Os indivíduos que se recuperam da COVID-19 podem ser infectados novamente ou desenvolvem imunidade contra a doença?

Atualmente os dados ainda são limitados para embasar uma resposta definitiva sobre a duração da imunidade adquirida após a infecção. O risco de reinfecção parece ser baixo, principalmente nos primeiros três meses da infecção inicial, sugerindo, ao menos, uma possível imunidade a curto prazo. Por outro lado, a permanência de imunidade duradoura ainda é incerta.

A resposta imune contra o SARS-CoV 2 envolve imunidade celular e produção de anticorpos. Logo no início da infecção uma resposta de células B e plasmócitos de memória é detectada, com secreção de IgA e IgM no 5º ao 7° dia e IgG no 7º ao 10° dia do início dos sintomas. Os títulos de IgA e IgM diminuem após 28 dias e os de IgG atingem o pico em 49 dias. Células T são ativadas de forma simultânea na primeira semana de infecção e células T CD4+ e CD8+ de memória específica para SARS-CoV 2 atingem o pico em 2 semanas mas ficam detectáveis por mais de 100 dias. Além disso, a resposta de anticorpos e células T depende da idade do paciente e gravidade da doença.  O declínio de IgG na convalescença é esperado e não deve ser uma preocupação, pois o nível de anticorpos após a infecção é o mais relevante, pois esses níveis são responsáveis pela geração de plasmócitos de longa duração que protegem contra infecções subsequentes. Um estudo com cerca de 12 mil profissionais de saúde demonstrou que pessoas com infecção prévia por SARS-CoV-2 que desenvolveram anticorpos apresentaram, em sua maioria, proteção contra reinfecção nos 6 meses seguintes à infecção, sugerindo uma possível imunidade de duração mais longa [1,2]. 

O avanço da disponibilidade de testes sorológicos que detectam anticorpos é fundamental para estimar a prevalência de infecções e auxiliar no diagnóstico de infecção passada ou prolongada. No entanto, esses testes não são indicados para determinar quais indivíduos estão imunes à reinfecção e não devem ser usados como “passaportes de imunidade” [3]. Além disso, a utilidade do teste sorológico para definir a ausência ou presença de infecção ou reinfecção permanece indefinida [4].

Apesar da provável imunidade, pelo menos a curto prazo, há casos de reinfecção da COVID-19 por cepas diferentes do SARS-CoV-2 confirmados por sequenciamento genômico em vários países do mundo, inclusive no Brasil, contudo ainda é uma situação rara [5,6]. 

Para garantir a confirmação de reinfecção, é essencial a coleta e armazenamento das amostras de RT-PCR, o que possibilita a análise do sequenciamento genômico e identificação de linhagens virais diferentes entre as duas amostras. Esta confirmação exige suporte laboratorial mais complexo. Na indisponibilidade dessas duas amostras a investigação não poderá ser complementada inviabilizando a análise do caso.  Ainda não há consenso sobre o período mínimo entre duas infecções, quais as consequências da reinfecção na gravidade dos casos e quais os critérios laboratoriais mais adequados para confirmar a reinfecção.[7,8,9].

O Ministério da Saúde publicou a definição de casos operacionais de reinfecção por COVID-19 no Brasil [8]:

Caso suspeito de reinfecção: indivíduo com dois resultados positivos de RT-PCR para o vírus SARS-COV-2, com intervalo igual ou superior a 90 dias entre os dois episódios de infecção respiratória, independente da condição clínica observada nos dois episódios.

 A notificação de caso suspeito de reinfecção deve ser realizada à vigilância municipal de saúde que deverá notificar a vigilância estadual. A busca se há amostra armazenada da primeira infecção deverá ser realizada pelo Lacen. A primeira e segunda amostra devem ser encaminhadas juntas ao Laboratório de Vírus Respiratórios e Sarampo – Fiocruz/RJ ou Instituto Adolfo Lutz – IAL/SP ou Instituto Evandro Chagas – IEC/PA, conforme rede referenciada para o Lacen de cada localidade [9]. 

Portanto, a maioria dos indivíduos aparentam apresentar imunidade temporária, sendo este tempo de duração ainda incerto, apesar de ser menos provável uma nova infecção por SARS-CoV2 nos primeiros 3 a 6 meses. Porém, há relatos de reinfecção confirmados, logo é essencial manter as medidas de prevenção mesmo quem já apresentou a doença previamente. 

 

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Este conteúdo é destinado para profissionais de saúde e tem por objetivo fornecer informações atualizadas e baseadas em evidências científicas. 

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Referências:

  1. Lumley SF, O’Donnell D, Stoesser NE, Matthews PC, Howarth A, Hatch SB, et al. Antibody status and incidence of SARS-CoV-2 infection in health care workers. N Engl J Med 2021 Feb 11;384:533-40. Doi 10.1056/NEJMoa2034545.
  2. Beeching NJ, Fletcher TE, Fowler R. Coronavirus disease 2019 (COVID-19). BMJ Best Practice, 8 Apr 2021 [citado em 9 Abr 2021]. Disponível em: https://bestpractice.bmj.com/topics/en-gb/3000168.  
  3. World Health Organization. “Immunity passports” in the context of COVID-19. Geneva; 24 Apr 2020 [citado em 9 Abr 2021]. Disponível em: https://www.who.int/news-room/commentaries/detail/immunity-passports-in-the-context-of-covid-19.
  4. Centers for Disease Control and Prevention. Healthcare Workers. Interim guidance on duration of isolation and precautions for adults with COVID-19. Georgia; 13 Feb 2021 [citado em 9 Abr 2021]. Disponível em: .
  5. Van Elslande J, Vermeersch P, Vandervoort K, Wawina-Bokalanga T, Vanmechelen B, Wollants E, et al. Symptomatic SARS-CoV-2 reinfection by a phylogenetically distinct strain. Clin Infect Dis. 2020 Sep 5;ciaa1330. Doi 10.1093/cid/ciaa1330.
  6. Ministério da Saúde (Brasil). Secretaria de Vigilância em Saúde. Boletim Epidemiológico Especial: Doença pelo Coronavírus COVID-19, Brasília, DF, 22 Dez 2020 [citado em 9 Abr 2021];42:1-78. Disponível em: https://www.gov.br/saude/pt-br/media/pdf/2020/dezembro/24/boletim_covid_42_24dez20.pdf.
  7. Organização Pan-Americana da Saúde. Organização Mundial da Saúde. Orientações provisórias para detecção de casos de reinfecção pelo SARS- CoV-2. Geneva; 29 Out 2020  [citado em 9 Abr 2021]. Disponível em: https://www.paho.org/pt/documentos/orientacoes-provisorias-para-deteccao-casos-reinfeccao-pelo-sars-cov-2. 
  8. Ministério da Saúde (Brasil). Secretaria de Vigilância em Saúde. Departamento de Imunização e Doenças Transmissíveis. Coordenação-Geral do Programa Nacional de Imunizações. Nota Técnica nº 52/2020-CGPNI/DEIDT/SVS/MS. Assunto: Orientações preliminares sobre a conduta frente a um caso suspeito de reinfecção da covid-19 no Brasil. Brasília, DF; 29 Out 2020 [citado em 9 Abr 2021]. Disponível em: https://www.cnm.org.br/cms/images/stories/comunicacao_novo/saude/SEI_MS_-_0017401088_-_Nota_Tecnica_final_1.pdf. 
  9. Ministério da Saúde (Brasil). Secretaria de Vigilância em Saúde. Guia de vigilância epidemiológica: emergência de saúde pública de importância nacional pela Doença pelo Coronavírus 2019. Brasília, DF: Ministério da Saúde; 15 Mar 2021 [versão 3, citado em 8 Abr 2021]. Disponível em: https://www.conasems.org.br/wp-content/uploads/2021/03/Guia-de-vigila%CC%82ncia-epidemiolo%CC%81gica-da-covid_19_15.03_2021.pdf.

Como citar este documento:

Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Programa de Pós-Graduação em Epidemiologia. TelessaúdeRS (TelessaúdeRS-UFRGS). Os indivíduos que se recuperam da COVID-19 podem ser infectados novamente ou desenvolvem imunidade contra a doença? Porto Alegre: TelessaúdeRS-UFRGS; 9 Abr 2021 [citado em dia, mês abreviado e ano]. Disponível em: https://www.ufrgs.br/telessauders/posts_coronavirus/os-individuos-que-se-recuperam-da-covid-19-podem-ser-infectados-novamente/.

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