Quando suspeitar de febre maculosa brasileira e como realizar a investigação diagnóstica?
Deve-se suspeitar de febre maculosa brasileira (FMB) em indivíduo que apresente [1,2]:
- febre de início súbito, cefaleia, mialgia e que tenha relatado história de picada de carrapatos e/ou contato com animais domésticos e/ou silvestres e/ou ter frequentado área sabidamente de transmissão de febre maculosa, nos últimos 15 dias; ou
- febre de início súbito, cefaleia e mialgia, seguidas de aparecimento de exantema maculopapular, entre o 2º e o 5º dias de evolução, e/ou manifestações hemorrágicas.
Todo caso suspeito de FMB requer notificação compulsória no SINAN e investigação (fluxograma 1), por se tratar de uma doença grave com altas taxas de letalidade. Dependendo do local, um caso pode significar um surto, o que impõe adoção imediata de medidas de controle [1–3].
Fluxograma 1. Investigação de casos suspeitos de febre maculosa brasileira.
Fonte: TelessaúdeRS-UFRGS (2023), adaptado de Ministério da Saúde (2022) [2].
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Para o diagnóstico laboratorial são necessárias 2 amostras de sangue do paciente, coletadas com um intervalo de 14 a 21 dias, para verificar o aumento de anticorpos. Outro método diagnóstico possível, quando disponível, é a pesquisa direta por biologia molecular (PCR), a partir de uma amostra de sangue coletada no início dos sintomas, em média até 7 dias. Porém, um resultado de PCR não detectável não descarta o caso, que deverá continuar sendo investigado [2,3]. Os exames laboratoriais utilizados na investigação de casos suspeitos para FMB estão descritos no quadro 1.
Quadro 1. Exames laboratoriais utilizados na investigação e avaliação de caso suspeito de febre maculosa.
| Exames específicos | ||
|---|---|---|
| Exame | Procedimento da coleta | Observações |
| Reação de imunofluorescência indireta – Rifi (método sorológico padrão-ouro) | 1ª amostra: a partir do 1º contato com o paciente.
2ª amostra: de 2 a 4 semanas após a data da 1ª coleta. |
A presença de aumento de pelo menos 4 vezes nos títulos de anticorpos, observado em amostras pareadas (nas mesmas condições e analisadas pelo mesmo operador) de soro, é o requisito para confirmação diagnóstica pela sorologia. Exemplos de interpretações de resultados de Rifi estão descritos no quadro 2. |
| Pesquisa direta da riquétsia por biologia molecular | Preferencialmente, nos primeiros 5 dias de doença e, impreterivelmente, antes do início do tratamento antimicrobiano específico. | Pode ser realizada em materiais como: coágulos formados após centrifugação do sangue coletado, tecido de biópsia ou necrópsia. Apesar de ser um método rápido, não tem um padrão específico, e a sensibilidade e a especificidade diagnósticas podem variar entre os testes. As técnicas de biologia molecular possibilitam melhor e mais adequada caracterização dos 2 grupos de riquétsias. Para esclarecimento de resultados inconclusivos, a PCR deve ser utilizada na 1ª amostra. |
| Pesquisa direta da riquétsia por isolamento (método direto padrão-ouro) | Cultura do sangue: no início dos sintomas, antes da antibioticoterapia, ou em até 48 horas do início da medicação.
Cultura de demais tecidos: início do aparecimento da lesão de pele e (exantema, petéquias), preferencialmente, antes do início da antibioticoterapia. |
Deve ser realizado sob condições de biossegurança NB3. Quando positivo, o resultado do isolamento é conclusivo. Entretanto, quando negativo, possui limitado valor preditivo negativo, em decorrência dos inúmeros fatores que podem interferir na técnica, como o uso de antibiótico antes da coleta do material a ser analisado, as condições de coleta, os cuidados no armazenamento e no transporte da amostra. Limitado uso na prática clínica. |
| Pesquisa direta da riquétsia por imuno-histoquímica | Necropsia efetuada idealmente antes de completar 24 horas após o óbito. | São utilizados anticorpos policlonais ou monoclonais específicos anti-R. rickettsii, podendo ser analisados fragmentos de diversos órgãos e tecidos, incluindo pele, pulmões, coração, fígado, baço, rins e cérebro. Limitado uso na prática clínica, pois a técnica é realizada apenas em alguns laboratórios de referência. |
| Exames inespecíficos e complementares | ||
| Hemograma com plaquetas, creatinina, creatinoquinase (CK), desidrogenase láctica (LDH), aminotransferases (AST/TGO e ALT/TGP), bilirrubinas totais e frações. | ||
Fonte: TelessaúdeRS-UFRGS (2023), adaptado de Ministério da Saúde (2021, 2022) [1,2].
Quadro 2. Exemplos de interpretação de resultados de reação de imunofluorescência indireta (Rifi) para febre maculosa brasileira em amostras pareadas de soro.
| Primeira amostra¹ | Segunda amostra² | Interpretação e comentário |
|---|---|---|
| Não reagente | Não reagente | Descartado. |
| Não reagente | 64 | Verificar possibilidade de surgimento/aumento tardio de anticorpos³. |
| Não reagente | 128 | Confirmado. |
| 64 | 64 | Verificar possibilidade de surgimento/aumento tardio de anticorpos³. |
| 128 | 256 | Verificar possibilidade de surgimento/aumento tardio de anticorpos³. |
| 128 | 512 | Confirmado. |
| 256 | 512 | Verificar possibilidade de surgimento/aumento tardio de anticorpos³. |
| 256 | 1024 | Confirmado. |
¹Primeira amostra colhida no início dos sintomas.
²Segunda amostra de 14 a 21 dias após a 1ª coleta.
³Diante da possibilidade de retardo na cinética de anticorpos, eventualmente, o surgimento da soroconversão pode ocorrer mais tardiamente. Assim, diante de um caso que apresente características clínicas e epidemiológicas compatíveis, recomenda-se fortemente que uma 3ª amostra seja coletada 14 dias após a 2ª. Essa recomendação deve ser reforçada, por exemplo, diante de um paciente cujo tratamento com antibioticoterapia específica foi instituído precocemente.
Fonte: Ministério da saúde (2022) [2].
A febre maculosa é uma zoonose causada por bactérias do gênero Rickettsia, transmitidas por meio de picadas de carrapatos infectados e que apresenta período de incubação que varia de 2 a 14 dias (média de 7 dias) [1,4,5]. Pode apresentar um curso clínico variável, desde quadros clássicos, até formas atípicas sem exantema [1]. Os sintomas costumam ser inicialmente abruptos e inespecíficos, como febre alta, cefaleia, mialgia intensa, mal-estar generalizado, náuseas e vômitos [1,4–6].
O exantema é uma manifestação clínica importante na FMB, que surge mais frequentemente após o 3º dia de evolução, sendo comumente observado a partir do 5o dia após início dos sintomas, podendo aparecer após o 3o dia [2,3]. A apresentação típica do exantema é de padrão maculopapular, não pruriginoso, com lesões variando entre 1 e 5 mm, acometendo inicialmente as extremidades (punhos e tornozelos, palmas das mãos e planta dos pés). Com a progressão da doença, se observa a disseminação centrípeta do exantema, com evolução para braços e pernas e, posteriormente, tronco e face. Com o avanço da infecção, observa-se a alteração do padrão inicialmente maculopapular para exantema petequial, purpúrico, sobretudo nas formas graves da doença, sugerindo maior e mais extenso acometimento endotelial. Em quadros mais graves, a confluência das lesões petequiais pode levar a extensas equimoses e sufusões hemorrágicas [2,5]. No paciente não tratado, as equimoses podem evoluir para necrose, principalmente em extremidades [1]. Embora seja o sinal clínico mais importante, o exantema pode estar ausente, o que pode dificultar e retardar o diagnóstico e o tratamento, levando a uma maior letalidade [1,5,7].
Figura 1. Exantema e edema de mão na febre maculosa brasileira.

Fonte: Angerami et al (2021 apud Ministério da Saúde 2022) [2].
Figura 2. Exantema maculopapular com petéquias central associado a febre maculosa brasileira.

Fonte: Biggs et al. (2016) [6].
As manifestações clínicas mais graves frequentemente surgem após o 5º dia do início dos sintomas e estão descritas no quadro 3. Esplenomegalia, hepatomegalia, icterícia, insuficiência renal e, sobretudo, alterações neurológicas (estupor, crises convulsivas, coma) são importantes marcadores de gravidade e mais frequentes em pacientes que evoluem para óbito na FMB. A letalidade pode chegar a 80% nos casos não tratados em tempo oportuno [1,2,4].
Quadro 3. Manifestações clínicas graves de febre maculosa brasileira.
| Manifestações hemodinâmicas | Edema em membros inferiores, hipotensão e choque. |
| Manifestações renais | Azotemia pré-renal caracterizada por oligúria e insuficiência renal aguda. |
| Manifestações gastrointestinais | Hepatoesplenomegalia, icterícia, náusea, vômito, dor abdominal e diarreia. |
| Manifestações cardiopulmonares | Miocardite, pneumonite, edema agudo de pulmão, hemorragia pulmonar alveolar e síndrome da angústia respiratória do adulto. |
| Manifestações neurológicas | Déficit neurológico, convulsões, cefaleia holocraniana intensa, alterações comportamentais, torpor, coma, edema cerebral, meningite, meningoencefalite. |
| Manifestações hemorrágicas | Petéquias, epistaxe, gengivorragia, hematúria, enterorragia, hemoptise e sangramento do sistema nervoso central. |
Fonte: TelessaúdeRS-UFRGS (2023), adaptado de Ministério da Saúde (2021, 2022a, 2022b) [1,2,4].
A suspeita tardia, com consequente retardo do início do tratamento específico, e a não utilização dos antimicrobianos preconizados, sobretudo a doxiciclina como 1ª opção, constituem os mais importantes fatores de risco associados ao aumento da letalidade da doença [2]. Outros fatores de pior prognóstico são: idade avançada (idosos), sexo masculino, cor de pele preta, antecedente de alcoolismo, ausência de exantema e ausência de relato de picada de carrapato [2].
Amputações devido necrose de extremidades, surdez, paraparesias, alterações de pares cranianos, déficit motores, neuropatia periférica, síndromes cerebelares e déficit de memória e/ou cognição são as sequelas graves descritas em pacientes com FMB [2].
| A partir da suspeita de febre maculosa brasileira, a terapêutica com antibióticos deve ser iniciada imediatamente, não se devendo esperar a confirmação laboratorial do caso [1,2]. Veja como tratar casos suspeitos de febre maculosa aqui. |
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Este conteúdo é destinado para profissionais de saúde e tem por objetivo fornecer informações atualizadas e baseadas em evidências científicas.
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Referências:
- Ministério da Saúde (Brasil), Secretaria de Vigilância em Saúde, Departamento de Articulação Estratégica de Vigilância em Saúde. Guia de vigilância em saúde [Internet]. 5o ed. Brasília, DF: Ministério da Saúde; 2021 [citado 15 de junho de 2023]. 1126 p. Disponível em: https://www.gov.br/saude/pt-br/centrais-de-conteudo/publicacoes/publicacoes-svs/vigilancia/guia-de-vigilancia-em-saude_5ed_21nov21_isbn5.pdf/view.
- Ministério da Saúde (Brasil), Secretaria de Vigilância em Saúde, Departamento de Imunizações e Doenças Transmissíveis. Febre Maculosa: aspectos epidemiológicos, clínicos e ambientais [Internet]. Brasília, DF: Ministério da Saúde; 2022 [citado 15 de junho de 2023]. 162 p. Disponível em: https://www.gov.br/saude/pt-br/centrais-de-conteudo/publicacoes/svsa/febre-maculosa/febre-maculosa-aspactos-epidemiologicos-clinicos-e-ambientais.pdf/view.
- Ministério da Saúde (Brasil), Secretaria de Vigilância em Saúde, Departamento de Imunização e Doenças Transmissíveis, Coordenação-Geral de Vigilância de Zoonoses e Doenças de Transmissão Vetorial. Nota Técnica no 114/2022-CGZV/DEIDT/SVS/MS. Orientações sobre a Febre Maculosa devido o período de sazonalidade da doença no Brasil. [Internet]. Brasília, DF: Ministério da Saúde; 2022. Disponível em: https://www.gov.br/saude/pt-br/centrais-de-conteudo/publicacoes/notas-tecnicas/2022/nota-tecnica-no-114-2022-cgzv-deidt-svs-ms/view.
- Ministério da Saúde (Brasil), Secretaria de Vigilância em Saúde, Departamento de Imunização e Doenças Transmissíveis, oordenação-Geral de Vigilância de Zoonoses e Doenças de Transmissão Vetorial. Nota Técnica no 97/2022-CGZV/DEIDT/SVS/MS. Disponibilização da doxiciclina 100mg, solução injetável, utilizada no tratamento da febre maculosa brasileira no âmbito do Sistema Único de Saúde (SUS), distribuídos pelo Departamento de Assistência Farmacêutica (DAF), nos anos de 2022 e 2023. [Internet]. Brasília, DF: Ministério da Saúde; 2022. Disponível em: https://www.gov.br/saude/pt-br/centrais-de-conteudo/publicacoes/notas-tecnicas/2022/sei_ms-0029017249-nota-tecnica.pdf/view.
- Sexton DJ, McClain MT. Clinical manifestations and diagnosis of Rocky Mountain spotted fever [Internet]. Waltham (MA): UpToDate; 2023 [citado 15 de junho de 2023]. Disponível em: https://www.uptodate.com/contents/clinical-manifestations-and-diagnosis-of-rocky-mountain-spotted-fever.
- Biggs HM, Behravesh CB, Bradley KK, Dahlgren FS, Drexler NA, Dumler JS, et al. Diagnosis and Management of Tickborne Rickettsial Diseases: Rocky Mountain Spotted Fever and Other Spotted Fever Group Rickettsioses, Ehrlichioses, and Anaplasmosis — United States: A Practical Guide for Health Care and Public Health Professionals. MMWR Recomm Rep [Internet]. 13 de maio de 2016 [citado 15 de junho de 2023];65(2):1–44. Disponível em: http://www.cdc.gov/mmwr/volumes/65/rr/rr6502a1.htm.
- Dynamed. Rocky Mountain Spotted Fever [Internet]. Ipswich (MA): EBSCO Information Services; 2023 [citado 15 de junho de 2023]. Disponível em: https://www.dynamed.com/condition/rocky-mountain-spotted-fever.
Como citar este documento:
Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Programa de Pós-Graduação em Epidemiologia, TelessaúdeRS. Rio Grande do Sul, Secretaria Estadual da Saúde. Quando suspeitar de febre maculosa brasileira e como realizar a investigação diagnóstica? Porto Alegre: TelessaúdeRS-UFRGS; 15 jun. 2023 [citado em “dia, mês abreviado e ano”]. Disponível em: https://www.ufrgs.br/telessauders/perguntas/quando-suspeitar-de-febre-maculosa-brasileira-e-como-realizar-a-investigacao-diagnostica/.
Publicador
UNIVERSIDADE FEDERAL DO RIO GRANDE DO SUL | TelessaúdeRS-UFRGS