{"id":9845,"date":"2023-04-02T21:25:40","date_gmt":"2023-04-03T00:25:40","guid":{"rendered":"https:\/\/www.ufrgs.br\/sextante\/?p=9845"},"modified":"2023-04-02T22:35:53","modified_gmt":"2023-04-03T01:35:53","slug":"quando-o-barato-passa","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ufrgs.br\/sextante\/quando-o-barato-passa\/","title":{"rendered":"Quando o barato passa"},"content":{"rendered":"\n<p>Um trago, uma picada, uma cheirada. Agora \u00e9 s\u00f3 esperar que o qu\u00edmico chegue \u00e0 corrente sangu\u00ednea e a lisergia viciante tome conta de cada um dos seus cinco sentidos. O sistema de recompensas libera altas quantidades de dopamina, neurotransmissor respons\u00e1vel pelas sensa\u00e7\u00f5es de prazer, e o \u00eaxtase elimina qualquer sentimento ruim, medo ou sofrimento. \u00c9 uma euforia incr\u00edvel, uma sensa\u00e7\u00e3o fabulosa, como estar em um parque de divers\u00f5es em que as cores cintilam em cada dire\u00e7\u00e3o que a vis\u00e3o possa alcan\u00e7ar, e as notas musicais vibram dentro do lobo frontal. \u00c9 assim que Joaquim, M\u00e1rcio e Jo\u00e3o descrevem as primeiras experi\u00eancias com suas drogas de uso, ou seja, aquelas das quais desenvolveram depend\u00eancia. Esta foi a primeira vez que eles acenderam suas velas.&nbsp;&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Ao lidar com uma desilus\u00e3o amorosa no auge dos seus 20 anos, Joaquim Paulo da Cruz Oliveira, de Porto, Portugal, resolveu descobrir \u2018qual era o barato\u2019 da hero\u00edna. O decorador de eventos, atualmente com 50 anos, conta que o uso foi uma tentativa de abafar a dor que sentia na \u00e9poca \u2013 e funcionou. \u201cJ\u00e1 que a dor era constante, o uso se tornou constante\u201d, revela. Nos tr\u00eas meses seguintes, Joaquim percebeu que havia desenvolvido uma depend\u00eancia f\u00edsica, que, no vocabul\u00e1rio popular, \u00e9 chamada de <em>\u201ccold turkey\u201d<\/em>, quando h\u00e1 sintomas f\u00edsicos da abstin\u00eancia. As dores da ressaca o impediam de realizar tarefas b\u00e1sicas, por isso, a hero\u00edna j\u00e1 n\u00e3o era somente uma forma de se alienar da realidade, mas tamb\u00e9m de aliar-se \u00e0 ela.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cNos tornamos mentirosos compulsivos\u201d, confessa o decorador, ao admitir que expandiu seu uso, passando a injetar a hero\u00edna, ao inv\u00e9s de fum\u00e1-la, e a usar crack. Joaquim n\u00e3o parava em um mesmo emprego por muito tempo, comumente faltava ou se atrasava, chegando a roubar dinheiro do guich\u00ea de atendimento ao p\u00fablico do seu local de trabalho para comprar hero\u00edna. Segundo ele, aos poucos as pessoas a sua volta passaram a trat\u00e1-lo como um \u201cdrogado\u201d, o que fez com que se sentisse sozinho durante os \u00faltimos anos de uso. \u201cVivia com minha fam\u00edlia, mas dormia em um quarto separado, enquanto minha esposa dormia em outro com meus dois filhos. J\u00e1 n\u00e3o era aceito, era tolerado.\u201d Sua rela\u00e7\u00e3o com a esposa tornou-se algo formal, sem intimidades.<\/p>\n\n\n\n<p>Para M\u00e1rcio Luis Borges, de 53 anos, o parque de divers\u00f5es n\u00e3o foi somente uma sensa\u00e7\u00e3o, mas o lugar em que consumiu coca\u00edna pela primeira vez, aos 11 anos. No segundo dia, j\u00e1 estava aplicando a droga com uma seringa e, dois meses depois, deixou sua fam\u00edlia em Tramanda\u00ed, no litoral ga\u00facho, para peregrinar com a equipe do parque. Aos 15 anos, M\u00e1rcio estava envolvido com o tr\u00e1fico de drogas e morava com um traficante. Tr\u00eas anos depois, encarou uma pena de tr\u00eas anos e dois meses de cadeia ao traficar as ditas \u201cmaconhas da lata\u201d, que se tornaram ic\u00f4nicas na cultura popular brasileira em 1987 como o \u201cVer\u00e3o da Lata\u201d.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-embed aligncenter is-type-video is-provider-youtube wp-block-embed-youtube wp-embed-aspect-16-9 wp-has-aspect-ratio\"><div class=\"wp-block-embed__wrapper\">\n<iframe loading=\"lazy\" title=\"O ver\u00e3o da lata: quando 22 toneladas de maconha chegaram \u00e0 costa brasileira\" width=\"750\" height=\"422\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/w9okpf5k5Ss?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share\" allowfullscreen><\/iframe>\n<\/div><\/figure>\n\n\n\n<p>Ao todo, foram 14 interna\u00e7\u00f5es e tr\u00eas encarceramentos, passando por deten\u00e7\u00f5es em Bag\u00e9, no Rio Grande do Sul, e Salvador, na Bahia. Assim como Joaquim, M\u00e1rcio tamb\u00e9m passou a usar crack. \u201cMeu pai era um homem bem quisto, com poder aquisitivo muito bom, e eu estava comendo lixo na rua&#8221;, conta. N\u00e3o existia mais rela\u00e7\u00e3o entre ele e sua fam\u00edlia. Inclusive, para ele, a fam\u00edlia n\u00e3o tinha mais valor, tudo que importava era estar na rua.<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote\"><p>\u201cNosso consumo \u00e9 como uma vela que arde, quando paras de consumir, a vela para naquele momento. Tu pode estar dez anos sem consumir, que, se voltares, n\u00e3o vai ser uma vela nova, \u00e9 exatamente a mesma vela\u201d<\/p><cite><strong>JOAQUIM OLIVEIRA<\/strong>, decorador<\/cite><\/blockquote>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image alignwide size-large\"><img loading=\"lazy\" width=\"1024\" height=\"749\" src=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/sextante\/wp-content\/uploads\/2023\/03\/1-Foto-Anna-Ortega-1024x749.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-9991\" srcset=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/sextante\/wp-content\/uploads\/2023\/03\/1-Foto-Anna-Ortega-1024x749.jpg 1024w, https:\/\/www.ufrgs.br\/sextante\/wp-content\/uploads\/2023\/03\/1-Foto-Anna-Ortega-300x219.jpg 300w, https:\/\/www.ufrgs.br\/sextante\/wp-content\/uploads\/2023\/03\/1-Foto-Anna-Ortega-768x562.jpg 768w, https:\/\/www.ufrgs.br\/sextante\/wp-content\/uploads\/2023\/03\/1-Foto-Anna-Ortega-1536x1124.jpg 1536w, https:\/\/www.ufrgs.br\/sextante\/wp-content\/uploads\/2023\/03\/1-Foto-Anna-Ortega-2048x1498.jpg 2048w, https:\/\/www.ufrgs.br\/sextante\/wp-content\/uploads\/2023\/03\/1-Foto-Anna-Ortega-1568x1147.jpg 1568w\" sizes=\"(max-width: 1024px) 100vw, 1024px\" \/><figcaption>A vela apagada \u00e9 o s\u00edmbolo da sobriedade, j\u00e1 que sempre existe o risco de ela&nbsp;voltar a ser acesa | Foto: Anna Ortega<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p>A coca\u00edna tamb\u00e9m isolou o professor de Educa\u00e7\u00e3o F\u00edsica Jo\u00e3o Pedro Fraga, de 39 anos, daqueles que amava. Seu casamento acabou depois da quebra de confian\u00e7a entre ele e a esposa. Mesmo ap\u00f3s Jo\u00e3o cessar o uso da droga, em 2015, ela n\u00e3o acreditava na sua abstin\u00eancia. \u201cQualquer coisa que eu fizesse ela achava que eu tava usando. Eu n\u00e3o tiro a raz\u00e3o dela\u201d, reconhece o professor, que reside em Porto Alegre. Jo\u00e3o diz que a coca\u00edna era seu \u2018combust\u00edvel\u2019: \u201cEla virou meu almo\u00e7o, meu jantar, minha noite de sono&#8221;.<\/p>\n\n\n\n<p>Em certo momento, Jo\u00e3o chegou a ficar sete dias ininterruptos acordado. Para ele, o p\u00f3 branco era sin\u00f4nimo de libertar-se das preocupa\u00e7\u00f5es com o futuro, mas admite que, em certo momento, a droga te domina e tudo que importa \u00e9 sair em busca de mais uma brisa. \u201cEu j\u00e1 fui em festas onde tinha gar\u00e7om de <em>smoking<\/em> e luva com uma bandeja de prata com um monte de linhas de coca\u00edna feitas, o cara passava servindo pra todo mundo. Assim como j\u00e1 estive no boteco mais fudido da vila mais fudida de Porto Alegre. Tu vai do c\u00e9u ao inferno muito f\u00e1cil.&#8221;<\/p>\n\n\n\n<p>S\u00e3o tr\u00eas hist\u00f3rias que n\u00e3o se conectam em espa\u00e7o e tempo, mas sim na mem\u00f3ria residual de cada um desses homens. \u201cNosso consumo \u00e9 como uma vela que arde, quando paras de consumir, a vela para naquele momento. Tu pode estar dez anos sem consumir, que, se voltares, n\u00e3o vai ser uma vela nova, \u00e9 exatamente a mesma vela\u201d, compara Joaquim.<\/p>\n\n\n\n<h2>Uma bala na 38<\/h2>\n\n\n<div class=\"wp-block-image\">\n<figure class=\"alignleft size-large is-resized\"><img loading=\"lazy\" src=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/sextante\/wp-content\/uploads\/2023\/03\/4-Foto-Gregorie-Garighan-1024x768.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-9885\" width=\"459\" height=\"345\" srcset=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/sextante\/wp-content\/uploads\/2023\/03\/4-Foto-Gregorie-Garighan-1024x768.jpg 1024w, https:\/\/www.ufrgs.br\/sextante\/wp-content\/uploads\/2023\/03\/4-Foto-Gregorie-Garighan-300x225.jpg 300w, https:\/\/www.ufrgs.br\/sextante\/wp-content\/uploads\/2023\/03\/4-Foto-Gregorie-Garighan-768x576.jpg 768w, https:\/\/www.ufrgs.br\/sextante\/wp-content\/uploads\/2023\/03\/4-Foto-Gregorie-Garighan-1536x1152.jpg 1536w, https:\/\/www.ufrgs.br\/sextante\/wp-content\/uploads\/2023\/03\/4-Foto-Gregorie-Garighan-2048x1536.jpg 2048w, https:\/\/www.ufrgs.br\/sextante\/wp-content\/uploads\/2023\/03\/4-Foto-Gregorie-Garighan-1568x1176.jpg 1568w\" sizes=\"(max-width: 459px) 100vw, 459px\" \/><figcaption>Pesquisa interna revela que a m\u00e9dia de tempo s\u00f3brio entre membros do NA \u00e9 de 11,4 anos. Cada cor de chaveiro representa um per\u00edodo de sobriedade | Foto: Gr\u00e9gorie Garighan<\/figcaption><\/figure><\/div>\n\n\n<p class=\"has-text-align-left\">Enquanto o secret\u00e1rio Danilo* arruma a sala para a reuni\u00e3o de quinta-feira em um dos grupos de Narc\u00f3ticos An\u00f4nimos (NA), Vicente*, coordenador do Comit\u00ea Regional Rio Grande do Sul, explica que ningu\u00e9m entra pelas portas do programa por acaso, cada rec\u00e9m-chegado tem grande valor. O mantra \u201cestou limpo hoje e esse \u00e9 o dia mais importante\u201d, a salva de palmas ap\u00f3s a partilha dos colegas e o choro at\u00e9 ent\u00e3o entalado s\u00e3o s\u00edmbolos de um espa\u00e7o livre de estigmatiza\u00e7\u00e3o. Cada pessoa que senta nas cadeiras daquela sala pode respirar aliviada ap\u00f3s compartilhar seus medos e se sentir compreendida. Para Danilo, que \u00e9 um volunt\u00e1rio, assim como todos envolvidos no NA, o grupo \u00e9 sobre isso: \u201cOlhamos nossas semelhan\u00e7as, n\u00e3o as diferen\u00e7as\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>No momento da partilha, um dos frequentadores do grupo diz perceber que a droga \u00e9 um risco di\u00e1rio: \u201c\u00c9 como colocar uma bala na 38, girar o tambor, apontar para a cabe\u00e7a e apertar o gatilho\u201d. Para o NA, s\u00e3o esses momentos que evidenciam o processo de autodescobrimento, simb\u00f3lico no programa Doze Passos, que guia os m\u00e9todos do NA na luta contra a depend\u00eancia. O programa presenteia os participantes das reuni\u00f5es com chaveiros coloridos, que simbolizam o tempo de sobriedade. O chaveiro branco, por exemplo, \u00e9 dado para quem est\u00e1 limpo \u201cs\u00f3 por hoje\u201d, o preto, para quem est\u00e1 longe das drogas por \u201cm\u00faltiplos anos\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>A busca pela sobriedade pode ser um processo solit\u00e1rio, por isso o NA tem seu programa inteiramente pensado com base no encontro e na identifica\u00e7\u00e3o entre membros. Os resultados obtidos em pesquisas internas do NA revelam que a metodologia \u00e9 bastante eficaz. Uma das tradi\u00e7\u00f5es do grupo \u00e9 o apadrinhamento, que consiste em escolher outro membro para ser seu padrinho ou madrinha, criando uma importante rede de apoio e oferecendo orienta\u00e7\u00e3o neste percurso. \u201cO padrinho ou madrinha n\u00e3o vai poder escolher por ti, mas vai aconselhar, o que \u00e9 ainda mais \u00edntimo\u201d, explica Vicente. &nbsp;&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<div class=\"infogram-embed\" data-id=\"f9a6182d-fe1b-4a31-8f6a-0e0b55efc56c\" data-type=\"interactive\"><\/div><script>!function(e,t,s,i){var n=\"InfogramEmbeds\",o=e.getElementsByTagName(\"script\"),d=o[0],r=\/^http:\/.test(e.location)?\"http:\":\"https:\";if(\/^\\\/{2}\/.test(i)&&(i=r+i),window[n]&&window[n].initialized)window[n].process&&window[n].process();else if(!e.getElementById(s)){var a=e.createElement(\"script\");a.async=1,a.id=s,a.src=i,d.parentNode.insertBefore(a,d)}}(document,0,\"infogram-async\",\"\/\/e.infogram.com\/js\/dist\/embed-loader-min.js\");<\/script>\n\n\n\n<h2>O que ficou para tr\u00e1s<\/h2>\n\n\n\n<p>O psic\u00f3logo Marcelo Rossoni da Rocha, integrante do Grupo de Pesquisas em \u00c1lcool e Drogas do Hospital de Cl\u00ednicas de Porto Alegre, desmistifica a ideia de que as drogas s\u00e3o um caminho sem volta. Alcan\u00e7ar a sobriedade n\u00e3o deixa de ser um desafio, mas, para o psic\u00f3logo, \u00e9 poss\u00edvel retomar habilidades sociais e restabelecer uma rotina de normalidade. Ficam para tr\u00e1s o desespero, a culpa e a solid\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image alignwide size-large\"><img loading=\"lazy\" width=\"1024\" height=\"558\" src=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/sextante\/wp-content\/uploads\/2023\/03\/Entre-o-Barato-e-a-Realidade-1024x558.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-10002\" srcset=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/sextante\/wp-content\/uploads\/2023\/03\/Entre-o-Barato-e-a-Realidade-1024x558.jpg 1024w, https:\/\/www.ufrgs.br\/sextante\/wp-content\/uploads\/2023\/03\/Entre-o-Barato-e-a-Realidade-300x163.jpg 300w, https:\/\/www.ufrgs.br\/sextante\/wp-content\/uploads\/2023\/03\/Entre-o-Barato-e-a-Realidade-768x418.jpg 768w, https:\/\/www.ufrgs.br\/sextante\/wp-content\/uploads\/2023\/03\/Entre-o-Barato-e-a-Realidade-1536x837.jpg 1536w, https:\/\/www.ufrgs.br\/sextante\/wp-content\/uploads\/2023\/03\/Entre-o-Barato-e-a-Realidade-2048x1116.jpg 2048w, https:\/\/www.ufrgs.br\/sextante\/wp-content\/uploads\/2023\/03\/Entre-o-Barato-e-a-Realidade-1568x854.jpg 1568w\" sizes=\"(max-width: 1024px) 100vw, 1024px\" \/><figcaption>Arte: Sofia Kerr<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p>Joaquim perdeu as contas de quantas vezes adormeceu desejando n\u00e3o acordar no pr\u00f3ximo dia, ele sabia que as drogas haviam lhe tornado um ref\u00e9m, mas, segundo ele, sempre \u201ch\u00e1 algo que te diz que voc\u00ea pode experimentar mais vezes\u201d. Ap\u00f3s ter um princ\u00edpio de overdose em uma zona de tr\u00e1fico perto da casa de seus pais, o contato com sua fam\u00edlia passou a ser inexistente e seus dois filhos, de 3 e 6 anos na \u00e9poca, passaram a ter medo do pai.<\/p>\n\n\n\n<p>Ao pedir dinheiro para comprar hero\u00edna, Joaquim foi confrontado por sua esposa, ele teve de escolher entre sair de casa ou parar de usar drogas. Foi nesse momento que se internou em uma cl\u00ednica de reabilita\u00e7\u00e3o. Joaquim confessa que se n\u00e3o fosse por este ultimato, n\u00e3o teria deixado as drogas. O decorador j\u00e1 est\u00e1 h\u00e1 17 anos s\u00f3brio e foi um dos fundadores do grupo de NA online \u201c\u00c9 Poss\u00edvel Recuperar\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>J\u00e1 Jo\u00e3o n\u00e3o prega a abstin\u00eancia total, ainda bebe socialmente e trata seu Transtorno de Ansiedade Generalizada (TAG) com maconha medicinal, obtida conforme regulamenta\u00e7\u00e3o da Ag\u00eancia Nacional de Vigil\u00e2ncia Sanit\u00e1ria (Anvisa), e participando de cerim\u00f4nias de consagra\u00e7\u00e3o do ch\u00e1 alucin\u00f3geno de ayahuasca. Jo\u00e3o tamb\u00e9m \u00e9 co-fundador da Associa\u00e7\u00e3o Can\u00e1bica Anjos, que busca esclarecer a popula\u00e7\u00e3o sobre as propriedades medicinais da planta. No entanto, ele j\u00e1 est\u00e1 limpo da coca\u00edna h\u00e1 oito anos. O momento da virada aconteceu ao passar em uma blitz com 60 gramas de coca\u00edna. O medo de ser preso e perder o contato com seus dois filhos o fez buscar uma nova vida.<\/p>\n\n\n<div class=\"wp-block-image\">\n<figure class=\"aligncenter size-large is-resized\"><img loading=\"lazy\" src=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/sextante\/wp-content\/uploads\/2023\/03\/3-Foto-Gregorie-Garighan-1024x768.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-9976\" width=\"794\" height=\"595\" srcset=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/sextante\/wp-content\/uploads\/2023\/03\/3-Foto-Gregorie-Garighan-1024x768.jpg 1024w, https:\/\/www.ufrgs.br\/sextante\/wp-content\/uploads\/2023\/03\/3-Foto-Gregorie-Garighan-300x225.jpg 300w, https:\/\/www.ufrgs.br\/sextante\/wp-content\/uploads\/2023\/03\/3-Foto-Gregorie-Garighan-768x576.jpg 768w, https:\/\/www.ufrgs.br\/sextante\/wp-content\/uploads\/2023\/03\/3-Foto-Gregorie-Garighan-1536x1152.jpg 1536w, https:\/\/www.ufrgs.br\/sextante\/wp-content\/uploads\/2023\/03\/3-Foto-Gregorie-Garighan-2048x1536.jpg 2048w, https:\/\/www.ufrgs.br\/sextante\/wp-content\/uploads\/2023\/03\/3-Foto-Gregorie-Garighan-1568x1176.jpg 1568w\" sizes=\"(max-width: 794px) 100vw, 794px\" \/><figcaption>Quando algum acolhido considera deixar a comunidade, M\u00e1rcio, que j\u00e1 passou por situa\u00e7\u00e3o semelhante, procura entender os motivos por meio de uma conversa, que, na maioria das vezes, \u00e9 suficiente para que desistam da ideia | Foto: Gr\u00e9gorie Garighan<\/figcaption><\/figure><\/div>\n\n\n<p>Aos 27 anos, M\u00e1rcio tamb\u00e9m resolveu largar as drogas, tendo algumas reca\u00eddas, a \u00faltima delas em 2007. Est\u00e1 h\u00e1 16 anos s\u00f3brio, se tornou pastor, realizou diversos trabalhos voltados \u00e0 conscientiza\u00e7\u00e3o do uso de drogas e atualmente \u00e9 consultor de depend\u00eancia na comunidade terap\u00eautica Bella Vitta, em S\u00e3o Leopoldo, Regi\u00e3o Metropolitana de Porto Alegre. A institui\u00e7\u00e3o conta com cerca de 20 acolhidos, que permanecem, em m\u00e9dia, tr\u00eas meses sob os cuidados da comunidade, realizando reuni\u00f5es em grupo di\u00e1rias, al\u00e9m de sess\u00f5es terap\u00eauticas semanais. M\u00e1rcio usa das suas viv\u00eancias para ajudar a outros. \u201cUsar droga \u00e9 sinal de liberdade? N\u00e3o, \u00e9 escravid\u00e3o, \u00e9 um c\u00e1rcere volunt\u00e1rio. \u00c9 isso que a gente faz, traz essa ideia.&#8221;<\/p>\n\n\n<div class=\"wp-block-image\">\n<figure class=\"alignleft size-large is-resized\"><img loading=\"lazy\" src=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/sextante\/wp-content\/uploads\/2023\/03\/quandoobaratopassa_GabrielAnjos-1024x591.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-9985\" width=\"422\" height=\"243\" srcset=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/sextante\/wp-content\/uploads\/2023\/03\/quandoobaratopassa_GabrielAnjos-1024x591.jpg 1024w, https:\/\/www.ufrgs.br\/sextante\/wp-content\/uploads\/2023\/03\/quandoobaratopassa_GabrielAnjos-300x173.jpg 300w, https:\/\/www.ufrgs.br\/sextante\/wp-content\/uploads\/2023\/03\/quandoobaratopassa_GabrielAnjos-768x444.jpg 768w, https:\/\/www.ufrgs.br\/sextante\/wp-content\/uploads\/2023\/03\/quandoobaratopassa_GabrielAnjos.jpg 1155w\" sizes=\"(max-width: 422px) 100vw, 422px\" \/><figcaption>Arte: Gabriel Anjos<\/figcaption><\/figure><\/div>\n\n\n<p>A linha entre liberdade e c\u00e1rcere \u00e9 t\u00eanue, mas, quando o barato passa, \u00e9 s\u00f3 voc\u00ea consigo mesmo. O que voc\u00ea ganhou? Quem voc\u00ea perdeu? Valeu a pena? O isqueiro est\u00e1 em suas m\u00e3os e aquela mesma vela, sob a cabeceira. Voc\u00ea ainda vai acender?<\/p>\n\n\n\n<p><em>*Os nomes foram alterados para preservar a identidade das fontes.<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O uso de drogas coloca tr\u00eas homens em situa\u00e7\u00f5es extremas, que agora refletem sobre seus passados de consumo e buscam recome\u00e7os.<\/p>\n","protected":false},"author":89,"featured_media":9850,"comment_status":"open","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[181],"tags":[216,217,14,219,218],"acf":[],"yoast_head":"<!-- This site is optimized with the Yoast SEO plugin v19.6.1 - https:\/\/yoast.com\/wordpress\/plugins\/seo\/ -->\n<title>Quando o barato passa &mdash; Sextante &mdash; Depend\u00eancia qu\u00edmica<\/title>\n<meta name=\"description\" content=\"Colocados em situa\u00e7\u00f5es extremas pelo uso de drogas, tr\u00eas homens refletem sobre os desencontros de um passado de consumo e a busca recome\u00e7os.\" \/>\n<meta name=\"robots\" content=\"index, follow, max-snippet:-1, max-image-preview:large, max-video-preview:-1\" \/>\n<link rel=\"canonical\" href=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/sextante\/quando-o-barato-passa\/\" \/>\n<meta property=\"og:locale\" content=\"pt_BR\" \/>\n<meta property=\"og:type\" content=\"article\" \/>\n<meta property=\"og:title\" content=\"Quando o barato passa &mdash; 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