{"id":788,"date":"2020-11-23T18:45:56","date_gmt":"2020-11-23T21:45:56","guid":{"rendered":"https:\/\/www.ufrgs.br\/sextante\/?p=788"},"modified":"2020-11-23T17:06:23","modified_gmt":"2020-11-23T20:06:23","slug":"o-lado-de-la","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ufrgs.br\/sextante\/o-lado-de-la\/","title":{"rendered":"O Lado de L\u00e1"},"content":{"rendered":"\n<div style=\"height:20px\" aria-hidden=\"true\" class=\"wp-block-spacer\"><\/div>\n\n\n\n<div class=\"wp-container-3 wp-block-columns\">\n<div class=\"wp-container-1 wp-block-column\" style=\"flex-basis:66.66%\">\n<p><strong>Na pandemia, o impedimento do tr\u00e2nsito de pessoas entre pa\u00edses impactou profundamente a rotina de quem precisava cruzar a fronteira. Para o trabalho di\u00e1rio, para mudar de vida ou para encontrar seu amor, o&nbsp;outro lado ficou distante<\/strong><\/p>\n<\/div>\n\n\n\n<div class=\"wp-container-2 wp-block-column\" style=\"flex-basis:33.33%\">\n<p class=\"has-text-align-right\" style=\"font-size:16px\"><strong><sup>REPORTAGEM<br><\/sup>Valentina Gindri<br><\/strong><em>valentinagindri@gmail.com<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-right\" style=\"font-size:16px\"><strong><sup>ILUSTRA\u00c7\u00c3O<br><\/sup>Laura Peters<\/strong><\/p>\n<\/div>\n<\/div>\n\n\n\n<div style=\"height:20px\" aria-hidden=\"true\" class=\"wp-block-spacer\"><\/div>\n\n\n\n<p class=\"has-drop-cap\">\u201cEu ia muito mais a Libres antes. Desde que a minha filha nasceu, fui muito pouco. Ia desde no supermercado, comprar coisas diferentes, at\u00e9 fazer banho de luz, porque l\u00e1 \u00e9 permitido. Fazia l\u00e1 as fantasias para desfilar no Carnaval. N\u00e3o sei, \u00e9 uma cidade que eu achava meio feia. N\u00e3o sei nem qual \u00e9 a principal economia de l\u00e1. Mas eu gostava de ir, sempre tinha coisas diferentes\u201d, conta a advogada Luiza Ceolin, 33 anos, sobre a pequena cidade que se encontra na outra margem do rio, que ela v\u00ea da janela de seu apartamento.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-container-5 wp-block-gallery-4 wp-block-gallery alignwide columns-2 is-cropped\"><ul class=\"blocks-gallery-grid\"><li class=\"blocks-gallery-item\"><figure><img loading=\"lazy\" width=\"1024\" height=\"768\" src=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/sextante\/wp-content\/uploads\/2020\/11\/Janela1_Valentina-2.jpeg\" alt=\"\" data-id=\"799\" data-full-url=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/sextante\/wp-content\/uploads\/2020\/11\/Janela1_Valentina-2.jpeg\" data-link=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/sextante\/?attachment_id=799\" class=\"wp-image-799\" srcset=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/sextante\/wp-content\/uploads\/2020\/11\/Janela1_Valentina-2.jpeg 1024w, https:\/\/www.ufrgs.br\/sextante\/wp-content\/uploads\/2020\/11\/Janela1_Valentina-2-300x225.jpeg 300w, https:\/\/www.ufrgs.br\/sextante\/wp-content\/uploads\/2020\/11\/Janela1_Valentina-2-768x576.jpeg 768w\" sizes=\"(max-width: 1024px) 100vw, 1024px\" \/><\/figure><\/li><li class=\"blocks-gallery-item\"><figure><img loading=\"lazy\" width=\"1024\" height=\"768\" src=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/sextante\/wp-content\/uploads\/2020\/11\/Janela2_Valentina-3.jpeg\" alt=\"\" data-id=\"800\" data-full-url=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/sextante\/wp-content\/uploads\/2020\/11\/Janela2_Valentina-3.jpeg\" data-link=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/sextante\/?attachment_id=800\" class=\"wp-image-800\" srcset=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/sextante\/wp-content\/uploads\/2020\/11\/Janela2_Valentina-3.jpeg 1024w, https:\/\/www.ufrgs.br\/sextante\/wp-content\/uploads\/2020\/11\/Janela2_Valentina-3-300x225.jpeg 300w, https:\/\/www.ufrgs.br\/sextante\/wp-content\/uploads\/2020\/11\/Janela2_Valentina-3-768x576.jpeg 768w\" sizes=\"(max-width: 1024px) 100vw, 1024px\" \/><\/figure><\/li><\/ul><figcaption class=\"blocks-gallery-caption\">Em Uruguaiana, a janela que inspirou a reportagem revela a fronteira. Vemos a mata ciliar do Rio Uruguai, suas \u00e1guas e a Ponte Internacional Get\u00falio Vargas-Agust\u00edn Pedro Justo, que liga o Brasil \u00e0 cidade de Pasos de Los Libres, na Argentina. A regi\u00e3o \u00e9 um dos maiores portos secos da Am\u00e9rica Latina | Foto: Luiza Ceolin \/ Arquivo Pessoal<br><\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p>Paso de Los Libres, na Argentina, tem cerca de 40 mil habitantes e faz fronteira com Uruguaiana, no Rio Grande do Sul, cidade com cerca de 130 mil habitantes, onde Luiza mora. As cidades s\u00e3o divididas pelo Rio Uruguai e unidas pela Ponte Internacional. Muitas pessoas trabalham em um lado e vivem no outro, ou t\u00eam amigos e familiares no pa\u00eds fronteiri\u00e7o. Mas a pandemia<a rel=\"noreferrer noopener\" href=\"https:\/\/oglobo.globo.com\/mundo\/pandemia-da-covid-19-isola-populacoes-torna-triplice-fronteira-irreconhecivel-24526687\" target=\"_blank\"><strong> alterou a din\u00e2mica de vizinhan\u00e7a<\/strong><\/a> dos munic\u00edpios e impediu o tr\u00e2nsito de pessoas.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>As fronteiras da Argentina est\u00e3o<a rel=\"noreferrer noopener\" href=\"https:\/\/noticias.uol.com.br\/ultimas-noticias\/rfi\/2020\/03\/16\/coronavirus-argentina-fecha-todas-as-suas-fronteiras-a-estrangeiros-inclusive-aos-brasileiros.htm\" target=\"_blank\"> <strong>fechadas para estrangeiros<\/strong><\/a> desde 17 de mar\u00e7o, e a medida foi estendida at\u00e9 novembro. Apenas argentinos e residentes no pa\u00eds podem entrar, realizando quarentena obrigat\u00f3ria por 14 dias. A exce\u00e7\u00e3o \u00e9 para pessoas que transportam mercadorias por operadoras de com\u00e9rcio internacional. Em mar\u00e7o, o Brasil tamb\u00e9m<a rel=\"noreferrer noopener\" href=\"https:\/\/agenciabrasil.ebc.com.br\/saude\/noticia\/2020-03\/governo-proibe-temporariamente-entrada-de-estrangeiros-no-brasil\" target=\"_blank\"> <strong>fechou suas fronteiras<\/strong><\/a>, mas com regras mais flex\u00edveis. A medida n\u00e3o inclui alguns grupos, como brasileiros nascidos no pa\u00eds ou naturalizados, imigrantes com resid\u00eancia permanente, funcion\u00e1rios do exterior cadastrados junto \u00e0s autoridades, estrangeiros a servi\u00e7o de \u00f3rg\u00e3os internacionais e parentes de brasileiros, como pais, filhos e c\u00f4njuges. Em 29 de julho, o governo assinou uma<a rel=\"noreferrer noopener\" href=\"https:\/\/www1.folha.uol.com.br\/cotidiano\/2020\/07\/brasil-deve-reabrir-fronteira-para-estrangeiro-com-seguro-saude-e-teste-negativo-de-covid.shtml\" target=\"_blank\"> <strong>portaria que permite a entrada<\/strong><\/a> de estrangeiros no pa\u00eds por transporte a\u00e9reo, desde que cumpram alguns requisitos. As fronteiras terrestres at\u00e9 novembro seguiam fechadas.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>O isolamento social de alguns foi agravado por essas barreiras geopol\u00edticas. Na paisagem que pode ser contemplada da sala de estar, Luiza, moradora de Uruguaiana, enxerga um lugar pr\u00f3ximo, vis\u00edvel, mas que nunca esteve t\u00e3o distante. No momento, ficam as mem\u00f3rias desse outro, que habita a margem de l\u00e1: \u201cAntes, em Uruguaiana, n\u00e3o tinha quase nada de restaurantes. Eu ia muito \u00e0 Argentina jantar. Uma coisa que marcou o in\u00edcio do meu namoro com meu marido foi ir no restaurante Casaredo em Libres. Eu amava, e nos d\u00e1 muita saudade, sempre lembramos disso.\u201d<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote has-text-align-right\"><p>No in\u00edcio da pandemia, a Fronteira Oeste foi palco de um processo in\u00e9dito na hist\u00f3ria do Brasil e da Argentina: serviu como \u00fanica passagem para a repatria\u00e7\u00e3o de milhares de pessoas<\/p><\/blockquote>\n\n\n\n<p>No in\u00edcio da pandemia, a Fronteira Oeste foi palco de um processo in\u00e9dito na hist\u00f3ria dos dois pa\u00edses: serviu como<a rel=\"noreferrer noopener\" href=\"https:\/\/gauchazh.clicrbs.com.br\/coronavirus-servico\/noticia\/2020\/04\/brasileiros-que-estavam-na-argentina-sao-repatriados-pela-fronteira-de-uruguaiana-ck8kml73901e401pms94n74p3.html)%20(%20https:\/estado.rs.gov.br\/argentina-autoriza-repatriacao-apos-dialogo-com-governo-brasileiro\" target=\"_blank\"> \u00fanica passagem<\/a> para a repatria\u00e7\u00e3o de milhares de pessoas. As embaixadas e consulados das duas na\u00e7\u00f5es organizaram ve\u00edculos fretados para facilitar o retorno dos seus cidad\u00e3os. Muitos argentinos encontravam-se em f\u00e9rias no litoral brasileiro quando tiveram de retornar \u00e0s suas casas, e o limite de entrada da fronteira era de 500 pessoas por dia, o que tornou o processo mais longo. Da janela, Luiza consegue ver o movimento na ponte, se tem filas de carro, se o rio est\u00e1 baixo demais ou se h\u00e1 enchente. \u201cEnxergamos tudo, as pessoas que v\u00eam tirar foto no p\u00f4r do sol, os barcos chegando e saindo, at\u00e9 se est\u00e1 pegando fogo no lix\u00e3o de Libres. \u00c0s vezes os caminh\u00f5es buzinam sem parar na ponte, n\u00e3o sei o motivo. Tamb\u00e9m escutamos muitos passarinhos\u201d, relata.<\/p>\n\n\n\n<p>A fronteira \u00e9 separa\u00e7\u00e3o entre \u201cn\u00f3s\u201d e \u201celes\u201d, uma demarca\u00e7\u00e3o que estabiliza na\u00e7\u00f5es. \u00c9 tamb\u00e9m um espa\u00e7o de encontro entre culturas, uma cria\u00e7\u00e3o humana que possui car\u00e1ter hist\u00f3rico. A pandemia causou efeitos peculiares nas fronteiras mundo afora, e nos vizinhos Brasil e Argentina n\u00e3o foi diferente.<\/p>\n\n\n\n<h5>A LINHA DO HORIZONTE<\/h5>\n\n\n\n<p><em>Divis\u00e3o do c\u00e9u e da \u00e1gua. Inating\u00edvel. Limite de alcance da vis\u00e3o.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>Encontrei Hector Daniel Ravasol em uma sinaleira da rua XV de Novembro, umas das principais vias de Uruguaiana. Pedia dinheiro e segurava uma placa que tentava resumir sua hist\u00f3ria: argentino casado com brasileira que n\u00e3o pode entrar no seu pa\u00eds.&nbsp; Hector, 39 anos, \u00e9 pintor de paredes e perdeu o emprego na empresa em que trabalhava, em Londrina, no Paran\u00e1, no in\u00edcio da pandemia.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-large\"><img loading=\"lazy\" width=\"768\" height=\"1024\" src=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/sextante\/wp-content\/uploads\/2020\/11\/Hector1_Valentina-768x1024.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-801\" srcset=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/sextante\/wp-content\/uploads\/2020\/11\/Hector1_Valentina-768x1024.jpg 768w, https:\/\/www.ufrgs.br\/sextante\/wp-content\/uploads\/2020\/11\/Hector1_Valentina-225x300.jpg 225w, https:\/\/www.ufrgs.br\/sextante\/wp-content\/uploads\/2020\/11\/Hector1_Valentina-1152x1536.jpg 1152w, https:\/\/www.ufrgs.br\/sextante\/wp-content\/uploads\/2020\/11\/Hector1_Valentina-1536x2048.jpg 1536w, https:\/\/www.ufrgs.br\/sextante\/wp-content\/uploads\/2020\/11\/Hector1_Valentina-1568x2091.jpg 1568w, https:\/\/www.ufrgs.br\/sextante\/wp-content\/uploads\/2020\/11\/Hector1_Valentina-scaled.jpg 1920w\" sizes=\"(max-width: 768px) 100vw, 768px\" \/><figcaption>Com a pandemia, Hector ficou meses dependendo de doa\u00e7\u00f5es enquanto aguardava a autoriza\u00e7\u00e3o para a companheira brasileira poder ingressar na Argentina | Foto: Valentina Gindri<br><\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p>Nascido em Ros\u00e1rio, na Argentina, Hector foi para S\u00e3o Paulo seis anos atr\u00e1s para trabalhar em uma construtora. Em seguida mudou-se para Londrina, tamb\u00e9m a trabalho, onde vivia at\u00e9 perder o emprego. No Paran\u00e1, conheceu a esposa, Mirielle Massa da Silva, 24 anos, que estava em situa\u00e7\u00e3o de rua antes de morarem juntos. No final de mar\u00e7o, ela fazia faxina em algumas casas e, assim como o marido, perdeu a fonte de renda. Para tornar a situa\u00e7\u00e3o ainda mais dif\u00edcil, Mirielle descobriu que estava gr\u00e1vida. Desamparados, resolveram voltar \u00e0 Argentina, onde Hector tem fam\u00edlia: m\u00e3e, irm\u00e3os e uma filha adulta.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote has-text-align-right\"><p>\u201cFoi muito sofrido. Algumas pessoas paravam pra dar carona, a maioria n\u00e3o. Passamos por chuva, frio, fome. Muitas vezes tendo que dormir na estrada. E com a esposa&#8230; Eu te conto agora assim, mas foi muito sofrido\u201d<\/p><cite><strong>HECTOR DANIEL RAVASOL<\/strong>,&nbsp; argentino que aguarda entrada da companheira em seu pa\u00eds<\/cite><\/blockquote>\n\n\n\n<p>Sem recursos e sem muita informa\u00e7\u00e3o, foram at\u00e9 Foz do Igua\u00e7u, divisa com a cidade argentina de Puerto Iguazu. Ap\u00f3s diversos dias de carona para percorrer o trajeto de cerca de 500 quil\u00f4metros, chegaram na cidade para descobrir que a \u00fanica fronteira aberta era a de Uruguaiana com Paso de Los Libres. Enfrentaram novamente um \u00e1rduo percurso: \u201cFoi muito sofrido, mo\u00e7a. Algumas pessoas paravam pra dar carona, a maioria n\u00e3o. Passamos por chuva, frio, fome. Muitas vezes tendo que dormir na estrada. E com a esposa&#8230; Eu te conto agora assim, mas foi muito sofrido\u201d \u2013 seus olhos ficam cheios de l\u00e1grimas. Hector fala em espanhol, acrescentando algumas palavras em portugu\u00eas \u00e0s frases. Os fonemas finais se estendem ainda mais que o usual. Sinto que algo se esconde no ritmo cantado do acento argentino: o desespero. Depois de quase dois meses, no final de junho, chegaram em Uruguaiana. No entanto, como brasileira, Mirielle n\u00e3o poderia passar. Com tr\u00eas meses de gravidez, ela contraiu hepatite &#8211; que agora j\u00e1 foi tratada &#8211;  e sofreu um aborto espont\u00e2neo. \u201cSe Deus quis assim, talvez seja pra melhor\u201d, diz.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Ele relata ter ido in\u00fameras vezes ao consulado argentino em Uruguaiana para pedir ajuda. Uma das instru\u00e7\u00f5es recebidas foi de que se casasse oficialmente, o que poderia permitir a entrada de Mirielle na Argentina. Para isso, contaram com a ajuda de James Alex Perini, representante de vendas de uma concession\u00e1ria que fica na esquina da sinaleira onde Hector costuma pedir dinheiro. \u201cLi o cartaz, me aproximei e ele me contou sua hist\u00f3ria. Perguntei o que faltava para eles cruzarem para o outro lado, e ele me disse que um documento de casamento do cart\u00f3rio\u201d, relata. Trabalhando com vendas de carro, Alex tem contato rotineiro com um cart\u00f3rio. Ligou, explicou a situa\u00e7\u00e3o de Hector e disse que enviaria a taxa&nbsp;de 94&nbsp; reais para o registro na mesma tarde. \u201cEles me disseram que, dada a situa\u00e7\u00e3o, n\u00e3o iriam cobrar, quiseram abra\u00e7ar a causa junto. Ent\u00e3o peguei 100 reais que usaria para isso e entreguei para ele pra que comprasse shampoo, pasta de dente, sabonete, alguma comida.&nbsp; Vi que ele estava com o cabelo sujo, o aspecto n\u00e3o muito bom.\u201d<\/p>\n\n\n\n<p>Assim, no dia 2 de setembro, os dois reconheceram a uni\u00e3o est\u00e1vel no cart\u00f3rio. O pintor levou a certid\u00e3o \u00e0s inst\u00e2ncias respons\u00e1veis, aguardou alguns dias e, mesmo com a rela\u00e7\u00e3o reconhecida, recebeu a not\u00edcia de que o pedido de entrada de Mirielle havia sido negado pela chancelaria de Buenos Aires. \u201cPor que fizeram eu casar se n\u00e3o ia passar? Tudo bem que um dia ia ter que fazer [<em>o casamento<\/em>], mas n\u00e3o assim. Fico at\u00e9 com vergonha de ver o mo\u00e7o da loja aqui na rua, ele me ajudou com os tr\u00e2mites e eu ainda estou aqui\u201d, desabafa Hector.<\/p>\n\n\n\n<p>Enquanto aguardam novas resolu\u00e7\u00f5es, batalham para pagar a comida e o aluguel de 400 reais mensais do quarto de albergue onde est\u00e3o hospedados em Uruguaiana. \u201cEu trabalho h\u00e1 mais de 20 anos com pintura, sou muito qualificado, fa\u00e7o de tudo: \u00f3leo, textura, subo em andaime&#8230; aqui recorri a todas as constru\u00e7\u00f5es, achei um biquinho de tr\u00eas dias, que n\u00e3o deu quase nada. Estou tendo que mendigar. \u00c9 muito doloroso isso.\u201d Quando finalmente conseguirem cruzar a ponte, ser\u00e1 a primeira vez de Mirielle na Argentina. Por enquanto, Hector comunica-se com os familiares de Ros\u00e1rio por liga\u00e7\u00f5es feitas no consulado, j\u00e1 que vendeu o celular. \u201cMinha fam\u00edlia de l\u00e1 \u00e9 muito pobre, n\u00e3o tem como mandar ajuda. Mas pelo menos temos onde morar. S\u00f3 quero voltar ao meu pa\u00eds com ela,\u201d diz, como quem tenta alcan\u00e7ar um horizonte pr\u00f3ximo, concreto, mas intoc\u00e1vel.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-large\"><img loading=\"lazy\" width=\"768\" height=\"1024\" src=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/sextante\/wp-content\/uploads\/2020\/11\/Hector2_Valentina-768x1024.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-802\" srcset=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/sextante\/wp-content\/uploads\/2020\/11\/Hector2_Valentina-768x1024.jpg 768w, https:\/\/www.ufrgs.br\/sextante\/wp-content\/uploads\/2020\/11\/Hector2_Valentina-225x300.jpg 225w, https:\/\/www.ufrgs.br\/sextante\/wp-content\/uploads\/2020\/11\/Hector2_Valentina-1152x1536.jpg 1152w, https:\/\/www.ufrgs.br\/sextante\/wp-content\/uploads\/2020\/11\/Hector2_Valentina-1536x2048.jpg 1536w, https:\/\/www.ufrgs.br\/sextante\/wp-content\/uploads\/2020\/11\/Hector2_Valentina-1568x2091.jpg 1568w, https:\/\/www.ufrgs.br\/sextante\/wp-content\/uploads\/2020\/11\/Hector2_Valentina-scaled.jpg 1920w\" sizes=\"(max-width: 768px) 100vw, 768px\" \/><figcaption>Hector e Mirielle est\u00e3o hospedados em um albergue desde a chegada em Uruguaiana. O casamento foi um requisito burocr\u00e1tico que cumpriram \u00e0s pressas na esperan\u00e7a de poder viver juntos no pa\u00eds natal de Hector, para onde ainda n\u00e3o conseguiram ir | Foto: Valentina Gindri<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<h5>a PONTE<\/h5>\n\n\n\n<p><em>Interliga pontos separados. Transp\u00f5e obst\u00e1culos. Une um ao outro.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>A m\u00e9dica argentina Ver\u00f3nica Riquelme Mart\u00ednez, 39 anos, viu no Brasil uma oportunidade de ter mais tempo com a fam\u00edlia. Especializada em cl\u00ednica m\u00e9dica, Ver\u00f3nica conta que na Argentina, para conseguir um bom sal\u00e1rio na sua especialidade, precisava fazer muitos plant\u00f5es: \u201cNo final da resid\u00eancia, eu j\u00e1 tinha um filho e uma beb\u00ea de meses. Fazia quatro plant\u00f5es por semana e estava perdendo a inf\u00e2ncia deles\u201d. Buscando compatibilizar melhor a profiss\u00e3o e a fam\u00edlia e inspirando-se na experi\u00eancia de uma colega, ingressou, em 2014, no Programa Mais M\u00e9dicos. \u201cEla contou que as coisas prometidas eram certas: quanto aos hor\u00e1rios, a qualidade do acolhimento, a relev\u00e2ncia do trabalho, disse que tudo era bom. O desafio era simplesmente aprender algo novo e conseguir uma melhor qualidade de vida.\u201d<\/p>\n\n\n\n<p>&nbsp;Ver\u00f3nica foi alocada em Uruguaiana, assim a fam\u00edlia p\u00f4de seguir morando na Argentina, mudando-se de S\u00e3o Salvador de Jujuy, no extremo norte do pa\u00eds, para Libres. \u201cAntes eu quase nem via minha beb\u00ea. Quando viemos para c\u00e1, nossa vida mudou radicalmente, nunca mais precisei dormir fora de casa.\u201d Com a pandemia bloqueando o fluxo entre as cidades, Ver\u00f3nica viu-se novamente diante do dilema entre fam\u00edlia e trabalho. \u201cAchei isso uma <em>paradoja<\/em>. Como se diz em portugu\u00eas?\u201d, pergunta. \u201cParadoxo, com x\u201d, respondo. \u201cBem, achei um paradoxo. Eu vim pro Brasil buscando estar perto da minha fam\u00edlia, e o contrato permitiu isso, mas veio essa situa\u00e7\u00e3o at\u00edpica e fiquei impedida de v\u00ea-los.\u201d&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-large\"><img loading=\"lazy\" width=\"1024\" height=\"576\" src=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/sextante\/wp-content\/uploads\/2020\/11\/Veronica1_Valentina-2-1024x576.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-805\" srcset=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/sextante\/wp-content\/uploads\/2020\/11\/Veronica1_Valentina-2-1024x576.jpg 1024w, https:\/\/www.ufrgs.br\/sextante\/wp-content\/uploads\/2020\/11\/Veronica1_Valentina-2-300x169.jpg 300w, https:\/\/www.ufrgs.br\/sextante\/wp-content\/uploads\/2020\/11\/Veronica1_Valentina-2-768x432.jpg 768w, https:\/\/www.ufrgs.br\/sextante\/wp-content\/uploads\/2020\/11\/Veronica1_Valentina-2.jpg 1366w\" sizes=\"(max-width: 1024px) 100vw, 1024px\" \/><figcaption>Ver\u00f3nica celebrando \u00e0 dist\u00e2ncia o anivers\u00e1rio de 7 anos da filha, Catalina | Fotos: Arquivo Pessoal<br><\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<div class=\"wp-block-image\"><figure class=\"alignleft size-large is-resized\"><img loading=\"lazy\" src=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/sextante\/wp-content\/uploads\/2020\/11\/Veronica2_Valentina-2.png\" alt=\"\" class=\"wp-image-806\" width=\"480\" height=\"365\" srcset=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/sextante\/wp-content\/uploads\/2020\/11\/Veronica2_Valentina-2.png 505w, https:\/\/www.ufrgs.br\/sextante\/wp-content\/uploads\/2020\/11\/Veronica2_Valentina-2-300x228.png 300w\" sizes=\"(max-width: 480px) 100vw, 480px\" \/><figcaption>Ainda em abril, Ver\u00f3nica desabafa numa rede social: &#8220;Contando os dias sem saber quantos faltam&#8221;. Na imagem, o pai abra\u00e7a o filho mais novo. A&nbsp; fam\u00edlia s\u00f3 voltaria a se reencontrar no final de agosto| Foto: Arquivo Pessoal<br><\/figcaption><\/figure><\/div>\n\n\n\n<p> A fam\u00edlia, composta pelo marido, produtor de eventos e fot\u00f3grafo, o filho mais velho, de 14 anos, a filha, de 7, e o filho mais novo, de 4 anos, fazia quarentena obrigat\u00f3ria em Libres por ter retornado das f\u00e9rias no litoral catarinense quando o tr\u00e2nsito de pessoas na fronteira foi proibido. O per\u00edodo da m\u00e9dica com o Mais M\u00e9dicos havia terminado, e ela se preparava para assumir um novo contrato junto \u00e0 Secretaria de Sa\u00fade de Uruguaiana. \u201cForam duas semanas bem estressantes. O que nos incomodava n\u00e3o era tanto a pandemia em si, mas o que \u00edamos fazer de nossa fam\u00edlia. Eu estava no debate interno, mais uma vez, sobre voca\u00e7\u00e3o e fam\u00edlia&#8230; e, no dia a dia, a gente escutava as not\u00edcias, via que as medidas em Uruguaiana come\u00e7avam a se desenvolver, o centro de triagem era montado. Ficava angustiada de saber que precisavam de mim do outro lado.\u201d Num primeiro momento, o isolamento de Ver\u00f3nica em Libres era compuls\u00f3rio, mas, quando as duas semanas terminassem, teria de decidir: \u201cA\u00ed meu marido me disse: vai. Fica tranquila, as crian\u00e7as v\u00e3o ficar bem, vou me ocupar de tudo. Se tu ficar aqui sabendo que l\u00e1 tem pessoas te necessitando, tu n\u00e3o vai estar bem. Assim foi, juntei minhas coisas pensando que estaria longe no m\u00e1ximo dois meses.\u201d<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote has-text-align-right\"><p>&#8220;O que nos incomodava n\u00e3o era tanto a pandemia em si, mas o que \u00edamos fazer de nossa fam\u00edlia. Eu estava no debate interno, mais uma vez, sobre voca\u00e7\u00e3o e fam\u00edlia\u201d<\/p><cite><strong>VER\u00d3NICA RIQUELME MART\u00cdNEZ<\/strong>, m\u00e9dica argentina que trabalha no Brasil<\/cite><\/blockquote>\n\n\n\n<p>Ver\u00f3nica cruzou a fronteira em 31 de mar\u00e7o e n\u00e3o retornou mais para Argentina. O longo per\u00edodo distante e a incerteza quanto ao<a rel=\"noreferrer noopener\" href=\"https:\/\/gauchazh.clicrbs.com.br\/colunistas\/rodrigo-lopes\/noticia\/2020\/10\/rs-tentara-flexibilizar-restricoes-de-circulacao-nas-fronteiras-com-uruguai-e-argentina-ckggmrd7s0037015xgixwif3p.html\" target=\"_blank\"> futuro da pandemia<\/a> fizeram a fam\u00edlia tomar uma nova decis\u00e3o: mudar a resid\u00eancia para o Brasil. \u201cResolvemos fazer a maior, a grande mudan\u00e7a de nossas vidas. Sa\u00ed da casa da amiga que estava me acolhendo e aluguei um apartamento.\u201d A burocracia exigiu paci\u00eancia, por\u00e9m, conseguiram reivindicar o direito de reunifica\u00e7\u00e3o familiar e, em 28 de agosto, a fam\u00edlia p\u00f4de viver junta novamente.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<div class=\"wp-block-image\"><figure class=\"alignright size-large is-resized\"><img loading=\"lazy\" src=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/sextante\/wp-content\/uploads\/2020\/11\/Veronica4_Valentina-3.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-812\" width=\"395\" height=\"526\" srcset=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/sextante\/wp-content\/uploads\/2020\/11\/Veronica4_Valentina-3.jpg 720w, https:\/\/www.ufrgs.br\/sextante\/wp-content\/uploads\/2020\/11\/Veronica4_Valentina-3-225x300.jpg 225w\" sizes=\"(max-width: 395px) 100vw, 395px\" \/><figcaption>A m\u00e9dica Ver\u00f3nica atende pacientes na zona rural por meio do servi\u00e7o itinerante de sa\u00fade do munic\u00edpio de Uruguaiana | Foto: Arquivo pessoal<br><\/figcaption><\/figure><\/div>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-left\">Nos cinco meses em que ficaram distantes, Ver\u00f3nica fez v\u00eddeo chamadas todos os dias, e a tecnologia foi a ponte para muita troca de afeto, conex\u00e3o e di\u00e1logo. \u201cLigava do trabalho, mostrava o que estava fazendo, queria que soubessem por que a fam\u00edlia fazia aquele sacrif\u00edcio. No centro de triagem, mostrava os equipamentos de prote\u00e7\u00e3o, explicava sobre a Covid-19.\u201d Da Argentina, Ver\u00f3nica sente muita falta dos pais e irm\u00e3os. Apesar de o casal j\u00e1 morar longe dos familiares, a pandemia revestiu a dist\u00e2ncia de novos significados: \u201cNo ano passado, nessa \u00e9poca, estar\u00edamos longe, mas sabendo que faltava pouco para o Natal, quando nos reencontramos. Estar\u00edamos longe, mas bem. Este ano \u00e9 diferente, sofremos mais. N\u00e3o temos op\u00e7\u00e3o. Poder\u00edamos cruzar at\u00e9 a p\u00e9 a ponte, mesmo assim estamos impedidos.\u201d Al\u00e9m disso, a m\u00e9dica sente saudades dos amigos. Acompanha os colegas de profiss\u00e3o por telefone e aponta que na sua regi\u00e3o, Jujuy, a situa\u00e7\u00e3o da pandemia est\u00e1<a href=\"https:\/\/noticias.r7.com\/internacional\/sistema-de-saude-da-argentina-esta-no-limite-com-avanco-da-pandemia-03092020\"> bastante cr\u00edtica<\/a>. \u201cEu sinto falta de estar l\u00e1, junto deles, dando luta. Um dos meus amigos ficou vi\u00favo tr\u00eas dias atr\u00e1s, um grande professor meu est\u00e1 grave na UTI. Aquela \u00e9 a parte mais afetada do pa\u00eds, o sistema sanit\u00e1rio beirou o colapso. \u00c9 muito duro a gente estar aqui, pensando nos que est\u00e3o l\u00e1.\u201d&nbsp; <\/p>\n\n\n\n<div class=\"wp-container-6 wp-block-group\"><div class=\"wp-block-group__inner-container\">\n<div class=\"wp-block-image\"><figure class=\"aligncenter size-large\"><img loading=\"lazy\" width=\"1024\" height=\"768\" src=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/sextante\/wp-content\/uploads\/2020\/11\/Veronica3_Valentina-3-1024x768.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-811\" srcset=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/sextante\/wp-content\/uploads\/2020\/11\/Veronica3_Valentina-3-1024x768.jpg 1024w, https:\/\/www.ufrgs.br\/sextante\/wp-content\/uploads\/2020\/11\/Veronica3_Valentina-3-300x225.jpg 300w, https:\/\/www.ufrgs.br\/sextante\/wp-content\/uploads\/2020\/11\/Veronica3_Valentina-3-768x576.jpg 768w, https:\/\/www.ufrgs.br\/sextante\/wp-content\/uploads\/2020\/11\/Veronica3_Valentina-3.jpg 1440w\" sizes=\"(max-width: 1024px) 100vw, 1024px\" \/><figcaption>Ver\u00f3nica  trabalha com uma equipe no centro de triagem de Uruguaiana | Foto: Arquivo pessoal<br><\/figcaption><\/figure><\/div>\n<\/div><\/div>\n\n\n\n<h5>O RIO<\/h5>\n\n\n\n<p><em>Flui. Adapta-se \u00e0s escarpas do caminho. Segue a correnteza.<\/em>&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Enara Pilar da Silva, 49 anos, tem uma banca de brinquedos na Baixada, um cal\u00e7ad\u00e3o comercial de Uruguaiana. Conheceu o marido argentino, Andres Hartvig, quando ele fazia turismo no Brasil, e est\u00e3o juntos h\u00e1 29 anos. Andres trabalha em Buenos Aires e, durante toda a vida juntos, o casal alternou-se entre as duas cidades: ela passava uma semana l\u00e1, ele passava uma semana em Uruguaiana. \u201cEm todos esses anos, ficamos no m\u00e1ximo 20 dias sem um ir ver o outro,\u201d conta Enara. Agora, o casal, que tem dois filhos, est\u00e1 h\u00e1 oito meses sem encontrar-se. \u201cFalamos todos os dias pelo Whats, a qualquer hora. Ele chora, eu choro. \u00c0s vezes parece at\u00e9 pior se falar, sabe.\u201d Um dos momentos mais desafiadores do distanciamento foi quando, ainda em mar\u00e7o, a filha mais nova do casal, de 16 anos, teve uma pneumonia e ficou 20 dias na UTI, tendo que passar por duas cirurgias. Os filhos moram com a m\u00e3e, e o pai n\u00e3o p\u00f4de estar presente para apoiar a fam\u00edlia.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote has-text-align-right\"><p>\u201cEm todos esses anos, ficamos no m\u00e1ximo 20 dias sem um ir ver o outro\u201d<\/p><cite><strong>ENARA PILAR<\/strong>, brasileira casada com um argentino.<\/cite><\/blockquote>\n\n\n\n<p>Enara relata que, de acordo com as regras vigentes na capital argentina, o marido tampouco pode deslocar-se a outro munic\u00edpio dentro do pa\u00eds. \u201cSe abrissem as fronteiras internas, ele poderia vir ao menos at\u00e9 Libres. Aqui a gente se virava, nem que fosse nadando daria pra estar junto.\u201d&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<div class=\"wp-block-image\"><figure class=\"aligncenter size-large\"><img loading=\"lazy\" width=\"768\" height=\"1024\" src=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/sextante\/wp-content\/uploads\/2020\/11\/Enara1_Valentina-768x1024.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-813\" srcset=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/sextante\/wp-content\/uploads\/2020\/11\/Enara1_Valentina-768x1024.jpg 768w, https:\/\/www.ufrgs.br\/sextante\/wp-content\/uploads\/2020\/11\/Enara1_Valentina-225x300.jpg 225w, https:\/\/www.ufrgs.br\/sextante\/wp-content\/uploads\/2020\/11\/Enara1_Valentina-1152x1536.jpg 1152w, https:\/\/www.ufrgs.br\/sextante\/wp-content\/uploads\/2020\/11\/Enara1_Valentina-1536x2048.jpg 1536w, https:\/\/www.ufrgs.br\/sextante\/wp-content\/uploads\/2020\/11\/Enara1_Valentina-1568x2091.jpg 1568w, https:\/\/www.ufrgs.br\/sextante\/wp-content\/uploads\/2020\/11\/Enara1_Valentina-scaled.jpg 1920w\" sizes=\"(max-width: 768px) 100vw, 768px\" \/><figcaption>Enara tem uma banca de brinquedos perto do acesso \u00e0 Ponte Internacional, a qual a comerciante costumava atravessar regularmente para ir ao encontro do marido | Foto: Valentina Gindri<\/figcaption><\/figure><\/div>\n\n\n\n<p>Andres trabalha com presta\u00e7\u00e3o de servi\u00e7os para empresas: pagamento de contas, entregas e compras. Na pandemia, a demanda por seu trabalho at\u00e9 aumentou, enquanto que, no Brasil, Enara teve que ficar alguns per\u00edodos com sua banca fechada. \u201cA sorte \u00e9 que eu tinha um cart\u00e3o de cr\u00e9dito dele aqui para poder usar e consegui aux\u00edlio emergencial, assim supermercado e comida n\u00e3o faltou.\u201d Frustrada com o constante<a rel=\"noreferrer noopener\" href=\"https:\/\/www.elpais.com.uy\/mundo\/argentina-abre-fronteras-paises-limitrofes-partir-noviembre.html\" target=\"_blank\"> adiamento da abertura das fronteiras<\/a>, a vendedora tem a expectativa de reencontrar o marido depois de dezembro: \u201cPelo que ele conta, l\u00e1 rec\u00e9m est\u00e1 crescendo a dissemina\u00e7\u00e3o do v\u00edrus. Tamb\u00e9m acho que as pessoas est\u00e3o mais preocupadas, noiadas demais.\u201d Quanto \u00e0 rela\u00e7\u00e3o, Enara acredita que podem ficar mais pr\u00f3ximos. \u201cS\u00e3o tantos anos, n\u00e3o vamos desanimar. Tem que seguir em frente como d\u00e1, ir se adaptando. Vai ser muito bom matar a saudade. Acho que vai ser diferente depois, vamos valorizar mais a companhia do outro.\u201d Ao entrar uma segunda vez no mesmo rio, encontra-se outras \u00e1guas.<\/p>\n\n\n\n<p>Na pandemia de coronav\u00edrus, as fronteiras da vida parecem ter ficado mais estreitas, r\u00edgidas e at\u00e9 sufocantes. Muitas vezes o limite \u00e9 a soleira da porta, a linha pintada no ch\u00e3o, o vidro da janela. Algumas fronteiras s\u00f3lidas, palp\u00e1veis, e outras nem tanto. \u201cComo acha que est\u00e1 do outro lado?\u201d, pergunto a Luiza. \u201cAcho que deve estar bem complicado, Libres j\u00e1 \u00e9 uma cidade um tanto pobre, e a Argentina j\u00e1 vinha numa situa\u00e7\u00e3o delicada. Sei que l\u00e1 a quarentena foi muito mais r\u00edgida, com regras restritas. Vi v\u00eddeos de pessoas protestando, gritando na rua. Ouvi dizer que em Libres quase n\u00e3o tinha respirador, ent\u00e3o eles precisavam cuidar muito para n\u00e3o entrar ningu\u00e9m infectado na cidade. Ouvi falar tamb\u00e9m que colocavam policiais de guarda na frente das casas de quem havia testado positivo.\u201d<\/p>\n\n\n\n<p>Da janela de Luiza,&nbsp; vemos a linha do horizonte, o rio e a ponte. \u201cQue sentimentos a paisagem da janela te evoca?\u201d, pergunto. \u201c\u00c9 muito bom ter o rio\u201d, diz Luiza. \u201cDeitada no meu quarto, com a janela aberta, enxergo a \u00e1gua e parece que estou num navio. \u00c9 muita paz. A vista e o espa\u00e7o externo me fizeram n\u00e3o enlouquecer com o isolamento. Vejo o verde, a natureza, flores. Sinto tranquilidade. E tamb\u00e9m uma sensa\u00e7\u00e3o at\u00e9 de&#8230;liberdade, sabe?\u201d<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image alignfull size-large\"><img loading=\"lazy\" width=\"1024\" height=\"768\" src=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/sextante\/wp-content\/uploads\/2020\/11\/Janela3-por-do-sol_Valentina-1.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-814\" srcset=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/sextante\/wp-content\/uploads\/2020\/11\/Janela3-por-do-sol_Valentina-1.jpg 1024w, https:\/\/www.ufrgs.br\/sextante\/wp-content\/uploads\/2020\/11\/Janela3-por-do-sol_Valentina-1-300x225.jpg 300w, https:\/\/www.ufrgs.br\/sextante\/wp-content\/uploads\/2020\/11\/Janela3-por-do-sol_Valentina-1-768x576.jpg 768w\" sizes=\"(max-width: 1024px) 100vw, 1024px\" \/><figcaption>Iluminados pelo p\u00f4r-do-sol alaranjado: a ponte, o rio, o horizonte | Foto: Luiza Ceolin \/ Arquivo Pessoal<br><\/figcaption><\/figure>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Na pandemia, o impedimento do tr\u00e2nsito de pessoas entre pa\u00edses impactou profundamente a rotina de quem precisava cruzar a fronteira. 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