4.3 Construindo cidadania num contexto de pobreza, lixo, drogas e violência

O projeto de empreendedorismo social de Marli Medeiros
Luciano Barin Cruz, Luis Felipe Nascimento e Matias Poli Sperb
Parte da população Brasileira vive em favelas, em meio à violência e o tráfico de drogas. Nessas comunidades, especialmente as mulheres sofrem com as más condições sociais e são vítimas de violência doméstica.
Neste contexto, a história de Marli Medeiros mostra como o idealismo e a vontade para modificar uma realidade social precária exige decisões difíceis que envolvem diferentes atores, incluindo os seus próprios familiares. O testemunho das pessoas que viram as ações de Marli e a sua atitude confirma a história de sua vida, revista no período entre 1975 e 2010, em Porto Alegre.

1975-1990 – A busca por uma vida melhor.

Marli Medeiros vivia nos subúrbios de Alegrete perto do rio Ibirapuitã, uma área sujeita a inundações. A vida era um ciclo interminável de recomeço, porque toda vez que o rio estava na cheia, ela perdia uma parte dos bens de sua família. Em 1975, em busca de uma vida melhor, ela deixa Alegrete com o marido e três filhas.
Com recursos escassos, Marli se muda a Porto Alegre onde trabalha nos primeiros anos como zeladora, empregada doméstica, faxineiro, auxiliar de escritório e gerente de uma pequena loja, demonstrando sempre criatividade e espírito empreendedor. Já em 1976, Marli compra uma pequena casa na Vila Pinto, para que seus irmãos, tios e primos também viessem de Alegrete.

Ao passar do tempo, seus finais de semana foram sendo dedicados a visitar seus parentes na Vila Pinto, bem como ajudar a comunidade. A Vila, com 12.000 habitantes, fazia parte de um grupo de favelas onde a população vivia em meio a violência, tráfico de drogas e prostituição juvenil cotidianamente. Em suas visitas, Marli falava bastante com as mulheres e ficava chocada com o que ouvia.

Estas mulheres pediram a Marli que tirassem elas dessa vida, e Marli percebia que havia necessidade de uma alternativa que pudesse substituir a dependência financeira que lhes exigia suportar tal sofrimento. No entanto, logo de cara Marli se deparou com um dilema: como buscar alternativas junto a estas mulheres sendo que, na maioria dos casos, elas eram oprimidas e controladas por seus maridos, pais e traficantes?
Mas, notando que as mulheres da Vila Pinto tinha a permissão para ir à igreja, Marli decidiu criar um “grupo de oração”. De fato, Marli e o grupo de mulheres passaram a se reunir para orar, mas não somente para isso; também discutiam as dificuldades rotineiras em comum.

1991-1998 – Nós queremos um centro triagem de resíduos!

Até então, Marli ainda não morava na Vila Pinto, mas se muda para lá em 1991. Os membros da sua família que moravam na Vila foram o apoio que precisava.
Em busca de novas ferramentas e conhecimentos que agregassem na sua luta, em 1993 Marli decidiu fazer o curso de “Promotor de justiça comunitária”, oferecido pela organização não-governamental (ONG) “Themis, que luta contra a violência as mulheres.
O curso abriu uma janela para o mundo. A partir desse momento, Marli se tornou mais forte e passou a compartilhar com os colegas no “grupo de oração” tudo o que aprendeu em sala de aula. As mulheres estavam convencidas de que tinham “o direito a ter direito”, algo que anteriormente não era óbvio para muitas pessoas na comunidade.
O “grupo de oração”, em suas discussões decidiu reivindicar um centro de mulheres na Vila Pinto. Um galpão de triagem de resíduos proposto parecia perfeito para elas, porque seria construído pela prefeitura que também garantiria o fornecimento de matérias-primas (lixo seco) no local. As mulheres simplesmente teriam que seletar os resíduos e depois venderem para então, distribuir a renda entre elas.

Marli disse que o objetivo desta iniciativa foi o de criação de empregos, a geração de renda para mulheres e jovens em risco e, sobretudo, objetivava restaurar a autoestima das pessoas. Por outro lado, o projeto estando associado a trabalhadores do lixo não parecia, a priori, a melhor maneira de fazê-lo. Mas as mulheres discutiam este assunto e reconheciam a importância do seu trabalho para a preservação do meio ambiente e assim decidiram chamar o projeto de “Centro de Educação Ambiental da Vila Pinto (CEA)”.

Com o tempo, as pessoas passaram a sentir orgulho de trabalhar no CEA, um lugar que oferecia trabalho honesto, sem precisar ter medo da polícia ou de ser explorado por traficantes de drogas. Mas, com isso, o CEA passou a ser considerado um concorrente do tráfico; o lixo oferecia aos trabalhadores o mesmo rendimento financeiro.
Mesmo com apoio da polícia e da Comissão de Direitos Humanos da Assembleia Legislativa, as gangues da Vila Pinto passaram a tentar atingir à Marli e o CEA de diferentes formas; desde infiltrações de mulheres no projeto para desestabilizá-lo ou até mesmo em ataques diretos a membros de seus familiares.

1998-2001 – Queremos um centro cultural?

Marli estava inclinada a deixar Vila Pinto, mas foi convencida pela própria família de fazer o contrário. Nos meses que se seguiram, o líder da gangue do Riacho Doce foi assassinado, enfraquecendo o grupo. Já não era mais uma ameaça para Marli.
Com o passar do tempo, o CEA foi crescendo e chegando a ser dividido em dois turnos que empregavam um total de 130 pessoas, na maioria mulheres. Também foi decidido contratar homens, mas a gestão era feita por mulheres.
Contudo, ao irem trabalhar no CEA, as mulheres tinham medo de deixar seus filhos em casa, muitas vezes sozinhos. Não havia acolhimento para estas crianças na Vila. Também havia muito poucas oportunidades de lazer nos fins de semana. Assim, as crianças brincavam nas ruas e ficavam expostos ao que “a rua oferecia”.
Preocupada com a exploração sexual e a violência nas ruas, Marli tentou obter apoio para conseguir um prédio ao lado do CEA, onde as mulheres pudessem deixar seus filhos com segurança e onde, nos fins de semana, elas pudessem passar o tempo com as suas famílias. E então cresceu na comunidade a ideia de se criar um centro cultural.
Assim, Marli foi mais uma vez conversar com o prefeito e a sua equipe, propondo a construção de um centro cultural perto do galpão de triagem de resíduos. Mas este novo projeto não foi aprovado pelos riscos que a prefeitura manifestou estarem implicados.
Sem renunciar, Marli foi buscar apoio na iniciativa privada. Um empresário da construção civil convidou a Marli para apresentar sua ideia para um grupo de empresários na Federação das Indústrias do Rio Grande do Sul (FIERGS). Naquele dia mesmo, Marli saiu da FIERGS com a promessa de que todos iriam apoiar a construção do Centro Cultural.
Empresários fizeram suas doações, e mesmo sem uma licença de construção da Prefeitura, Marli decidiu iniciar a obra. Enquanto ocorria o debate sobre se a licença seria emitida ou não, a obra foi sendo executada. Em um fim de semana, quando muitas pessoas trabalhavam na CEA, o município enviou um carro com inspetores que diziam ter ordens para parar a obra.

Conclusão (2002 – 2010).

A comunidade ficou indignada e algumas pessoas estavam fora de controle. Com suas habilidades de negociação, Marli acalmou as pessoas da comunidade, oferecendo uma ação mais eficaz.
Na semana seguinte, uma comissão da Vila Pinto foi à Prefeitura para atender o prefeito e visitar algumas estações de rádio e jornais da cidade. A proibição da construção do Centro Cultural despertou a indignação da população. O público chegou a simpatizar com a comunidade da Vila Pinto graças ao apoio da mídia local.
Enfim, no dia 13 de dezembro de 2002, o edifício chamado, Centro Cultural James Kulisz (CEJAK) foi aberto.
O sonho de Marli se tornou realidade – o CEJAK tornou-se um ponto focal para a paz e os direitos humanos na Vila Pinto. Em 2010, vários projetos financiados por agências governamentais e ONGs estavam em execução. Da maior importância a comunidade, o restaurante, a biblioteca infantil e a sala de cinema formam as atividades de acolhimento de crianças fora do horário escolar, além do tele centro, do centro de mediação de conflitos comunitários, o teatro, a dança e as aulas de música. Das pessoas recebidas pelo CEJAK, cerca de 1.500 pessoas por mês, podemos estimar que em 14 anos do CEA e 8 anos de CEJAK, aproximadamente 150.000 pessoas foram beneficiadas pelo projeto.

Este texto foi originalmente publicado em 2011 no periódico acadêmico inglês Emerald http://www.emeraldinsight.com/case_studies.htm?articleid=1917161 .
Em abril de 2013, Luciano Barin Cruz era Professor na HEC Montreal, no Canadá. Luis Felipe Nascimento era Professor no PPGA/EA/UFRGS e Matias Poli Sperb era doutorando na Universidade de Málaga, na Espanha.

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