Tecnologias digitais e trabalho docente

Autores: Rosilene Horta e Odil de Lara Pinto
Título: Tecnologias digitais, trabalho docente e ações coletivas.
Fonte: Revista de Trabalho e Educação. Ano 1 . Número 1 . Volume 1 . Março 2008
Disponível em: http://www.sinprominas.org.br/imagensDin/arquivos/340.pdf

RESUMO: O texto busca promover a reflexão em torno da dupla função social das Tecnologias de Informação e Comunicação (TIC´s): como mediadoras da reprodução do sistema capitalista ou como meios de criação de relações sociais solidárias e igualitárias. Quais as possibilidades dos docentes do ensino superior de recriar as relações pedagógicas com a emergência das TIC´s, levando-se em conta que as novas tecnologias encontram-se sob a égide do capitalismo global?

PALAVRAS-CHAVE: Tecnologia, relações de trabalho docente, alterglobalização.

O presente artigo teve como motivação a realização, em 06 de junho de 2007, do Grupo de Trabalho (GT) As Tecnologias Digitais e o Processo de Trabalho Docente, no 4º Encontro de Professores da Educação Superior da Rede Privada, promovido pelo Sindicato dos Professores de Minas Gerais, SINPRO. Esperamos que a soma dos artigos e, especificamente, a análise que trazemos aqui possam colaborar para ampliar a integração e o fortalecimento do movimento docente no Estado, a fim de materializar o potencial dos professores mineiros de formularem demandas políticas para Minas e para o Brasil na área de ensino superior. Uma vez que essa análise buscou incorporar parte da discussão realizada pelo GT do referido Encontro » (site do SINPRO, julho de 2007).

Nossa intenção central neste texto é a de tentar provocar a reflexão dos leitores em duas perspectivas: em torno da dupla função social das Tecnologias de Informação e Comunicação, TICs, como mediadoras da reprodução do sistema capitalista ou como meios de criação de relações sociais solidárias e igualitárias, desde o cotidiano; e, ainda, sobre as possibilidades de que docentes do ensino superior possam atuar no sentido da recriação de suas relações pedagógicas, considerando aí a natureza de seu trabalho e, nele, a emergência das TICs. Mas, haverá brechas para uma atuação alternativa considerando que as novas tecnologias, sob o capital, vêem restringindo ainda mais tal possibilidade?

A função hegemônica da tecnologia

A tecnologia, em sentido geral, foi analisada pormenorizadamente por Marx em O Capital como fator central de acumulação. A técnica é a base de funcionamento dos instrumentos e meios auxiliares de trabalho. A técnica, então, pode ser manual, mecânica, microeletrônica, nuclear, existindo assim uma multiplicidade de bases técnicas de funcionamento dos instrumentos de trabalho. A tecnologia, por sua vez, seria o processo de inserção dos instrumentos de trabalho, com suas respectivas bases técnicas, no âmbito das relações sociais de produção. Assim, a tecnologia é a materialização da forma em que as relações humanas de produção se organizam em um dado modo de produção. Quer dizer, cada modo de produção cria sua própria tecnologia, portanto não se pode falar de neutralidade tecnológica, porque a determinação, o fundamento da tecnologia, é eminentemente social. Expressa a relação do homem com o instrumental de trabalho, do homem com a natureza e dos homens entre si, como analisa Bernardo (1991), a partir de Marx.

Estudando a sociedade industrial, os teóricos da Escola de Frankfurt ampliam a análise de Marx ao afirmar que a tecnologia sempre teve uma função muito clara, dada por sua natureza de racionalidade instrumental, limitada pela eleição dos meios adequados para alcançar os fins pretendidos, dentre os quais se destaca a teleologia intensificadora do trabalho. Marcuse (1973, p.153), afirma ser brutal o fato de o poder físico da máquina «(somente físico?)» superar o indivíduo e o de quaisquer grupos particulares de indivíduos, e analisa que o caráter instrumentalista interno da racionalidade científica existe, porque a tecnologia é apriorística, um a priori de uma tecnologia específica: como forma de controle e dominação social.

Habermas (2001, p. 49) também observa o lado intensificador da produtividade do trabalho, promovido pela racionalidade tecnológica, ao destacar que a mesma proporciona a racionalidade da falta de liberdade do homem, impossibilitando tecnicamente a sua autonomia, de poder determinar pessoalmente a sua vida. A falta de liberdade e a sujeição ao aparato técnico ampliam e intensificam a produtividade do trabalho. A produtividade da força-de-trabalho se diferenciará, por outro lado, pelos desníveis de sua qualificação, de acordo com o processo de desenvolvimento das relações sociais de produção de um dado país, ou mesmo de um local de produção. Aprofundemos essa questão, a seguir.

A lógica do poder

Podemos dizer que, em toda a história do capitalismo, a manutenção de níveis diferenciados de desenvolvimento e subdesenvolvimento nacionais ou regionais – e também os níveis diferenciados de qualificação do trabalho e das diversas formas de exclusão social – têm uma explicação nas lógicas externa e interna do desenvolvimento desigual (MARX) e combinado (TROTSKY, 1978) e da divisão internacional do trabalho. Hoje, como mecanismos econômicos, tais lógicas encontram-se, sob o capitalismo mundializado, sob a gestão hegemônica das empresas transnacionais e de suas políticas – também educacionais – e definem a concorrência entre países ou empresas.

Dentro de um mesmo país, estado ou cidade tais lógicas regem as condições materiais diferenciadas entre eles, ou entre escolas, por exemplo. O desenvolvimento desigual é o ritmo diferenciado de desenvolvimento das empresas, setores das empresas, nações e regiões, ou escolas; e advém da capacidade desigual entre os competidores no uso das modernas técnicas para o aumento de produtividade. Desse elemento se pode depreender o porquê das desigualdades materiais e humanas entre escolas de uma mesma cidade, assim como os níveis estratificados de formação ou qualificação da força-de-trabalho em produção nas escolas. De modo que o desenvolvimento desigual e combinado é o simultâneo ajustamento entre desenvolvimento e subdesenvolvimento de países ou empresas. Ou de escolas, públicas ou privadas.

(…)


O texto integral encontra-se na fonte indicada acima.


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