Qual a conduta diante da identificação de protozoários não patogênicos em exame parasitológico de fezes (EPF)?

Protozoários não patogênicos habitam o trato intestinal e podem ser identificados em exames de fezes para pesquisas de ovos e parasitas, no entanto não exigem tratamento [1]. 

Os protozoários não patogênicos podem ser divididos em 2 grupos: amebas e flagelados, conforme o Quadro 1 [1,2].

Quadro 1 – Classificação dos protozoários não patogênicos

Amebas não patogênicas Flagelados não patogênicos
– Endolimax nana
– Entamoeba bangladeshi
– Entamoeba coli
– Entamoeba dispar

– Entamoeba gingivalis*
– Entamoeba hartmanni
– Entamoeba polecki
– Entamoeba moshkovskii
– Iodamoeba bütschlii
– Chilomastix mesnili
– Pentatrichomonas hominis
– Trichomonas hominis
Fonte: TelessaúdeRS-UFRGS (2024), adaptado de Weller e Leder (2023) [1] e WHO (2004) [2].
*Entamoeba gingivalis é o único protozoário não entérico listado, é encontrado ao redor dos dentes, nas criptas tonsilares e em esfregaços vaginais e cervicais de pessoas com dispositivos intrauterinos [1].

 

Se o laboratório clínico relatar exclusivamente espécies não patogênicas no EPF, não é necessária nenhuma terapia. A presença de protozoários não patogênicos sugere a possibilidade de ingestão de água ou alimentos contaminados ou higiene fecal-oral subótima [2].

Em pacientes  que apresentam apenas protozoários não patogênicos no EPF, os sintomas intestinais não devem ser atribuídos aos organismos não patogênicos [1]. Assim, como as taxas de excreção de protozoários patogênicos podem variar de dia para dia, é necessário realizar EPF coletados em série para detectar patógenos como Giardia lamblia ou E. histolytica Idealmente, um mínimo de 3 amostras devem ser obtidas em, pelo menos, 3 dias diferentes [1,3]. 

Os protozoários não patogênicos podem ser identificados com base em características morfológicas, com exceção de E. dispar, E. bangladeshi e E. moshkovskii [1,2,4]. Estudos mostram que E. dispar e E. moshkovskii são mais frequentes do que E. histolytica [1], e, apesar de terem sido identificadas em pacientes com sintomas gastrointestinais, a relação causal entre a presença de E. dispar e E. moshkovskii e os sintomas permanece incerta [4]. Como essas espécies não podem ser distinguidas morfologicamente uma da outra, exceto na identificação de trofozoítos de E. histolytica contendo eritrócitos fagocitados em indivíduos com amebíase invasiva [1,2], a Organização Mundial da Saúde recomenda que o achado desses parasitas em amostra fecal seja relatado como E. histolytica/E. dispar (e, mais recentemente, E. moshkovskii) [2,3]. Assim, o profissional de saúde deve interpretar o resultado do EPF de acordo com o quadro clínico e epidemiológico do indivíduo [3]. Exames adicionais, como pesquisa de antígenos, detecção de DNA por reação em cadeia de polimerase ou isolamento em cultura com identificação por isoenzimas, podem ser úteis para identificação do parasita e apoio ao tratamento [1,4]. Entretanto, esses exames não costumam estar disponíveis na atenção primária à saúde [3]. 

Outros protozoários encontrados no trato gastrointestinal foram originalmente descritos como organismos comensais, mas mais recentemente têm sido identificados como patógenos [5,6]. Pacientes assintomáticos com Blastocystis spp no exame de fezes não necessitam de tratamento. Contudo, há controvérsia no tratamento de indivíduos sintomáticos com Blastocystis spp no EPF. É importante, nesses casos, que outros patógenos e causas não infecciosas para os sintomas tenham sido avaliados. Se nenhum outro patógeno ou etiologia for identificada, sugere-se terapia antimicrobiana com metronidazol, 500 a 750 mg, 3x/dia, por 5 a 10 dias OU tinidazol, 2 g, em dose única (não disponível no SUS) [6]. Já em pacientes com Dientamoeba fragilis, o tratamento é justificado quando o organismo é encontrado como único patógeno potencial em amostras de fezes no contexto de dor abdominal ou diarreia com duração superior a 1 semana. A terapia ideal é incerta, mas recomenda-se tratamento com metronidazol, 500 a 750 mg, 3x/dia, por 10 dias [5]. Uma outra opção descrita para o tratamento de pacientes com Blastocystis spp. e Dientamoeba fragilis é a paromomicina, mas esse antimicrobiano não está disponível no Brasil [5].

 

Este conteúdo é destinado para profissionais de saúde e tem por objetivo fornecer informações atualizadas e baseadas em evidências científicas.

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Referências:

  1. Weller PF, Leder K. Nonpathogenic enteric protozoa [Internet]. Waltham (MA): UpToDate; 2023 [citado 8 de janeiro de 2024]. Disponível em: https://www.uptodate.com/contents/nonpathogenic-enteric-protozoa. 
  2. World Health Organization. Training Manual on Diagnosis of Intestinal Parasites. Tutor’s Guide:  Schistosomiasis and Intestinal Parasites Unit Division of Control of Tropical Diseases [Internet]. Geneva: WHO; 2004 [citado 8 de janeiro de 2023]. 48 p. Disponível em: https://iris.who.int/bitstream/handle/10665/63790/WHO_CTD_SIP_98.2.pdf. 
  3. Duncan BB, Schmidt MI, Giugliani ERJ, Duncan MS, Giugliani C. Medicina Ambulatorial: condutas de atenção primária baseadas em evidências. 5o ed. Porto Alegre: Artmed; 2022. 2424 p.
  4. Dynamed. Amebiasis [Internet]. Ipswich (MA): EBSCO Information Services; 2023 [citado 8 de janeiro de 2024]. Disponível em: https://www.dynamed.com/condition/amebiasis. 
  5. Weller PF, Leder K. Dientamoeba fragilis [Internet]. Waltham (MA): UpToDate; 2023 [citado 8 de janeiro de 2023]. Disponível em: https://www.uptodate.com/contents/dientamoeba-fragilis. 
  6. 6. Leder K, Weller PF. Blastocystis species [Internet]. Waltham (MA): UpToDate; 2023 [citado 8 de janeiro de 2023]. Disponível em:https://www.uptodate.com/contents/blastocystis-species.

Como citar este documento:

Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Programa de Pós-Graduação em Epidemiologia, TelessaúdeRS. Rio Grande do Sul, Secretaria Estadual da Saúde. Qual a conduta diante da identificação de protozoários não patogênicos em exame parasitológico de fezes (EPF)? Porto Alegre: TelessaúdeRS-UFRGS; 08 jan. 2024 [citado em “dia, mês abreviado e ano”]. Disponível em: https://www.ufrgs.br/telessauders/?post_type=perguntas&p=33188&preview=true

Publicador

UNIVERSIDADE FEDERAL DO RIO GRANDE DO SUL | TelessaúdeRS-UFRGS

Organização

Elise Botteselle de Oliveira¹

Renata Rosa de Carvalho¹

Luíza Emília Bezerra de Medeiros¹

Ana Cláudia Magnus Martins¹

Rudi Roman¹

Juliana Nunes Pfeil¹

Rodolfo Souza da Silva¹

Natan Katz1,2

Roberto Nunes Umpierre1,2

Autoria

Luíza Emília Bezerra de Medeiros¹

Revisão Técnica

Elise Botteselle de Oliveira¹

Revisão Textual e Normalização

Bruna Rodrigues da Silva¹

Letícia Pereira de Souza¹

Diagramação

Luisa Nascimento¹

Laura Paiva Etchichury¹

Instituições

¹Universidade Federal do Rio Grande do Sul, TelessaúdeRS-UFRGS.

²Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Faculdade de Medicina, Departamento de Medicina Social.