Devemos suspender o uso de anticoagulantes orais antes de procedimentos cirúrgicos odontológicos?
Inicialmente deve-se avaliar o risco de sangramento do procedimento odontológico ao qual o paciente será submetido (quadro 1). Após, avaliar o risco que o indivíduo apresenta de ter sangramentos com base no anticoagulante em uso, nas condições clínicas preexistentes e na utilização de outras medicações, incluindo as prescritas e não prescritas [1,2,3,4].
Quadro 1. Riscos de sangramento após procedimentos odontológicos.
| Procedimentos | |
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Baixo |
Profilaxia, restaurações, endodontia, moldagens e confecção de próteses, raspagem supragengival, administração de anestésicos locais, exodontia simples de até 3 dentes e cirurgia gengival. |
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Alto |
Exodontias complexas*, exodontias de mais de 3 dentes e procedimentos cruentos**. |
*Refere-se a cirurgias com maior risco de complicação, conforme avaliação do dentista. Alguns exemplos incluem exodontias que necessitarão de uma ampla área de retalho cirúrgico, dentes impactados, dentes com relação próxima a estruturas importantes, como segundo molar e nervo alveolar inferior, e impactação óssea completa. Terceiros molares inferiores com impactação distoangular e terceiros molares superiores com impactação mesioangular [5].
**Com maior potencial de sangramento. Exemplo: cirurgia periodontal [1].
Fonte: TelessaúdeRS-UFRGS (2021), adaptado de Scottish Dental Clinical Effectiveness Programme (2015)
[1], Douketis et al. (2012) e Steffel et al. (2018) [1,2,3].
Os pacientes que se submeterão a procedimentos de baixo risco não devem ter a terapia com anticoagulantes suspensa. Os riscos não superam os benefícios, visto que a possibilidade de hemorragia pós-cirúrgica é mínima e contida com medidas hemostáticas locais (quadro 2), enquanto o risco de tromboembolismo é aumentado com a retirada da medicação [1,2,3].
Quadro 2. Medidas para controle de sangramento no trans e pós-operatórias, quando disponíveis.
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Fonte: TelessaúdeRS-UFRGS (2021), adaptado de Scottish Dental Clinical Effectiveness Programme (2015), Lusk, et al. (2018) e Hupp, Ellis, Tucker (2015) [1,4,5,6].
Já quando se planeja realizar procedimentos de alto risco de sangramento, deve-se avaliar o risco do paciente desenvolver eventos tromboembólicos em decorrência de suspensão da anticoagulação oral (quadro 3).
Quadro 3. Condições de alto risco de eventos tromboembólicos.
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Fonte: TelessaúdeRS-UFRGS (2021), adaptado de Douketis et al. (2012), Tomaselli, et al. (2020) e Duncan et al. (2014)[2,7,8].
O quadro a seguir orienta como proceder de acordo com o risco de sangramento do procedimento a ser realizado, com o risco do indivíduo apresentar eventos tromboembólicos e a classe do anticoagulante em uso.
Quadro 4. Manejo de pacientes em uso de anticoagulação oral submetidos a procedimentos odontológicos.
| Conduta sugerida de acordo com risco de sangramento | ||
|---|---|---|
| Baixo risco de sangramento e baixo risco de eventos tromboembólicos
OU Baixo risco de sangramento e alto risco de eventos tromboembólicos |
Inibidores da vitamina K (varfarina, femprocumona) | Não interromper a terapia com anticoagulantes orais; o INR ≤ 3: utilizar medidas hemostáticas e suturas individuais e em primeira intenção de cada local de extração o INR > 3: considerar suspender a medicação 1 a 2 dias antes do procedimento, em avaliação conjunta do médico e do odontólogo · Sempre que possível, utilizar as medidas descritas no quadro 2. |
| Anticoagulantes diretos (dabigatran, apixaban, rivaroxaban, edoxaban) | · A fim de evitar o pico sérico da droga, aos pacientes em uso dos anticoagulantes diretos (dabigatran, apixaban, rivaroxaban ou edoxaban), deve-se agendar o procedimento horas antes da próxima dose. | |
| Alto risco de sangramento e baixo risco de eventos tromboembólicos | · Considerar suspensão da anticoagulação, em decisão conjunta do médico e odontólogo; · se procedimento realizado na APS sem a suspensão da anticoagulação, adotar medidas para controle de sangramento no trans e pós-operatórias, quando disponíveis, descritas no quadro 2 (as mesmas medidas sugeridas para os procedimentos de baixo risco de sangramento); · considerar encaminhamento para centro de especialidade odontológica ou atenção terciária. |
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| Alto risco de sangramento e alto risco de eventos tromboembólicos* | encaminhamento para centro de especialidade odontológica ou atenção terciária (Cirurgia bucomaxilofacial). |
* Pacientes anticoagulados com doença renal crônica devem ser avaliados individualmente, uma vez que não há estudos que demonstrem os riscos e os benefícios da suspensão da anticoagulação nessa população.
Fonte: TelessaúdeRS-UFRGS (2021), adaptado de Scottish Dental Clinical Effectiveness Programme (2015), Douketis et al. (2012), Lusk et al. (2018), Tomaselli (2020), Patel et al. (2017) e Gualandro et al. (2017)[1,2,4,7,9,10].
Este conteúdo é destinado para profissionais de saúde e tem por objetivo fornecer informações atualizadas e baseadas em evidências científicas.
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Referências:
- Scottish Dental Clinical Effectiveness Programme. Management of Dental Patients Taking Anticoagulants or Antiplatelet Drugs: Dental Clinical Guidance. Scottish Dental Clinical Effectiveness Programme; 2015. Disponível em: .
- Douketis JD, Spyropoulos AC, Spencer FA, Mayr M, Jaffer AK, Eckman MH, et al. Perioperative management of antithrombotic therapy: Antithrombotic Therapy and Prevention of Thrombosis, 9th ed: American College of Chest Physicians Evidence-Based Clinical Practice Guidelines. Chest 2012 Feb;141(2 suppl):e326S-e350S. Doi: 10.1378/chest.11-2298.
- Steffel J, Verhamme P, Potpara TS, Albaladejo P, Antz M, Desteghe L, et al. The 2018 European Heart Rhythm Association Practical Guide on the use of non-vitamin K antagonist oral anticoagulants in patients with atrial fibrillation. Eur Heart J 2018;39:1330-93.
- Lusk KA, Snoga JL, Benitez RM, Sarbacker GB. Management of Direct-Acting Oral Anticoagulants Surrounding Dental Procedures With Low-to-Moderate Risk of Bleeding. J Pharm Pract 2018;31:202-7.
- Hupp JR, Ellis E, Tucker MR. Cirurgia Oral e Maxilofacial Contemporânea. Com Pin Edição. Barueri: GEN Guanabara Koogan; 5 Fev. 2015.
- Andrade ED. Terapêutica Medicamentosa em Odontologia. 3a ed. São Paulo: Artes Médicas – Divisão Odontológica; 2014.
- Duncan BB, Schmidt MI, Giugliani ERJ, Duncan MS, Giugliani C. Medicina Ambulatorial: condutas de Atenção Primária Baseadas em Evidências. 4. ed.: Porto Alegre: Artmed Editora; 2014.
- Patel JP, Woolcombe SA, Patel RK, Obisesan O, Roberts LN, Bryant C, et al. Managing direct oral anticoagulants in patients undergoing dentoalveolar surgery. Br Dent J 2017;222:245-9.
- Gualandro DM, Yu PC, Caramelli B, Marques AC, Calderaro D, Fornari LS, et al. 3rd Guideline for Perioperative Cardiovascular Evaluation of the Brazilian Society of Cardiology. Arq Bras Cardiol 2017;109:1-104.
Como citar este documento:
Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Programa de Pós-Graduação em Epidemiologia. TelessaúdeRS (TelessaúdeRS-UFRGS). Devemos suspender o uso de anticoagulantes orais antes de procedimentos cirúrgicos odontológicos? Porto Alegre: TelessaúdeRS-UFRGS; Mar 2021 [citado em dia, mês abreviado e ano]. Disponível em: https://www.ufrgs.br/telessauders/perguntas/devemos-suspender-o-uso-de-anticoagulantes-orais-antes-de-procedimentos-cirurgicos-odontologicos/.