A terceira geração da hipertextualidade

Autores: Alex Primo e Raquel da Cunha Recuero
Título: A terceira geração da hipertextualidade: Cooperação e conflito na escrita coletiva de hipertextos com links multidirecionais
Fonte: PRIMO, Alex ; RECUERO, Raquel da Cunha . A terceira geração da hipertextualidade: cooperação e conflito na escrita coletiva de hipertextos com links multidirecionais. Líbero (FACASPER), v. IX, p. 83-93, 2006.
Disponível em: http://www6.ufrgs.br/limc/PDFs/links_multi.pdf

RESUMO: Este artigo discute inicialmente a três gerações da hipertextualidade. Destacando os hipertextos de terceira geração, que abrem-se para a participação de todos os internautas, apresenta a tecnologia Co-link (http://www.co-link.org) para a escrita coletiva de hipertextos com links multidirecionais. Finalmente, debate dados de uma pesquisa empírica sobre o uso educacional desse sistema.

PALAVRAS-CHAVE: Hipertexto; escrita coletiva; link

1. As três gerações da tecnologia hipertextual

A Web já não é mais a mesma e, portanto, nem o hipertexto. Discute-se hoje com grande ênfase a emergência da Web 2.0. Trata-se de um termo que busca descrever o atual período da Rede cuja ênfase passa da publicação (que caracterizou os primeiros dez anos da Web) para a colaboração. Segundo O’Reilly (2005), alguns dos princípios fundamentais da Web 2.0 são: trabalhar a Web como uma plataforma, isto é, viabilizando funções online que antes só poderiam ser conduzidas por programas instalados em um computador; e desenvolvimento do que chama de “arquitetura de participação”, ou seja, o sistema informático incorpora recursos de interconexão e compartilhamento. Pode-se citar como exemplares desse novo período tecnológico os blogs, o peer-to-peer (P2P), o webjornalismo participativo (como Ohmy News, Wikinews e Slashdot) e serviços como Flickr (para a publicação e discussão de imagens), del.icio.us (sistema de compartilhamento de listas de favoritos e geração colaborativa de metadados),Wikipédia, entre outros.

Os primeiros anos da Web foram marcados principalmente pela linguagem HTML e pelo sistema de envio de informações produzidas offline via FTP a um servidor. Já a Web 2.0 caracteriza-se pela constante produção e recriação online dos bens públicos. Além disso, os próprios meios produtivos encontram-se em permanente atualização, o que confere à Web 2.0 o caráter de “beta eterno”. No que toca à produção, enquanto no primeiro período da Web os sites (como as home-pages) eram trabalhados como unidades isoladas, passa-se agora para uma estrutura integrada de funcionalidades e conteúdo. Enfim, a produção colaborativa transforma-se no principal valor, apostando-se que quanto mais interagentes participarem da construção coletiva, mais bens públicos podem ser compartilhados por todos os participantes.

Dito isso, quer-se aqui propor que a hipertextualidade atinge com a Web 2.0 sua terceira geração. A primeira, vincula-se ainda ao meio impresso, onde rodapés, remissões e índices faziam a interligação de diferentes textos. Os hipertextos de segunda geração emergem com as tecnologias informáticas, no qual o link confere velocidade à conexão entre diferentes documentos digitais. Contudo, ainda que Landow (1997) tenha logo proposto que a fronteira entre autor e leitor tornava-se borrada no hipertexto digital, considerando que a leitura multidirecional confere maiores poderes àqueles que navegam pelo documento digital, é preciso lembrar que o programador do hipertexto ainda mantinha consigo o poder da escrita. Poucas eram as oportunidades em que o internauta poderia deixar suas marcas (como o livro de visitas em uma home-page). De fato, ele poderia decidir quais links gostaria de seguir, mas não se pode deixar de apontar que esses apontadores foram pré-determinados por um programador, que decide ele mesmo quais caminhos alternativos seriam propostos na página. Já na Web 2.0, a abertura dos hipertextos à participação é levada ao limite. A melhor ilustração disso continua sendo a enciclopédia colaborativa Wikipédia, na qual cada verbete e seus links podem ser criados por todo internauta, mesmo que de forma anônima.

Esta proposta de três gerações da hipertextualidade refere-se principalmente ao suporte tecnológico para a escrita hipertextual, levando em conta não apenas as formas multi-direcionais de leitura, mas também, e sobretudo, a abertura dos documentos à intervenção dos participantes do sistema. Outrossim, não se pode considerar que sejam fases sucessivas e excludentes. Seria impreciso supor que hoje todos os hipertextos são ou deveriam ser totalmente abertos à escrita de todo e qualquer interagente. A rigor, pode-se inferir que apenas a menor parte dos documentos digitais possuem tal característica. E exemplares desses três grandes grupos continuam hoje convivendo ao mesmo tempo: a enciclopédia em papel, sites fechados à intervenção do internatua e a Wikipédia, por exemplo. Tampouco deve-se supor que um hipertexto aberto tenha necessariamente melhor qualidade. Como a proposta daquelas gerações hipertexuais referem-se à características tecnológicas, tais juízos de valor não podem anexar-se a esta discussão.que hoje todos os hipertextos são ou deveriam ser totalmente abertos à escrita de todo e qualquer interagente. A rigor, pode-se inferir que apenas a menor parte dos documentos digitais possuem tal característica. E exemplares desses três grandes grupos continuam hoje convivendo ao mesmo tempo: a enciclopédia em papel, sites fechados à intervenção do internatua e a Wikipédia, por exemplo. Tampouco deve-se supor que um hipertexto aberto tenha necessariamente melhor qualidade. Como a proposta daquelas gerações hipertexuais referem-se à características tecnológicas, tais juízos de valor não podem anexar-se a esta discussão.

Finalmente, vale lembrar que nem todos os hipertextos abertos à participação são iguais. Conforme a tipologia de Primo (2003), que classifica os documentos digitais fechados à intervenção como hipertextos potenciais, existem duas formas básicas de hipertextos abertos à escrita coletiva. Aqueles documentos em que diversas pessoas podem justapor textos escritos em separado são chamados de hipertextos colagem. Já os hipertextos cooperativos são aqueles em que todos os envolvidos compartilham a invenção do texto comum, à medida que exercem e recebem impacto do grupo, do relacionamento que constroem e do próprio produto criativo em andamento.

2. Hipertextos abertos e a política de links

Além da escrita e da leitura, conforme lembra Landow (1997), ainda existem outras formas de acesso e controle de hipertextos: criação de links e conexão em rede. Talvez a questão sobre a criação de links — a essência da tecnologia hipertextual, segundo o autor —, seja a que tenha atraído menor atenção tanto da academia quanto da indústria de software. Landow entende que a possibilidade de criação coletiva de links é uma questão política. Com isso em mente, em sua discussão sobre a política do acesso, sugere duas perguntas fundamentais: Quem pode criar links? Quem decide para onde os links apontam? Costuma-se defender que todo internauta tem total liberdade em escolher os caminhos alternativos que mais lhe interessam. Mas, quem determinou quais são os links que serão disponibilizados e para onde apontam? O autor desses apontadores, pois, tem um importante poder sobre a escolha do percurso alheio. Os defensores do impresso, conforme lembra Bolter (2001), vão inclusive apontar que os links dão apenas a ilusão de controle, já que os leitores podem apenas seguir os caminhos prescritos pelos autores.

Como esta problemática foi por nós discutida em artigo anterior (Primo, Recuero e Araújo, 2004), apresentamos a seguir um breve relato daquela argumentação, antes de discutirmos no item 6 os resultados de uma observação empírica que realizamos sobre o processo de escrita coletiva de hipertextos.

Embora a Web seja descrita normalmente como um hipertexto colaborativo, Johnson-Eilola (1988) aponta que a maioria dos websites trata o hipertexto de maneira muito conservadora. Insatisfeito com a perseguição obediente de links, Johnson (1999) demanda a possibilidade de que qualquer internauta crie suas próprias trilhas associativas. A observação de Johnson é inspirada pela proposta pioneira do Memex, publicada por Vannevar Bush em 1945. Em sua exposição — fundamental para as discussões sobre hipertexto — Bush não apenas pensou na criação de trilhas associativas pessoais conectando informações, mas também considerou a possibilidade de compartilhar essas trilhas com amigos. Na Web, os internautas podem escolher quais lexias querem ler (ou não) através do clique em certos links. Mas como pode uma pessoa compartilhar com os outros as conexões mentais que faz com textos lidos anteriormente? Ela não pode incluir links em hipertextos potenciais. Logo, sua leitura criativa e associativa não reflete no texto sendo lido. Claro, existem algumas alternativas. Poderia-se se enviar uma lista de links a amigos através de e-mail ou mensageiro instantâneo. Ou publicar tal lista de apontadores em um site na Web. Mas e se esta pessoa não conhece HTML ou não possui um blog? Hoje, serviços da Web 2.0 como del.icio.us e Technorati14 oferecem uma forma simplificada de se compartilhar listas de favoritos. Porém, as alternativas discutidas acima consistem em uma listagem fragmentada e descontextualizada. Ou seja, os links não são posicionados dentro de um texto que lhes dá sentido na argumentação.

(…)


O texto integral encontra-se na fonte indicada acima.


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