Teoria crítica da tecnologia

Autor: Andrew Feenberg
Título: Teoria Crítica da Tecnologia
Fonte: www.sfu.ca/~andrewf/critport.pdf
Tradução: Equipe de Tradutores do Colóquio Internacional “Teoria Crítica e Educação”. Unimep, Ufscar, Unesp.

Na metade da década de 1960, fui para La Jolla, Califórnia, estudar com Herbert Marcuse. Nessa época, a Nova Esquerda era um fenômeno bem pequeno. O período macartista era ainda uma memória viva e os sindicatos e outras fontes tradicionais de atividades progressistas tinham sido completamente expurgados. A maior parte da crítica da sociedade estadunidense era a crítica cultural, muito influenciada pelos escritores Beatniks como Jack Kerouac ou pelo elitismo cultural de intelectuais que ficavam estarrecidos com as histórias em quadrinhos, televisão e rocks. Freud estava em ascensão e Marx desacreditado. Em tal contexto, uma revolução política parecia até mais implausível do que hoje em dia. Enquanto Marcuse continuava critico da sociedade industrial, sua teoria refletia o fracasso do conceito marxista de que tensões internas entre trabalhadores e capitalistas abalavam o capitalismo.

No entanto, havia tremendas tensões de outro tipo nessa sociedade tão conformista e essas explodiram no mundo pacato dos anos 50. As questões que se colocavam era o que essas tensões significavam, de quais fontes se originavam e qual eram seu objeto e destino. Muitos de nós que vivíamos tais tensões tínhamos uma resposta diferente da de Marcuse. Ele seguia seu próprio mestre, Heidegger, mais do que admitia a si mesmo e a nós quando sustentava que o universo unidimensional tecnológico da sociedade industrial avançada era um sistema fechado ou quase fechado em que a oposição era impossível ou quase impossível (Marcuse, 1964, XVII) Quando começou a sentir a evidência de ampla oposição, teorizou como uma nova disposição cultural  Heidegger diria “revelação”. Portanto, quando lemos Marcuse, pareceu-nos que a fonte dessa revelação estava nos instintos e era, assim, externa à sociedade unidimensional.

Recentemente publiquei um livro sobre Heidegger e Marcuse no qual desenvolvo uma leitura mais compreensiva da teoria da revolução de Marcuse, mas naquela época muitos de nós a considerávamos negativa demais e a-histórica (Feenberg 2004). Como criávamos movimentos contra a guerra do Vietnã e estávamos engajados em protestos estudantis, sentíamos que nossas ações refletiam tensões internas dentro da própria unidimensionalidade e não uma intervenção externa provinda de uma fonte transcendente. Mas como explicar isso sem abandonarmos o insight marcuseano sobre a integração à sociedade e sem reativarmos o desacreditado conceito de revolução proletária?

Lembro-me de ter escrito um longo ensaio para Marcuse em 1966 a que chamei de “Para além da unidimensionalidade” no qual tentava mostrar como uma sociedade unidimensional podia produzir uma nova dialética. Embora meu atual trabalho sobre tecnologia seja bem diferente desse esforço inicial, o padrão é similar. Ainda busco uma maneira de identificar e explicar tensões internas num universo tecnológico quase unidimensional. Nessa linha, meu trabalho parte não apenas da primeira geração da Escola de Frankfurt, mas também do consenso contemporâneo em filosofia política.

Sob a influência tanto de Rawls quanto de Habermas, a filosofia política abstrai sistematicamente da tecnologia e, desse modo, omite o potencial distópico da sociedade avançada. Considera a esfera técnica como um background neutro contra o qual indivíduos e grupos perseguem objetivos pessoais e políticos. Tais objetivos são, de maneira geral, vistos como idéias mais ou menos racionalmente justificáveis a respeito de direitos, vida boa e assim por diante. Nessa concepção, a filosofia restringe -se a eliminar e a política se torna uma questão de opinião. Como filósofo da tecnologia, rejeito essa visão. O que significa ser humano não se decide apenas por nossas crenças, mas, em grande parte, pela forma de nossos instrumentos.E, na medida que podemos planejar e conduzir o desenvolvimento técnico por vários processos públicos e escolhas privadas é que temos algum controle sobre nossa própria humanidade.

Depois dos anos 60, as forças que sobreviveram na instância da esquerda foram movimentos não-marxistas, como o feminismo e o ambientalismo. A sociedade que tinha sido objeto de condenação global na década de 60 agora era desafiada de maneira concreta e específica. A poluição industrial, as práticas de nascimento de bebês, o tratamento experimental da Aids, tudo era contestado por esses novos movimentos sociais em termos das conseqüências dos designs técnicos sobre a vida, saúde e dignidade. Temas semelhantes apareciam no movimento trabalhista e evidenciavam aversão à tecnologia da produção.

Meu primeiro livro de filosofia da tecnologia, Critical Theory of Technology, foi publicado em 1991. Nesse livro acompanhei Marcuse ao argumentar que “tecnologia é ideologia” (Feenberg, 1991). Mas eu enfatizava um aspecto da posição de Marcuse que ainda não havia sido amplamente notado, a saber, seu argumento de que a política da tecnologia depende de aspectos contingentes do design técnico determinado por um projeto de civilização e que não surgem da “essência” da tecnologia no sentido que lhe dá Heidegger. Essa abordagem sugere que designs diferentes poderiam sustentar uma sociedade mais democrática baseada na auto-organização democrática na própria esfera técnica.

(…)


O texto integral encontra-se na fonte indicada acima.


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