Quando suspeitar e como manejar casos de hepatite A?
Deve-se suspeitar de hepatite A em pacientes com febre, dor abdominal, náuseas, vômitos, diarreia e icterícia e que apresentem fatores de risco para infecção, como precariedade na higiene e na infraestrutura de saneamento básico, ingestão de alimentos potencialmente contaminados ou contato com casos de hepatite A [1], visto que a principal via de transmissão é fecal-oral. Deve-se atentar para a possibilidade de aumento de casos de hepatite A pela ingestão de água ou de alimentos contaminados com esgoto/dejetos humanos, pouco acesso a água potável e más condições de saneamento básico, o que pode ocorrer durante catástrofes ambientais como enchentes e inundações [2,3]. O período de incubação médio da hepatite A médio é de 4 semanas (entre 15 e 45 dias) [1]. Os principais sintomas da hepatite A de acordo com a fase clínica, estão descritos no Quadro 1.
Quadro 1 – Sintomas de hepatite A
| Fase | Sintomas |
|---|---|
| Prodrômica (5-7 dias) |
– Anorexia. – Náuseas e vômitos. – Diarreia. – Raramente: constipação, febre baixa, cefaleia, mal-estar, astenia e fadiga, aversão ao paladar e/ou ao olfato, mialgia, fotofobia, desconforto no hipocôndrio direito, urticária, artralgia ou artrite, e exantema papular ou maculopapular. |
| Ictérica² (4-30 dias) |
– Icterícia (mais comum em adultos)¹. – Hepatomegalia dolorosa. – Esplenomegalia. |
| Convalescência | – Fraqueza/cansaço³. |
Fonte: TelessaúdeRS-UFRGS (2024), adaptado de Ministério da Saúde (2006, 2023) [1,4].
¹ Ocorre em torno de 5 a 10% dos pacientes menores de 6 anos [4].
² A presença de urina escura (colúria) e fezes claras (acolia) pode preceder a fase ictérica e corrobora a suspeita clínica [5].
³ A recuperação completa ocorre após algumas semanas, mas a fraqueza e o cansaço podem persistir por vários meses [1].
São consideradas suscetíveis à infecção as pessoas com sorologia anti-HAV IgG não reagente. A imunidade pode ser adquirida por infecção prévia ou por vacinação. O período de incubação varia de 15 a 45 dias [1,2].
Ao avaliar um paciente com suspeita de hepatite aguda, a solicitação de exames laboratoriais visa excluir sinais de gravidade e auxiliar nos diagnósticos diferenciais. Solicitar, inicialmente: hemograma com plaquetas, bilirrubina total e frações, aminotransferases (ALT, AST), gama-GT, anti-HAV IgM, Anti-HAV IgG e testes rápidos ou sorologias para hepatite B e C [1,6,7]. Pacientes ainda sem diagnóstico confirmado de hepatite A, que apresentam icterícia ao exame físico, devem ser encaminhados à emergência para complementar investigação diagnóstica com fosfatase alcalina, albumina, tempo de protrombina e ultrassonografia abdominal [6–9]. A elevação de AST/ALT pode ser de até 100 vezes o limite superior da normalidade (LSN) e a elevação de bilirrubinas pode ser de até 25 vezes LSN [1].
O diagnóstico laboratorial da hepatite A é realizado pela avaliação de marcadores específicos descritos no Quadro 2. É considerado caso confirmado de hepatite A [1]:
- Pacientes com anti-HAV IgM reagente, independente da apresentação clínica.
- Paciente com suspeita clínica E vínculo epidemiológico com caso de hepatite A confirmado laboratorialmente.
- Indivíduo que evoluiu para óbito com menção de hepatite A na Declaração de Óbito.
- Indivíduo que evoluiu para óbito com menção de hepatite sem etiologia especificada na Declaração de Óbito, mas que tem confirmação para hepatite A após investigação.
Quadro 2 – Testes sorológicos para hepatite A e suas interpretações
| Testes | Anti-HAV total | Anti-HAV IgM | Anti-HAV IgG |
|---|---|---|---|
| Significado | Pessoa não suscetível à hepatite A. Presença de anti-HAV IgG e IgM simultaneamente, sem diferenciação. |
Diagnóstico de hepatite aguda. | Imunidade por contato prévio com o vírus ou vacinação. |
| Período | Após a infecção e durante toda a vida do paciente. | A partir do segundo dia de sintomas, e queda a partir da segunda semana. Desaparece em três a seis meses. |
Fase de convalescença, persiste indefinidamente |
| Interpretação | |||
| Infecção aguda/ recente | Reagente (+) | Reagente (+) | Reagente (+) OU Não reagente (-) |
| Infecção passada/ imunidade | Reagente (+) | Não-reagente (-) | Reagente (+) |
| Suscetível | Não-reagente (-) | Não-reagente (-) | Não-reagente (-) |
Fonte: TelessaúdeRS-UFRGS (2024), adaptado de Ministério da Saúde (2018, 2023) [1,10].
O tratamento para hepatite A é de suporte e manejo de sintomas, não havendo tratamento específico [1,4]. Deve-se evitar o uso de medicações ou outras substâncias hepatotóxicas, além disso, recomenda-se repouso relativo até a normalização da ALT e AST [1]. Pacientes com vômitos e diarreia devem receber orientações em relação à nutrição e à hidratação adequadas [1]. Veja mais orientações para manejo de diarreia aguda em crianças e adultos. Deve ser realizada revisão clínica quinzenal e repetição de exames conforme necessário. Os pacientes podem receber alta do acompanhamento ambulatorial após remissão dos sintomas e normalização das bilirrubinas e aminotransferases com valores inferiores a 2x o LSN [7].
A hepatite A tem caráter benigno na maioria dos casos, porém a letalidade aumenta com a idade [4,5]. Apesar de ocorrer em menos de 1% dos pacientes [11], deve-se suspeitar de falência hepática aguda na presença de tempo de protrombina prolongado (INR ≥ 1,5) e de encefalopatia hepática (inversão do ciclo sono-vigília, confusão mental, flapping). Esses casos devem ser encaminhados à emergência [8,12–14].
A hepatite A é comumente transmitida por meio de contato oral-fecal, pela ingestão de água e/ou alimentos contaminados. A transmissão sexual do vírus da hepatite A também vem sendo reportada no contexto das práticas sexuais que envolvam a possibilidade de contato oral-fecal [15]. Pessoas assintomáticas no período de incubação ou pacientes já em remissão da doença podem permanecer eliminando vírus ativamente nas fezes [4,5] por até 5 meses [5]. Portanto, sugere-se manter medidas de cuidados constantes [1,4,5,16]:
- Lavar as mãos (principalmente após o uso do sanitário e troca de fraldas e antes do preparo de alimentos);
- Lavar (com água tratada, clorada ou fervida) todos os alimentos que serão consumidos crus, deixando-os de molho por 30 minutos
- Cozinhar bem os alimentos antes de consumi-los, principalmente frutos do mar;
- Lavar adequadamente pratos, copos, talheres e mamadeiras;
- Usar instalações sanitárias;
- No caso de creches, pré-escolas, lanchonetes, restaurantes e instituições fechadas, adotar medidas rigorosas de higiene, tais como a desinfecção de objetos, bancadas e chão, utilizando hipoclorito de sódio a 2,5% ou água sanitária;
- Não tomar banho ou brincar perto de valões, riachos, chafarizes, enchentes ou próximo a locais onde haja esgoto;
- Evitar a construção de fossas próximas a poços e nascentes de rios;
- Usar preservativos e higienizar as mãos, genitália, períneo e região anal antes e depois das relações sexuais;
- Higienizar vibradores, plugs anais e vaginais e outros acessórios eróticos;
- Uso de barreiras de látex durante o sexo oral-anal e de luvas de látex para dedilhado ou “fisting”.
Todos os casos confirmados e surtos de hepatite A devem ser notificados em ficha de notificação específica do SINAN. As hepatites virais são doenças de notificação compulsória regular (em até 7 dias) [1]. As orientações para preenchimento da ficha de notificação podem ser encontradas aqui.
Este conteúdo é destinado para profissionais de saúde e tem por objetivo fornecer informações atualizadas e baseadas em evidências científicas.
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Referências:
- Ministério da Saúde (Brasil), Secretaria de Vigilância em Saúde e Ambiente, Departamento de Articulação Estratégica de Vigilância em Saúde e Ambiente. Guia de vigilância em saúde [Internet]. 6o ed. Vol. 2. Brasília, DF: Ministério da Saúde; 2023 [citado 7 de maio de 2024]. Disponível em: https://www.gov.br/saude/pt-br/centrais-de-conteudo/publicacoes/svsa/vigilancia/guia-de-vigilancia-em-saude-volume-2-6a-edicao/view.
- Secretaria Estadual da Saúde (Rio Grande do Sul), Centro de Vigilância em Saúde. Guia básico para riscos e cuidados após enchentes [Internet]. Porto Alegre: Secretaria Estadual da Saúde; 2023 [citado 9 de maio de 2024]. Disponível em: https://admin.saude.rs.gov.br/upload/arquivos/202310/23135541-guia-basico-final.pdf.
- Paterson DL, Wright H, Harris PNA. Health Risks of Flood Disasters. Clin Infect Dis. 15 de outubro de 2018;67(9):1450–4.
- Ministério da Saúde (Brasil), Secretaria de Atenção à Saúde, Departamento de Atenção Básica. HIV/aids, hepatittes e outras DST [Internet]. Vol. Cadernos de Atenção Básica, n. 18. Brasília, DF: Ministério da Saúde; 2006 [citado 9 de maio de 2024]. 197 p. Disponível em: https://www.gov.br/saude/pt-br/centrais-de-conteudo/publicacoes/svsa/atencao-basica/cadernos-de-atencao-basica_-hiv-aids_hepatites_ist.pdf/view.
- Ministério da Saúde (Brasil). Hepatite A [Internet]. Brasília, DF: Ministério da Saúde; 2024 [citado 9 de maio de 2024]. Disponível em: https://www.gov.br/saude/pt-br/assuntos/saude-de-a-a-z/h/hepatites-virais/hepatite-a
- Dynamed. Hepatitis A Virus (HAV) Infection [Internet]. Ipswich (MA): EBSCO Information Services; 2024 [citado 7 de maio de 2024]. Disponível em: https://www.dynamed.com/condition/hepatitis-a-virus-hav-infection.
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Como citar este documento:
Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Programa de Pós-Graduação em Epidemiologia. TelessaúdeRS-UFRGS. Quando suspeitar e como manejar casos de hepatite A? Porto Alegre: TelessaúdeRS-UFRGS; 9 maio 2022 [citado em dia, mês abreviado e ano]. Disponível em: https://www.ufrgs.br/telessauders/perguntas/quando-suspeitar…os-de-hepatite-a/
Publicador
UNIVERSIDADE FEDERAL DO RIO GRANDE DO SUL | TelessaúdeRS-UFRGS