Quando e como realizar profilaxia de tétano após ferimentos?

A profilaxia de tétano deve ser realizada o mais breve possível após o ferimento, mesmo que o paciente se apresente tardiamente para atendimento na unidade de saúde, visto que o período de incubação do microrganismo é bastante variável (entre 3 e 21 dias)  [1,2].

Para pacientes que foram vacinados contra o tétano anteriormente, mas que não estão com o esquema atualizado, é provável que haja pouco benefício na administração de imunoglobulina humana contra o tétano em ferimentos com mais de 1 semana de evolução. Para pacientes que não foram vacinados, a imunoglobulina humana contra o tétano deve ser administrada até 21 dias após a lesão [3]. 

A profilaxia depende do tipo de ferimento e do histórico vacinal do indivíduo. Os ferimentos podem ser classificados em dois tipos:

  • Ferimentos com risco mínimo de tétano: são ferimentos superficiais, sem corpos estranhos ou tecidos desvitalizados [1,2].
  • Ferimentos com alto risco de tétano: são ferimentos profundos ou superficiais sujos, que são aqueles contaminados com poeira, terra, fezes e/ou saliva (de animais ou humanas), ou ferimentos com outros corpos estranhos ou tecidos desvitalizados; queimaduras ou congelamento; feridas puntiformes ou por armas brancas e de fogo; mordeduras; esmagamento, politraumatismos e fraturas expostas [1,2].

Deve-se ficar atento a ferimentos em pessoas expostas a enchentes ou inundações, como vítimas ou socorristas, considerando a alta probabilidade de ferimentos profundos ou superficiais sujos neste contexto [5].

As indicações de profilaxia do tétano, conforme o tipo de ferimento e o histórico vacinal, são apresentadas nos quadros 1 e 2.

Quadro 1 — Profilaxia em ferimentos com risco mínimo de tétano

Histórico de vacinação contra o tétano Vacina SAT/IGHAT Outras condutas
Incerta ou menos de 3 doses Sim¹ Não
  • – Limpar com soro fisiológico ou água e sabão.
  • – Realizar o desbridamento, retirando todo o tecido desvitalizado e corpos estranhos.
  • – Após a remoção das condições suspeitas, fazer limpeza com água oxigenada ou solução antisséptica (álcool a 70%, clorexidina, permanganato de potássio a 1:5.000).
  • – Ferimentos puntiformes e profundos devem ser abertos em cruz e lavados generosamente.
3 doses ou mais, sendo a última dose há menos de 5 anos Não
3 doses ou mais, sendo a última dose há mais de 5 anos e menos de 10 anos Não
3 doses ou mais, sendo a última dose há mais de 10 anos Sim
Fonte: TelessaúdeRS-UFRGS (2023), adaptado de Ministério da Saúde (2024) [1].
IGHAT: imunoglobulina humana antitetânica; SAT: soro antitetânico.
¹Vacinar e aprazar as próximas doses, para completar o esquema básico. Essa vacinação visa proteger contra o risco de tétano por ferimentos futuros. Se o profissional que presta o atendimento suspeita que os cuidados posteriores com o ferimento não serão adequados, deve considerar a indicação de imunização passiva com soro antitetânico (SAT) ou imunoglobulina humana antitetânica (IGHAT). Quando indicado o uso de vacina e SAT ou IGHAT, concomitantemente, devem ser aplicados em locais diferentes.

Quadro 2 — Profilaxia em ferimentos com alto risco de tétano

Histórico de vacinação contra o tétano Vacina SAT/IGHAT Outras condutas
Incerta ou menos de 3 doses Sim¹ Sim
  • – Limpar com soro fisiológico ou água e sabão.
  • – Realizar o desbridamento, retirando todo o tecido desvitalizado e corpos estranhos.
  • – Após a remoção das condições suspeitas, fazer limpeza com água oxigenada ou solução antisséptica (álcool a 70%, clorexidina, permanganato de potássio a 1:5.000).
  • – Ferimentos puntiformes e profundos devem ser abertos em cruz e lavados generosamente.
3 doses ou mais, sendo a última dose há menos de 5 anos Não Não
3 doses ou mais, sendo a última dose há mais de 5 anos e menos de 10 anos Sim
(1 reforço)
Não²
3 doses ou mais, sendo a última dose há mais de 10 anos Sim
(1 reforço)
Não²
3 doses ou mais, sendo a última dose há 10 ou mais, anos em situações especiais³ Sim
(1 reforço)
Sim⁴
Fonte: TelessaúdeRS-UFRGS (2023), adaptado de Ministério da Saúde (2022) [1].
IGHAT: imunoglobulina humana antitetânica; SAT: soro antitetânico.
¹Vacinar e aprazar as próximas doses, para complementar o esquema básico. Essa vacinação visa proteger contra o risco de tétano por outros ferimentos futuros.
²Para paciente imunodeprimido, desnutrido grave ou idoso, além do reforço com a vacina, está também indicada IGHAT ou SAT. Os imunodeprimidos deverão receber sempre a IGHAT no lugar do SAT, em razão da meia-vida maior dos anticorpos.
³Entende-se por situações especiais aquelas em que o profissional que presta o atendimento suspeita que os cuidados posteriores com o ferimento não serão adequados.
⁴Se o profissional que presta o atendimento suspeita que os cuidados posteriores com o ferimento não serão adequados, deve considerar a indicação de imunização passiva com SAT ou IGHAT. Quando indicado o uso de vacina e SAT ou IGHAT, concomitantemente, devem ser aplicados em locais diferentes.

 

Para pacientes com indicação de SAT/IGHAT, deve-se considerar a avaliação individual. O SAT é preconizado para a prevenção e o tratamento do tétano. A indicação depende do tipo e das condições do ferimento, bem como das informações relativas à vacinação antitetânica pregressa e ao uso anterior do próprio SAT. Sua administração deve ser feita em serviço hospitalar ou em unidades que tenham suporte para atendimento de emergências. Antes da indicação do SAT, deve-se proceder à anamnese, com interrogatório rigoroso dos antecedentes da pessoa, tais como [1]:

  • se a pessoa, anteriormente, apresentou quadros de hipersensibilidade;
  • se a pessoa, em outra oportunidade, já fez uso de soros de origem equina;
  • se a pessoa mantém contato frequente com animais, principalmente com equinos, seja por necessidade profissional (a exemplo de veterinários) ou por lazer.

 

Na presença de qualquer uma dessas informações, o profissional deve adotar o procedimento indicado para a prevenção da ocorrência de reações anafiláticas, conforme orientação do Guia de Vigilância em Saúde.

A IGHAT é indicada para [1]: 

  • indivíduos que apresentaram algum tipo de hipersensibilidade quando da utilização de qualquer soro heterólogo (antitetânico, antirrábico, antidiftérico, antiofídico, entre outros); 
  • indivíduos imunodeprimidos, nas indicações de imunoprofilaxia contra o tétano, mesmo que vacinados (os imunodeprimidos deverão receber sempre a IGHAT no lugar do SAT, devido à meia-vida maior dos anticorpos); 
  • recém-nascidos em situações de risco para tétano cujas mães sejam desconhecidas ou não tenham sido adequadamente vacinadas; 
  • recém-nascidos prematuros com lesões potencialmente tetanogênicas, independentemente da história vacinal da mãe.

A recomendação para uso profilático dos imunobiológicos (SAT e IGHAT) é apresentada no Quadro 3.

Quadro 3 — Recomendação para uso profilático dos imunobiológicos (SAT e IGHAT)

Imunobiológico Dosagem Via de administração Observações
Imunoglobulina humana antitetânica (IGHAT) 250 UI Intramuscular Aplicar em grupo muscular diferente daquele no qual foi aplicada a vacina que contém o toxoide tetânico.
Soro antitetânico (SAT) 5.000 UI Intramuscular ou endovenosa Se intramuscular, administrar em duas massas musculares diferentes.
Diluir em soro fisiológico ou glicosado a 5%.
Fonte: TelessaúdeRS-UFRGS (2023), adaptado de Ministério da Saúde (2024) [1].

O tétano acidental é uma doença infecciosa aguda do sistema nervoso central, caracterizada por espasmos musculares intensos e dolorosos causados ​​pelo anaeróbio produtor de toxina Clostridium tetani, prevenível por vacina e não contagiosa [1,4]. O C. tetani é normalmente encontrado na natureza, podendo ser identificado em objetos de metal, de madeira, de vidro, águas putrefatas, poeira das ruas, fezes ou mesmo no solo (pregos, latas, ferramentas agrícolas, cacos de vidro, galho de árvore, arbustos, espinhos, pedaços de móveis e outros). A bactéria pode estar presente em objetos de metal mesmo que estes não estejam enferrujados [5,6]. 

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Este conteúdo é destinado para profissionais de saúde e tem por objetivo fornecer informações atualizadas e baseadas em evidências científicas.

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Referências:

    1. Ministério da Saúde (Brasil), Secretaria de Vigilância em Saúde e Ambiente, Departamento de Articulação Estratégica de Vigilância em Saúde e Ambiente. Guia de vigilância em saúde [Internet]. 6 o ed. Vol. 1. Brasília, DF: Ministério da Saúde; 2024 [citado 10 de maio de 2024]. Disponível em: https://bvsms.saude.gov.br/bvs/publicacoes/guia_vigilancia_saude_6edrev_v1.pdf.
    2. Baddour LM, Brown AM. Infectious complications of puncture wounds [Internet]. Waltham (MA): UpToDate; 2022 [citado 10 de maio de 2024]. Disponível em: https://www.uptodate.com/contents/infectious-complications-of-puncture-wounds.
    3. Thwaites L. Tetanus [Internet]. Waltham (MA): UpToDate; 2022 [citado 10 de maio de 2024]. Disponível em: https://www.uptodate.com/contents/tetanus.
    4. Centers for Disease Control and Prevention. Tetanus: for clinicians [Internet]. Georgia: CDC; 2022 [citado 9 de maio de 2024]. Disponível em: .
    5. World Health Organization. Flooding: managing health risks in the WHO European Region. Kopenhagen: WHO Regional Office for Europe; 2017. 82 p.
    6. Dynamed. Tetanus [Internet]. Ipswich (MA): EBSCO Information Services; 2023 [citado 14 de abril de 2023]. Disponível em: https://www.dynamed.com/condition/tetanus.
    7. Ministério da Saúde (Brasil), Secretaria de Vigilância em Saúde. Tétano acidental: ferimentos com destroços podem levar à infecção [Internet]. Brasília, DF: Ministério da Saúde; 2016. Disponível em: https://bvsms.saude.gov.br/bvs/folder/tetano_acidental_ferimentos_destrocos_levar_infeccao.pdf.
    8. Tiwari TSP, Moro PL, Acosta AM. Epidemiology and prevention of vacine-preventable diseases [Internet]. 14 o ed. Georgia: CDC; 2022 [citado 10 de maio de 2024]. Disponível em: .

Como citar esse documento:

Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Programa de Pós-Graduação em Epidemiologia, TelessaúdeRS. Rio Grande do Sul, Secretaria Estadual da Saúde. Quando e como realizar profilaxia de tétano após ferimentos? Porto Alegre: TelessaúdeRS-UFRGS; 13 abr. 2023[citado em dia, mês abreviado e ano]. Disponível em: https://www.ufrgs.br/telessauders/perguntas/quando-e-como-realizar-profilaxia-de-tetano-apos-ferimentos .

Publicador

UNIVERSIDADE FEDERAL DO RIO GRANDE DO SUL | TelessaúdeRS-UFRGS

Organização

Ana Cláudia Magnus Martins¹

Elise Botteselle de Oliveira¹

Juliana Nunes Pfeil¹

Luíza Emília Bezerra de Medeiros¹

Natan Katz1,2

Renata Rosa de Carvalho¹

Roberto Nunes Umpierre1,2

Rodolfo Souza da Silva¹

Rudi Roman¹

Autoria

Cláudia Rodrigues de Oliveira¹

Rafaela Fernandes Barrêto¹

Savannah Leitzke Carvalho¹

Revisão Técnica

Elise Botteselle de Oliveira¹

Fabiane Elizabetha de Moraes Ribeiro¹

Laura Ferraz dos Santos¹

Revisão Textual e Normalização

Bruna Rodrigues da Silva¹

Felícia Volkweis¹

Letícia Pereira de Souza¹

Diagramação

Camila Hofstetter Camini¹

Laura Sieg Pereira¹

Laura Willke de Moraes¹

Instituições

¹Universidade Federal do Rio Grande do Sul, TelessaúdeRS-UFRGS.

²Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Faculdade de Medicina, Departamento de Medicina Social.