Fosfoetanolamina: esperança ou engano?

Publicado em 02/05/16

fosfoetanolamina foram realizados em ratos e cultura de células

Receber o diagnóstico de câncer é algo que deixa qualquer paciente ou familiar bastante angustiado. Quando a doença não responde ao tratamento, essa angústia se multiplica de tal forma que qualquer promessa de solução ou alívio do sofrimento é bem vinda. Nesse momento, o uso da fosfoetanolamina é adequado para o tratamento do câncer?

Não, o uso da fosfoetanolamina não é adequado para tratar o câncer. Nenhum tipo de câncer. Nem os incuráveis. Por quê?

Porque um medicamento só é considerado eficaz – faz bem para um determinado tipo de problema – e seguro se os danos decorrentes do tratamento são aceitáveis e menores do que os seus benefícios. Para isso, o medicamento precisa passar por uma série de estudos. No Brasil, quem regulamenta os estudos necessários para o registro dos medicamentos é a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa).

A fosfoetanolamina não foi ainda testada em humanos. Ela pode fazer mais mal que bem a nós, seres humanos.

Até o momento, os únicos estudos que testaram a eficácia da fosfoetanolamina foram realizados em ratos e cultura de células.

Os relatórios iniciais de avaliação, divulgados em abril de 2016, indicam que as cápsulas possuem uma mistura de produtos (fosfoetanolamina, monoetanolamina, fostatos entre outros), sendo inadequada para consumo. Os resultados descritos parcialmente demonstram que somente a monoetanolamina apresenta atividade citotóxica e antiproliferativa, ou seja capaz de matar as células tumorais e impedir o crescimento. Entretanto, estes resultados foram menos potentes que no grupo controle, ou seja, menos potentes que a substância utilizada como referência para comparação. Dessa forma, não é possível afirmar que ela seja eficaz em seres humanos para tratar qualquer tipo de câncer. Os relatórios não comprovam benefícios, nem malefícios. O grande prejuízo talvez seja não estar investindo em outras substâncias com potencial uso que já estão em investigação.

A aprovação para uso em humanos da fosfoetanolamina, primeiro na Câmara Federal, após no Senado, em 17 de março, até a Sanção da Presidência da República, da Lei 13 269, de 13 de abril de 2016, sem que esta tenha passado pelos estudos clínicos em humanos, que garantam sua segurança e eficácia, é uma atitude de desrespeito à saúde da população brasileira. É uma transgressão ao órgão regulatório, a legislação vigente e a boa prática clínica.

A Boa Prática Clínica é um padrão de qualidade científica e ética internacional que regulamenta estudos com novas medicações que envolvam seres humanos. Tem como princípios a Declaração de Helsinki redigida pela Associação Médica Mundial em 1964, em resposta às atrocidades com experimentação humana, realizadas durante a Segunda Guerra Mundial.

O Brasil se inseriu mais fortemente no cenário internacional da Boa Prática Clínica a partir de 1999 com a criação da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (ANVISA). O registro de medicamentos, inclusive medicamentos novos, no Brasil, está bem regulamentado hoje em dia, podendo necessitar ainda de pequenos ajustes, mas sendo comparável em conteúdo a outras agências reguladoras mais avançadas. Para tanto, a ANVISA deve atuar com transparência no propósito para a qual foi criada, com independência política e autonomia financeira.

A aprovação de um medicamento que não está registrado dificulta a realização de estudos para testar sua eficácia e segurança. Assim como, dificulta o monitoramento de seu uso para identificação, avaliação, compreensão e prevenção de efeitos adversos ou qualquer problema possível relacionado com o medicamento. Com isso, corre-se o risco de ter a falsa sensação de eficácia (usar algo achando que está fazendo bem) e de segurança (não saber que o que se usa está causando mal). Dessa farsa, é o que menos precisam o paciente com câncer e seus familiares.

Escrito por: 

Artur Francisco Schumacher Schuh – Neurologista e Teleconsultor do TelessaúdeRS/UFRGS. Doutor em Genética e Biologia Molecular pela UFRGS. Mestre em Ciências Médicas pela UFRGS. Especialista em Distúrbios do Movimento pelo HCPA. Residência Médica em Neurologia. Graduado em Medicina pela UFRGS.

Cynthia Goulart Molina Bastos – Médica de Família e Comunidade e Teleconsultora do TelessaúdeRS/UFRGS. Mestranda em Epidemiologia pela UFRGS e Especializada em Medicina de Família a Comunidade pelo HCPA. Graduada em Medicina pela UFRGS.

Erno Harzheim- Médico de Família e Comunidade e Coordenador Geral do TelessaúdeRS/UFRGS. Doutor em Saúde Pública pela Universidade de Alicante (Espanha). Pós-doutor em Epidemiologia pelo PPG-Epi/UFRGS. Professor Associado da FAMED/UFRGS. Professor Permanente do PPG-Epi/UFRGS.

Marcelo Rodrigues Gonçalves – Médico de Família e Comunidade e Vice-coordenador Geral do TelessaúdeRS/UFRGS. Doutor em Epidemiologia pelo PPG-Epi/UFRGS. Professor Adjunto da FAMED/UFRGS.

Pablo de Lannoy Stürmer – Médico de Família e Comunidade e Teleconsultor do TelessaúdeRS/UFRGS. Especializado em Medicina de Família e Comunidade pelo GHC e graduado em Medicina pela UFRGS.

Priscila Raupp da Rosa – Cardiologista e Teleconsultora do TelessaúdeRS/UFRGS. Doutoranda em Cardiologia e Ciências Cardiovasculares pela UFRGS. Especializada em Cardiologia pela PUCRS e em Clínica Médica pelo HCPA. Graduada em Medicina pela UFRGS.

 

Bibliografia:

1 BRASIL. Ministério da Ciência Tecnologia e Inovação.  Resumo Executivo: Relatórios Fosfoetanolamina. Brasília: Ministério da Ciência Tecnologia e Inocação, 2016. Disponível em: <http://www.mcti.gov.br/documents/10179/1274125/Resumo+Executivo+vers%C3%A3o+de+01-04/3d49192f-d33b-49a4-9d32-732639ae382d>. Acesso em: 25 abr. 2016.

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3 BRASIL. Câmara dos Deputados [internet]. Câmara aprova projeto que autoriza uso de substância contra o câncer. Brasília: Câmara dos Deputados, 2016. Disponível em:<http://www2.camara.leg.br/camaranoticias/noticias/SAUDE/504966-CAMARA-APROVA-PROJETO-QUE-AUTORIZA-USO-DE-SUBSTANCIA-CONTRA-O-CANCER.html>. Acesso em: 25 abr, 2016.

4 BRASIL. Agência Nacional de Vigilância Sanitária [internet].Perguntas e respostas: registro de medicamentos genéricos, novos e similares: tecnologia farmacêutica. Brasília: Anvisa, 2015. Disponível em:<http://portal.anvisa.gov.br/wps/wcm/connect/918cda8048c24f5c8623be0a466faa84/FAQ+GRMED.pdf?MOD=AJPERES>. Acesso em: 25 abr. 2016.

5 NISHIOKA, S. A. Como é feito o registro de medicamentos novos no Brasil. Prática Hospitalar, São Paulo, n. 45, p. 13-17, 2006. Disponível em:<http://www.anvisa.gov.br/medicamentos/registro/artigo_pratica_hospitalar.pdf> Acesso em: 25 abr. 2016.

6 BRASIL. Agência Nacional de Vigilância Sanitária. Política vigente para a regulamentação de medicamentos no Brasil. Brasília: Agência Nacional de Vigilância Sanitária, 2004. Disponível em:<http://bvsms.saude.gov.br/bvs/publicacoes/anvisa/manual_politica_medicamentos.pdf>. Acesso em: 25 abr. 2016.

7 ESCOBAR, H. Cancer research: Brazil bill would legalize renegade cancer pill. Science, New York, v. 352, n. 6281, p. 18. Doi: 10.1126/science.352.6281.18. Disponível em: <http://science.sciencemag.org/content/352/6281/18.long>. Acesso em: 25 abr. 2016.

8 ARRUDA, M. S. P et al. The effect of phosphoethanolamine intake on mortality and macrophage activity in mice with solid ehrlich tumors.

Brazilian Archives of Biology and Technology, Curtiba, v. 54, n. 6, p. 1203-1210. Disponível em: <http://dx.doi.org/10.1590/S1516-89132011000600016>. Acesso em: 25 abr. 2016.

 

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