Como manejar a constipação intestinal em adultos na Atenção Primária à Saúde?

23/08/2019

Orientar uma dieta rica em fibras associada à ingestão hídrica adequada é a recomendação de manejo inicial para os pacientes com constipação. Deve-se orientar o aumento do uso de alimentos com efeito laxante e a redução daqueles que têm efeito constipante.

Alimentos sugeridos para manejo da constipação:

  • Preferir alimentos laxantes: abacaxi, ameixa, maçã com casca, mamão, manga, melancia, cajá, umbu, acerola, cacau, aveia, farelo de trigo, milho, laranja com bagaço, feijão, lentilha, soja, grão-de-bico, semente de linhaça, abóbora, abobrinha, verduras cruas, arroz integral, pão integral, vagem, pepino, figo, folhas (alface, agrião, rúcula).
  • Diminuir a quantidade de alimentos constipantes: farinhas refinadas presentes no macarrão, pão branco, arroz branco, biscoitos refinados, bolachas, bem como batata, mandioca, tapioca, batata doce, mandioquinha, cuscuz, além de alimentos industrializados em geral (ultraprocessados).

Deve-se orientar quanto ao hábito intestinal durante a consulta, explicar sobre o reflexo gastrocólico, que causa vontade de evacuar mais frequente após as refeições, sobretudo após café-da-manhã e almoço, e que por isso é importante perceber esse reflexo e, sempre que possível, não inibir a vontade evacuatória.

A ingestão de fibras deve ser idealmente entre 19 e 38 g por dia, variando conforme sexo e faixa etária. Os alimentos ricos em fibras devem ser incluídos na dieta (ver tabelas 1 e 2).
 
Tabela 1: Quantidade indicada de ingesta de fibras conforme faixa-etária.

Estágio da vida Ingesta adequada, em gramas, por dia

Homens Mulheres
1-3 anos 19 19
4-8 anos 25 25
9-13 anos 31 26
14-18 anos 38 26
19-50 anos 38 25
51 anos 30 21
Gestantes 28
Lactantes 29

Fonte: Adaptado de Padovani (2006).
 
Tabela 2: Quantidade de fibras contida em alimentos de consumo comum.

Alimento Quantidade, em gramas, de fibra a cada 100 g de alimento Alimento Quantidade, em gramas, de fibra a cada 100 g de alimento
Pipoca estourada 14,3 Arroz integral cozido 2,7
Aveia em flocos 9,1 Abóbora cabotiá cozida 2,5
Feijão cozido 8,4 Espinafre cozido 2,5
Lentilha cozida 7,9 Couve-flor cozida 2,1
Amendoim 7,8 Banana 2
Pão integral 6,9 Repolho cru 2
Abacate 6,3 Beterraba cozida 1,9
Couve verde refogada 5,7 Mamão 1,8
Ervilha enlatada 5,1 Abobrinha cozida 1,6
Milho 4,6 Pêssego com casca 1,4
Ameixa seca 4,5 Maçã 1,3
Laranja 4 Tomate 1,2
Brócolis cozido 3,4 Pepino com casca 1,1
Cenoura crua 3,2 Alface 1
Pera 3 Suco de laranja 0,4

Fonte: Adaptado da Tabela Brasileira de Composição de Alimentos (2011).
 
Além de modificações na alimentação, a suplementação de fibras pode ser feita com:

  • aveia, farelo de trigo, farinha de linhaça (2 a 4 colheres de sopa dissolvidos em água, suco ou iogurte);
  • agentes formadores de bolo fecal como psyllium e metilcelulose (1 a 2 colheres de sopa ao dia), havendo uma série de apresentações comerciais disponíveis.

Pacientes que não respondem às medidas acima ou que não toleram o uso de fibras podem se beneficiar do uso de laxativos osmóticos (lactulose, leite de magnésia ou polietilenoglicol [PEG]). Sugestões de uso:

  • Leite de magnésia: 2 a 4 colheres de sopa, divididas em 1 a 3 vezes ao dia, em horários distantes das refeições principais;
  • Lactulose: 15 a 30 mL ao dia, pela manhã ou à noite;
  • PEG (macrogol) – Muvinlax®ou PegLax®: 1 a 2 sachês ao dia.

Deve-se também atentar para o uso de medicações ou condições clínicas associadas à constipação secundária (ver quadro 1). Se identificadas, deve-se manejar a doença de base e/ou buscar alternativa de tratamento às medicações constipantes, sempre que for possível.
 
Quadro 1: Causas secundárias de constipação

Medicamentos Anticolinérgicos, antidepressivos, anti-histamínicos, anticonvulsivantes, bloqueadores do canal de cálcio, clonidina, diuréticos, ferro, anti-inflamatórios, opioides.
Condições clínicas Hipotireoidismo, hipercalcemia, hiperparatireoidismo,diabetes, doença de Parkinson, esclerose múltipla, depressão, ansiedade, distúrbios anorretais, câncer de cólon.

Fonte: Duncan (2013).
 
 
Referências

  1. Duncan BB, Schmidt MI, Giugliani ERJ, organizadores. Medicina ambulatorial: condutas de atenção primária baseadas em evidências. 4. ed. Porto Alegre: Artmed; 2013.
  2. Wald A. Management of chronic constipation in adults [Internet]. Waltham (MA): UpToDate Inc.; 2019 [citado em 2019 ago 15]. Disponível mediante login e senha em: <https://www.uptodate.com/contents/management-of-chronic-constipation-in-adults>.
  3. Dynamed. Record No. T116186, Constipation in Adults [Internet]. Ipswich (MA): EBSCO Information Services; 2018 [atualizado em 2018 dez 03, citado em 2019 ago 15]. Disponível mediante login e senha em: <https://www.dynamed.com/condition/constipation-in-adults#GUID-2166A07C-1769-41E8-A120-8B0585F983C2>.
  4. TelessaúdeRS-UFRGS. Telecondutas: Fissura anal [Internet]. Porto Alegre: TelessaúdeRS-UFRGS; 2017 [acesso em 15 agosto 2019]. Disponível em: <https://www.ufrgs.br/telessauders/documentos/telecondutas/tc_fissura_anal.pdf>
  5. TelessaúdeRS-UFRGS. Telecondutas: Hemorroidas. Porto Alegre: TelessaúdeRS-UFRGS; 2018 [acesso em 15 agosto 2019]. Disponível em: <https://www.ufrgs.br/telessauders/documentos/telecondutas/tc_hemorroidas.pdf>
  6. Núcleo de Estudos e Pesquisas em Alimentação, Universidade Estadual de Campinas. Tabela Brasileira de Composição de Alimentos – TACO. 4ª ed. Campinas: NEPAUNICAMP; 2011.
  7. Padovani RM, Amaya-Farfán J, Colugnati FAB, Domene SMA. Dietary reference intakes: aplicabilidade das tabelas em estudos nutricionais. Rev. Nutr. [Internet]. 2006 [citado em 2019 Ago 15];19(6):741-760. Disponível em: <http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S141552732006000600010&lng=en>.
  8. Institute of Medicine. Dietary reference intakes for energy, carbohydrate, fiber, fat, fatty acids, cholesterol, protein, and amino acids. Washington (DC): National Academy Press; 2005.
  9. Brasil. Ministério da Saúde. Guia alimentar para a população brasileira. 2. ed. Brasília: Ministério da Saúde; 2014.

 

Teleconsultoria por:

Jerônimo de Conto Oliveira

Gastroenterologista

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Gabriela Monteiro Grendene

Nutricionista

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Revisão por:

Elise Botteselle de Oliveira

Médica de Família e Comunidade

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