{"id":9833,"date":"2023-03-18T16:58:43","date_gmt":"2023-03-18T19:58:43","guid":{"rendered":"https:\/\/www.ufrgs.br\/sextante\/?p=9833"},"modified":"2023-04-03T11:07:29","modified_gmt":"2023-04-03T14:07:29","slug":"o-vazio-da-sepultura","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ufrgs.br\/sextante\/o-vazio-da-sepultura\/","title":{"rendered":"O vazio da sepultura"},"content":{"rendered":"\n<p>Quatrocentos e trinta e quatro. Este \u00e9 o n\u00famero de mortos e desaparecidos durante o per\u00edodo da ditadura militar no Brasil. O dado foi apontado pelo <a href=\"http:\/\/cnv.memoriasreveladas.gov.br\/images\/pdf\/relatorio\/volume_3_digital.pdf\">relat\u00f3rio<\/a> final da Comiss\u00e3o Nacional da Verdade (CNV), institu\u00edda em 2012 pela <a href=\"https:\/\/www.planalto.gov.br\/ccivil_03\/_ato2011-2014\/2011\/lei\/l12528.htm\">Lei 12.528\/2011<\/a>, durante o governo de Dilma Rousseff (PT), e cuja atua\u00e7\u00e3o se estendeu at\u00e9 2014.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Em uma coliga\u00e7\u00e3o de for\u00e7as entre o grande empresariado brasileiro, latifundi\u00e1rios e as For\u00e7as Armadas, em abril de 1964, ocorreu o golpe que deixaria o poder nas m\u00e3os dos militares por 21 anos. Marcado por repress\u00e3o e censura, esse per\u00edodo da hist\u00f3ria brasileira n\u00e3o est\u00e1 apenas nas p\u00e1ginas de livros de Hist\u00f3ria, mas \u00e9 uma marca na vida de centenas de fam\u00edlias que tiveram que lidar com a falta de um reencontro com seus familiares.<\/p>\n\n\n\n<h2 id=\"Araguaia\">Araguaia<\/h2>\n\n\n\n<p>A Guerrilha do Araguaia \u00e9 considerada o maior movimento armado de resist\u00eancia \u00e0 ditadura militar. O conflito ocorreu entre 1972 e 1974 em uma regi\u00e3o de dif\u00edcil acesso entre os estados de Maranh\u00e3o, Par\u00e1 e Tocantins. Ao contr\u00e1rio de outros movimentos, a eclos\u00e3o do combate n\u00e3o partiu dos guerrilheiros, mas das for\u00e7as militares que tinham o objetivo de eliminar o grupo e apag\u00e1-lo da hist\u00f3ria do pa\u00eds. Mais de 60 pessoas foram reconhecidas como presentes no local e dadas como desaparecidas. Com exce\u00e7\u00e3o de poucos casos, suas fam\u00edlias nunca conseguiram reencontrar&nbsp; seus corpos. Jo\u00e3o Carlos Haas Sobrinho \u00e9 uma dessas v\u00edtimas.<\/p>\n\n\n<div class=\"wp-block-image\">\n<figure class=\"alignleft size-large is-resized\"><img loading=\"lazy\" src=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/sextante\/wp-content\/uploads\/2023\/03\/02-Arquivo-Pessoal-663x1024.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-10667\" width=\"406\" height=\"627\" srcset=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/sextante\/wp-content\/uploads\/2023\/03\/02-Arquivo-Pessoal-663x1024.jpg 663w, https:\/\/www.ufrgs.br\/sextante\/wp-content\/uploads\/2023\/03\/02-Arquivo-Pessoal-194x300.jpg 194w, https:\/\/www.ufrgs.br\/sextante\/wp-content\/uploads\/2023\/03\/02-Arquivo-Pessoal-768x1185.jpg 768w, https:\/\/www.ufrgs.br\/sextante\/wp-content\/uploads\/2023\/03\/02-Arquivo-Pessoal.jpg 907w\" sizes=\"(max-width: 406px) 100vw, 406px\" \/><figcaption>Registro da formatura de Jo\u00e3o Carlos, em 1964, j\u00e1 tendo passado por repress\u00f5es militares | Foto: Arquivo Pessoal<\/figcaption><\/figure><\/div>\n\n\n<p>Filho de Ilma e Ildefonso Haas e o segundo de sete irm\u00e3os, natural de S\u00e3o Leopoldo, Jo\u00e3o Carlos foi, desde cedo, um aluno destaque na escola. Em 1958, aos 17 anos, foi aprovado para o curso de Medicina na Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) e se mudou para Porto Alegre, o que deu in\u00edcio a uma nova etapa de sua vida.<\/p>\n\n\n\n<p>Aos poucos, o jovem passou a se envolver com os movimentos estudantis e com o ambiente pol\u00edtico. Em 1963, ainda antes do golpe militar, Jo\u00e3o Carlos&nbsp; foi eleito presidente do centro acad\u00eamico do curso e exerceu o cargo at\u00e9 o ano seguinte, quando foi deposto e preso pelo Departamento de Ordem Pol\u00edtica e Social (Dops), assim como outros l\u00edderes estudantis. Al\u00e9m da pris\u00e3o, que durou menos de 30 dias, houve um pedido por parte dos militares para impedir que Jo\u00e3o Carlos conclu\u00edsse sua gradua\u00e7\u00e3o, o que foi negado pelos professores e pela institui\u00e7\u00e3o de ensino devido ao bom desempenho do aluno no curso.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>A fam\u00edlia do jovem foi pega de surpresa, pois desconhecia seu envolvimento pol\u00edtico, e Ilma tentou fazer o filho abandonar o movimento, mas ele resistiu. \u201cMinha m\u00e3e contou que ele se jogou na cama chorando e disse: por favor, me entenda, eu n\u00e3o posso parar, porque, se tu acredita e admira Jesus Cristo, ent\u00e3o entende a minha causa. Se tu aceita ele, tu tem que aceitar minha causa, e ela ficou sem palavras\u201d, conta S\u00f4nia Haas, de 64 anos, publicit\u00e1ria e irm\u00e3 ca\u00e7ula de Jo\u00e3o Carlos.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image alignwide size-large\"><img loading=\"lazy\" width=\"1024\" height=\"577\" src=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/sextante\/wp-content\/uploads\/2023\/03\/ilustracaoditadura_IsabelaOlerich-1024x577.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-9854\" srcset=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/sextante\/wp-content\/uploads\/2023\/03\/ilustracaoditadura_IsabelaOlerich-1024x577.jpg 1024w, https:\/\/www.ufrgs.br\/sextante\/wp-content\/uploads\/2023\/03\/ilustracaoditadura_IsabelaOlerich-300x169.jpg 300w, https:\/\/www.ufrgs.br\/sextante\/wp-content\/uploads\/2023\/03\/ilustracaoditadura_IsabelaOlerich-768x433.jpg 768w, https:\/\/www.ufrgs.br\/sextante\/wp-content\/uploads\/2023\/03\/ilustracaoditadura_IsabelaOlerich.jpg 1100w\" sizes=\"(max-width: 1024px) 100vw, 1024px\" \/><figcaption>Arte: Isabela Olerich<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p>Ap\u00f3s se formar em 1964 e fazer resid\u00eancia em Porto Alegre at\u00e9 o in\u00edcio de 1966, o m\u00e9dico se mudou para S\u00e3o Paulo, onde faria uma especializa\u00e7\u00e3o. Mas, sem que a fam\u00edlia soubesse, Jo\u00e3o Carlos foi para a China participar de um curso de guerrilha. A partir desse momento, sua comunica\u00e7\u00e3o passou a ser estritamente por cartas, sem que os familiares tivessem um endere\u00e7o para enviar respostas a ele. Quando retornou, Jo\u00e3o Carlos passou um per\u00edodo no Maranh\u00e3o, atuando como m\u00e9dico em uma pequena comunidade antes de ir para a regi\u00e3o do Araguaia. \u201cN\u00e3o se preocupem comigo, eu estou bem.\u201d Esse foi o conte\u00fado da \u00faltima carta que ele enviou para a fam\u00edlia, em 1969.<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote\"><p>\u201cEsse vazio nos acompanha at\u00e9 hoje. Porque a gente n\u00e3o teve esse direito de fazer um sepultamento, de se despedir, ent\u00e3o fica sempre faltando essa essa parte\u201d  <\/p><cite><strong>S\u00d4NIA HAAS<\/strong>, irm\u00e3 mais nova do guerrilheiro Jo\u00e3o Carlos Haas<\/cite><\/blockquote>\n\n\n\n<p>Com base nos relatos de pessoas que conviveram com o m\u00e9dico, houve a confirma\u00e7\u00e3o de que ele havia sido morto durante o conflito, em 1972. Mas seus familiares s\u00f3 tiveram essa certeza nos primeiros anos da d\u00e9cada de 1980, quando S\u00f4nia passou a buscar informa\u00e7\u00f5es sobre o irm\u00e3o. Mesmo com a confirma\u00e7\u00e3o, 51 anos depois, o corpo do m\u00e9dico nunca foi encontrado.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Antes de falecer, em 2001, aos 86 anos, Ilma pediu aos filhos que comprassem um espa\u00e7o no cemit\u00e9rio de S\u00e3o Leopoldo para que, caso o corpo de Jo\u00e3o Carlos fosse encontrado, pudesse ter um local de descanso digno. \u201cEsse vazio nos acompanha at\u00e9 hoje. Porque a gente n\u00e3o teve esse direito de fazer um sepultamento, de se despedir, ent\u00e3o fica sempre faltando essa essa parte\u201d, relata S\u00f4nia.<\/p>\n\n\n\n<p>Esse sentimento n\u00e3o \u00e9 exclusivo da fam\u00edlia de S\u00f4nia, mas cerca aqueles que nunca conseguiram reaver os seus entes queridos. A professora da Universidade Federal do Par\u00e1 (UFPA) Deusa Sousa ouviu 36 familiares de desaparecidos no Araguaia para desenvolver sua <a href=\"https:\/\/repositorio.ufsc.br\/handle\/123456789\/95052\">tese<\/a> de doutorado em Hist\u00f3ria, defendida em 2011, intitulada L\u00e1grimas e lutas: a reconstru\u00e7\u00e3o do mundo de familiares de desaparecidos pol\u00edticos do Araguaia. &#8220;Os familiares tinham uma postura para fora e outra postura dentro de casa, e dentro de casa era uma postura de dor, de sofrimento e de luto permanente\u201d, explica a historiadora.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>De acordo com Deusa, muitas experi\u00eancias t\u00eam similaridades. \u201cAlguns se negavam a trocar o n\u00famero do telefone residencial, porque, durante muito tempo, eles acreditavam, por exemplo, que a pessoa estava presa ou n\u00e3o podia se comunicar, que a pessoa estava em outro pa\u00eds, e tamb\u00e9m n\u00e3o mudavam de endere\u00e7o para o caso de o indiv\u00edduo retornar\u201d, explica.<\/p>\n\n\n<div class=\"wp-block-image\">\n<figure class=\"alignleft size-full is-resized\"><img loading=\"lazy\" src=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/sextante\/wp-content\/uploads\/2023\/03\/Desaparecidos_ditadura_Isabelle_Baiocco.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-9859\" width=\"553\" height=\"482\" srcset=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/sextante\/wp-content\/uploads\/2023\/03\/Desaparecidos_ditadura_Isabelle_Baiocco.jpg 826w, https:\/\/www.ufrgs.br\/sextante\/wp-content\/uploads\/2023\/03\/Desaparecidos_ditadura_Isabelle_Baiocco-300x262.jpg 300w, https:\/\/www.ufrgs.br\/sextante\/wp-content\/uploads\/2023\/03\/Desaparecidos_ditadura_Isabelle_Baiocco-768x669.jpg 768w\" sizes=\"(max-width: 553px) 100vw, 553px\" \/><figcaption>Arte: Isabelle Baiocco<\/figcaption><\/figure><\/div>\n\n\n<p>Esses relatos s\u00e3o alguns dentre muitos de pessoas que tiveram que lidar com uma perda sem ter qualquer tipo de despedida. S\u00e3o m\u00e3es, pais e irm\u00e3os que faleceram sem rever ou ter uma informa\u00e7\u00e3o concreta do familiar que desapareceu. Aqueles que permaneceram passam por uma luta cont\u00ednua, na busca por algum tipo de reencontro e despedida adequada.<\/p>\n\n\n\n<h2 id=\"Na_clandestinidade\">Na clandestinidade<\/h2>\n\n\n\n<p>A rela\u00e7\u00e3o entre Luiz Eurico Lisboa, o Ico, e sua esposa, Suzana Lisboa, aconteceu de forma r\u00e1pida. O casal se conheceu em 1967, quando ela tinha 16 anos e ele, 19.&nbsp; Ela estudava no Col\u00e9gio Estadual J\u00falio de Castilhos, o Julinho, em Porto Alegre. O jovem, o mais velho de sete irm\u00e3os, j\u00e1 havia sa\u00eddo da escola e atuava nos movimentos estudantis como membro da Uni\u00e3o Ga\u00facha dos Estudantes Secund\u00e1rios (Uges). Aos poucos, Suzana tamb\u00e9m come\u00e7ou a se envolver no que ela chama de uma luta por liberdade, ainda nos primeiros anos do governo ditatorial.&nbsp;<\/p>\n\n\n<div class=\"wp-block-image\">\n<figure class=\"alignright size-large is-resized\"><img loading=\"lazy\" src=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/sextante\/wp-content\/uploads\/2023\/03\/03-Arquivo-Pessoal-649x1024.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-10668\" width=\"400\" height=\"630\" srcset=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/sextante\/wp-content\/uploads\/2023\/03\/03-Arquivo-Pessoal-649x1024.jpg 649w, https:\/\/www.ufrgs.br\/sextante\/wp-content\/uploads\/2023\/03\/03-Arquivo-Pessoal-190x300.jpg 190w, https:\/\/www.ufrgs.br\/sextante\/wp-content\/uploads\/2023\/03\/03-Arquivo-Pessoal-768x1211.jpg 768w, https:\/\/www.ufrgs.br\/sextante\/wp-content\/uploads\/2023\/03\/03-Arquivo-Pessoal-974x1536.jpg 974w, https:\/\/www.ufrgs.br\/sextante\/wp-content\/uploads\/2023\/03\/03-Arquivo-Pessoal.jpg 1022w\" sizes=\"(max-width: 400px) 100vw, 400px\" \/><figcaption>Cerim\u00f4nia de casamento de Ico e Suzana, alguns meses antes de darem in\u00edcio \u00e0 vida clandestina | Foto: Arquivo Pessoal<\/figcaption><\/figure><\/div>\n\n\n<p>Ap\u00f3s iniciarem o relacionamento, em 1968, os dois participaram de a\u00e7\u00f5es para reabrir o gr\u00eamio estudantil do col\u00e9gio, onde ela ainda estudava. Em uma das iniciativas, o diretor da escola chamou o Dops, que prendeu Ico e o enquadrou na Lei de Seguran\u00e7a Nacional pela tentativa de reabertura de um entidade ilegal, sendo liberado ap\u00f3s interrogat\u00f3rios. Esse foi o in\u00edcio de uma nova trajet\u00f3ria para a dupla, que se casou em mar\u00e7o de 1969 e, a partir de novembro, passou a viver na clandestinidade, depois de uma condena\u00e7\u00e3o \u00e0 revelia a seis meses de pris\u00e3o para o jovem.<\/p>\n\n\n\n<p>\u201c\u00c9 uma vida muito pesada, abrir m\u00e3o de rela\u00e7\u00f5es, de tudo. N\u00f3s s\u00f3 t\u00ednhamos um ao outro. Eu at\u00e9 arrumava emprego, mesmo com nome falso, e trabalhava, mas para ele era mais dif\u00edcil, porque n\u00e3o tinha um certificado de dispensa militar\u201d, explica Suzana, hoje com 71 anos. A primeira vez que os dois se separaram por mais do que alguns dias foi tamb\u00e9m a \u00faltima. Em julho de 1972, Ico ficou em Porto Alegre, enquanto a esposa teve que ir para S\u00e3o Paulo, inicialmente para passar um per\u00edodo de um m\u00eas, tempo que precisou ser estendido com a morte de um conhecido.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image alignwide size-large\"><img loading=\"lazy\" width=\"1024\" height=\"710\" src=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/sextante\/wp-content\/uploads\/2023\/03\/desaparecidos_na_ditadura--1024x710.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-9853\" srcset=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/sextante\/wp-content\/uploads\/2023\/03\/desaparecidos_na_ditadura--1024x710.jpg 1024w, https:\/\/www.ufrgs.br\/sextante\/wp-content\/uploads\/2023\/03\/desaparecidos_na_ditadura--300x208.jpg 300w, https:\/\/www.ufrgs.br\/sextante\/wp-content\/uploads\/2023\/03\/desaparecidos_na_ditadura--768x532.jpg 768w, https:\/\/www.ufrgs.br\/sextante\/wp-content\/uploads\/2023\/03\/desaparecidos_na_ditadura--1536x1064.jpg 1536w, https:\/\/www.ufrgs.br\/sextante\/wp-content\/uploads\/2023\/03\/desaparecidos_na_ditadura--2048x1419.jpg 2048w, https:\/\/www.ufrgs.br\/sextante\/wp-content\/uploads\/2023\/03\/desaparecidos_na_ditadura--1568x1087.jpg 1568w\" sizes=\"(max-width: 1024px) 100vw, 1024px\" \/><figcaption>Arte: Eduarda Dalavechia<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p>Preocupado com Suzana, o militante resolveu ir at\u00e9 a capital paulista e, naquele momento, o casal se desencontrou, pois ela retornou para o Rio Grande do Sul sem saber que o marido havia ido encontr\u00e1-la. Quando soube disso, voltou para S\u00e3o Paulo, mas j\u00e1 n\u00e3o conseguiu mais ter not\u00edcias de Ico. Em meio a anos de buscas, foi somente em 1979, sete anos depois, que ela encontrou o corpo do esposo, no cemit\u00e9rio Dom Bosco, em S\u00e3o Paulo. Devido \u00e0 constante troca de identidades, Ico utilizava um documento com o nome de Nelson Bueno, que no registro de \u00f3bitos do cemit\u00e9rio constava como morto em setembro de 1972. Foi o primeiro corpo encontrado entre os desaparecidos do per\u00edodo.<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cEu me envolvi mais ainda do que eu j\u00e1 estava envolvida na luta dos familiares. \u00c9 um marco para mim esse momento que encontrei o corpo dele, e eu queria que os outros familiares tamb\u00e9m tivessem essa gra\u00e7a, para, pelo menos na alma, sepultar essa hist\u00f3ria\u201d, conta a vi\u00fava. Na \u00faltima vez que Suzana teve contato com o marido, ele lhe deu um presente: um chaveirinho do Gr\u00eamio, time ga\u00facho pelo qual ela torcia, e rival do Internacional, o time dele. Mesmo 51 anos depois, ela ainda guarda essa \u00faltima lembran\u00e7a de amor.<\/p>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator has-alpha-channel-opacity\"\/>\n\n\n\n<h5><strong>Ou\u00e7a uma sele\u00e7\u00e3o de m\u00fasicas gravadas durante o per\u00edodo e que tentam expressar sentimentos despertados pela censura e persegui\u00e7\u00e3o pol\u00edtica:<\/strong><\/h5>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-embed is-type-rich is-provider-spotify wp-block-embed-spotify wp-embed-aspect-21-9 wp-has-aspect-ratio\"><div class=\"wp-block-embed__wrapper\">\n<iframe title=\"Spotify Embed: O Vazio da Sepultura\" style=\"border-radius: 12px\" width=\"100%\" height=\"352\" frameborder=\"0\" allowfullscreen allow=\"autoplay; clipboard-write; encrypted-media; fullscreen; picture-in-picture\" loading=\"lazy\" src=\"https:\/\/open.spotify.com\/embed\/playlist\/52TguC3EaX0LfMZqRFxVFi?utm_source=oembed\"><\/iframe>\n<\/div><\/figure>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator has-alpha-channel-opacity\"\/>\n\n\n\n<div class=\"wp-container-3 wp-block-columns\">\n<div class=\"wp-container-1 wp-block-column\" style=\"flex-basis:33.33%\">\n<h2>LEIA MAIS<\/h2>\n<\/div>\n\n\n\n<div class=\"wp-container-2 wp-block-column\" style=\"flex-basis:66.66%\">\n<ul><li><a href=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/sextante\/a-disputa-de-memoria-em-espacos-da-cidade\/\">A disputa de mem\u00f3ria em espa\u00e7os da cidade<\/a>: O nome de uma avenida pode simbolizar conflitos sobre narrativas hist\u00f3ricas<\/li><li><a href=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/sextante\/separados-pelo-passado\/\">Separados pelo passado<\/a>: Pessoas que n\u00e3o conheceram suas fam\u00edlias biol\u00f3gicas tentam encontr\u00e1-las desafiando o tempo para reencontrar a pr\u00f3pria hist\u00f3ria<\/li><\/ul>\n<\/div>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Quatrocentos e trinta e quatro. Este \u00e9 o n\u00famero de mortos e desaparecidos durante o per\u00edodo da ditadura militar no Brasil. 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