Caso suspeito de sarampo: quando notificar e qual a conduta?

16/07/2019 - atualizada em: 03/12/2019

Deve ser notificado qualquer caso suspeito de sarampo, independente da idade e da situação vacinal, que preencha os seguintes critérios:

Paciente que apresentar febre e exantema maculopapular, acompanhados de um ou mais dos seguintes sintomas:

  • tosse; ou
  • coriza; ou
  • conjuntivite.

É importante que no processo de investigação se identifique história de viagem ou contato com viajantes para áreas com circulação do vírus, nos últimos 30 dias. O período de transmissibilidade do sarampo inicia-se 6 dias antes do exantema e dura até 4 dias após seu aparecimento. O vírus vacinal não é transmissível.

Frente a um caso suspeito, as seguintes medidas devem ser adotadas:

  1. Isolamento respiratório do caso suspeito: após identificado, preferencialmente desde a triagem, o paciente deve ser alocado a uma sala privativa em uso de máscara comum. Caso o paciente não necessite de internação, deve permanecer em isolamento domiciliar por até 4 dias após o início do período exantemático. Deve-se evitar frequentar creche, escola, trabalho, agrupamentos e qualquer contato com pessoas suscetíveis neste período.
  2. Notificação do caso: fazer a notificação dentro das primeiras 24 horas após o atendimento do paciente, via telefone, à Secretaria Municipal de Saúde e à Vigilância Epidemiológica Estadual. No Rio Grande do Sul, a notificação poderá ser feita ao Disque Vigilância, através do número 150 do Centro Estadual de Vigilância em Saúde (CEVS). Além disso, a notificação deve ser registrada no Sistema de Informação de Agravos de Notificação (SINAN), na ficha de notificação específica.
  3. Coleta de exames: deve ser coletada amostra de sangue para pesquisa de Sarampo IgM e IgG  no primeiro contato com o paciente. Exames coletados entre o 1º e o 30º dia do aparecimento do exantema são considerados amostras oportunas. Também se recomenda a coleta de material para identificação viral (swab oro/nasofaríngeo e urina), até o 7º dia após o início do exantema, idealmente nos 3 primeiros dias. Exames coletados após o período recomendado são considerados tardios, mas, mesmo assim, devem ser enviados ao laboratório.
  4. Administração de vitamina A: Recomenda-se a administração de vitamina A (palmitato de retinol), em todos os casos suspeitos de sarampo, para redução da morbimortalidade e prevenção das complicações pela doença, nas dosagens indicadas a seguir:

    Faixa etária Vitamina A* Forma farmacêutica Posologia
    Menores de 6 meses 50.000UI Solução oral** 2 doses (1 dose no dia dodiagnóstico da suspeita e outra no dia seguinte)
    6 e 11 meses e 29 dias 100.000UI Cápsula
    Maiores de 12 meses 200.000UI Cápsula

     

    * A vitamina A (ou megadose) é distribuída gratuitamente pelo SUS, através do programa nacional de suplementação de vitamina A. Os municípios não contemplados pelo programa, mas que queiram, por investigação e suspeita de sarampo, receber as megadoses, podem solicitá-las junto às vigilâncias municipais e estaduais.** A vitamina A na dose de 50.000 UI é administrada mediante aquisição da forma farmacêutica solução oral 150.000 UI.

  5. Busca ativa de contatos: a investigação na comunidade tem o objetivo de identificar a ocorrência de outros casos suspeitos e verificar a situação vacinal dos contatos. Ela é realizada, principalmente, em torno da área de residência e convivência do caso suspeito, ambiente de trabalho, escola, creche, igreja e outros locais frequentados pelo paciente nos últimos 30 dias. A listagem precisa ser nominal, com telefone, e os contatos devem ser acompanhados por 30 dias, visando identificar possíveis casos secundários.
  6. Bloqueio vacinal: deve ser realizada vacinação seletiva nos contatos em até 72 horas após a identificação do caso suspeito. A vacina tríplice viral ou tetra viral é administrada conforme a situação vacinal dos contatos (mediante comprovação na carteira de vacinação), conforme descrito a seguir.
  • Entre 6 meses até 11 meses e 29 dias: devem receber uma dose da tríplice viral. Esta dose não será válida para a rotina de vacinação, devendo-se agendar a primeira dose da vacina tríplice viral aos 12 meses de idade e a dose de tetra viral aos 15 meses de idade;
  • Entre 12 meses e 49 anos: devem ser vacinados conforme o calendário vacinal de rotina.
    • 12 meses a 29 anos: duas doses de vacina com componente sarampo;
    • 30 a 49 anos: uma dose de tríplice viral;
    • profissionais de saúde, independente da idade: duas doses de tríplice viral.
  • Acima de 50 anos: devem receber uma dose de vacina tríplice viral, se não tiverem comprovação de recebimento de nenhuma dose de vacina com componente sarampo.

A vacina tríplice viral é contraindicada para: gestantes, crianças menores de 6 meses de idade e pessoas com sinais e sintomas de sarampo. Pessoas imunocomprometidas ou portadoras de condições clínicas especiais deverão ser avaliadas nos Centros de Referência para Imunobiológicos Especiais (CRIE) antes da vacinação.

É importante a sensibilidade dos profissionais de saúde em detectar oportunamente um caso suspeito de sarampo, bem como executar todas as ações de controle relacionado ao caso.

Clique aqui para ler a pergunta da semana sobre sintomas do sarampo e seus diagnósticos diferenciais.

Clique aqui para ler a pergunta da semana sobre a vacinação contra o sarampo.

Clique aqui para obter informações sobre a situação dos casos no Brasil.

 

Referências:

  1. Brasil. Ministério da Saúde. Guia de vigilância em saúde. 3ª ed. Brasília: Ministério da Saúde; 2019. Disponível em: http://bvsms.saude.gov.br/bvs/publicacoes/guia_vigilancia_saude_volume_unico_3ed.pdf
  2. Toscano CM. Doenças febris exantemáticas. In: Duncan BB, Schmidt MI, Giugliani ERJ, Duncan MS, Giugliani C, et al. Medicina Ambulatorial: condutas de atenção primária baseadas em evidências. 4ª ed. Porto Alegre: Artmed; 2013. p. 1342 e 1384-1397.
  3. Gans H, Maldonado YA. Measles: Clinical manifestations, diagnosis, treatment, and prevention [Internet]. Waltham (MA): UpToDate, Inc.; 2019 [citado em 2019 Jul 15]. Disponível em: https://www.uptodate.com/contents/measles-clinical-manifestations-diagnosis-treatment-and-prevention
  4. Centers for Disease Control and Prevention. Measles Home [Internet]. Atlanta: CDC; 2019 [citado em 2019 Jul 15]. Disponível em:  https://www.cdc.gov/measles/hcp/index.html
  5. Rio Grande do Sul. Secretaria Estadual da Saúde. Centro Estadual de Vigilância Sanitária. Nota Informativa 26/09/2018. Assunto: atualização do cenário epidemiológico do sarampo no Rio Grande do Sul (RS). Porto Alegre: CEVS; 2018 [citado em 2019 Jul 15]. Disponível em: https://saude.rs.gov.br/upload/arquivos/carga20190404/30140432-01110237-nota-informativa-sarampo-rs-26-09-2018.pdf
  6. Rio Grande do Sul. Secretaria Estadual da Saúde. Centro Estadual de Vigilância Sanitária. Nota Informativa: investigação de casos suspeitos de sarampo – 18/06/2018. Porto Alegre: CEVS; 2018 [citado em 2019 Jul 15]. Disponível em: https://www.cevs.rs.gov.br/upload/arquivos/201806/18161644-nota-informativa-investigacao-de-casos-suspeitos-de-sarampo.pdf
  7. Strebel PM, Orenstein WA. Measles [Internet]. N Engl J Med. 2019 Jul 10 [citado em 2019 Jul 15]. Disponível em: https://www.nejm.org/doi/full/10.1056/NEJMcp1905181
  8. Brasil. Ministério da Saúde. Plano de contingência para resposta às emergências de Saúde Pública: sarampo [Internet]. Brasília: Ministério da Saúde; 2016 [citado em 2019 Jul 15]. Disponível em: http://bvsms.saude.gov.br/bvs/publicacoes/plano_contingencia_resposta_emergencias_sarampo.pdf

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