Quando realizar profilaxia antibiótica para endocardite antes de procedimentos cirúrgicos odontológicos?

A profilaxia antibiótica deve ser realizada antes de alguns procedimentos cirúrgicos odontológicos em pacientes com alto risco de endocardite bacteriana [1]. São procedimentos odontológicos de risco:

  • procedimentos que envolvam a manipulação dos tecidos gengivais ou região periapical dos dentes, perfuração de mucosa bucal;
  • extrações;
  • drenagem de abscessos. 

São considerados pacientes com alto risco para endocardite e devem realizar profilaxia antibiótica [1,2,3,4,5]:

  • portador de válvula cardíaca protética ou outro material protético de reparo da válvula cardíaca;
  • histórico prévio de endocardite;
  • transplante cardíaco com função anormal de válvula cardíaca;
  • doença cardíaca congênita [6]:
    • cardiopatia congênita cianótica, não totalmente reparada (incluindo shunts);
    • cardiopatia congênita corrigida com material protético (nos primeiros seis meses pós-cirúrgico);
    • cardiopatia congênita cianótica corrigida que evolui com defeito residual.

O Quadro 1 apresenta os medicamentos e doses indicadas para a profilaxia de endocardite nos pacientes de alto risco.

Quadro 1. Regime profilático recomendado para prevenção de endocardite bacteriana.

Situação Medicamento Posologia
Adulto Criança
Via oral Amoxicilina 2g, VO 50mg/kg
Alérgicos à penicilina (via oral) Cefalexina* 2g, VO 50mg/kg
Azitromicina 500mg, VO 15mg/kg
Claritromicina 500mg, VO 15mg/kg
Doxiciclina 100mg, VO <45 kg, 4,4 mg/kg
> 45 kg, 100 mg
Impossibilidade de medicamento por via oral Ampicilina 2g, IM ou IV 50mg/kg
Cefazolina* 1g, IM ou IV 50mg/kg
Alérgicos à penicilina e impossibilidade de medicamento por via oral Cefazolina* 1g, IM ou IV 50mg/kg
Uso do antibiótico em dose única, 60 minutos antes do procedimento.
*Não devem ser empregadas em pacientes com história de anafilaxia, angioedema ou urticária decorrente do uso das penicilinas.
Fonte: Wilson et al. (2007), Sexton e Chu (2021), Andrade (2014) e Gould (2006)[1,4,6,7].

Em maio de 2021, a American Heart Association (Associação Americana do Coração) atualizou as recomendações de 2007 sobre profilaxia antibiótica para prevenção de endocardite infecciosa estreptocócica. A diretriz atual excluiu a clindamicina como alternativa para profilaxia de endocardite, devido a efeitos adversos mais frequentes e graves (especialmente infecção por  Clostridioides difficile) [1].

Os procedimentos odontológicos que não necessitam de profilaxia antibiótica são [1,8]:

  • anestesia local em tecidos sem infecção;
  • realização de radiografias; 
  • confecção de próteses; 
  • ortodontia, perda de dentes decíduos;
  • sangramento por trauma de lábios ou mucosa. 

 

Este conteúdo é destinado para profissionais de saúde e tem por objetivo fornecer informações atualizadas e baseadas em evidências científicas.

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Referências:

    1. Wilson WR, Gewitz M, Lockhart PB, Bolger AF, DeSimone DC, Kazi DS, et al.  Prevention of Viridans Group Streptococcal Infective Endocarditis: A Scientific Statement From the American Heart Association. Circulation. 2021 May 18;143(20):e963-e978. Doi: 10.1161/CIR.0000000000000969. 
    2. Duncan BB, Schmidt MI, Giuliani ERJ, Duncan MS, Giuliani C, editores. Medicina Ambulatorial: condutas de Atenção Primária baseadas em evidências. 4a ed. Artmed; 2014.
    3. Dynamed. Record nº T905548, Endocarditis Prophylaxis [Internet]. Ipswich (MA): EBSCO Information Services; 1995 [atualizado em 30 Nov 2018, citado em 15 Mar 2021]. Disponível em: . 
    4. Sexton DJ, Chu VH. Antimicrobial prophylaxis for the prevention of bacterial endocarditis [Internet]. Waltham (MA): UpToDate; [atualizado em 28 Jun 2021, citado em 13 Jul Mar 2021]. Disponível em: https://www.uptodate.com/contents/antimicrobial-prophylaxis-for-the-prevention-of-bacterial-endocarditis.
    5. Habib G, Lancellotti P, Antunes MJ, Bongiorni MG, Casalta J-P, Del Zotti F, et al. 2015 ESC Guidelines for the management of infective endocarditis: The Task Force for the Management of Infective Endocarditis of the European Society of Cardiology (ESC). Endorsed by: European Association for Cardio-Thoracic Surgery (EACTS), the European Association of Nuclear Medicine (EANM). Eur Heart J. 2015 Nov 21;36(44):3075–128. Doi 10.1093/eurheartj/ehv319.
    6. Andrade ED, organizador. Terapêutica medicamentosa em odontologia. 3a ed. Porto Alegre: Artmed; 2014.
    7. Gould FK, Elliott TSJ, Foweraker J, Fulford M, Perry JD, Roberts GJ, et al. Guidelines for the prevention of endocarditis: report of the Working Party of the British Society for Antimicrobial Chemotherapy. J Antimicrob Chemother. 2006 Jun;57(6):1035-42. Doi 10.1093/jac/dkl121.
    8. Hupp JR, Ellis III E, Tucker MR, organizadores. Cirurgia oral e maxilofacial contemporânea. 6a ed. Rio de Janeiro: Elsevier; 2015.

Como citar este documento:

Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Programa de Pós-Graduação em Epidemiologia. TelessaúdeRS (TelessaúdeRS-UFRGS). Quando realizar profilaxia antibiótica antes de procedimentos cirúrgicos odontológicos? Porto Alegre: TelessaúdeRS-UFRGS; 29 Out 2021 [citado em dia, mês abreviado e ano]. Disponível em: https://www.ufrgs.br/telessauders/perguntas/quando-realizar-profilaxia-antibiotica-antes-de-procedimentos-cirurgicos-odontologicos/.

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