychology<\/a>, revista acad\u00eamica su\u00ed\u00e7a de psicologia, e apontou melhor desempenho quanto \u00e0 denominada mem\u00f3ria de trabalho. Conforme a pesquisa, pessoas cegas desde cedo conseguem gravar e repetir uma maior sequ\u00eancia de letras e n\u00fameros. \u201cA mem\u00f3ria de trabalho \u00e9 quando voc\u00ea guarda uma pequena informa\u00e7\u00e3o por um curto per\u00edodo de tempo e depois esquece. Por exemplo, quando eu guardo um n\u00famero de telefone celular que tenho que digitar agora\u201d, explica Raphael.<\/p>\n\n\n\n<p>Segundo o neurologista, os motivos ainda n\u00e3o est\u00e3o bem definidos, mas j\u00e1 existem algumas hip\u00f3teses. Uma delas \u00e9 que a mem\u00f3ria pode ser mais treinada nesses casos. \u201cQuem n\u00e3o tem o est\u00edmulo visual, usa mais a quest\u00e3o de gravar informa\u00e7\u00f5es. O mundo das pessoas cegas \u00e9 uma sequ\u00eancia de eventos. Se a gente pensa quanto \u00e0 locomo\u00e7\u00e3o, as pessoas com vis\u00e3o simplesmente caminham sem prestar muita aten\u00e7\u00e3o no que est\u00e1 acontecendo. J\u00e1 os cegos t\u00eam que saber se tem uma cadeira, uma porta, eles v\u00e3o memorizar os passos constantemente. Ent\u00e3o, h\u00e1 a possibilidade de que os cegos treinam mais a mem\u00f3ria do que as pessoas que enxergam.\u201d<\/p>\n\n\n\n<p>Outra possibilidade leva em conta a neuroplasticidade, capacidade do c\u00e9rebro de se adaptar nos anos iniciais. Sem o est\u00edmulo visual, a \u00e1rea respons\u00e1vel pela vis\u00e3o, localizada no l\u00f3bulo occipital, n\u00e3o recebe informa\u00e7\u00e3o e pode assumir uma outra fun\u00e7\u00e3o. Um papel poss\u00edvel seria o de memorizar.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator is-style-default\"\/>\n\n\n\n<div class=\"wp-container-7 wp-block-columns\">\n<div class=\"wp-container-5 wp-block-column\" style=\"flex-basis:33.33%\">\n<h3 class=\"has-text-align-left\">LEIA MAIS<\/h3>\n<\/div>\n\n\n\n<div class=\"wp-container-6 wp-block-column\" style=\"flex-basis:66.66%\">\n<ul><li><a href=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/sextante\/por-que-esquecemos\/\"><strong>Por que esquecemos?<\/strong> <\/a>Como a ci\u00eancia explica recorda\u00e7\u00f5es perdidas, momentos esquecidos e mem\u00f3rias falsas<\/li><li><a href=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/sextante\/por-que-temos-lapsos-de-memoria\/\"><strong>Por que temos lapsos de mem\u00f3ria?<\/strong> <\/a>A ci\u00eancia por tr\u00e1s do esquecimento e da fixa\u00e7\u00e3o de conte\u00fados<\/li><\/ul>\n<\/div>\n<\/div>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator is-style-default\"\/>\n\n\n\n<h2>A fotografia de Jo\u00e3o Maia<\/h2>\n\n\n\n<p>Transformar sons em imagens \u00e9 como Jo\u00e3o Maia define seu trabalho com a fotografia. O piauiense come\u00e7ou a fotografar na d\u00e9cada de 1990, na cidade de Bom Jesus, aos 14 anos. Em 2016, foi o primeiro fot\u00f3grafo cego a cobrir as Olimp\u00edadas. <\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote has-text-align-right\"><p>\u201cFotografar sem a vis\u00e3o \u00e9 isso: explorar, experimentar os sentidos, que todo mundo tem, mas muitas pessoas n\u00e3o usam porque colocam em evid\u00eancia s\u00f3 a vis\u00e3o\u201d&nbsp; <\/p><cite><strong>JO\u00c3O MAIA<\/strong>, fot\u00f3grafo<\/cite><\/blockquote>\n\n\n\n<p>Sem contar com o visual, Jo\u00e3o utiliza principalmente os sons para guiar os registros que faz com a c\u00e2mera.  \u201cFotografar sem a vis\u00e3o \u00e9 isso: explorar, experimentar os sentidos, que todo mundo tem, mas muitas pessoas n\u00e3o usam porque colocam em evid\u00eancia s\u00f3 a vis\u00e3o\u201d, afirma.&nbsp; <\/p>\n\n\n\n<p>Diferente dos casos cong\u00eanitos, o fot\u00f3grafo ficou cego aos 28 anos por conta de uma inflama\u00e7\u00e3o ocular. Ele ainda guarda lembran\u00e7as fotogr\u00e1ficas de muitos momentos, como as da casa de sua av\u00f3 no Piau\u00ed. \u201cEra uma casa muito simples, feita de tijolos de barro e uma cozinha com fog\u00e3o a lenha. Na casa, n\u00e3o tinha piso, era de terra batida. O telhado era feito de telhas artesanais, r\u00fasticas, e a madeira era redonda. N\u00e3o tinha muitos m\u00f3veis na casa dela. Tinha um lugar onde ela colocava os potes de \u00e1gua e os canecos de alum\u00ednio. Eu lembro que eram muito bem ariados, e a \u00e1gua, geladinha. Quando eu ia dormir na casa dela e estava fazendo muito frio, ela j\u00e1 tinha acendido o fog\u00e3o a lenha e eu ficava em cima do fog\u00e3o, sentindo o calor\u201d, conta.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Ap\u00f3s a perda dos est\u00edmulos visuais, os outros sentidos tomaram protagonismo nas suas mem\u00f3rias. \u201cEu j\u00e1 tive a vis\u00e3o, ent\u00e3o hoje qualquer palavra que voc\u00ea me fale eu vou saber, porque eu tenho a mem\u00f3ria fotogr\u00e1fica. J\u00e1 as coisas que eu n\u00e3o conhe\u00e7o, vou come\u00e7ar a tocar e a sentir, para saber como \u00e9\u201d, explica Jo\u00e3o. Agora, para registrar alguns cen\u00e1rios, ele conta com um assistente que descreve os ambientes. \u201cConhecer o que voc\u00ea est\u00e1 fotografando \u00e9 muito importante. Eu me posiciono e vou me guiando pelo som do guizo da bola, consigo ouvir quando essa bola \u00e9 arremessada, tamb\u00e9m consigo ouvir a comunica\u00e7\u00e3o.\u201d&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Uma das lembran\u00e7as que o fot\u00f3grafo guarda com carinho ocorreu nas Paralimp\u00edadas de 2020, em T\u00f3quio, quando ele conheceu e registrou Roberto Sasaki, paratleta brasileiro radicado no Jap\u00e3o, que joga pela sele\u00e7\u00e3o japonesa. \u201cEu estava muito ansioso para saber qual era o n\u00famero da camiseta do Sakaki e suas caracter\u00edsticas f\u00edsicas. O meu assistente descreveu que ele estava com tal n\u00famero, que o uniforme do Jap\u00e3o era todo branco e que ele tinha um cabelo grisalho. Eu seguia, al\u00e9m do som do guizo da bola e da comunica\u00e7\u00e3o dos jogadores, o fato de que ele, diferente dos jogadores do Jap\u00e3o, de vez em quando falava portugu\u00eas\u201d, lembra.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-container-9 wp-block-gallery-8 wp-block-gallery alignwide columns-3 is-cropped\"><ul class=\"blocks-gallery-grid\"><li class=\"blocks-gallery-item\"><figure><img loading=\"lazy\" width=\"1024\" height=\"686\" src=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/sextante\/wp-content\/uploads\/2022\/04\/WhatsApp-Image-2022-03-09-at-12.10.35-1024x686.jpeg\" alt=\"\" data-id=\"7459\" data-full-url=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/sextante\/wp-content\/uploads\/2022\/04\/WhatsApp-Image-2022-03-09-at-12.10.35.jpeg\" data-link=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/sextante\/?attachment_id=7459\" class=\"wp-image-7459\" srcset=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/sextante\/wp-content\/uploads\/2022\/04\/WhatsApp-Image-2022-03-09-at-12.10.35-1024x686.jpeg 1024w, https:\/\/www.ufrgs.br\/sextante\/wp-content\/uploads\/2022\/04\/WhatsApp-Image-2022-03-09-at-12.10.35-300x201.jpeg 300w, https:\/\/www.ufrgs.br\/sextante\/wp-content\/uploads\/2022\/04\/WhatsApp-Image-2022-03-09-at-12.10.35-768x515.jpeg 768w, https:\/\/www.ufrgs.br\/sextante\/wp-content\/uploads\/2022\/04\/WhatsApp-Image-2022-03-09-at-12.10.35.jpeg 1280w\" sizes=\"(max-width: 1024px) 100vw, 1024px\" \/><\/figure><\/li><li class=\"blocks-gallery-item\"><figure><img loading=\"lazy\" width=\"640\" height=\"640\" src=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/sextante\/wp-content\/uploads\/2022\/04\/265624650_149397600876506_5657824039476132490_n.jpg\" alt=\"\" data-id=\"7457\" data-full-url=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/sextante\/wp-content\/uploads\/2022\/04\/265624650_149397600876506_5657824039476132490_n.jpg\" data-link=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/sextante\/?attachment_id=7457\" class=\"wp-image-7457\" srcset=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/sextante\/wp-content\/uploads\/2022\/04\/265624650_149397600876506_5657824039476132490_n.jpg 640w, https:\/\/www.ufrgs.br\/sextante\/wp-content\/uploads\/2022\/04\/265624650_149397600876506_5657824039476132490_n-300x300.jpg 300w, https:\/\/www.ufrgs.br\/sextante\/wp-content\/uploads\/2022\/04\/265624650_149397600876506_5657824039476132490_n-150x150.jpg 150w, https:\/\/www.ufrgs.br\/sextante\/wp-content\/uploads\/2022\/04\/265624650_149397600876506_5657824039476132490_n-600x600.jpg 600w\" sizes=\"(max-width: 640px) 100vw, 640px\" \/><\/figure><\/li><li class=\"blocks-gallery-item\"><figure><img loading=\"lazy\" width=\"1024\" height=\"576\" src=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/sextante\/wp-content\/uploads\/2022\/04\/LembrancadosCegos_CarolinaEsteves-1024x576.png\" alt=\"\" data-id=\"7460\" data-full-url=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/sextante\/wp-content\/uploads\/2022\/04\/LembrancadosCegos_CarolinaEsteves.png\" data-link=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/sextante\/?attachment_id=7460\" class=\"wp-image-7460\" srcset=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/sextante\/wp-content\/uploads\/2022\/04\/LembrancadosCegos_CarolinaEsteves-1024x576.png 1024w, https:\/\/www.ufrgs.br\/sextante\/wp-content\/uploads\/2022\/04\/LembrancadosCegos_CarolinaEsteves-300x169.png 300w, https:\/\/www.ufrgs.br\/sextante\/wp-content\/uploads\/2022\/04\/LembrancadosCegos_CarolinaEsteves-768x432.png 768w, https:\/\/www.ufrgs.br\/sextante\/wp-content\/uploads\/2022\/04\/LembrancadosCegos_CarolinaEsteves.png 1166w\" sizes=\"(max-width: 1024px) 100vw, 1024px\" \/><\/figure><\/li><\/ul><figcaption class=\"blocks-gallery-caption\">O fot\u00f3grafo Jo\u00e3o Maia guarda mem\u00f3rias da casa de sua av\u00f3, quando ainda enxergava, e destaca a lembran\u00e7a de quando trabalhou nas Paralimp\u00edadas de 2020 | Fotos: Arquivo pessoal | Arte: Carolina Esteves Vieira<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-audio\"><audio controls src=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/sextante\/wp-content\/uploads\/2022\/07\/WhatsApp-Ptt-2022-07-15-at-16.02.54.ogg\"><\/audio><figcaption> Descri\u00e7\u00e3o da arte produzida com base na mem\u00f3ria de Jo\u00e3o Maia, pela ilustradora Carolina Esteves Vieira  <\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p>Para Jo\u00e3o Maia, a fotografia mant\u00e9m suas lembran\u00e7as vivas, e ele registra na mem\u00f3ria os aplausos, a vibra\u00e7\u00e3o e a energia daquele momento. \u201cA fotografia \u00e9 esse conjunto de mem\u00f3rias afetivas, de sensa\u00e7\u00f5es, de algo bom para rever e lembrar.\u201d <\/p>\n\n\n\n<p>Assim como no trabalho de Jo\u00e3o, que combina os diferentes sentidos, as lembran\u00e7as passam pelos sons, cheiros, toques, gostos e cenas visuais. Muitas vezes, as experi\u00eancias se misturam. Quando a imagem \u00e9 ausente, os outros elementos ajudam a construir a mem\u00f3ria, uma das fun\u00e7\u00f5es mais complexas do organismo.<\/p>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator is-style-default\"\/>\n\n\n\n<div class=\"wp-container-12 wp-block-columns\">\n<div class=\"wp-container-10 wp-block-column\" style=\"flex-basis:33.33%\">\n<h3 class=\"has-text-align-left\">LEIA MAIS<\/h3>\n<\/div>\n\n\n\n<div class=\"wp-container-11 wp-block-column\" style=\"flex-basis:66.66%\">\n<ul><li><a href=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/sextante\/vestindo-memoria\/\"><strong>Mem\u00f3rias nos cabides:<\/strong> <\/a>as roupas s\u00e3o capazes de preservar momentos, reviver gera\u00e7\u00f5es e resguardar hist\u00f3ria<\/li><li><strong><a href=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/sextante\/esquecidos-entre-as-paginas\/\">Mem\u00f3rias nas estantes:<\/a> <\/strong>achados em livros usados contam hist\u00f3rias e estimulam a imagina\u00e7\u00e3o dos leitores<\/li><\/ul>\n<\/div>\n<\/div>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator is-style-default\"\/>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Sem a vis\u00e3o, audi\u00e7\u00e3o, olfato, paladar e tato marcam as mem\u00f3rias das pessoas cegas, repletas de experi\u00eancias sensoriais<\/p>\n","protected":false},"author":57,"featured_media":7601,"comment_status":"open","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[141],"tags":[],"acf":[],"yoast_head":"<!-- This site is optimized with the Yoast SEO plugin v19.6.1 - https:\/\/yoast.com\/wordpress\/plugins\/seo\/ -->\n<title>Lembrar pelos sentidos: as mem\u00f3rias sem a vis\u00e3o &mdash; 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