Como abordar hordéolo e calázio na atenção primária?

O hordéolo é uma afecção autolimitada e não requer tratamento medicamentoso específico na abordagem inicial. Preconiza-se o uso de compressas mornas locais, associadas à massagem suave para facilitar a drenagem do seu conteúdo [1,2,3].

A apresentação do hordéolo pode ser interna, oriundo da inflamação das glândulas de Meibomius, ou externa, pelo acometimento das glândulas de Zeis ou Moll [1,2,]. Apresenta-se agudamente como nódulo eritematoso e doloroso, localizado no bordo palpebral [1,2,4]. O diagnóstico é clínico, baseado no aspecto da lesão e história [2].

Pacientes com condições clínicas subjacentes como rosácea [1,2,4], dermatite seborreica [1,2], blefarite [1,4] e diabetes [1], são mais propensos a desenvolver hordéolo. Os patógenos mais frequentemente implicados são espécies de Staphylococcus [1,2,4]. A maioria dos hordéolos se resolve espontaneamente.

O tratamento envolve medidas não farmacológicas:

  • calor úmido local, aplicado por 5 a 10 minutos, pelo menos 3 a 5 vezes ao dia [1,2,3,4];
  • massagem: leve compressão local, após aplicação das compressas mornas, para drenar a lesão [1,2,4].

Para prevenção do hordéolo, são indicados:

  • medidas gerais: limpeza regular do bordo palpebral com água morna ou com xampu infantil diluído em água morna [5], remoção completa de maquiagem [2];
  • tratamento de causas predisponentes, como blefarite e rosácea [1,2].

Não há evidências de que o uso de antibiótico ou corticoide tópico ajudem na resolução do quadro, pois faltam ensaios clínicos. Portanto, não há informações para refutar ou embasar essas práticas [4]. Pacientes com quadros recorrentes, que apresentem causas subjacentes, como blefarite, e que não melhorem com o uso de compressas mornas e massagem podem ser submetidos ao tratamento com pomada de antibiótico [2,5]. Os pacientes que necessitarem curso de corticoide tópico para controle da blefarite devem ser manejados pelo oftalmologista em função das potenciais complicações do seu uso [2,5].

Deve-se encaminhar ao oftalmologista:

  • quando não houver resolução do quadro com medidas conservadoras instituídas;
  • diagnóstico incerto [1,2,6].

Foto 1 – Hordéolo em terço médio da pálpebra inferior.

Fonte: Dynamed (2018a) [1].

O calázio é uma reação granulomatosa, consequente à obstrução das glândulas de Meibomius [7], caracterizado como uma nodulação indolor localizada em bordo palpebral [2,7]. Condições como hordéolo interno, blefarite, rosácea e dermatite seborreica, aumentam a chance de formação ou recorrência dessa lesão [7]. Seu diagnóstico é clínico [2,7], com acurácia acima de 93% [7]. 

Inicialmente a abordagem do calázio na atenção primária é conservadora, como a do hordéolo, com resolução da maior parte dos casos e envolve aplicação de calor local por 10 a 15 minutos, 2 a 4 vezes ao dia, seguida de aplicação de pressão delicada sobre a nodulação por cerca de 10 minutos [7]. A resolução pode demorar algumas semanas, mais breve quanto mais rápido tiver sido iniciado o tratamento [7]. Se não houver melhora com essas medidas, o tratamento alternativo é abordagem cirúrgica, com incisão e curetagem ou injeção intralesional de corticoide, necessitando encaminhamento ao oftalmologista [2,3,7,8]. Antibióticos não estão indicados no tratamento do calázio, por ser uma lesão granulomatosa e não infecciosa, entretanto podem ser usados para o tratamento de condições subjacentes como blefarite e rosácea [2,7]. 

Diagnóstico diferencial importante do calázio é com carcinoma sebáceo, especialmente em casos recorrentes e de lesões unilaterais em pacientes acima de 50 anos de idade [3,7,8]), com presença de ulceração ou alterações como madarose e deformação da pálpebra [7]. Grandes lesões em crianças pequenas têm risco de causar ambliopia [7].

São indicações de encaminhamento ao oftalmologista:

  • quando não houver resolução do quadro;
  • suspeita de malignidade;
  • grandes lesões em crianças pequenas.

Figura 2 – Calázio em pálpebra superior.

Fonte:  Ghost e Ghost (2020) [2].

Foto 3 – Aspecto do calázio.

Fonte:  Ghost e Ghost (2020) [2].

Referências:

  1. Dynamed. Record No. T253047, Eyelid lesions and inflammation: differential diagnosis [Internet]. Ipswich (MA): EBSCO Information Services, 1995 [atualizado em 30 Nov 2018, citado em 7 Ago 2020]. Disponível em: https://www.dynamed.com/approach-to/eyelid-lesions-and-inflammation-differential-diagnosis
  2. Ghost C, Ghost T. Eyelid lesions [Internet]. Waltham (MA): UpToDate; [atualizado em 26 Maio 2020, citado em 7 Ago 2020]. Disponível em: https://www.uptodate.com/contents/eyelid-lesions
  3. Carlisle RT, Digiovanni J. Differential Diagnosis of the Swollen Red Eyelid. Am Fam Physician. 2015 Jul 15 [citado em 7 Ago 2020];92(2):106-12. Disponível em: https://www.aafp.org/afp/2015/0715/p106.html
  4. Lindsley K, Nichols JJ, Dickersin K. Non-surgical interventions for acute internal hordeolum. Cochrane Database Syst Rev. 2017 Jan 9;1(1):CD007742. Doi 10.1002/14651858.CD007742.pub4. 
  5. Shtein RM. Blepharitis [Internet]. Waltham (MA): UpToDate; [atualizado em 16 Abr 2020, citado em 7 Ago 2020]. Disponível em: https://www.uptodate.com/contents/blepharitis.
  6. Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Faculdade de Medicina. Programa de Pós-Graduação em Epidemiologia. TelessaúdeRS (TelessaúdeRS-UFRGS). Protocolos de encaminhamento para Oftalmologia adulto. Porto Alegre: TelessaúdeRS-UFRGS, 19 Jun 2017 [citado em 7 Ago 2020]. Disponível em: https://www.ufrgs.br/telessauders/documentos/protocolos_resumos/oftalmologia_adulto.pdf.
  7. Dynamed. Record No. T115631, Chalazion [Internet]. Ipswich (MA): EBSCO Information Services, 1995 [atualizado em 30 Nov 2018, citado em 7 Ago 2020]. Disponível em:https://www.dynamed.com/condition/chalazion
  8. Vital Filho J, Velasco e Cruz AA, Schellini AS, Matayoshi S, Figueiredo ARP, Herzog Neto G, editores. Órbita, sistema lacrimal e oculoplástica. 3a ed. Rio de Janeiro: Cultura Médica, Guanabara Koogan; 2013. Série Oftalmologia Brasileira. 

Como citar este documento:

Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Programa de Pós-Graduação em Epidemiologia. TelessaúdeRS (TelessaúdeRS-UFRGS). Como abordar hordéolo e calázio na atenção primária? Porto Alegre: TelessaúdeRS-UFRGS, Ago 2020 [citado em “dia, mês abreviado e ano”]. Disponível em: https://www.ufrgs.br/telessauders/perguntas/como-abordar-hordeolo-e-calazio-na-atencao-primaria/.

Teleconsultoria por:

Anelise Decavatá Szortyka

Oftalmologista

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Revisão por:

Elise Botteselle de Oliveira

Médica de Família e Comunidade

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