6.1 Ensinar, fazer e ser exemplo

Patrícia Tometich
As universidades têm a função de ensinar, pesquisar e também conscientizar as pessoas sobre os problemas sociais e ambientais da sociedade. Além disto, as universidades devem também servir como exemplo no gerenciamento dos seus resíduos. Uma universidade como a UFRGS, parece uma cidade, pois tem hospital, prefeitura, restaurantes, bares, alojamento e centros de convivência para os estudantes, problemas de transporte, e uma população de 30 mil pessoas circulando pelos seus prédios. Tudo isto gera resíduos e causa impacto ambiental.
Pensando nisso, decidimos pesquisar se as universidades praticam aquilo que ensinam sobre redução dos impactos ambientais nos seus campi. Descobrimos que nos países mais desenvolvidos as universidades fazem cada vez mais coisas voltadas para a sustentabilidade, como a diminuir as emissões dos gases tóxicos e dar preferência de compra a produtos ecológicos. Pesquisamos também as universidades brasileiras. Conversamos com representantes de 75 universidades espalhadas pelo Brasil, com número de alunos variando entre cinco mil e trinta mil.
Sabe o que os entrevistados nos disseram? Eles falaram que as universidades brasileiras também querem dar o exemplo e mostrar boas práticas de gestão ambiental. Mas como sempre, reclamam da falta de recursos e de conscientização das pessoas. Em algumas universidades, falta também interesse da direção, dos que teriam poder para fazer alguma coisa.
Nas 75 universidades que pesquisamos, analisamos o que elas fazem, as suas práticas, e dividimos estas práticas em três grupos:
Grupo 1 – São as mais comuns, que aparecem em quase todas as universidades pesquisadas:
1. Políticas de Gestão Ambiental;
2. Diagnóstico dos impactos significativos para o ambiente;
3. treinamento e sensibilização da equipe de funcionários;
4. programas de conscientização ambiental voltado à população;
5. programas de conscientização ambiental voltado aos alunos;
6. inclusão no currículo de conteúdos sobre sustentabilidade ambiental;
7. desenvolvimento de projetos de pesquisa sobre sustentabilidade ambiental;
8. disseminação dos projetos ambientais desenvolvidos dentro da instituição;
9. organização de eventos sobre a questão ambiental;
10. utilização de material reciclado;
11. programas de reciclagem;
12. espaços verdes – controle da vegetação; e
13. plano de ação para melhoria contínua da sustentabilidade ambiental.
Ficamos sabendo que as ações implantadas custam bem menos do que nós imaginávamos. Então, mesmo naquelas universidades que não possuem muitos recursos, elas conseguem fazer muita coisa para proteger o meio ambiente.
Grupo 2 – No segundo grupo, identificamos 9 práticas que aparecem com frequência, mas não são tão comuns como as primeiras 13:
1. guia de boas práticas de ações ambientais/sustentáveis;
2. auditoria ambiental para indicar melhorias;
3. utilização de indicadores ambientais;
4. acompanhamento e análise da questão de sustentabilidade ambiental;
5. construções e reformas na instituição seguindo padrões de sustentabilidade;
6. cursos de formação de gestores ambientais;
7. parceria com outras Universidades para desenvolver questões relacionadas à Gestão Ambiental;
8. controle de consumo de energia;
9. critérios ambientais para fornecedores de materiais de consumo.
Acreditamos que estas ações são menos comuns porque são mais caras e exigem pessoal com mais conhecimento e capacidade técnica.
Grupo 3 – Por fim, identificamos 7 práticas que são pouco comuns, que só algumas poucas universidades estão fazendo:
1. soluções baseadas no padrão de certificação ISO 14001, que é uma norma conhecida internacionalmente e que diz como deve ser um Sistema de Gestão Ambiental;
2. criação de um departamento para Gestão Ambiental;
3. disponibilização de alimentação orgânica;
4. controle de consumo e reuso de água;
5. controle de efluentes;
6. racionalização do uso de combustíveis e
7. uso de combustíveis alternativos.
Dá para perceber que estas ações exigem mais comprometimento e investimento por parte das Universidades, e são mais difíceis de gerenciar.
Em geral, os entrevistados alegam quem as principais dificuldades são a falta de conscientização das pessoas e as dificuldades para conseguir recursos para implantar as ações dos três grupos que listamos. Por isto, seria muito importante que houvesse um maior apoio dos governos e das próprias direções destas instituições, para que estas práticas fossem implantadas nas universidades. É preciso buscar formas alternativas, como parcerias com empresas e outras instituições para implantar estas ações nas universidades e conscientizar estas comunidades acadêmicas, pois dali saem os futuros líderes da sociedade.
Nossa pesquisa entrevistou pessoas de 75 universidades, mas no Brasil existem 192 universidades e mais outros tipos de instituições de ensino superior, como as faculdades e centros universitários. No total, são cerca de 2500 instituições. Portanto, nossa pesquisa é uma amostra, ou seja, estes resultados só mostram a realidade de 75 universidades. Para conhecer melhor a realidade das instituições de ensino superior, sugerimos que sejam feitas novas pesquisas. Mas, com o que mostramos, você já pode ter uma boa ideia do que acontece com a gestão ambiental nas universidades, não é mesmo?
O artigo “Sustentabilidade nas Universidades”, de autoria de Raquel Engelman; Edi Fracasso e Patrícia Tometich, foi publicado nos anais do XIV Encontro Nacional sobre Gestão Empresarial e Meio Ambiente – ENGEMA 2012. Está disponível no site…..
Em abril de 2013, Raquel Engelman era doutoranda e Patrícia Tometich mestranda, ambas no PPGA/EA/UFRGS. A Profa. Edi Fracasso estava aposentada, mas mantinha vincula com o PPGA/EA/UFRGS.

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