Como realizar o teste de sensibilidade na suspeita de hanseníase?

Na suspeita de hanseníase, devemos iniciar o teste de sensibilidade pela sensibilidade térmica por ser a mais precocemente alterada. Posteriormente, caso o teste seja normal ou caso haja dúvida diagnóstica, podem ser testadas as sensibilidades dolorosa e tátil. Essas últimas são acometidas apenas em um estágio mais avançado da doença [1].

Para proceder ao teste de sensibilidade térmica, deve-se:

  • Estar em ambiente tranqüilo e confortável, com o mínimo de interferência externa [1]. 
  • Utilizar preferencialmente dois tubos de ensaio de vidro: um com água quente (máximo de 45°C para não queimar o paciente e desencadear sensibilidade dolorosa) e outro com água fria [2]. 

Caso não estejam disponíveis os tubos de ensaio, pode-se utilizar um algodão umedecido em éter ou álcool para simular a sensação de “frio” e um algodão seco para simular a sensação de “quente” [2,4]. 

Com o paciente de olhos abertos, deve-se tocar inicialmente áreas de pele sem lesões alternadamente com os tubos de ensaio e mostrar ao paciente as diferentes temperaturas. A seguir, com o paciente de olhos fechados, repetir o mesmo procedimento também em áreas não acometidas e questionar quando o paciente sente o quente e quando sente o frio, assim  se certifica que o paciente compreendeu o teste [2,3].

Em seguida, com o paciente de olhos fechados, realizar o mesmo teste nas áreas da pele que apresentam lesões suspeitas. Sempre comparar a sensibilidade da lesão com a área de pele contralateral sem lesão ou com as áreas poupadas ao redor da lesão. Se houver diferença na percepção da temperatura nas lesões (hipo ou anestesia) circundada por áreas periféricas de sensibilidade normal (normoestesia) é sinal de alteração da sensibilidade térmica, confirmando o diagnóstico. Nesses casos não é necessário realizar os testes de sensibilidade dolorosa e tátil [2,5]. 

A hipostestesia, quando o paciente sente “menos frio ou menos quente” quando comparado à pele circunvizinha ou em relação à área contralateral correspondente, já é suficiente para o teste ser considerado alterado, sendo indicador de hanseníase [2].

Caso o teste de sensibilidade térmica seja normal, se os materiais não estiverem disponíveis ou caso o teste seja duvidoso, deve-se prosseguir para o teste de sensibilidade dolorosa: 

Com auxílio de agulha de insulina estéril, deve-se tocar a lesão de maneira alternada com a ponta e o cabo da agulha (parte plástica) , sendo que o paciente deve ser capaz de identificar adequadamente qual parte está em contato com a sua pele. Outra maneira de realizar o teste é encostar a ponta da agulha nas lesões, com leve pressão, tendo cuidado para não perfurar a pele do paciente. Deve-se  alternar a área interna e externa à lesão, observando a expressão facial e queixa de respostas à picada. Certificar-se de que a sensibilidade sentida é de dor, pela manifestação de dor (expressão ou vocalização de dor) ou pela retirada imediata da região estimulada pela agulha. A anestesia ou hipoestesia dentro da área da lesão confirma o diagnóstico [2,5,6].

Embora a sensibilidade tátil seja frequentemente a última a ser perdida, deve-se buscar as diferenças de sensibilidade sobre a área a ser examinada e a pele normal circunvizinha. O teste  é realizado com uma fina mecha de algodão seco, fio dental ou monofilamento verde (0,05g), solicitando que o paciente identifique a área testada (lesão x área perilesional) [2]. 

 

Exame em crianças:

Ao avaliar uma criança, sempre realizar o teste de sensibilidade no colo da mãe, pai ou responsável. Sempre que a idade da criança permitir, deve-se tentar avaliar a sensibilidade térmica. Tranquilizar a criança, demonstrar o teste de sensibilidade térmica em você mesmo, no responsável e, somente depois, realizar o teste na criança. Pedir para o responsável tapar os olhos da criança, e, de forma lúdica, perguntar o que ela sente. Se a resposta for confiável e a criança não perceber a diferença, confirma-se o diagnóstico [2]. Se persistir a dúvida sobre o diagnóstico pode-se testar a sensibilidade dolorosa da seguinte maneira:

  • Não mostrar a agulha para a criança. 
  • Pedir para o responsável tapar os olhos da criança.
  • Encostar a ponta da agulha de insulina nas lesões de pele com uma leve pressão, tendo o cuidado de não perfurar a pele da criança, nem provocar sangramento. Perguntar de forma lúdica o que ela sente. Se não houver resposta de retirada ou expressão de dor, há perda de sensibilidade, e o teste é considerado alterado [2].

O diagnóstico da hanseníase é essencialmente clínico, sendo que uma lesão clínica suspeita com alteração de sensibilidade local já é suficiente para se fazer o diagnóstico. Não são necessários exames laboratoriais complementares na grande maioria dos casos [1].

Referências: 

  1. Ministério da Saúde (Brasil). Secretaria de Atenção à Saúde. Departamento de Atenção Básica. Vigilância em Saúde: dengue, esquistossomose, hanseníase, malária, tracoma e tuberculose. 2a ed. rev. Brasília, DF: Ministério da Saúde; 2008 [citado em 25 Set 2020]. Série A. Normas e Manuais Técnicos, Cadernos de Atenção Básica, n. 21. Disponível em: http://189.28.128.100/dab/docs/publicacoes/cadernos_ab/abcad21.pdf
  2. Ministério da Saúde (Brasil). Secretaria de Vigilância em Saúde. Departamento de Vigilância das Doenças Transmissíveis. Guia prático sobre a hanseníase. Brasília, DF: Ministério da Saúde; 2017 [citado em 25 Set 2020]. Disponível em: http://portalarquivos2.saude.gov.br/images/pdf/2017/novembro/22/Guia-Pratico-de-Hanseniase-WEB.pdf
  3. Secretaria Municipal de Saúde (Rio de Janeiro). Subsecretaria de Atenção Primária, Vigilância e Promoção da Saúde. Superintendência de Atenção Primária. Hanseníase: manejo diagnóstico e terapêutico. Rio de Janeiro: Secretaria Municipal de Saúde do Rio de Janeiro; 2018 [citado em 25 Set 2020]. Série F. Comunicação e Educação em Saúde, Coleção Guia de Referência Rápida, n. 15. Disponível em: http://sbdrj.org.br/wp-content/uploads/2018/06/GuiadeHanseniaseDiagnostico.pdf
  4. Penna G, Grossi MAF. Hanseníase. In: Duncan BB, Schmidt MI, Giugliani ERJ, organizadores. Medicina ambulatorial: condutas de atenção primária baseadas em evidências. 4a ed. Porto Alegre: Artmed; 2013.
  5. Ministério da Saúde (Brasil). Secretaria de Políticas de Saúde. Departamento de      Atenção Básica. Guia para o Controle da hanseníase. Brasília, DF: Ministério da Saúde; 2002 [citado em 25 Set 2020]. Série A. Normas e Manuais Técnicos; n. 111. Disponível em: https://bvsms.saude.gov.br/bvs/publicacoes/guia_de_hanseniase.pdf
  6. Ministério da Saúde (Brasil). Secretaria de Vigilância em Saúde. Departamento de Vigilância Epidemiológica. Manual de Prevenção de Incapacidades. Brasília, DF: Ministério da Saúde; 2008. Série A. Normas e Manuais Técnicos, Cadernos de prevenção e reabilitação em hanseníase, n. 1. Disponível em: http://bvsms.saude.gov.br/bvs/publicacoes/manual_prevencao_incapacidades.pdf

Como citar este documento:
Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Programa de Pós-Graduação em Epidemiologia. TelessaúdeRS (TelessaúdeRS-UFRGS). Como realizar o teste de sensibilidade na suspeita de hanseníase? Porto Alegre; Set 2020 [citado em “dia, mês abreviado e ano”]. Disponível em: https://www.ufrgs.br/telessauders/perguntas/como-realizar-o-teste-de-sensibilidade-na-suspeita-de-hanseniase/.

Teleconsultoria por:

Letícia Gaertner Mariani

Dermatologista

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Revisão por:

Kelli Wagner Gomes

Dermatologista

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