Como realizar o diagnóstico e a avaliação complementar de doença de Chagas crônica?

O diagnóstico na fase crônica é essencialmente sorológico, visto que a parasitemia é muito baixa nessa fase da doença. Para definição diagnóstica de doença de Chagas na fase crônica há necessidade de dois testes sorológicos positivos – anticorpo IgG – por técnicas ou antígenos diferentes, pois nenhum dos testes possui acurácia suficiente para ser utilizado isoladamente no diagnóstico. Os testes mais utilizados são o imunoenzimático – ELISA, a imunofluorescência indireta – IFI e a hemaglutinação – HAI. Os testes de quimioluminescência (CLIA) e o Western Blot (WB) também são testes sorológicos disponíveis, entretanto possuem custos elevados e não são recomendados rotineiramente como testes iniciais.

Quando dois testes sorológicos são positivos por métodos diferentes, o diagnóstico está confirmado. Quando dois testes são negativos, o diagnóstico está excluído. Se os testes forem inconclusivos ou discordantes, sugere-se realizar avaliação complementar, com um terceiro teste com metodologia diferente dos primeiros realizados (preferencialmente Western Blot – WB), ou repetindo testes realizados na investigação inicial, caso outros exames sorológicos não estiverem disponíveis. Se o resultado da repetição de exames persistir incongruente ou inconclusivo, sugere-se encaminhar para laboratório de referência.

Os testes rápidos mostram-se promissores na avaliação diagnóstica, tendo uso especialmente em áreas remotas, com carência de infra-estrutura laboratorial e dificuldades de acesso. São úteis principalmente para descartar a doença quando resultado é negativo, por terem alta sensibilidade; em caso de resultado positivo, é indicada a realização de teste sorológico para confirmar o diagnóstico.

Avaliação complementar

Após a confirmação diagnóstica sorológica da doença de Chagas crônica, deve-se realizar a anamnese criteriosa e exame físico completo, focando em possíveis sintomas sugestivos de doença cardíaca (arritmia, insuficiência cardíaca, tromboembolismo) e doença gastrointestinal (disfagia, regurgitação, constipação, dor e distensão abdominal). É recomendado solicitar eletrocardiograma em repouso (ECG) e raio-x de tórax.  A necessidade de realização de outros exames complementares na avaliação inicial de paciente assintomático é controversa na literatura. Sugere-se prosseguir a investigação conforme o resultado de achados em exame clínico e ECG:

  • Pacientes sintomáticos ou assintomáticos com alterações em ECG devem realizar ecocardiografia e Holter. Pode ser considerado teste de esforço/ergometria, caso Holter indisponível.
  • Pacientes com sintomas gastrointestinais altos (disfagia, odinofagia, regurgitação, dor torácica) devem ser submetidos a raio-x contrastado de esôfago. Nos pacientes com disfagia persistente, há indicação de realização de endoscopia e manometria esofágica. 
  • Pacientes com constipação, devem ser avaliados com raio-x de cólon contrastado (enema opaco). Se esse exame não estiver disponível, pode-se solicitar raio-x simples de abdômen.

Pacientes assintomáticos e sem alteração eletrocardiográfica ou radiológica são considerados portadores da forma crônica indeterminada, a forma clínica mais prevalente da doença. No seguimento destes pacientes, sugere-se repetir ECG de repouso anualmente e reavaliar surgimento de sintomas cardíacos ou digestivos.

 

Referências:

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Teleconsultoria por:

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Revisão por:

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