Como realizar avaliação e manejo inicial do paciente com comportamento suicida na APS?

19/09/2019

A avaliação é feita por meio da estratificação por fatores de risco. Entre os principais fatores de risco estão a tentativa prévia (principalmente no último mês) e a presença de transtorno psiquiátrico. Outros fatores são: história passada de ideação e comportamento suicida, história familiar de suicídio, desesperança e falta de visão de futuro, desamparo e falta de sensação de controle, sentimento de inutilidade, presença de estressores de vida atuais (conflitos no trabalho, em casa, incapacidade de lidar com situações adversas), história de heteroagressividade, dor crônica, outras doenças crônicas (como por exemplo, HIV, hepatite C, trauma cranioencefálico e), bem como mostrar-se desconectado e sem empatia durante a entrevista.

Deve-se determinar a presença de ideação suicida (pensamentos), inclusive o conteúdo e duração (importante saber se os pensamentos suicidas são ativos: “eu quero me matar” ou passivos: “eu queria estar morto”), questionar se os pensamentos são novos ou antigos, o que mudou (intensidade, frequência), se consegue controlar esses pensamentos e como faz isso, as expectativas sobre a morte, se há o pensamento de punir alguém, se há intenção de acabar com uma situação psicológica ou física e se há pensamentos de ferir outra pessoa antes de si mesmo.

O manejo inicial dependerá da avaliação dos riscos (conforme fluxograma 1). O acompanhamento pode ser ambulatorial ou hospitalar. No acompanhamento ambulatorial deve-se:

  • incluir familiares ou pessoas próximas para monitoração regular até estabilização;
  • fornecer acesso a suporte clínico quando o paciente necessitar;
  • instruir familiares sobre necessidade de procurar a emergência nos casos de descompensação;
  • restringir o acesso a meios letais (armas e medicações);
  • informar ao paciente sobre esforço em ajudar e agendamento de consultas para que o usuário se sinta conectado e com suporte;
  • identificar e evitar gatilhos para a ideação suicida;
  • educar o usuário e os cuidadores sobre o risco do efeito desinibidor do álcool e de algumas substâncias;
  • traçar estratégias para lidar e orientar atividades saudáveis para manejar ou distrair o usuário quando houver pensamentos suicidas;
  • tratar os transtornos psiquiátricos presentes.

Fluxograma 1: Avaliação do risco de suicídio e manejo inicial.

Fonte: Adaptado de  Rio Grande do Sul (2019).

Entre as estratégias para lidar com os pensamentos e comportamentos suicidas, pode-se elaborar com o usuário um plano de segurança que deverá ser seguido nesses momentos críticos e de angústia. O quadro 1 mostra um exemplo de plano de segurança.

Quadro 1: Plano de segurança contra o suicídio.

Plano de Segurança Contra o Suicídio
Instrução:

Se você tiver ideias de se machucar, comece pelo passo 1. Siga cada passo até que você esteja seguro.

Lembre-se:

1. Pensamentos suicidas podem ser muito fortes e pode parecer que durarão para sempre.
2. Com ajuda e tempo esses pensamentos sempre passam.
3. Quando eles passarem você poderá investir energia para solucionar os problemas que contribuíram para que você se sentisse tão mal.
4. A desesperança que você sente nesse momento não durará para sempre.
5. É importante que você alcance ajuda e suporte.
6. você pode superar este momento difícil.
Como pode ser difícil ter foco e pensar claramente quando você tem pensamentos suicidas, por favor, faça cópias desse plano e coloque em lugares que você possa facilmente encontrar, como sua bolsa, carteira ou ao lado do telefone.

1. Fazer as seguintes atividades para me acalmar/confortar 1.
2.
3.
2. Lembrar das minhas razões para viver 1.
2.
3.
3. Telefonar para um amigo ou membro da família Nome:
Telefone:
4. Telefonar para outra pessoa que possa me ajudar caso eu não encontre a de cima Nome:
Telefone:
5. Telefonar para o meu psicólogo/psiquiatra Nome:
Telefone:
6. Ligar para o Centro de Valorização da Vida (CVV) Telefone: 188
7. Ir a um lugar onde eu esteja seguro 1.
2.
3.

Fonte: Adaptado de UpToDate (2019).

Outros pontos importantes no manejo inicial incluem tratamento medicamentoso de acordo com condição psiquiátrica associada, psicoterapia, possibilidade de eletroconvulsoterapia (para casos refratários e mais graves) e informações relevantes sobre intervenções adicionais para o usuário, como por exemplo, a possibilidade de telefonar para o Centro de Valorização da Vida (188).

Baixe aqui o aplicativo ADDS – Apoio ao Diagnóstico de Depressão e na definição de risco de suicídio. O app visa auxiliar no diagnóstico de depressão e na definição de Risco de Suicídio.

Referências:

  1. Organização Panamericana de Saúde. Determinantes Sociais e Riscos para a Saúde, Doenças Crônicas Não Transmissíveis e Saúde Mental. Folha informativa: Suicídio [Internet]. Brasília: OPAS; 2018. Disponível em: <https://www.paho.org/bra/index.php?option=com_content&view=article&id=5671:folha-informativa-suicidio&Itemid=839>.
  2. Rio de Janeiro. Prefeitura da Cidade do Rio de Janeiro. Secretaria Municipal de Saúde. Avaliação do Risco de Suicídio e sua Prevenção. Rio de Janeiro: Rio de Janeiro; 2016. Disponível em: <https://subpav.org/download/prot/Guia_Suicidio.pdf>.
  3. Organização Mundial da Saúde. Departamento de Saúde Mental e de Abuso de Substâncias. Prevenção do suicídio: Um recurso para conselheiros. Genebra: OMS; 2006. Disponível em: <https://www.who.int/mental_health/media/counsellors_portuguese.pdf>.
  4. Schreiber J, Culpepper L. Suicidal ideation and behavior in adults. Waltham (MA): UpToDate, Inc.; 2019 [citado em 2019 Set]. Disponível em: <https://www.uptodate.com/contents/suicidal-ideation-and-behavior-in-adults>.
  5. Cordioli AV, Galois CB, Isolan L, organizadores. Psicofármacos: consulta rápida. 5ª ed. Porto Alegre: Artmed; 2015.
  6. Rio Grande do Sul. Comitê Estadual de Promoção da Vida e Prevenção do Suicídio do Estado do Rio Grande do Sul. Comissão da Criança e do/a Adolescente. Guia intersetorial de prevenção do comportamento suicida em crianças e adolescentes. Porto Alegre; 2019. Disponível em: <https://saude.rs.gov.br/upload/arquivos/carga20190837/26173730-guia-intersetorial-de-prevencao-do-comportamento-suicida-em-criancas-e-adolescentes-2019.pdf>.

Teleconsultoria por:

Saulo Batinga Cardoso

Médico Psiquiatra

ver Lattes

Revisão por:

Ligia Marroni Burigo

Médica de Família e Comunidade

ver Lattes

Outras Perguntas

Como iniciar o tratamento farmacológico de Transtorno Obsessivo Compulsivo na Atenção Primária?

7 min leitura ler mais

Quais são as recomendações para tratamento de hipotireoidismo subclínico na gestação?

10 min leitura ler mais

Quais são os critérios para considerarmos um tratamento adequado de sífilis em gestante?

12 min leitura ler mais

Como realizar avaliação e manejo inicial do paciente com comportamento suicida na APS?

10 min leitura ler mais

Quais são as indicações de punção lombar na investigação de sífilis?

3 min leitura ler mais