Por que o novembro azul traz tanta polêmica?

20151104

Há alguns anos, entidades médicas, como a Sociedade Brasileira de Urologia, e a sociedade civil promovem a campanha Novembro Azul. A ideia é ótima: conscientizar os homens sobre a necessidade de adotar medidas de promoção e prevenção de doenças. Contudo, o problema é o carro chefe da campanha, o rastreamento universal de todos os homens acima de 50 anos para prevenir o câncer de próstata.

Primeiro, é importante explicar o que é rastreamento. Significa procurar doenças em quem não tem sinais ou sintomas, investigar quem não está sentindo nada. É muito diferente de investigação clínica, quando a pessoa tem alguma queixa. No caso do novembro azul, significa fazer, uma vez ao ano, exame de PSA e toque retal em todos os homens acima de 50 anos.

Entretanto, se olharmos descuidadamente, tudo parece muito lógico. Prevenir não é o melhor remédio? O câncer de próstata é muito frequente – no Brasil são registrados 69 mil novos casos por ano, segundo o Instituto Nacional do Câncer  (INCA. É possível descobrir o câncer em estágios iniciais com o PSA e o toque retal. E é possível curar os pacientes com cirurgia.

Então, por que não fazer?

A primeira questão é que o PSA pode estar alterado mesmo quando temos uma doença benigna da próstata.  Mesmo quando realizado junto ao toque retal (palpação da próstata), o exame de PSA não consegue identificar de maneira precisa a presença de câncer. Isso significa que muitos pacientes sem câncer deverão fazer uma biópsia de próstata porque o toque retal e/ou o PSA está falsamente alterado.

A segunda questão – e mais importante – é que o câncer de próstata, na maioria das vezes, é um tipo de câncer de crescimento lento,  que surge em idades avançadas. E o que isso significa? Significa que é mais provável que a pessoa morra com o câncer de próstata, até assintomático, e não do câncer de próstata. Mesmo descobrindo câncer em mais gente com o rastreamento (uma verdade) nós não conseguimos diminuir a mortalidade desses homens, pois eles morrem por outros motivos mais frequentes.

Então, de que adianta procurar e achar o câncer, se não fazemos as pessoas viverem mais?

E o pior não é isso, mas sim as consequências de tirar a próstata (prostatectomia). Essa cirurgia tem uma taxa alta de complicações, principalmente incontinência urinária (perda involuntária de urina) e impotência sexual. Como resultado final, temos: mais homens descobrindo que têm câncer de próstata, mais homens tendo complicações com a cirurgia de retirada da próstata (incontinência e impotência) e, no final, morre a mesma quantidade de pessoas (vivendo pior).

Por isso a Secretaria Estadual de Saúde do Rio Grande do Sul, na figura do secretário João Gabbardo, posicionou-se contra o rastreamento universal. Mesma postura do Insituto Nacional do Câncer (INCA), do Ministério da Saúde do Brasil, do United States Preventive Services Task Force (USPSTF), do Ministério da Saúde do Reino Unido, da Sociedade Brasileira de Medicina de Família e Comunidade, do TelessaúdeRS/UFRGS e de tantas outras entidades que, baseadas na melhor evidência disponível, não aceitam tomar uma conduta que faz mais mal do que bem para as pessoas. E essa postura é defendida por todos os profissionais que assinam esse documento.

Homens que solicitam realização do PSA devem receber informação qualificada do médico assistente sobre riscos e benefícios do rastreamento, considerando fatores de risco individuais e expectativa de vida. A utilização de representações gráficas é útil para demonstrar tais informações (exemplo em https://www.ufrgs.br/telessauders/noticias/novembro-azul-nao-e-outubro-rosa/).

Mas não fique aflito com essa descoberta. Há outros tipos de avanços importantes no combate ao câncer. Hoje os tratamentos modernos são bem mais efetivos. Então, não deixe de procurar ajuda para sintomas ou sinais que algo está errado com você. Porque,  em maioria, esses cânceres são curáveis em seus estágios iniciais. Além disto, diversos estudos epidemiológicos têm demonstrado a importância de realizar atividade física (redução de até 10% no risco de desenvolver câncer) e manter um peso adequado. Então, se sente algo estranho, não se esconda e nem se desespere. Procure seu médico de confiança, sua unidade de saúde e investigue o que está acontecendo.

Essa deve ser a verdadeira mensagem do Novembro Azul! Assim como buscar ter uma boa alimentação, fazer exercícios físicos, não fumar, cuidar do peso, sorrir e viver a vida em sua plenitude!

 

Concordam e assinam este documento:

    1. Airton Tetelbom Stein – Médico de Família e Comunidade. Mestre em Ciências Médicas pela UFRGS e em Community Health For Developing Countries pela London School Of Hygiene and Tropical Medicine. Doutor em Ciências Médicas pela UFRGS. Professor Titular de Saúde Coletiva da Universidade Federal de Ciências da Saúde de Porto Alegre e Professor Adjunto do curso de Pós-Graduação de Promoção de Saúde da Universidade Luterana do Brasil. Conselheiro do CREMERS.
    2. Alex Sander Ribas de Souza – Médico de Família e Comunidade de Belo Horizonte. Preceptor do Programa de Residência Médica de MFC do HC/UFMG de BH. Supervisor do Programa de Educação Permanente para MFC da Prefeitura de Belo Horizonte-MG.
    3. Ana Paula Lemes Martins Marcolino – Médica de Família e Comunidade. Preceptora Residência MFC SMS/PUCGO/Santa Casa GO.
    4. Anaclaúdia Gastal Fassa – Mestre e Doutora em Epidemiologia pela UFPEL. Pós-doutorado na University of Massachusetts at Lowell. Coordenadora do Curso de Especialização em Saúde da Família – EaD UNASUS – UFPel. Professora do Departamento de Medicina Social e do Programa de Pós-graduação em Epidemiologia UFPEL.
    5. Andre Ferreira Lopes – Coordenador da Coreme da MFC da SMS-RJ
    6. André Klafke de Lima. Médico de Família e Comunidade e preceptor da área. Doutorado em Epidemiologia. Professor do Mestrado em Avaliação de Tecnologia em Saúde do GHC.
    7. André Luiz da Silva – Médico de Família e Comunidade. Mestre em Ciências Médicas pela FAMED/PUCRS. Professor do Departamento de Saúde Coletiva da FAMED/PUCRS
    8. André Justino – Coordenador do Programa de Residência em MFC da SMS-RJ
    9. Ângela Jornada Bem – Médica de Família e Comunidade. Mestre em Epidemiologia pela UFRGS, especializada em Administração em Saúde e Medicina de Família e Comunidade pelo HCPA. Professora Assistente do Departamento de Saúde Coletiva da UFCSPA.
    10. Angelita Herrmann – Coordenadora Nacional da Saúde do Homem.
    11. Bernardo Lessa Horta – Médico com Residência em Medicina Preventiva e Social. Epidemiologista. Doutor em Epidemiologia / McGill University. Professor associado do Departamento de Medicina Social / UFPel.
    12. Bruce B. Duncan – Médico Internista. Doutor em Clínica Médica pela UFRGS. Professor Adjunto da FAMED/UFRGS. Professor Permanente do PPG-Epi/UFRGS.
    13. Carla Baumvol Berger – Médica de Família e Comunidade. Mestranda em Avaliação e Produção de Tecnologias para o SUS.
    14. Carlos André Aita Schmitz – Médico de Família e Comunidade. Mestre em Geomática. Professor Assistente – Depto de Saúde da Comunidade. Centro de Ciências da Saúde – Universidade Federal de Santa Maria.
    15. Carlos Pilz – Cirurgião-dentista. Especialista em Saúde Coletiva pela Associação Brasileira de Odontologia. Doutorando do Programa de Pós-Graduação de Odontologia em Saúde Coletiva da UFRGS.
    16. César Augusto Ames – Médico de Família e Comunidade. Médico Auditor SES/RS. Médico Perito INSS – Santa Rosa-RS.
    17. Cesar Gomes Victora – Médico. PhD em Epidemiologia da Assistência Médica pela Escola de Higiene e Medicina Tropical da Universidade de Londres. Especialista em Saúde Comunitária pela UFRGS. Professor Emérito de Epidemiologia na UFPel.
    18. Cristina Elisabeth Beninca Pereira. Médica de Família e Comunidade. Mestranda em Ensino na Saúde pela Ufcspa.
    19. Cristina Rolim Neumann – Médica de Família e Comunidade, Internista e Endocrinologista. Doutora em Clínica Médica. Chefe do Serviço de Atenção Primária à Saúde do HCPA/UFRGS. Professora Associada da FAMED/UFRGS.
    20. Cynthia Goulart Molina-Bastos – Médica de Família e Comunidade. Mestranda em Epidemiologia pela UFRGS. Especialização em Acupuntura pelo CESAC/RS. Médica contratada do Serviço de Atenção Primária do Hospital de Clínicas de Porto Alegre.
    21. Daniella Borges Machado – Médica de Família e Comunidade, MPH/ Mestre em Saúde Pública – Epidemiologia.
    22. Denize Ornelas – Médica de Família e Comunidade. Coordenadora do Programa de Residencia Medica de MFC da Secretaria de Saúde de São Bernardo do Campo-SP.
    23. Dijon Hosana Souza Silva – Médico Família e Comunidade. Especialista em Atenção Básica em Saúde da Família. Membro do GT de Prevenção Quaternária da SBMFC.
    24. Eno Dias de Castro Filho – Médico de Família e Comunidade. Doutor em Epidemiologia. Professor do Mestrado em Avaliação de Tecnologia em Saúde do GHC. Preceptor MFC.
    25. Erno Harzheim – Médico de Família e Comunidade. Doutor em Saúde Pública pela Universidade de Alicante (Espanha). Pós-doutor em Epidemiologia pelo PPG-Epi/UFRGS. Professor Associado da FAMED/UFRGS. Professor Permanente do PPG-Epi/UFRGS.
    26. Gustavo Gusso – Médico de Família e Comunidade. Professor de Clínica Geral e Propedêutica da Faculdade de Medicina da USP.
    27. Halisson Romualdo Bastos – Médico pediatra. Especialização em neurologia infantil e eletroencefalografia e epileptologia pelo Hospital de Clínicas de Porto Alegre (HCPA).
    28. Hamilton Lima Wagner – Médico de Família e Comunidade. Mestre em Cirurgia. Especialista em Educação Médica. Preceptor do Programa de Residência Médica de Curitiba-PR.
    29. Iná da Silva dos Santos – Médica de Família e Comunidade. Epidemiologista. Doutora em Ciências Médicas, com área de concentração em Epidemiologia / UFRGS. Professora Titular e docente do Programa de Pós-graduação em Epidemiologia do Departamento de Medicina Social/ UFPel.
    30. João Henrique Kolling – Médico de Família e Comunidade do Hospital de Clínicas de Porto Alegre e Mestre em Epidemiologia pela UFRGS
    31. José Carlos Prado Junior – Subsecretário Geral de Saúde da Secretaria Municipal de Saúde do Rio de Janeiro.
    32. José Mauro Ceratti Lopes – Médico de Família e Comunidade. Mestrado em Educação pela UFRGS. Especializado em Medicina do Trabalho pela UFRGS e Planejamento, Programação e Gerência de Sistemas de Saúde, ESP/RS. Professor do Departamento de Saude Coletiva UFCSPA. Premio Jabuti 2013, Melhor Livro Ciências da Saúde com o Tratado de Medicina de Família e Comunidade.
    33. Júlia Berger Guimarães – Médica de Família e Comunidade. Preceptora do PRMMFC/GHC/RS.
    34. Juliana Oliveira Soares – Médica de Família e Comunidade. Especialista em Saúde Coletiva com ênfase para a ESF. Supervisora da residência médica de MFC Sobradinho-DF.
    35. Laura Ferraz – Enfermeira. Enfermeira com Residência em Saúde da Família.
    36. Lourdes Luzón Oliver – Médica de família. Coordenação técnica do PRMFC do Município de Rio de Janeiro
    37. Manoela Jorge Coelho Alves. Médica de Família e Comunidade. Preceptora do PRMMFC/GHC/RS. Mestranda em ATS.
    38. Marcelo Fernandes Capilheira – Médico com Residência em Medicina Preventiva e Social. Epidemiologista. Doutor em Epidemiologia pela UFPel. Professor adjunto do Departamento de Medicina Social/UFPel.
    39. Marcelo Rodrigues Gonçalves – Médico de Família e Comunidade. Doutor em Epidemiologia pelo PPG-Epi/UFRGS. Professor Adjunto da FAMED/UFRGS
    40. Márcio Martins Marcolino – Médico de Família e Comunidade. Preceptor MFC da SMS/GO e PUCGO.

Marcos Vinícius Ambrosini Mendonça. Médico de Família e Comunidade. Residente em Administração em Saúde – PRM MFC/HCPA.

    1. Marcos Vinícius da Rosa Röpke. Médico de Família e Comunidade. Preceptor do PRMMFC/GHC/RS.
    2. Maria Eugênia Bresolin Pinto – Médico Epidemiologista. Mestre em Epidemiologia pela PUCRS. Doutora em Epidemiologia pela UFRGS. Professora Adjunta do Departamento de Saúde Coletiva da Ufcspa. Coordenadora do Programa UNA-SUS/UFCSPA.
    3. Maria Inês Schmidt – Médica Endocrinologista, Doutora em Epidemiologia pela Universidade da Carolina do Norte. Professora Adjunta da FAMED/UFRGS. Professora Permanente do PPGEpi/UFRGS.
    4. Natan Katz – Médico de Família e Comunidade. Doutorando do PPG-Epi/UFRGS.
    5. Ney Bragança Gyrão. Médico de Família e Comunidade. Preceptor do PRMMFC/GHC.
    6. Pablo de Lannoy Stürmer – Médico de Família e Comunidade de Porto Alegre-RS.
    7. Patricia Carla Gandin Pereira – Médica de Família e Comunudade. Mestre em Saúde e Gestão do Trabalho pela Univali-Itajai-SC. Coordenadora e professora do internato em MFC da PUCPR.
    8. Rafael Gustavo Dal Moro – Cirurgião Dentista. Mestre em Saúde Bucal Coletiva pela UFRGS.
    9. Ricardo Souza Heinzelmann – Médico. Mestre em Epidemiologia pelo PPG-Epi/UFRGS.
    10. Roberto Nunes Umpierre – Médico de Família e Comunidade. Especialista em Saúde Pública. Mestre em Epidemiologia. Professor Assistente FAMED/UFRGS.
    11. Rodrigo Caprio Leite de Castro. MFC. Preceptor da área. Mestre e Doutor em Epidemiologia pela UFRGS. Professor da UFRGS.
    12. Rodrigo Luciano Bandeira de Lima – Médico de Família e Comunidade. Preceptor da Residência em MFC SESAU-Recife-PE.
    13. Ronaldo Zonta – Médico de Família e Comunidade. Presidente da Associação Catarinense de Medicina de Família e Comunidade (ACMFC).
    14. Rudi Roman  – Médico de Família e Comunidade. Mestrando em Epidemiologia PPG-Epi/UFRGS.
    15. Sotero Serrate Mengue – Farmacêutico. Mestre em Planejamento em Educação pela UFRGS. Doutor em Ciências Farmacêuticas pela UFRGS. Professor Permanente do PPG-Epi/UFRGS.

Susana Valéria Dalcastagnê – Médica de Família e Comunidade. Mestranda em Epidemiologia pelo PPG-Epi / UFRGS.

  1. Thaia Rosa Corrêa da Silva – Médica de Família e Comunidade. Preceptora do PRMMFC/GHC/RS.
  2. Thiago Frank – Médico de Família e Comunidade.
  3. Thiago Gomes da Trindade – Médico de Família e Comunidade. Doutor em Epidemiologia pelo PPG-Epi/UFRGS. Professor Adjunto da UFRN e Presidente da SBMFC.
  4. Thiago Luccas C. S. Gomes – Médico de Família e Comunidade. Especialista AMB. Assistente de Ensino da Disciplina de Educação em Ciências da Saúde da Faculdade de Medicina de Marília – SP. Médico de família do complexo Famema. Coordenador da Residência de MFC da Famema. Mestre em Ensino em Saúde pela Famema.

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