5.1 Crescimento da Classe C no Brasil: oportunidade de negócios

Marcio Jappe
Observar tendências, identificar oportunidades e convertê-las em negócios rentáveis por meio de soluções sustentáveis tem sido um tema recorrente aqui no Sustentabilidade na Empresa. São exemplos os casos da DryWash, eCycle, Apliquim Brasil Recicle, InterfaceFlor, só para citar algumas de nossas entrevistas. Que outras tendências é possível observar? Que oportunidades podem ser aproveitadas por empresas de pequeno e médio porte? Uma delas é a ascenção econômica da população brasileira, como podemos observar no gráfico abaixo:

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Fonte: Adaptado da Pesquisa Cetelem BGN – IPSOS 2011

Analisando dados do IBGE e da Pesquisa Cetelem BGN IPSOS 2011, observa-se que em 2005, a população brasileira se dividia em 14,5% nas classes AB, 34,5% na classe C e 51% nas classes D e E, enquanto em 2011, eram 22,3% nas classes AB (+7,8%), 54% na classe C (+19,5%) e 23,7% nas classes DE (-27,3%), o que significa que no mínimo 35% da população ascendeu economicamente em apenas seis anos, o que traz enormes implicações não só econômicas, mas também sociais e ambientais.
Apesar de não reduzir automaticamente a vulnerabilidade da população mais pobre, o aumento de renda inclui mais pessoas no mercado, consumindo bens e serviços aos quais não tinham acesso anteriormente. Mas não basta reproduzir os padrões de oferta existentes, pois a “nova classe média” brasileira tem demandas específicas. Há a necessidade de se desenhar, produzir e comercializar produtos e serviços que atendam aos seus anseios nas áreas de saúde, educação, habitação e mobilidade, demandando soluções que são diferentes daquelas ofertadas às classes A e B. Estas pessoas são consumidores exigentes e demandam qualidade, pois não podem desperdiçar recursos. Estão conectados, antenados com o que acontece à sua volta e são potenciais parceiros dos negócios que buscarem servir suas necessidades.
Há vários exemplos criativos mundo afora:
- A Colcerámica , empresa colombiana que, em parceria com a empreendedora social Haidy Duque, lançou azulejos com um novo modelo de distribuição, voltado para famílias de baixa renda. As vendas aumentaram e muitas famílias substituíram o piso de terra de suas casas;
- A SELCO, empresa que oferta soluções tecnológicas de energia solar, sobretudo em zonas rurais da Índia, usando microfinanciamentos para viabilizar as suas vendas;
- A Embrace, que a fim de reduzir o número de mortes e problemas de saúde de bebês prematuros, criou uma solução que substitui a incubadoras a um preço 100 vezes menor e sem a necessidade de energia elétrica, bastante semelhante a um saco de dormir – o desenvolvimento aconteceu por meio da intensa interação de uma equipe multidisciplinar de universitários com mães de bebês prematuros na Índia, a fim de entender profundamente suas necessidades;
- A Grameen Danone, joint venture entre a Danone e o Grupo Grameen, que a fim de combater a desnutrição infantil em Bangladesh produz e comercializa, em parceria com as comunidades onde atua, iogurte enriquecido com nutrientes essenciais. Além do enriquecimento nutritivo, o produto também foi customizado a outras necessidades locais, tais como demanda mínima por refrigeração e utilização de insumos locais para sua produção. As fábricas são menores que o usual (20 vezes menor que a menor fábrica da Danone) e a rede de distribuição é formada por meio da rede de mulheres do Grameen Bank;
- A Lifespring, uma cadeia de hospitais de 20 a 25 leitos especializada em cuidado de gestantes e recém nascidos na Índia. O tamanho permite chegar a locais antes não atendidos. Somente em fevereiro de 2012 foram mais de 14.000 nascimentos nas instalações da rede;
- O Aravind Eye Care Hospital, que realiza anualmente na Índia cerca de 300 mil cirurgias de catarata e glaucoma, a fim de eliminar a cegueira desnecessária. A redução de custos com a melhor utilização do tempo dos médicos é de 70% e permite que dois terços das cirurgias sejam realizadas gratuitamente;
- O M-Pesa, serviço bancário via celular da Vodafone na África. Somente no Quênia já beneficia 14 milhões de clientes, com aproximadamente 2 milhões de transações diárias, incluindo depósitos, retiradas e transferências, além do pagamento de contas.
Também há soluções sendo testadas no Brasil, tais como a AUIRE, empresa que oferece tecnologias de baixo custo para deficientes físicos, o CIES – Centro de Integração de Educação e Saúde, que oferece serviços de saúde do SUS por meio de clínicas móveis customizadas em carretas de caminhões, a Clínica SIM, oferece atendimento clínico médico e odontológico de qualidade e a preços acessíveis para a população de baixa renda em Fortaleza, o portal Saútil, que disponibiliza informações sobre os recursos e serviços oferecidos pelo SUS, o CDI Lan, que tem como objetivo transformar lanhouses em espaços de educação, entretenimento e informação para populações de baixa renda, e até mesmo as Casas Bahia, que tornam acessível a compra de marcas consagradas por meio de longos financiamentos e pequenas prestações.
Meu interesse de pesquisa é, gradativamente, compreender todo o ecossistema que envolve o desenvolvimento deste tipo de negócio no Brasil, a fim de contribuir para a multiplicação dos impactos sociais positivos que já estão sendo gerados no mundo inteiro (e também por aqui!)
Este texto foi originalmente publicado por Marcio Jappe no blog Sustentabilidade na Empresa. Marcio Jappe é autor da dissertação “Desenvolvimento de Negócios Sociais no Brasil: fatores limitadores e fatores contributivos.

Em abril de 2013, Marcio Jappe era mestrando no PPGA/EA/UFRGS.

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