Como identificar a possibilidade de Transtorno do Espectro de Autismo (TEA) precocemente na Atenção Primária?
Na Atenção Primária, é possível identificar sintomas e sinais sugestivos de de Transtorno do Espactro de Autismo (TEA) no acompanhamento do desenvolvimento da criança nos seus primeiros anos de vida. As alterações iniciais do TEA frequentemente estão presentes antes dos 18 meses de idade. Não há sintoma patognomônico de TEA, portanto, deve-se evitar conclusões precipitadas, como excluir a possibilidade da condição porque o paciente não apresenta alteração na fala ou porque já fez contato visual em algum momento, por exemplo.
Os sinais precoces que indicam a possibilidade da condição incluem:
- preocupações relatadas pelos pais ou cuidadores sobre déficits nas habilidades sociais, deficits de linguagem ou dificuldades a tolerar mudanças;
- atraso na aquisição de habilidades sociais e de comunicação, como não apontar um objeto de interesse por volta de 14 meses, não brincar de ‘faz de conta’ aos 18 meses (por ex. brincar que está alimentando uma boneca);
- evitar contato visual ou desejar ficar sozinho;
- dificuldade de compreender as emoções de outras pessoas ou de falar sobre suas próprias emoções;
- repetir frequentemente frases ou palavras (ecolalia);
- responder a perguntas com respostas não relacionadas ou “aleatórias”;
- irritar-se às mínimas mudanças;
- apresentar interesses restritos e obsessivos;
- apresentar movimentos como bater as mãos, girar em círculos ou balançar o corpo;
- apresentar reações incomuns a barulho, cheiro, sabor ou ao toque.
Aqueles pacientes que apresentarem algum sinal citado anteriormente, poderão ser avaliados pela escala M-CHAT (The Modified Checklist for Autism in Toddlers) na Atenção Primária. A escala M-CHAT auxilia na identificação de pacientes com idade entre 16 e 30 meses com possível TEA. Trata-se de um questionário de rápida aplicação que deve ser respondido pelos pais ou cuidadores durante a consulta.
Tabela 1: Escala M-CHAT para triagem de transtornos do espectro autista, para ser utilizado em crianças de 16 a 30 meses:

Fonte: Losapio e Pondé (2008).
A escala indica uma suspeita de TEA e não é diagnóstica. Resultados falso-negativos são possíveis. Se o resultado da triagem não for positivo, recomenda-se acompanhamento e monitoramento do desenvolvimento neuropsicomotor do paciente e reavaliação. O paciente que apresentar resultado positivo deve realizar uma avaliação diagnóstica com especialista em Psiquiatria Pediátrica ou em Neurologia Pediátrica.
A detecção precoce de TEA permite ações imediatas junto ao paciente e sua família que possibilitam melhor prognóstico do desenvolvimento da criança. As intervenções imediatas incluem suporte e orientações aos familiares e cuidadores, planejamento educacional, adequação do acompanhamento na Unidade conforme necessidades do paciente (p. ex. agendar consultas de puericultura no primeiro ou último horário, evitando assim tempo prolongado em salas de espera) e encaminhamentos a serviços especializados:
- Pacientes com suspeita ou diagnóstico de TEA tem indicação de encaminhamento para Neurologia Pediátrica.
- Pacientes com suspeita ou diagnóstico de TEA que apresentam sintomas psicóticos associados (alucinações ou delírios), agitação psicomotora e/ou sinais de auto ou heteroagressividade deverão ser avaliados preferencialmente por equipe de Psiquiatria Pediátrica.
- Sempre que disponível, recomenda-se encaminhamento dos pacientes com necessidade de acompanhamento multidisciplinar com fonoaudiologia, psicologia e outras especialidades para equipes de Reabilitação Intelectual.
Referências:
- Rey JM, Martin A, editors. JM Rey’s IACAPAP e- textbook of child and adolescent mental health. Geneva: International Association for Child and Adolescent Psychiatry and Allied Professions; 2019 [citado em 7 Maio 2020]. Disponível em: .
- Weissman L. Autism spectrum disorder: surveillance and screening in primary care [Internet]. Waltham (MA): UpToDate; [atualizado em 29 Mar 2020, citado em 7 Maio 2020]. Disponível em: https://www.uptodate.com/contents/autism-spectrum-disorder-surveillance-and-screening-in-primary-care.
- Weissman L. Autism spectrum disorder: screening tools [Internet]. Waltham (MA): UpToDate; [atualizado em 29 Mar 2020, citado em 7 Maio 2020]. Disponível em: https://www.uptodate.com/contents/autism-spectrum-disorder-screening-tools.
- DynaMed. Record No. T113665, Autism Spectrum Disorders [Internet]. Ipswich (MA): EBSCO Information Services, 1995; [atualizado em 3 Dez 2018, citado em 7 Maio 2020]. Disponível em: https://www.dynamed.com/login.
- Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Programa de Pós-Graduação em Epidemiologia. TelessaúdeRS (TelessaúdeRS-UFRGS). Protocolos de encaminhamento para Psiquiatria Pediátrica. Porto Alegre: TelessaúdeRS-UFRGS; 28 Maio 2018 [citado em 7 Maio 2020]. Disponível em: https://www.ufrgs.br/telessauders/documentos/protocolos_resumos/ptrs_psiquiatriapediatrica.pdf.
- Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Programa de Pós-Graduação em Epidemiologia. TelessaúdeRS (TelessaúdeRS-UFRGS). Protocolos de encaminhamento para Neurologia Pediatrica: Porto Alegre: TelessaúdeRS-UFRGS; 2018 [citado em 7 Maio 2020]. Disponível em: https://www.ufrgs.br/telessauders/documentos/protocolos_resumos/ptrs_neuropediatria.pdf.
- Losapio MF, Pondé, MP. Tradução para o português da escala M-CHAT para rastreamento precoce de autismo. Rev. Psiquiatr. Rio Gd. Sul 2008 Set/Dez;30(3):221-9. Doi 10.1590/S0101-81082008000400011.
Como citar este documento:
Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Faculdade de Medicina. Programa de Pós-Graduação em Epidemiologia. TelessaúdeRS (TelessaúdeRS-UFRGS). Como identificar a possibilidade de Transtorno do Espectro de Autismo (TEA) precocemente na Atenção Primária? Porto Alegre: TelessaúdeRS-UFRGS; Abr 2020 [citado em “dia, mês abreviado e ano”]. Disponível em: xxxxxxxxxxxxxxxxxxxx.