Suplementos dietéticos

20150331

A busca por um “corpo perfeito” e um ótimo rendimento nos exercícios físicos leva inúmeras pessoas a adotarem estratégias radicais, que nem sempre estão relacionadas à promoção da saúde. No lugar de uma nutrição adequada ao tipo de treino, a ausência de conhecimento no assunto, assim como hábitos alimentares inadequados e a influência de treinadores e da mídia, muitas vezes faz com que indivíduos usem suplementos dietéticos e adotem comportamentos alimentares que nem sempre atingem os objetivos esperados.

Além disto, o desejo de alcançar resultados rápidos tem tornado o uso de tais substâncias muito atraente, já que são facilmente disponíveis em todo o mundo.  A grande quantidade de produtos disponíveis e o fácil acesso são fatores que merece atenção. É preciso conhecer a legislação brasileira vigente sobre o tema, bem como os fatores associados ao consumo destes produtos.

Suplementos dietéticos são produtos em cápsula, tablete, pó ou em forma de líquido que proveem nutrientes essenciais como  vitaminas,  minerais essenciais, proteínas, ervas ou substâncias nutricionais semelhantes. Ou seja, caracterizam-se como produtos compostos por pelo menos um dos ingredientes citados e, recomenda-se que não devem ser considerados como alimentos convencionais da dieta.

A Diretriz da Sociedade Brasileira de Medicina do Esporte (2003) faz referência ao fato de ter sido observado no Brasil o uso abusivo de suplementos nutricionais bem como de drogas com propósito ergogênico – substâncias ou artifícios utilizados para melhorar desempenho esportivo e recuperação após o exercício – e puramente estético.

Observa-se que o uso abusivo vem crescendo em ambientes de prática de exercícios físicos, tendendo à generalização em algumas academias de ginástica e associações esportivas. Trata-se muitas vezes de um comércio ilegal, sem controle de setores da vigilância sanitária. Dentre as substâncias usadas abusivamente, o suplemento tem um destaque primordial, talvez por falta de legislação rigorosa relacionada à venda , ou devido à estratégia das indústrias que lançam constantemente no mercado produtos ditos ergogênicos prometendo efeitos imediatos e eficazes.

Legislação

Na legislação sanitária vigente, os denominados Suplementos Nutricionais, são classificados em diferentes categorias definidas pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) como:

• Alimentos para Atletas – Resolução RDC Nº 18/ 2010;

• Suplemento Vitamínico e Mineral

• Medicamentos a Base de Vitaminas e Minerais

• Alimentos para Fins Especiais

Já a Resolução CFN nº 390/2006 regulamenta a prescrição dietética de suplementos nutricionais pelo nutricionista e dá outras providências.

Veja no quadro abaixo a diferença entre suplementos vitamínicos e/ou minerais e medicamento a base de vitaminas e/ou minerais:

Suplementos vitamínicos e/ou minerais Medicamentos a base de vitaminas e/ou minerais
Definição Alimentos que servem para complementar, com vitaminas e minerais, a dieta de um indivíduo saudável, em casos nos quais sua ingestão, seja insuficiente pela alimentação ou quando a dieta exigir suplementação. Não devem substituir alimentos, refeições ou ser utilizados como dieta exclusiva. “Formulados à base de vitamina isolada, vitaminas associadas entre si, minerais isolados, minerais associados entre si e associações de vitaminas com minerais”, cujos esquemas posológicos diários situam-se acima dos 100% da Ingestão Diária Recomendada – IDR, conforme legislação específica. Podem ou não ser sujeitos à exigência de prescrição médica, conforme a dosagem de seus componentes.
Característica da composição (quantidade de Vitaminas e Minerais no esquema posológico) Esquemas posológicos com quantidades de vitaminas e minerais situadas entre: 25 a 100% da IDR* Sem Exigência de Prescrição Médica Com Exigência de Prescrição Médica
Entre os 100% da IDR* e os Níveis Máximos da Portaria MS/SVS nº 40/1998 Acima dos Níveis Máximos da Portaria MS/SVS nº 40/1998
Nutricionista pode prescrever? Sim Sim Não
Regulamentação Portaria MS/SVS nº 32/1998 Portaria MS/SVS nº 40/1998

*Ingestão Diária Recomendada (IDR) – quantidade de proteína, vitaminas e minerais que deve ser consumida diariamente para atender às necessidades nutricionais da maior parte dos indivíduos e grupos de pessoas de uma população sadia. Anvisa, RDC n. 269 de 22.09.2005.

Fonte: http://www.crn1.org.br/wp-content/uploads/2014/10/folder4-suplementos1.pdf

Quem pode tomar? Quem não pode tomar? Para quê são indicados?

As principais indicações de consumo são a necessidade de compensar uma alimentação ou estilo de vida inadequados, atender a um aumento na necessidade energética ou de nutrientes essenciais induzida pelo treinamento ou até mesmo para obter um efeito direto sobre a performance (ergogênico).

O ponto de partida para se conhecer hábitos alimentares e detectar imperfeições é a avaliação nutricional, que tem na anamnese criteriosa a oportunidade de estabelecer vínculo entre o atleta e o profissional de saúde, e permitir modificações favoráveis a fim de intensificar seu desempenho esportivo, sem causar danos à saúde, considerando suas preferências. Deve-se considerar a modalidade esportiva, fase de treinamento, frequência, intensidade, duração do exercício, calendário de competições e os objetivos em relação ao desempenho, metabolismo basal, demanda energética de treino, necessidades de modificação da composição corporal e fatores clínicos presentes, como as condições de mastigação, digestão e absorção.

Devem ser calculadas as necessidades de energia, consumo calórico total e o tempo entre digestão e aproveitamento metabólico.  Além disto, a quantidade de calorias necessárias através da alimentação sofre influência de outros fatores como hereditariedade, sexo, idade, peso e composição corporal.

Alguns grupos no que diz respeito ao padrão dietético ideal para atingir as recomendações diárias de nutrientes são considerados vulneráveis: idosos, crianças, gestantes e adolescentes. Nos casos em que não se consegue atingir as recomendações diárias de macro e micronutrientes a suplementação pode ser essencial para assegurar a saúde dos indivíduos.

É importante ressaltar que estudos recomendam que o uso de suplementos protéicos, como proteína do soro do leite (popularmente conhecida como whey) ou albumina, deve estar de acordo com o consumo total de proteína diária do indivíduo. A ingestão desses suplementos acima das necessidades diárias não leva ao ganho de massa muscular adicional, nem promove aumento do desempenho.

No caso da maltodextrina, indivíduos diabéticos não podem fazer o consumo desse suplemento alimentar. Crianças, gestantes e idosos, podem consumir, porém, sob orientação médica ou de um nutricionista.

Benefícios

Em geral, os suplementos são anunciados e oferecidos como meio de melhorar o rendimento e o desempenho físico. Dependendo do suplemento, fornece energia em treinos intensos, retarda a fadiga, aumenta a massa muscular, reduz gordura corporal, prolonga a resistência e melhora a recuperação pós-treino. Além disto, a proteína do soro do leite tem ação antioxidante e fortalece o sistema imunológico.

Riscos

Quando se fala em riscos pelo uso de suplementos, pode-se dizer que, não são totalmente conhecidos os efeitos colaterais de algumas destas substâncias, sendo recomendadas mais pesquisas (MILLMAN, 2003 apud BERTULUCCI et al, 2010).

A suplementação usada de forma errada e principalmente associada ao uso de anabolizantes pode causar doenças renais. É preciso ter cuidado na ingestão de proteínas quando existe uma doença renal diagnosticada, pois a função do rim está diminuída.

Recomenda-se ainda que, antes da compra de qualquer produto, é fundamental uma busca no Site da Anvisa para verificar se o produto é recomendado pela mesma. Através do link: http://portal.anvisa.gov.br/wps/portal/anvisa/anvisa/home

Atenta-se para algumas substâncias proibidas (ilícitas):

  • Agentes Anabólicos;
  • Esteroides androgênicos anabólicos (EAA);
  • EAA exógenos;
  • EAA endógenos;
  • Outros agentes anabólicos, dentre outros, clembuterol, moduladores;
  • Seletivos de receptores, androgênicos (MSRAs, “SARMs”), tibolona, zeranol, zilpaterol.

Todo suplemento é ‘’puro’’ ou podem conter misturas?

Devemos ficar atentos aos rótulos já que a grande maioria dos suplementos possui aromatizantes, acidulantes, corantes artificiais e edulcorantes. Além disto, algumas irregularidades na quantidade de carboidratos e proteínas podem estar presentes. A ANVISA tolera uma diferença de 20% entre as informações nutricionais presentes na embalagem da proteína do soro do leite, por exemplo, e a sua real composição.

Realmente, são necessários ou uma boa alimentação já é o suficiente? Que tipo de alimentação?

É aconselhado pela American Dietetic Association (ADA) que a melhor estratégia nutricional para a redução de doenças crônicas e promoção da saúde é a obtenção de nutrientes a partir dos alimentos. Para os indivíduos que praticam exercícios físicos sem maiores preocupações com o desempenho, uma dieta balanceada, que atenda às recomendações dadas à população em geral, é suficiente para a manutenção da saúde e possibilitar bom desempenho físico.

A expressão “vida saudável“ é completa quando dois itens muito importantes são adicionados: alimentação equilibrada e exercícios físicos. Esse estilo de vida vem crescendo tanto entre aqueles que antes só se preocupavam com a estética, quanto em outros grupos com preocupação em relação à saúde e isso se deve ao incentivo vindo de evidências científicas (PEREIRA et al, 2003).

É importante ressaltar que a dose recomendada e o momento de determinar o uso bem como a associação com outros suplementos são variáveis, dependendo do tipo de exercício físico, intensidade e hábitos alimentares.

Nem sempre é necessário suplementar. A suplementação alimentar deve, portanto, ficar restrita aos casos especiais, apresentados na Diretriz da Sociedade Brasileira de Medicina do Esporte (2003), nos quais a eventual utilização deve sempre decorrer da prescrição de profissionais qualificados para tal, que são nutricionistas e médicos especialistas. Sempre que possível, a suplementação deve ser avaliada de forma multidisciplinar, definida em conjunto pelo grupo de profissionais que acompanha o atleta com o objetivo de evitar múltiplas prescrições.

Suplementos dietéticos 2

Texto escrito por Natássia Scortegagna da Cunha, nutricionista especializada em saúde pública, coordenadora de campo e integrante da equipe de Teleducação do TelessaúdeRS/UFRGS.

Ilustração de Luiz Felipe Telles, Designer Gráfico, Consultor de Comunicação do TelessaúdeRS/UFRGS

 

 

Fontes:

ADA. Practice Paper of the American Dietetic Association: Dietary Supplements. American Dietetic Association, v.105, n.3. 2005. p. 460-470. Disponível em: <http://www.sciencedirect.com/science/article/pii/S0002822305000659>. Acesso em: 20 mar. 2015.

BERTULUCCI, K. N. B et al. Consumo de suplementos alimentares por praticantes de atividade física em academias de ginástica em São Paulo. Revista Brasileira de Nutrição Esportiva, São Paulo. v. 4. n. 20. p. 165-172, Mar./Abr. 2010. Disponível em: http://www.rbne.com.br/index.php/rbne/article/view/177. Acesso em: 19 mar. 2015.

BRASIL. Ministério da Saúde. Agência Brasileira de Vigilância Sanitária. Consulta Pública nº 99, de 11 de novembro de 2003. Diário Oficial da União, Brasília (DF), 12, nov. 2003. Disponível em: <http://www.hccpg.rn.gov.br/downloads/artigos/GASTROENTEROLOGIA/Albumina_ANVISA.pdf>. Acesso em: 19 mar. 2015.

BRASIL. Ministério da Saúde. Agência Brasileira de Vigilância Sanitária. Resolução RDC n. 269 de 22 set.2005 [Internet]. Disponível em: <http://portal.anvisa.gov.br/wps/wcm/connect/1884970047457811857dd53fbc4c6735/RDC_269_2005.pdf?MOD=AJPERES>. Acesso em: 20 mar. 2015.

SOCIEDADE BRASILEIRA DE MEDICINA DO EXERCÍCIO E DO ESPORTE. Modificações dietéticas, reposição hídrica, suplementos alimentares e drogas: comprovação de ação ergogênica e potenciais riscos para a saúde. Revista Brasileira de Medicina do Esporte,  Niterói ,  v. 15, n. 3, supl. Apr.  2009. Disponível em: http://dx.doi.org/10.1590/S1517-86922009000400001>. Acesso em: 18 mar. 2015.

FERREIRA et al. Uso de suplementos nutricionais por adolescentes em academias do interior e de São Paulo Capital. Revista Brasileira de Nutrição Esportiva, São Paulo, v. 2, n. 10, p. 154-165, Jul/Ago., 2008. Disponível em: <http://www.rbne.com.br/index.php/rbne/article/view/63 >. Acesso em: 12 mar. 2015.

PEREIRA, R.F.; LAJOLO, F.M.; HIRSCHBRUCH, M. D. Consumo de suplementos por alunos de academias de ginástica em São Paulo. Revista de Nutrição, Campinas, v..16, n. 3, Jul./Set. 2003. Disponível em: http://dx.doi.org/10.1590/S1415-52732003000300004. Acesso em: 15 mar. 2015.

SAKZENIAN, V. M et al. Suplementação de proteína do soro do leite na composição corporal de jovens praticantes de treinamento para hipertrofia muscular. Nutrire: Revista da Sociedade Brasileira de Alimentação e Nutrição, São Paulo, SP, v. 34, n. 3, p. 57-70, dez. 2009.

CONSELHO REGIONAL DE NUTRICIONAIS DA 1ª REGIÃO. O nutricionista e a prescrição de alimentos nutricionais. Brasília: CRN1, set. 2014. Disponível em: < http://www.crn1.org.br/wp-content/uploads/2014/10/folder4-suplementos1.pdf>.  Acesso em: 10 mar. 2015.

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