2.1 A cooperação entre empresas de uma cadeia produtiva

Patrícia Dias
A empresa que fabrica geladeiras, pode produzir e montar algumas partes e comprar outras. Ela pode comprar o motor da geladeira de uma empresa, as borrachas e os plásticos de outra, a lâmpada de uma terceira, e por aí vai. O mesmo acontece com o fabricante do motor da geladeira. Ele compra os parafusos e algumas partes do motor, de outras empresas. Quem fabrica o parafuso utilizado no motor, compra o aço de uma outra empresa, e assim continua. Cada uma destas empresas funciona como um elo de uma cadeia. Portanto, o fornecedor do aço, o fabricante do parafuso, o fabricante do motor e o fabricante da geladeira, são todos elos da mesma “cadeia produtiva”.
Você já deve ter ouvido falar que as empresas “espremem” seus fornecedores. Ou seja, elas apertam, pechincham, negociam, querem pagar o menor preço possível pelo que compram, além de exigirem alta qualidade e rapidez na entrega destes produtos. Por outro lado, quando vendem seus produtos, fazem ao contrário. Elas querem cobrar o mais caro possível pelos seus produtos e pedem prazos para entrega. Existe muita competição entre elas e briga por menores preços.
Mas nem sempre é assim. Algumas empresas cooperam com os seus fornecedores, ajudam eles a desenvolverem os produtos de que elas precisam. Por exemplo, quando os fabricantes de geladeiras foram proibidos de utilizar o gás CFC porque este destruía a camada de ozônio, tiveram que buscar novos fornecedores, ou ajudar o antigo fornecedor, a conseguir comprar o gás menos danoso ao meio ambiente. Aconteceu então uma cooperação entre o fornecedor e o cliente para resolver um problema que afetava os negócios de ambos.
Na minha pesquisa, eu escolhi a cadeia produtiva do setor metal-mecânico na região de Caxias do Sul, no Rio Grande do Sul. O que chamamos de setor metal-mecânico pode ser entendido como um grupo de empresas que fazem produtos utilizando metais. Com minha pesquisa eu verifiquei se existiam ações cooperativas entre as empresas visando reduzir os impactos ambientais, do mesmo jeito que ocorreu no exemplo da troca do gás CFC das geladeiras. Além disto, eu queria saber se estas ações foram boas ou ruins para as empresas, quer dizer, se elas tornaram estas empresas mais ou menos competitivas (menores preços, produtos melhores, etc).
Para descobrir isso, eu pesquisei duas empresas fornecedoras de uma terceira. Como elas não autorizaram divulgar os nomes verdadeiros, resolvi chamar estas duas de empresas fornecedoras de “Alfa” e “Beta” e a empresa que compra os produtos destas duas, de empresa “Gama”. Nas três empresas entrevistei os responsáveis pela produção, pela gestão ambiental, gerentes de projetos, do desenvolvimento de produtos, de compras e de logística. Conversando com eles, pedi para eles indicarem a ação mais importante que tivesse contribuído para reduzir os impactos ambientais da produção das empresas.
Na empresa Gama, o entrevistado me disse que os critérios ambientais exigidos dos fornecedores estavam descritos no Programa PQDR (Procedimentos de Qualidade do Distribuidor). Portanto, já existiam critérios, mas pouco falavam dos impactos ambientais dos processos produtivos e dos produtos dos fornecedores.
A ação cooperativa relatada pela Empresa Alfa com a Empresa Gama se referia a substituição da tecnologia no processo de pintura, que foi financiada pela Empresa Gama. A nova tecnologia de pintura adotada reduziu o desperdício de tintas e os custos. Deste modo, a Empresa Alfa pode reduzir também os custos com a destinação dos resíduos de tinta, e pode oferecer um produto melhor e mais barato para a Empresa Gama.
Mas nem sempre as ações cooperativas com objetivos ambientais reduzem os custos de produção. No caso da Empresa Beta, a substituição de um material tóxico por outro não tóxico implicou no aumento de custos. Você poderia estar se perguntando, mas então, por que a empresa substituiu este material? Segundo o gerente entrevistado, a fibra de amianto utilizada até então foi proibida em outros países e havia pressão de outros clientes para que a Empresa Beta também o substituísse. A substituição do asbesto resultava em outro ganho, que era a redução dos riscos na saúde dos trabalhadores.
A eliminação total do asbesto ocorreu em 2002, quando a Empresa Beta passou a utilizar apenas fibra de vidro. A Beta se destacou por ser a pioneira no Brasil a fornecer lonas de freio sem amianto.
A Empresa Gama, que começou suas ações ambientais preocupada apenas em controlar a poluição, acabou montando um sistema de gestão ambiental, programas de produção mais limpa, até chegar a preocupação com os seus fornecedores. A relação com as empresas Alfa e Beta avançaram em direção, ao que mais tarde passou a se chamar de “gestão sustentável da cadeia de suprimentos”.
Resumindo, poderia dizer que as minhas conclusões foram as seguintes:
A colaboração entre as Empresas Gama e Alfa resultou em mudanças no processo de pintura, com a redução dos custos e da geração de resíduos. Foi um bom negócio para as duas empresas.

A colaboração entre as Empresas Gama e Beta resultou em mudanças no produto, mas ouve aumento do custo. Mas a Empresa Beta sabia que o amianto seria proibido no Brasil, e tratou de se adiantar. Com isto, foi a pioneira e se destacou como uma empresa preocupada com o meio ambiente e com a saúde dos seus trabalhadores. A ajuda da Empresa Gama foi no sentido da Beta desenvolver logo o fornecedor de fibra de vidro, que foi a matéria prima substituta do amianto. Ou seja, acabou sendo um bom negócio para a Alfa, que conseguiu exportar a lona de freio sem amianto, e para a Gama, que pode exportar seus produtos utilizando esta lona de freio.
Cabe lembrar, que eu fiz esta pesquisa em 2007 e 2008. De lá para cá muita coisa mudou. As cooperações entre empresas de uma cadeia são bem mais comuns, pois as empresas estão percebendo que é um bom negócio para todos cooperar e reduzir os impactos ambientais.
Patricia Dias é a autora da dissertação de mestrado: “Ações cooperativas entre empresas clientes e fornecedoras para a obtenção de benefícios socioambientais: um estudo de caso múltiplo no setor metal-mecânico”, defendida em 2008 no PPGA/EA/UFRGS. Disponível em ….
Em abril de 2013, Patricia Dias era Professora Substituta na Escola de Administração da UFRGS.

 

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