Quais as causas e como tratar a conjuntivite neonatal?
 

13/10/2016

A conjuntivite neonatal é definida como inflamação conjuntival no primeiro mês de vida. Cursa com graus variáveis de hiperemia conjuntival, secreção ocular e edema palpebral. O diagnóstico diferencial inclui conjuntivite química, conjuntivite adquirida no canal de parto, conjuntivite bacteriana aguda e obstrução congênita de vias lacrimais.

  1. A conjuntivite química é causada pelo nitrato de prata, instilado nos olhos de recém-nascidos como profilaxia contra gonococo. O quadro é leve, bilateral, inicia até o segundo dia de vida e resolve espontaneamente em 3 a 4 dias. Não necessita tratamento.
  2. A conjuntivite adquirida no canal de parto pode ser causada por gonococo, clamídia ou, menos frequente, por herpes simples. Ocorre em neonatos nascidos por parto vaginal. Podem estar relacionadas a complicações oculares e sistêmicas graves.

2.a. A conjuntivite gonocócica inicia na primeira semana de vida (1 a 7 dias; excepcionalmente mais tardiamente, até 21 dias). A conjuntivite é bilateral, tem instalação hiperaguda e é severa, com edema palpebral importante e secreção purulenta abundante. Se não tratada, pode evoluir para úlcera de córnea, perfuração ocular e cegueira. Há necessidade de internação se suspeita de artrite, meningite ou sepse.

2.b. A conjuntivite clamidiana inicia geralmente na segunda ou terceira semanas de vida (5 a 19 dias). Pode ser uni ou bilateral. A secreção ocular pode ser purulenta, mucopurulenta, membranosa e/ou hemática, e persiste por até 12 meses se não tratada. Pneumonite, rinite e otite podem estar associadas.

2.c. A conjuntivite herpética inicia até a segunda semana de vida, está associada à lesões vesiculares na pele e possivelmente à encefalite. A doença herpética em recém-nascido requer internação hospitalar.

  1. A conjuntivite bacteriana aguda pode ser uni ou bilateral, apresenta secreção mucopurulenta leve a moderada, geralmente inicia no final da primeira semana de vida, mas pode ocorrer em qualquer período neonatal. O agente mais frequente é o estafilococo. É autolimitada, com resolução em até 7 dias.
  2. A obstrução congênita de via lacrimal ocorre unilateralmente e cursa com lacrimejamento ocular persistente nos primeiros meses de vida. A conjuntivite bacteriana aguda ipsilateral é uma complicação frequente da obstrução e pode ser recorrente. Como o recém nascido tem menor produção de lágrima, as conjuntivites associadas à obstrução de via lacrimal tendem a ocorrer após o período neonatal.

Em todos os casos de suspeita de conjuntivite infecciosa em neonatos, a conduta é coletar material (raspado conjuntival com swab) para bacterioscopia e cultura. Na indisponibilidade de realizar coleta ou de encaminhar para serviço de referência, recomenda-se realizar tratamento empírico conforme características da conjuntivite e período de incubação.

Na suspeita de conjuntivite bacteriana aguda, tratar com antibiótico tópico de amplo espectro (cloranfenicol colírio 0,4% ou tobramicina colírio 0,3%, 4 em 4 horas, por 5 a 7 dias). Na suspeita de conjuntivite gonocócica ou clamidiana, tratar com antibioticoterapia sistêmica conforme o início do quadro.

  • Início entre o segundo e quarto dia de vida: realizar tratamento para gonococo.
  • Início entre o quinto e vigésimo primeiro dias de vida: realizar tratamento para gonococo e clamídia.
  • Início a partir do vigésimo segundo dia de vida: realizar tratamento para clamídia.

 

Gonococo Ceftriaxone 25-50 mg/kg (máximo de 125 mg),  intravenoso ou intramuscular, em dose única
Clamídia Eritromicina 50 mg/kg/dia, via oral, dividida em 4 doses, por 14 dias

Está associada com aumento de risco de estenose hipertrófica de piloro.

 

Recomenda-se tratar também à mãe e ao parceiro para infecção por gonococo e clamídia (Ceftriaxone 250mg, intramuscular, em dose única e Azitromicina 1 g, via oral, em dose única), além de se realizar o exame genital e sorologias para sífilis, HIV e hepatites B e C, após aconselhamento.

Referências:

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