Como diferenciar a etiologia das úlceras crônicas dos membros inferiores?

As características como localização e aparência clínica das úlceras crônicas de membros inferiores usualmente auxiliam na distinção entre úlceras venosas, arteriais e neuropáticas. É importante realizar essa diferenciação clínica, já que as úlceras possuem fisiopatologia distintas e consequentemente manejos diferentes [1].

A avaliação inicial inclui história clínica minuciosa, com revisão de sistemas e exame físico completo, incluindo avaliação vascular e descrição abrangente da ferida [2]. A tabela abaixo resume as características clínicas úteis na diferenciação da etiologia das úlceras crônicas dos membros inferiores [3]:

Tabela 1 – Diferenciação das úlceras dos membros inferiores.

Fonte: adaptado de Clinical features and diagnosis of lower extremity peripheral artery disease, UpToDate 2020 (3) e Úlceras dos membros Inferiores, 2011.(4)
Característica Úlcera arterial* Úlcera venosa Úlcera neuropática*
Localização Sobre as articulações dos pododáctilos, maléolos (sobre proeminências ósseas), perna anterior, base do calcanhar, pontos de pressão. Região de maléolo medial ou lateral (acima da proeminência óssea) terço inferior da perna. Superfície plantar sobre as proeminências dos metatarsos, calcanhar, pontos de pressão.
Aparência Margens irregulares, base seca e pálida ou necrótica (tecido fibroso enegrecido), pouco exsudativas;
geralmente rasas, podendo ser médias ou profundas.
Margens irregulares, base com rede de fibrina e tecido de granulação, exsudato comum e abundante;
úlceras rasas, podem ser grandes, às vezes circunferenciais.
Úlcera perfurada, geralmente superficial, mas às vezes profunda, base avermelhada.
Úlcera em calosidades Raro Não Bordas com calosidade, úlcera pode estar subjacente à calosidade.
Temperatura do pé Aquecido ou frio Aquecido Aquecido
Dor Sim, pode ser grave (piora ao frio ou à elevação do membro). Sim, usualmente leve, mas pode ser grave. Não
Pulsos arteriais Ausente Presente Presente ou ausente
Sensibilidade Variável Presente Ausência de sensibilidade tátil, dolorosa, térmica e vibratória.
Deformidades dos pés Não Não Frequente
Alterações de pele Brilhante, tenso, rarefação pilosa;
Rubor do pé, com palidez à elevação da perna.
Eritema, hiperpigmentação marrom-azulada pode ser pontual ou difusa: alterações de “estase”; atrofia branca (áreas escleróticas brancas), edema; pele seca; veias varicosas comuns; sinais de lipodermatoesclerose; frequente acometimento bilateral. Lustroso ou brilhante, rarefação pilosa, pele pode estar endurecida; pele seca; pode ter edema sem cacifo, principalmente no dorso do pé.
Reflexos Presentes Presentes Ausentes
*Úlceras em pés diabéticos frequentemente ocorrem devido à doença arterial (envolvendo tanto microcirculação como vasos maiores) e doença neuropática.

Exames complementares para avaliação vascular podem ser indicados naqueles indivíduos que tenham anormalidade à palpação de pulsos arteriais ou fatores de risco para doenças cardiovasculares [2,5].

Sugere-se acompanhamento clínico com imagens, diminuindo a variabilidade da avaliação interobservadores e permitindo maior objetividade na evolução da ferida [2].

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Referências:

  1. Kirsner RS, Vivas AC. Lower-extremity ulcers: diagnosis and management. Br J Dermatol. 2015 Aug;173(2):379–90. Doi 10.1111/bjd.13953.
  2.     Armstrong DG, Meyr AJ. Clinical assessment of chronic wounds [Internet]. Waltham (MA): UpToDate; [atualizado em 22 Apr 2019, citado em 14 Out 2020]. Disponível em: https://www.uptodate.com/contents/clinical-assessment-of-chronic-wounds
  3.     Neschis DG, Golden MA. Clinical features and diagnosis of lower extremity peripheral artery disease [Internet]. Waltham (MA): UpToDate; [atualizado em 18 Maio 2020, citado em 14 Out 2020].  Disponível em: https://www.uptodate.com/contents/clinical-features-and-diagnosis-of-lower-extremity-peripheral-artery-disease
  4.     Lima VLAN, Carvalho DV, Lima MP, Borges EL. Úlcera Arterial. In: Borges EL, editor. Úlceras dos membros inferiores. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan; 2012. Cap 11, p. 109–17.
  5.     Bonkemeyer Millan S, Gan R, Townsend PE. Venous ulcers: diagnosis and treatment. Am Fam Physician. 2019 Sep 1;100(5):298–305.

Como citar: Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Programa de Pós-Graduação em Epidemiologia. TelessaúdeRS (TelessaúdeRS-UFRGS). Como diferenciar a etiologia das úlceras crônicas dos membros inferiores? Porto Alegre: TelessaúdeRS-UFRGS; Out 2020 [citado em “dia, mês abreviado e ano”]. Disponível em: https://www.ufrgs.br/telessauders/perguntas/como-diferenciar-etiologia-das-ulceras-cronicas-dos-membros-inferiores/

Teleconsultoria por:

Luíza Emília Bezerra Medeiros

Médica de Família e Comunidade

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Revisão por:

Laura Ferraz dos Santos

Enfermeira

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