Qual a indicação de uso de betabloqueadores na insuficiência cardíaca?
Deve-se prescrever betabloqueadores em todos os pacientes com insuficiência cardíaca (IC) com fração de ejeção reduzida (ICFEr) (≤40%) de qualquer etiologia, pois seu uso diminui a mortalidade global, por morte súbita e por IC, melhora sintomas e reduz taxas de re-hospitalização nestes pacientes [1,2]. Os betabloqueadores que possuem evidência destes benefícios estão listados abaixo no Quadro 1. Nos pacientes sintomáticos com insuficiência cardíaca com FE preservada (ICFEp) o uso de betabloqueadores não apresenta o mesmo impacto nos desfechos observados em pacientes com ICFEr. Nestes pacientes o uso de betabloqueadores segue as mesmas indicações de pacientes que não apresentam IC [1,3].
Quadro 1. Betabloqueadores indicados para pacientes com insuficiência cardíaca com fração de ejeção reduzida.
| Medicamento | Dose inicial | Dose máxima | Observações |
|---|---|---|---|
| Carvedilol | 3,125 mg, 12/12 horas | Até 85 Kg: 25 mg, 12/12 horas > 85 Kg: 50 mg, 12/12 horas |
– Preferir uso em pacientes com pressão arterial elevada. – Possui atividade vasodilatadora mais intensa que os demais betabloqueadores. – Não utilizar em pacientes com doença hepática grave. |
| Succinato de Metoprolol* | 12,5 a 25 mg, 1x/dia | 200 mg/dia | Preferir em pacientes com DPOC ou asma**. |
| Bisoprolol | 1,25 mg, 1x/dia | 10 mg/dia | Preferir em pacientes com DPOC ou asma**. |
Fonte: TelessaúdeRS-UFRGS (2021), adaptado de DynaMed (2018), Comitê Coordenador da Diretriz de Insuficiência Cardíaca (2018), Meyer (2020), Poole-Wilson et al. (2003), Lexicomp (c1978-2021, c1978-2021, c1978-2021) [1,2,3,4,5,6,7].
* O uso de tartarato de metoprolol não demonstrou benefícios na redução de mortalidade em pacientes com IC em estudos comparativos com o carvedilol e não está indicado rotineiramente para estes pacientes [4].
** Pacientes com asma e insuficiência cardíaca devem ser avaliados quanto aos riscos e benefícios do uso de betabloqueador [11].
O tratamento deve ser iniciado em baixas doses, com aumento de forma gradual (dobrar a dose a cada 2 a 4 semanas), mediante monitoramento da frequência cardíaca, da pressão arterial, dos sintomas de IC, e da tolerância ao medicamento [1,2,3]. Deve-se utilizar a dose máxima de cada medicamento ou a dose máxima tolerada pelo paciente. Existe benefício em manter o uso de betabloqueadores mesmo em pacientes que toleram doses baixas [3]. O betabloqueador pode ser iniciado conjuntamente aos inibidores da enzima conversora de angiotensina (IECA) em pacientes sintomáticos, desde que não haja sinais significativos de congestão [3,8,9].
Os pacientes podem apresentar piora funcional discreta da IC no início do tratamento, mas devem ser encorajados a manter o uso da medicação [2]. Em pacientes com descompensação aguda da doença ou hospitalizados, deve-se manter o uso de betabloqueadores iniciados previamente, na ausência de instabilidade hemodinâmica [1]. Em pacientes sem uso prévio de betabloqueadores deve-se iniciar o tratamento somente após estabilização hemodinâmica [1].
Betabloqueadores podem causar (de forma reversível) fadiga, transtornos de sono, insônia, sonhos vívidos, comprometimento de memória, disfunção sexual e tontura. Dados conflitantes na literatura demonstram possível associação com depressão [1,3]. Na presença de bloqueios atrioventriculares, deve-se, primeiramente, reduzir ou suspender outros fármacos que atuem no nodo atrioventricular, como digoxina e amiodarona [2].
São contraindicações ao início de betabloqueadores [1,3,4,10,11]:
- bloqueio atrioventricular de segundo ou terceiro graus (na ausência de marca-passo);
- frequência cardíaca menor de 50 batimentos/minutos (na ausência de marca-passo);
- Disfunção do Nó Sinusal;
- choque cardiogênico;
- insuficiência cardíaca descompensada;
- asma: é uma contraindicação relativa. Os pacientes com asma e insuficiência cardíaca devem ser avaliados quanto aos riscos e benefícios do uso de betabloqueador.
Betabloqueadores como atenolol, pindolol, propranolol e acebutolol não demonstraram redução de mortalidade em pacientes com insuficiência cardíaca e, portanto, não tem indicação no tratamento dessa condição [1,3,4].
Este conteúdo é destinado para profissionais de saúde e tem por objetivo fornecer informações atualizadas e baseadas em evidências científicas.
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Referências:
- Dynamed. Record No. T113690, Beta blockers for heart failure [Internet]. Ipswich (MA): EBSCO Information Services. 1995; [atualizado em 30 Nov 2018, citado em 24 Jun 2020]. Disponível em: https://www.dynamed.com/topics/dmp~AN~T113690.
- Comitê Coordenador da Diretriz de Insuficiência Cardíaca. Diretriz Brasileira de Insuficiência Cardíaca Crônica e Aguda. Arq Bras Cardiol. 2018 [citado em 24 Jun 2021];111(3):436-539. Disponível em: http://publicacoes.cardiol.br/portal/abc/portugues/2018/v11103/pdf/11103021.pdf.
- Meyer TE. Initial pharmacologic therapy of heart failure with reduced ejection fraction in adults [Internet]. Waltham (MA): UpToDate; [atualizado em 6 Maio 2020, citado em 24 Jun 2021]. Disponível em: https://www.uptodate.com/contents/initial-pharmacologic-therapy-of-heart-failure-with-reduced-ejection-fraction-in-adults.
- Poole-Wilson PA, Swedberg K, Cleland JGF, Di Lenarda A, Hanrath P, Komajda M, et al. Comparison of carvedilol and metoprolol on clinical outcomes in patients with chronic heart failure in the Carvedilol Or Metoprolol European Trial (COMET): randomized controlled trial. Lancet. 2003 Jul 5;362(9377):7-13. Doi 10.1016/S0140-6736(03)13800-7.
- Lexicomp. Carvedilol: drug information [Internet]. Waltham (MA): UptoDdate; c1978-2021 [citado em 26 Maio 2021].
- Lexicomp. Metoprolol: drug information [Internet]. Waltham (MA): UptoDdate; c1978-2021 [citado em 26 Maio 2021].
- Lexicomp. Bisoprolol: drug information [Internet]. Waltham (MA): UptodDate; c1978-2021 [citado em 26 Maio 2021].
- Secretaria Estadual da Saúde (Rio Grande do Sul), Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Programa de Pós-Graduação em Epidemiologia. TelessaúdeRS (TelessaúdeRS-UFRGS). Protocolos de encaminhamento para Cardiologia Adulto. Porto Alegre: TelessaúdeRS-UFRGS; 2017 [citado em 24 Jun 2021]. Disponível em: https://www.ufrgs.br/telessauders/documentos/protocolos_resumos/protocolo_ses_cardiologia_20170911_v019.pdf.
- Ponikowski P, Voors AA, Anker SD, Bueno H, Cleland JGF, Coats AJS, et al. Acute and Chronic Heart Failure Guidelines- ESC Clinical Practice Guidelines. Eur Heart J. 2016;37(27):2129-200. Doi 10.1093/eurheartj/ehw128.
- Noth I, Schmidt GA. Management of the patient with COPD and cardiovascular disease [Internet]. Waltham (MA): UpToDate; [atualizado em 18 Dez 2020, citado em 24 Jun 2021]. Disponível em: https://www.uptodate.com/contents/management-of-the-patient-with-copd-and-cardiovascular-disease.
- Global Initiative for Asthma. Global strategy for Asthma management and prevention (2021 uptodate). Fontana, WI; 2021 [citado em 24 Jun 2021]. Disponível em: https://ginasthma.org/wp-content/uploads/2021/05/GINA-Main-Report-2021-V2-WMS.pdf.
Como citar este documento:
Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Programa de Pós-Graduação em Epidemiologia. TelessaúdeRS (TelessaúdeRS-UFRGS). Qual a indicação de uso de betabloqueadores na insuficiência cardíaca? Porto Alegre: TelessaúdeRS-UFRGS; 24 Jun 2021 [citado em “dia, mês abreviado e ano”]. Disponível em: https://www.ufrgs.br/telessauders/perguntas/qual-indicacao-de-uso-de-betabloqueadores-na-insuficiencia-cardiaca.